Apoie

LiteraturaColuna, Entrevista

NOTAS DE ESCURECIMENTO POR ESCRITO – MARCELO ARIEL

Estão ali, juntamos um pouco de papelão também e umas garrafas vazias lá nos fundos

Por
· 6 min de leitura

NOTAS DE ESCURECIMENTO POR ESCRITO – MARCELO ARIEL
Foto: Acervo Portal Afro

NOTAS DE ESCURECIMENTO POR ESCRITO

Série de questões enviadas para escritoras negras e escritores pretos que gentilmente responderam

Escritor de hoje: MARCELO ARIEL

Parte desse silêncio

“ Hoje estão consternados pelo silêncio do mundo naqueles dias. Amanhã farão parte desse silêncio”
Piotr Cywicz, diretor do Museu de Auschwitz

Parte desse silêncio em Ruanda

dissimulado pela prática comum do alheamento

Onde estão as latinhas, ele pergunta

Estão ali, juntamos um pouco de papelão também e umas garrafas vazias lá nos fundos

Parte desse silêncio na Síria

O choro nítido de alguém já morto

Uma vez mais a imagem me olha

O inconcebível

Baratas saindo de dentro dos corpos

pela boca, pelos olhos

por um instante somente os suicidas vivem

com um motivo

com uma chuva infinita

de bombas chamada

‘ Sua mãe ‘

Parte desse silêncio na Palestina

uma pomba voando

com um buraco de bala na asa

querubins em pedaços

nas ruínas de um berçário

O poema segue

flutuando na avenida

na perspectiva da desaparição

Parte desse silêncio

Na Aldeia do Mato Grosso

A memória não pode alcançar

O infinito que é seu principio

O ossário de raízes e flores

desconhecidas

uma trincheira rasa

no sorriso

o céu cedendo

enquanto o mar sobe

Parte desse silêncio

procurando outros

formando um grande Sol

visível apenas para os mortos – De Poemas dispersos.

CONVERSAS

NOTAS DE ESCURECIMENTO: Por gentileza, se apresente:

MARCELO ARIEL: Meu cavalo atende por Marcelo Ariel, sou o Exu Príncipe da Luz.

Como escreveu outro Exu chamado Nietzsche é necessário superar a si mesmo

e isso implica em assumir-se enquanto o meio de expressão da alteridade imanente ,

a denominação como humano é uma grande vacuidade, somos entidades animais e sobrenaturais. O humano é apenas o fantasma de um conceito.

********

NOTAS DE ESCURECIMENTO: Quando se descobriu negro?

MARCELO ARIEL: Antes de nascer, eu era a matéria escura. Após meu primeiro nascimento sou a floresta encoberta. Continuar a nascer é a demanda de realização de um Uroboro, onde o mundo toca em si mesmo e depois dissolve-se em si mesmo.

********

NOTAS DE ESCURECIMENTO: Como é você leitor?

MARCELO ARIEL: Leio tudo. O mundo precisa ser lido, pensado e ao mesmo tempo vivido, obviamente não existe nenhuma dicotomia entre a parte de nós que observa e a parte que age. Tudo é o livro dos sonhos. O que significa que não faço nenhuma distinção entre o livro e o não-livro.

********

NOTAS DE ESCURECIMENTO: Quais suas negras influências?

MARCELO ARIEL: Exus como John Coltrane, pombas giras como Elza Soares e Billie Holiday, o Preto Velho Machado de Assis e também a parte negra de Homero, a parte egípcia de Jesus.

********

NOTAS DE ESCURECIMENTO: Inspiração ou transpiração?

MARCELO ARIEL: Tudo é ação, tudo é mundificação, jamais escrevi coisa alguma, quem escreve é o mundo.

********

NOTAS DE ESCURECIMENTO: Para quem você escreve?

MARCELO ARIEL:  Para Ninguém, existe uma força que move a história chamada Força-Ninguém, escrevo para poder despertar a anti-força.

********

NOTAS DE ESCURECIMENTO: Quais são os seus principais temas?

MARCELO ARIEL: Perdão pela frase de efeito, para mim, todos os temas são periféricos em relação ao resplandecente centro de um grande silêncio. Talvez o tema de todos os meus poemas seja o mundo como um duplo.

********

NOTAS DE ESCURECIMENTO: Como é o seu processo de escrita?

MARCELO ARIEL: Não sei, apenas sinto. Sentir e lapidar o que vem do fluxo das infinitas variações.

********

NOTAS DE ESCURECIMENTO: Como são ou foram as suas relações com ancestrais?

MARCELO ARIEL: Eu sou a vela que foi acesa para eles e também a fumaça que sairá da vela. Gosto muito de uma frase que ouvi do Preto velho Cuti Ancestral é quem te passa sabedoria, se não te passa sabedoria, não é ancestral.

********

NOTAS DE ESCURECIMENTO: Qual foi o seu primeiro e decisivo ato literário?

MARCELO ARIEL: Continuar a nascer através das palavras e não o contrário.

********

NOTAS DE ESCURECIMENTO: Tem um narrador ou eu lírico que sempre utiliza em sua literatura?

MARCELO ARIEL: O eu lírico jamais será um narrador confiável porque não existe de fato, o corpo é uma polifonia, no fundo escrevemos com o inconsciente e com o supraconsciente e lemos em estado de pré-sonho acordad, um dia escreveremos com o corpo, o pensamento do corpo inteiro, nesse dia descobriremos as vozes interiores do mundo.

********

NOTAS DE ESCURECIMENTO: Como os seus mais novos estão nos seus escritos?

MARCELO ARIEL: Não sei o que pode significar essa pergunta, se por mais novos podemos entender as várias entidades iluminadas do antes, os meus mais novos estão presentes em tudo o que foi escrito.

********

NOTAS DE ESCURECIMENTO: Como foi e é, para você, a publicação do Livro?

MARCELO ARIEL: Um falso triunfo, os que escrevem neste país recebem um simplório capital social e obviamente merecem bem mais do que isso.

********

NOTAS DE ESCURECIMENTO: Como é ser um escritor negro no Brasil?

MARCELO ARIEL: A difícil e necessária opção por seguir o indício de sinais que levarão a uma sublimação em detrimento da topologia cotidiana de um trauma coletivo.

********

NOTAS DE ESCURECIMENTO: Para que você escreve?

MARCELO ARIEL: Há mais um Contra o que do que um Para. Escrevo contra o instituído.

********

NOTAS DE ESCURECIMENTO: O que também se faz palavras em seus escritos?

MARCELO ARIEL: O Sonho , a fúria. Ainda estou longe de captar fielmente a voz das coisas, a voz desse instante que canta os órgãos sem eu.

********

NOTAS DE ESCURECIMENTO: Qual a função social da sua literatura?

MARCELO ARIEL: Destruir as noções do imutável.

********

NOTAS DE ESCURECIMENTO: Sendo possível, conte-nos cinco (5) livros da Literatura Negro-Brasileira que você avalia serem importantes

MARCELO ARIEL: É uma redução de algo imenso a uma lista, contudo temos essa doença das listas …Vamos lá: BROQUÉIS de CRUZ E SOUSA, ÁGUA-FUNDA de RUTH GUIMARÃES, MARROM E AMARELO de PAULO SCOTT, POEMAS REUNIDOS de MIRIAM ALVES e INVENÇÃO DE ORFEU de JORGE DE LIMA.

Matéria do acervo do Portal Afro, publicada originalmente em 21 de dezembro de 2024.

Compartilhe WhatsApp Facebook X

Mais de Plinio Camillo

Todas

Leia também em Literatura

Ver a editoria