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NOTAS DE ESCURECIMENTO POR ESCRITO – Luiza Owhoka

NOTAS DE ESCURECIMENTO POR ESCRITO – Série de questões enviadas para pretas escritoras negras e negros escritores pretos que gentilmente responderam

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· 9 min de leitura

NOTAS DE ESCURECIMENTO POR ESCRITO – Luiza Owhoka
Foto: Acervo Portal Afro

Escritora de hoje: Luiza Owhoka

Prece a Zambi

Oh Sagrado que me guarda, a ti eu peço, tu que és o Pai de toda a criação a quem tanto devo e em quem imensamente confio.

Fazei de meu corpo espiritual espada e escudo, e da minha matéria templo, onde não habite a ganância, cobiça, inveja, preserva a minha humanidade, fortalece minha humildade.

Que meus olhos possam sempre ver as minhas imperfeições, e, ainda assim, meu Pai, me faz digna de todo o seu zelo e proteção.

Que jamais me falte, paz, sabedoria humildade e resiliência para superar todas as dificuldades, simplicidade sempre com o coração aberto o espirito forte , para dar de conta das suportar minhas dores e acalentar quem vier ao meu encontro em busca de auxílio , que em meio a todo o caos eu possa ser farol, e que minh’alma permaneça a paz.

Te rogo Zambi, apesar de todas as minhas imperfeições, eu possa sempre e sempre ser merecedora da tua proteção e de seu imenso e infinito amor.

Axé !!!

Que dia lindo!!!

A brisa fresca, uma sala cheia de gente e que gente, gente linda, importante uma manhã, tudo de bom!

A manhã perfeita para iniciar minha viagem. E todas essas pessoas que vieram se despedir, e eu que sempre me achei, hoje tive a certeza de que, como o Lú dizia sempre fui “de parar o trânsito”.

Alegre, bem educado, de fala doce e gentil. Por isso que eu me apaixonei, e por isso que te amei a vida toda, desde cedo, desde sempre, desde o dia em que te conheci.

Mas no dia da minha viagem, você não veio se despedir.

O amor é ingrato, a vida é injusta e a morte, inevitável.

Para essa viagem eu não me preparei, a dita, a qual ninguém espera e da qual ninguém escapa. Esta viagem que eu tanto temia, sem bolsa, sem cigarro, sem sapatos… Mas a minha carruagem não pode faltar, nem a roupa que eu ganhei do príncipe. Quero estar linda!

Ainda que seja tarde, apesar de tudo, mesmo sabendo que o Lú não virá me ver.

Dizem que no momento da nossa morte toda nossa vida, passa como um raio em uma fração de segundos diante dos olhos, 80 anos em uma fração de segundos… loucura.

Mas para mim foi diferente, só pensava no Lú, em como eu o amo, em como todo o resto seria melhor se ele estivesse aqui, em como ele se sentiria, se sentiria minha falta. Será que choraria, ficaria triste?

Ou ele finalmente iria se libertar, se libertaria de mim.

Sei que tudo que digo parece estranho e sem nexo, mas para mim faz todo sentido… às vezes.

Se eu pudesse, se tivesse um último desejo, pediria My Way para ouvir uma última vez.

CONVERSAS

NOTAS DE ESCURECIMENTO: Por gentileza, se apresente:

LUIZA OWHOKA: Sou Luiza Helena Xavier Owhoka, Luiza Owhoka ou Nega (para os mais chegados), nasci no bairro da Liberdade aos treze dias de maio de 1976. Sou a filha número quatro do Sr. Luiz e a segunda de D. Gica que já encantou, sou mãe solo, avó, religiosa de Matriz Africana, professora de formação, inquieta de natureza, sindicalista de atuação, poetisa e escritora faço parte da Academia de Belas Artes do Rio Grande do Sul. Fui criada na Z/L em Ermelino Matarazzo, hoje vivo em Guarulhos onde trabalho em uma empresa de transporte de passageiros e estou secretária de mulher e políticas afirmativas no sindicato da mesma categoria ,sou firme na defesa das coisas em que creio, leal à ponto de ser sincera, de riso fácil (o gênio nem tanto) , perseverantemente, bem humorada, de poucos mas verdadeiros amigos, amo ouvir música e dançar. Não gosto de silêncio e nem de rodeios.

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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Quando se descobriu negra?

LUIZA OWHOKA: Eu venho de família materna e paterna pretas logo sempre me identifiquei como pertencente a este lugar, cria de um terreiro a casa cheia de todas as pessoas em sua diversidade com harmonia sempre me fizeram sentir que a negritude não seria um problema, ao longo do tempo a vida me ensinou que as coisas não eram bem assim.

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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Como a sua ancestralidade está nos seus escritos?

LUIZA OWHOKA: Minha relação com a escrita vem da infância, meu pai me alfabetizou aos seis anos, aos oito/nove já na escola comecei a escrever e mostrar meus escritos a ele, que sempre me incentivou, chegando inclusive a me apresentar a possibilidade de registrar o material antes de mostrar a mais alguém. Eu não entendia muito bem do que ele falava, mas o fato é que desde aqueles tempos sempre escrevia sobre questões inquietações, desamores, angústias, minhas ou observadas em pessoas das minhas relações. Em 2023, com o encantamento da minha mãe, encontrei na escrita meu local de conforto e consolo, e hoje, com os sentimentos “rejuntados”, percebo que a minha ancestralidade sempre esteve lá, pautando as dores de todos e todas nós, solidão da mulher preta, o não lugar como merecedora de bons afetos e admiração, a ascensão limitada pela etnia e/ou pelas intolerâncias e, sobretudo a ausência do fazer junto, tão pouco utilizado por esta sociedade hoje extremamente individualista.

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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Qual é ou foram as suas relações com os seus pais?

LUIZA OWHOKA: Pessoas muito alegres, que em seus dias de folga adoravam ouvir vinis, Dolores Duran, Leci Brandão, The Platters, Roberto entre outros. Trabalhavam ele à noite e ela durante o dia permitindo que houvesse convívio com ambos, minha mãe sempre foi mais fechada e apesar de extremamente protetora, não era de muitos afagos, diferente do meu pai a, ainda hoje, com seus oitenta e cinco anos é cheio de sacadas inteligentes e uma forma por vezes debochada de ver a vida.

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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Qual é, em sua opinião, a função social da sua literatura?

LUIZA OWHOKA: A função social da minha escrita é, antes de qualquer outra coisa, trazer o mesmo colo que recebi, saudar aos Orixás, homenagear minha ancestralidade, afrontar os “istas” (machistas, racistas, negacionistas) que nos querem exterminar, ocupar os espaços. Mostrar que a existência é uma tela pintada em cores quentes, que existe esperança apesar dos insucessos e que tudo bem ter dias beges, que não precisamos ser guerreiras em tempo integral. Só não podemos desistir de seguir olhando para esta tela nos enxergando nela, nos sentindo parte insubstituível desta obra chamada vida.

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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Como é você leitora?

LUIZA OWHOKA: Sou uma vergonha (risos), mas estou mudando. O projeto é me tornar uma leitora eclética, mas como dirigente sindical não é uma tarefa das mais fáceis, já estou me organizando para tal, ter um tempo exclusivamente destinado à leitura.

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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Quais suas negras influências?

LUIZA OWHOKA: Minhas negras influências são várias: Chimamanda Adichie, Dona Ivone Lara, Leci Brandão, Michelle Obama, Lélia Gonzalez, Yuri Marçal, Carolina Maria de Jesus, Dep. Benedita da Silva,

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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Qual foi o seu primeiro e decisivo ato literário?

LUIZA OWHOKA: Me reconhecer escritora, apesar de sempre escrever não me via merecedora deste título, graças ao estreitamento da minha relação com a jornalista e escritora Zenaide dos Santos e ao chacoalhão que ela me deu participei de minha primeira publicação em novembro de 2023 e não parei mais.

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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Como é, para você ser uma escritora negra no Brasil?

LUIZA OWHOKA: Ser uma escritora negra no Brasil é algo confuso, em alguns momentos me sinto confortável por não depender da escrita para me manter, vejo pessoas que escrevem faz muitos anos mas que não são financeiramente reconhecidas, outras que só foram reconhecidas tardiamente. Vivemos em um país que não valoriza cultura e que ainda não naturalizou consumir cultura preta, penso que viver a arte e viver da arte são coisas tão distintas quanto fama e sucesso.

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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Para que e quem você escreve?

LUIZA OWHOKA: Eu escrevo para aquela menina que só teve um poema publicado aos quarenta e sete anos de vida, para contar histórias e estórias sobre o que me aflige, para me conectar com as pessoas, manter minha pressão arterial sob controle, para que meu neto me relembre quando eu não mais aqui estiver… para seguir me convencendo de que sou realmente uma escritora, entre tantas outras razões.

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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Inspiração ou transpiração?

LUIZA OWHOKA: Na maioria das vezes a inspiração vem da transpiração das provocações cotidianas e do modo como elas me atravessam.

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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Qual é o seu processo de escrita?

LUIZA OWHOKA: Sou constante observadora do ser humano mas também sou muito esquecida, quando as ideias me vêm rascunho um tema central para não perdê-lo de vista, e dou continuidade assim que tenha oportunidade. Outras vezes o texto me vem na integra, preciso parar tudo e simplesmente escrever.

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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Tem um narrador ou eu lírico que sempre utiliza em seus escritos?

LUIZA OWHOKA: Em grande parte do tempo sim.

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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Quais são os seus principais temas?

LUIZA OWHOKA: Meus principais temas são feminismo negro, ancestralidade e axaltação ao Sagrado.

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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Como foi e é para você a publicação de um livro?

LUIZA OWHOKA: Pelo fato de eu vir participando de publicações coletivas tenho passado por processos muito ricos e de grandes inteirações, a sensação de pertencer me faz bem. Estou com um livro infantil em processo de finalização, será uma nova experiência, desta vez individual, desta vez estou ansiosa pelo resultado desejo que tudo dê certo.

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NOTAS DE ESCURECIMENTO: O que também se faz palavras em seus escritos?

LUIZA OWHOKA: Meu amor pelas relações nas mais diversas formas e suas imperfeições buscando ser respeitosa com todas elas dando vida e sentimentos à um personagem, o existir e tudo que faz parte do pacote

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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Poderá nos oferecer cinco livros, de autores negros brasileiros, que em sua opinião, são fundamentais:

LUIZA OWHOKA: Quem tem medo do feminismo negro (Djamila Ribeiro), Sejamos todos feministas (Chimamanda Ngozi Adichie), Eu destilo melanina e mel (Upile Chisala), Quarto de despejo (Carolina Maria de Jesus) e Olhos D’água (Dona Conceição Evaristo)

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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Aponte, por gentileza, cinco figuras negras brasileiras importantes?

LUIZA OWHOKA: Para mim algumas das figuras negras brasileiras importantes são: Dr. Luiz Gama, Grande Otelo, Milton Gonçalves, Ruth de Souza e Zezé Motta

Redes:@lowhoka

Face: https://www.facebook.com/luiza.elena.9887

Matéria do acervo do Portal Afro, publicada originalmente em 8 de março de 2025.

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