Apoie

LiteraturaColuna, Entrevista

NOTAS DE ESCURECIMENTO POR ESCRITO – Clarice Campos

NOTAS DE ESCURECIMENTO POR ESCRITO – Série de questões enviadas para pretas escritoras negras e negros escritores pretos que gentilmente responderam

Por
· 8 min de leitura

NOTAS DE ESCURECIMENTO POR ESCRITO – Clarice Campos
Foto: Acervo Portal Afro

Escritora de hoje: Clarice Campos

Interagindo com Emicida

Pequenas alegrias …

O sol da manhã sobre a minha pele negra

Beijo molhado

Voz sussurrada

A cadência do gingado

Nós desatados

Ouvir os sons da justiça e da liberdade

Café quente e cerveja gelada

O relógio parado no momento exato

Chuveiro com água quente e abundante

Cruzar a linha de chegada (mesmo não sendo o primeiro a chegar)

Cantar (mesmo sem saber cantar)

Ser abrigo

Ter abrigo

CONVERSAS

NOTAS DE ESCURECIMENTO: Por gentileza, se apresente:

CLARICE CAMPOS: Sou Clarice Campos, carioca, mãe da Ariel. Capoeirista, violeira e uma professora apaixonada por histórias. Os livros me acompanham desde criança. Sou doutoranda em Literatura Comparada pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), mestra em Memória e Acervos pela Fundação Casa de Rui Barbosa (FCRB), Especialista em Filosofia pela Universidade Gama Filho (UGF) e em Literatura Infantil e Juvenil e em Literatura Brasileira de autoria Feminina pela Universidade Candido Mendes(UCAM). Atualmente pesquiso as narrativas de escritoras negras brasileiras e atuo como professora convidada em turmas de pós-graduação, ministrando as disciplinas Literatura e Representatividades Negras e Carolina Maria de Jesus: Literatura e Memória. Sou coautora do Educação Literária para crianças plurais, lançado em 2024 pela editora Tróia e participo de algumas antologias de poemas e crônicas, entre elas a celebrada Carolinas – A nova geração de escritoras brasileiras, da editora Bazar do Tempo, resultante do processo formativo da FLUP (Festa Literária das Periferias) em 2020, quando homenageou a escritora Carolina Maria de Jesus.

*******

NOTA DE ESCURECIMENTO: Quando se descobriu negra? Se descobriu**?**

CLARICE CAMPOS: Sou negra de pai e mãe. Sou negra há 60 anos e ainda que quisesse, a sociedade nunca me permitiria esquecer.

*******

NOTA DE ESCURECIMENTO: Como é ou foram as suas relações com os seus pais**?**

CLARICE CAMPOS: Quando eu nasci meus pais já eram separados. Tive um padrasto que foi provedor e minha mãe é a minha referência de sabedoria e de afeto.

*******

NOTA DE ESCURECIMENTO: Como as experiências do cotidiano moldam os temas que você explora em suas obras**?**

**CLARICE CAMPOS:**Eu sou uma mulher negra de sessenta anos e a minha escrita se faz apoiada em situações experimentadas e no preenchimento de espaços vazios com memórias inventadas.

*******

NOTA DE ESCURECIMENTO: Como é você leitora**?**

CLARICE CAMPOS: Eu acompanhava minha mãe nas casas das madames da zona sul da cidade do Rio de Janeiro. Enquanto minha mãe trabalhava, os livros e as histórias eram os meus companheiros. Naquela época, embora o meu repertório de leitura fosse grande, nem do ponto de visto social e nem do ponto de vista racial, eu me via representada na literatura. Atualmente circulam muitas obras que contemplam a diversidade de cores, de origem, de gênero, entre outras, possibilitando que muitas crianças se identifiquem. Sigo acompanhada dos livros e das histórias. Não tenho dias sem leitura de literatura.

*******

NOTA DE ESCURECIMENTO: Como sua identidade como mulher negra influencia sua escrita**?**

CLARICE CAMPOS: Antes mesmo de entrar para a escola eu já sabia ler. Em casa, minha mãe e minhas tias dividiam o tempo entre as panelas, as lavagens de roupas e as histórias que elas liam ou contavam para mim. Eram histórias da cultura popular, narrativas criadas por elas ou fatos acontecidos com familiares, vizinhos e conhecidos. Essas vozes negras e femininas da minha infância me ensinaram a amar a literatura e persistem nos meus escritos.

*******

NOTA DE ESCURECIMENTO: Como é, para você ser uma escritora negra no Brasil**?**

CLARICE CAMPOS: Vivemos em uma sociedade forjada a partir de um grande período de escravização de pessoas negras. Desse modo, os preconceitos e exclusões da sociedade aparecem também na literatura conferindo a apenas alguns grupos o direito de expor suas narrativas. Assim, ser autora e negra, requer a necessidade individual e coletiva de nos mantermos em movimento para o rompimento de barreiras. Ser mulher e negra dentro do mercado editorial vai além do valor de resistência ideológica. Considerando questões como os preconceitos e as constantes lutas por conquista de espaços, as mulheres negras estão sempre envolvidas em ações em prol de seu reconhecimento como produtora de arte e de conhecimento.

*******

NOTA DE ESCURECIMENTO: Como foram, para você, a publicação do seu primeiro livro e dos livros seguintes**?**

CLARICE CAMPOS: Participei de algumas antologias de poemas e crônicas, entre elas a celebrada “Carolinas – A nova geração de escritoras negras brasileiras, da editora Bazar do Tempo, resultado de um processo seletivo e formativo da Flup (Festa literária das periferias) 2020 em homenagem à Carolina Maria de Jesus. Neste ano de 2025 publiquei um livro teórico: Educação literária para crianças plurais, pela Editora Tróia. É uma publicação destinada a educadores da educação infantil . Escrevi sobre as minhas experiências enquanto criança leitora e negra e as possibilidades atuais de trabalho com literatura e representatividade negra. O meu primeiro livro infantil já está pronto e será lançado ainda este ano. Nada é fácil, porém pode ser prazeroso. Desejo que as crianças, mergulhem na literatura, no maravilhamento , na beleza e nos afetos e que se encantem e se identifiquem com as personagens que eu criei.

*******

NOTA DE ESCURECIMENTO: Como você equilibra questões pessoais e sociais em sua obra**?**

CLARICE CAMPOS: Quando eu escrevo nem sempre eu penso exatamente em minhas questões pessoais, mas de alguma maneira, meus textos acabam refletindo as estruturas de uma sociedade marcada pelo racismo e sexismo, onde mecanismos são diariamente alimentados para sustentar uma ideologia de dominação sobre mulheres e sobre pessoas negras.

*******

NOTA DE ESCURECIMENTO: De que maneira você vê a representação de personagens e narrativas negras na Literatura Brasileira atual**?**

CLARICE CAMPOS: O mundo gira em torno da subordinação e dominação de alguns grupos sobre outros baseando-se na raça, classe e gênero. A literatura reflete os apagamentos e os preconceitos existentes na sociedade. Fruto das lutas dos movimentos, das mudanças de paradigmas e até da legislação, atualmente podemos observar alguma luz sobre questões como representatividade, autoria negra e a incorporação de elementos da cultura afro-brasileira na literatura. Houve um avanço na conquista de espaços, entretanto não podemos afirmar que chegamos ao ideal desejado, e por isso nos mantemos em movimento. Por meio da escrita comprometida de escritores negros, isto é, narrando as nossas próprias histórias podemos construir, reconstruir, insistir e existir na literatura, no mundo, na vida.

*******

NOTA DE ESCURECIMENTO: Inspiração ou transpiração? Para que e quem você escreve**?**

CLARICE CAMPOS: 50% inspiração. Algumas lacunas da escrita são preenchidas com minhas memórias e história de vida como mulher e negra. 50% de transpiração, por acessar muitas vezes, dores e marcas profundas de uma coletividade.

*******

NOTA DE ESCURECIMENTO: Há algum momento marcante que você viveu e que inspirou uma obra específica**?**

CLARICE CAMPOS: Minha mãe era bordadeira. Aprendeu a bordar ainda menina no colégio interno. Aos sessenta anos, acometida por uma doença não diagnosticada, minha mãe parou de andar. Quase imobilizada, voltou a bordar. Minha mãe usava fios e agulhas para bordar a vida novamente. Em breve, esses bordados ilustrarão um livro.

*******

NOTA DE ESCURECIMENTO: Quais são os seus principais temas**?**

CLARICE CAMPOS: Revisito sempre os meus sonhos de menina, cujo desejo maior era me tornar um adulto feliz. Escrevo para não me afastar da criança que eu fui.

*******

NOTA DE ESCURECIMENTO: Quais suas negras influencias? E, sendo possível, aponte, sete ou mais figuras negras brasileiras importantes na sua opinião**?**

CLARICE CAMPOS: Sempre fomos estrategistas. Negros nascidos no Brasil, lendo, escrevendo, publicando, enfim estamos vivos e driblando as violências e todas as correntes contrárias. A escrita comprometida de Maria Firmina dos Reis e Carolina Maria de Jesus romperam o encarceramento literário e seguem sendo farol. Na contemporaneidade, Conceição Evaristo, Sonia Rosa, Eliana Alves Cruz, Ana Maria Gonçalves, Kiussam Oliveira, Cidinha da Silva, Cristiane Sobral, Elisa Lucinda, entre outras, inspiram escritoras e leitoras.

*******

NOTA DE ESCURECIMENTO: Qual é o impacto das políticas culturais no incentivo ou barreira à Literatura Negro-Brasileira no Brasil**?**

CLARICE CAMPOS: Embora o lugar da autoria continue sendo ocupado, principalmente pela representação masculina e branca, estamos vivendo um cenário de discussões e ampliações de conquistas provenientes de lutas antigas pelo direito à arte e a cultura.

*******

NOTA DE ESCURECIMENTO: Poderá nos oferecer sete ou mais livros, de autoras negras brasileiras ou autores negros brasileiros, que na sua opinião, são fundamentais**?**

CLARICE CAMPOS: Úrsula de Maria Firmina dos Reis), Quarto de despejo: Diário de uma favelada de Carolina Maria de Jesus, Becos da Memória e Ponciá Vicêncio de Conceição Evaristo, Um defeito de cor de Ana Maria Gonçalves, Água de Barrela e Solitária de Eliana Alves Cruz), Um Exu em Nova York de Cidinha da Silva e Não vou mais lavar os pratos de Cristiane Sobral.

Matéria do acervo do Portal Afro, publicada originalmente em 16 de agosto de 2025.

Compartilhe WhatsApp Facebook X

Mais de Plinio Camillo

Todas

Leia também em Literatura

Ver a editoria