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NOTAS DE ESCURECIMENTO POR ESCRITO – Sandra Martins

NOTAS DE ESCURECIMENTO POR ESCRITO – Série de questões enviadas para pretas escritoras negras e negros escritores pretos que gentilmente responderam

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· 7 min de leitura

NOTAS DE ESCURECIMENTO POR ESCRITO – Sandra Martins
Foto: Acervo Portal Afro

Escritora de hoje: SANDRA MARTINS

EU COMIGO

Quando criança, era comum que tivéssemos um diário com cadeado para que ninguém lesse nossa intimidade. Era muito legal. Era lá que espraiava minhas dores. Através da sopa de letrinhas, eu conversava comigo mesma. Entre um escrito e outro, dialogava com minhas lembranças. Gostava de reler acontecimentos vividos (ou não) de meses anteriores, sempre havia alguma coisa que poderia rever. Tenho a compreensão de que “não é possível destruir o passado para reconstruir o presente, mas é possível reconstruir o presente para reescrever o passado”, conforme nos ensina o psiquiatra Augusto Cury.

Hoje não tenho um diário, mas criei o hábito de usar a sopa de letrinhas para diluir a dor. Não para minimizá-la, mas para entender sua textura, suas raízes, os possíveis benefícios para um dado congelamento. É como se eu escutasse minha terapeuta perguntando “O que você ganha ficando nessa dor?” Na época, não entendia, hoje começo a perceber que congelava dentro dos muros erguidos pela dor. Agora, eventualmente, consigo ver os gatilhos. Às vezes dá tempo para mudar o rumo da prosa; em outras não, o tombo é certo. A diferença é que não fico congelada, minha percepção se alastrou. Sinto e vejo lindas trepadeiras saindo das fissuras desses muros

CONVERSA

NOTAS DE ESCURECIMENTO: Por gentileza, se apresente

SANDRA MARTINS: Olá!!! Sou Sandra Martins, mulher negra, cujos ancestrais migraram do Nordeste para o Sudeste. Com meu pai, seu Clóvis, aprendi que toda notícia tem várias versões, daí termos que buscar outras fontes, e com minha mãe, dona Eda, que as fotonovelas e gibis eram excelentes ferramentas para construir o gosto pela ficção. Com minha avó materna, Marita, o caminho do ativismo com afeto e respeito às companheiras, para ela, viga mestra da família/cidade/planeta. No andar da vida, trilhei os caminhos do Movimento Negro. Com o tempo, aprendi a usar minha formação em jornalismo para levar o debate racial para o campo da Comunicação. Com amigos de ativismos criamos a Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial (Cojira-Rio) em minha entidade sindical. Nos juntamos a outros coletivos congêneres, em todas as regiões do país. Como tudo para nós, não foi fácil, entre perdas laborais, o caminho vem sendo transformado em avenidas por muitos corações e mentes. Inconformismo com as falas oficiais é o que me/nos move. Nossa história deve ser contada pela nossa perspectiva. Nossa memória, oralidade, nossa história, são de extrema importância. Atualmente, trabalho com narrativas biográficas de pessoas incríveis, sábias, potentes, nosso povo preto.

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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Para quem escrevo?

SANDRA MARTINS: Escrevo para quem gosta de ler o que está por trás das entrelinhas. Todos temos lembranças, memórias – individuais ou coletivas – que se interseccionam com a História Total, como dizia Beatriz Nascimento. Nada é somente o que escreveram sobre nós, temos muito a dizer, a dialogar.

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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Como são ou foram as suas relações com os seus pais?

SANDRA MARTINS: Meus pais foram pessoas de seu tempo, com todas as limitações inerentes a um técnico de televisão e uma dona de casa; mas, tentaram superar as lacunas, dentro de suas possibilidades, nos possibilitando sonhar com os pés no chão. Meu pai tirou a família dos subúrbios carioca para a Zona Sul do Rio, para que seus filhos tivessem mais oportunidades de estudos, rede de contatos e trabalho. Entre seus mantras, um conselho: um bom amigo é melhor do que dinheiro no banco. Pois, a amizade real e concreta, deve ser respeitada porque podem nos possibilitar trocas ricas, com aprendizados, com ajudas mútuas, mas sempre com responsabilidade e respeito.

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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Quando se descobriu negra?

SANDRA MARTINS: Criada em uma família de raiz nordestina e patriarcal, vivi o machismo cotidiano, da preferência “natural” do filho macho. Uma relação ambígua, pois ao mesmo tempo, meu pai me ensinava que casamento pode ser desfeito e bens materiais podem ser perdidos, mas a cultura era vital para que eu pudesse caminhar com autonomia. Minha avó materna, minha musa, criou as filhas sozinha, contando com rede de apoio familiar. Ela defendia que as mulheres podem fazer o que quisessem, inclusive ter direito a sua sexualidade e politização. Ela criou duas associações de moradores e entre as laçadas de tricô conversava com suas amigas de que não deveriam jamais permitir que o marido levantasse a mão para ela. Então, tive meus momentos de embates ideológicos no seio familiar e muitos ensinamentos. Meu irmão tinha a pele clara que eu: era o chamado Bebê Johnson e eu uma menina engraçadinha. Me agarrava nos livros para buscar referências positivas. Costumava visitar bibliotecas, palestras, espaços culturais. E, numa destas caminhadas culturais, me interessei por uma reunião de associação de moradores de Botafogo, onde morava. Entrei na sala errada, que vi imediatamente ser a sala certa que mudaria minha vida: era uma reunião de representantes do Instituto de Pesquisas das Culturas Negras (IPCN), ong negra com sede na Lapa (RJ). Com vergonha, mas extasiada, fiquei olhando, e Paulo Roberto dos Santos, me convidou a sentar. Foi a primeira vez na minha vida que vi homens e mulheres negras dialogando sobre coisas que eu sentia e não sabia falar a respeito. Ali ouvi falar de racismo, da escravidão e do arrastar das correntes até os dias de hoje. E, também sobre personagens que os livros didáticos não mostravam. Simplesmente amei e estou nessa enquanto viver.

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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Como a sua ancestralidade está nos seus escritos?

SANDRA MARTINS: Em meus escritos, tanto jornalísticos, como os ficcionais, são recheados de um olhar para os lados, para trás, para frente. Não somos nada se não olharmos para o universo, se não contatarmos nossos ancestrais. Em momentos de sentimentos conturbados, gosto de escrever algumas linhas, muitas delas podem não dar em nada, mas no momento da escrita tiveram uma função, a de expor a minha dor, sem me violentar. Eu escrevo e falo com minha criança interior e com meus ancestrais.

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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Como é, para você ser uma escritora negra no Brasil?

SANDRA MARTINS: Sinceramente, ainda duvido de mim, quando estou escrevendo. Mas, quando começo a ler em voz alta, seja para meu cachorro Doguinho, ou para amigos, vejo outra Sandra. Uma Sandra que sabe caminhar e que não precisa ter medo, um medo que nos foi e é imposto cotidianamente. Ser uma escritora negra no Brasil não é tarefa fácil, em especial no que tange aos custos. Mas há benefícios, como de saber que um texto meu foi utilizado em sala de aula, ou que uma ex-aluna comente um trabalho meu. Isso é incrível.

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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Inspiração ou transpiração?

SANDRA MARTINS: As duas situações, sendo que a segunda é bem forte – chega a doer. Aí coloco o texto em descanso, e dias depois retorno de bem com ele.

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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Quais são os seus principais temas?

SANDRA MARTINS: Memória negra, biografias, sobre comunicação, dores, mas, principalmente sobre alegrias, edificações humanas, sonhos, realizações.

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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Qual é o seu processo de escrita?

SANDRA MARTINS: Quando vem a inspiração, rascunho, e vou melhorando o texto. Mas, o texto sai com mais fluência se houver uma leve e respeitosa pressão no chopp. Rsrsrsrs… são os resquícios dos tempos de repórter… De vez em quando faço uma oficina de escrita criativa. Acho superimportante para sair do engessamento. E, encontro pessoas incríveis que também tem seus processos de escrita para descomplexificar. Outra coisa que gosto de fazer é ler em voz alta, nossa, como é bom, destravo com mais facilidade.

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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Como é você leitora?

SANDRA MARTINS: Já fui excelente leitora, inclusive, quando adolescente, consegui trabalhar para o Círculo do Livro entregando livros. Assim ganhava muitos livros. E, também, ao lado da vila onde morávamos, tinha uma oficina de caminhões de mudança, e o pessoal quando achava livros jogados de alguma mudança, mandavam para nossa família: hi, aqui tem livros, manda pro Clóvis que adora sopa de letrinhas. Aos dez anos lia Cadernos do Terceiro Mundo!!! E, sobre as expedições de arqueólogos nas tumbas dos faraós. Apesar das atribulações, ainda me considero uma boa leitora.

Matéria do acervo do Portal Afro, publicada originalmente em 1 de março de 2025.

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