NOTAS DE ESCURECIMENTO POR ESCRITO – Edson Robson Alves dos Santos
NOTAS DE ESCURECIMENTO POR ESCRITO – Série de questões enviadas para pretas escritoras negras e negros escritores pretos que gentilmente responderam
Por Plinio Camillo
· 10 min de leitura

Escritor de hoje: Edson Robson Alves dos Santos

A PELEJA DO CORONEL JOÃO CAXIAS DA RESERVA E O SOLDADO JOÃO CÂNDIDO CONSCIENTE
Esta peleja se deu entre o Coronel golpista João Caxias e o soldado João Cândido Consciente. Oriundo de família tradicional, o Coronel entrou na Academia de Oficiais das Agulhas Brancas, sem dificuldades, pois aos pobres, povos indígenas e negros (as), os postos reservados eram de soldados, cabos e sargentos. Nas guerras a linha de frente era o destino, por outro lado, os oficiais apenas ordens davam e levavam a fama. E assim inicia a peleja!
Em todos os caminhos de Mucuri a Ibó, Bahia, João Cândido, repentista admirável, era conhecido. Ao visitar seu afamado Tio Pedro de Alcobaça, afamado repentista, foi desafiado pelo Coronel golpista João Caxias que se intitulava patriota e destacado na arte do repente. Na hora marcada houve o encontro, em plena praça pública começou a peleja do improviso.
**João Caxias:**De bom no seu nome só tem João / O sobrenome Cândido não é recomendável / Na Marinha coisas boas não realizou / Sublevou os marinheiros da nação / E para o destino da prisão todos levou / Por isto repito de bom só tem João
João Cândido: O que é bom vem do interior / Da labuta, da alma e do coração / Para sua família meu bisavô trabalhou / Mais não teve reconhecido seu valor / Carrega a patente de coronel sem merecer / Igual aos seus, pelas portas do fundo entrou
**João Caxias:**Carrego patente por ser merecedor / Uns nasceram para ordens receber / E outros por nascimento mandar / Sabe com quem está falando? / Sou descendente de navegadores! / Que terras pelo mundo conquistaram
João Cândido: Da história esta é a sua bazófia / Pilhar, furtar, roubar e saquear / Pela força das armas, não tem glória / O trabalho imposto é o ilícito semear / A escravização do corpo e da memória / A igualdade de oportunidade falsear
João Caxias: Da sua pessoa só desejo ouvir / Sim senhor, não senhor e permissão / A hierarquia assim determina o servir / Mocorongo, mondrongo e cagalhão / Na minha bateria eu sou o juiz / Engraxar meu coturno é sua função
João Cândido: Hierarquia, sem respeito, é assédio moral / Humilhar quem presta serviço a nação / Torturando o pelotão não é normal / O pé que pisa o indefeso é o do covardão / O oficial patriota tem o dever natural / De preservar a integridade do batalhão
João Caxias: Desde os tempos do imperador / Meus ancestrais preservam o poder / Não tolero a presença de opositor / Minha linhagem é que vai empreender / Ordens não vão receber pro labor / Ao pobre cabe obedecer e agradecer
João Cândido: O império romano com o tempo ruiu / Quem é da lida tu chama de opositor / Meu coração não obedece quem oprimiu / É livre como a ventania e o encantador / Luta com gana contra o estado serviu / Meu pensamento voa é libertador
João Caxias: Ordem dada deve ser cumprida / Quem tem voz é o comandante / Está é a sina que não se modifica / Para os da classe dominante / Tudo de bom, privilégios e mordomias / Para a classe subjugada fome
João Cândido: Ordem absurda deve ser descumprida / Comandante sem tropa é nada / Tudo na vida passa e se modifica / A igualdade de oportunidade salva / Altera na comunidade a vida sofrida / Abre os caminhos da alvorada
Após as palavras proferidas, o ex-soldado da reserva João Cândido, foi ovacionado pelo povo, pois sua fama na região cresceu de forma descomunal, que até nas ravinas do cariri e chapada de Apodi chegou. O Coronel golpista da reserva João Caxias, que só sabia mandar, envergonhado, pela sova que levou do ex-soldado, nunca mais apareceu pelas cercanias de Mucuri e Ibó, Bahia.
CONVERSAS
NOTAS DE ESCURECIMENTO: Por gentileza, se apresente:
EDSON ROBSON ALVES DOS SANTOS: Meu nome é Edson Robson Alves dos Santos, escritor, advogado e capoeirista.
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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Quando se descobriu negro?
EDSON ROBSON ALVES DOS SANTOS: Desde criança! Meu pai e minha mãe eram de religião de matriz africana e ensinavam que tínhamos de preservar nossa cultura. Já no pré-primário (escola) era patente que o país era racista, pois eu não tinha condições de levar lanche para escola, todos os dias. Quando passei para a quarta série do primário, comecei a me dedicar mais par aos estudos e percebi que a barreira dos (as) negros eram mais alta e que o ponto de partida era desigual!
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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Como a sua ancestralidade estão nos seus escritos?
EDSON ROBSON ALVES DOS SANTOS: Estão presentes na temática e forma de escrever. Minha escrita exalta nossa luta e verdadeira história! É de ressaltar que escrevi poemas para meus ascendentes que foram publicados no Cadernos Negros.
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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Qual é ou foram as suas relações com os seus pais?
EDSON ROBSON ALVES DOS SANTOS: Minha relação era excelente. Quando criança, não tinha uma compreensão da importância do trabalho artístico do meu pai e mãe. Só passei a dar mais atenção aos trabalhos culturais de meu pai e mãe, após servir o exército, pois lá, até hoje o racismo é praticado! Em síntese, eu não tinha a mínima dimensão de quem era Solano Trindade. Meu pai, em 1953, em Duque de Caxias, Rio de Janeiro, passou a fazer parte do Teatro Popular Brasileiro, dirigido pelo saudoso pensador da negritude brasileira, Francisco Solano Trindade. Em 1955 fez parte do elenco de Solano Trindade que viajou para Varsóvia (Polônia), onde foram consagrados com a medalha de ouro no Festival Mundial de Arte, concorrendo com mais de 125 países, com o quadro “BATUQUE”. Foi extra no filme “Orfeu do Carnaval”, em 1958. Fez parte do conjunto TUCA de Mauro Pena, Atuou no filme CORDELHA CORDELHA” de Rodolfo Nani e “SANTO MÉDICO”, de Breno Melo e Lene Heverson, em 1959. Na peça teatral “Xica da Silva” de Fernando D`Ávila em 1964. “Pendura a Saia”, Teatro Maria Della Costa, Canal 5, programa de Plínio Marcos, como coreógrafo em quadros africanos e com Paulo Rogério em 1965, canal 9 na novela “Alma de Pedra”, com Tarcísio Meira e Glória Menezes. “Pagador de Promessas”, IBC, com Dionísio Azevedo e Estênio Garcia. Meu pai divulgou a cultura negra em vários países. Em 1972 mudou-se com a família para o município de Carapicuíba. Em 1972 junto com os Mestres Brasília e Tié (formados de Mestre Canjiquinha – BA), viajou para o Japão, com o Grupo BANI SHOW, com a peça: Batuque, Maculelê, Flores no Mar, cortina de sua autoria, Samba de Roda da Bahia, Samba Carioca, trabalho dirigido por Kikuche Sam.
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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Qual é, na sua opinião, a função social da sua literatura?
EDSON ROBSON ALVES DOS SANTOS: Minha literatura tem o papel fundamental de combater o racismo, a discriminação racial, defender a democracia e a liberdade religiosa.
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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Como é você leitor?
Procuro ler obras variadas e de escritores (as) de todo o mundo. A leitura tem que ser prazerosa e agradável. Tem livros que leio rapidamente e outros que demoro a ler.
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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Quais suas negras influencias?
EDSON ROBSON ALVES DOS SANTOS: Minha maior influência recebi de meu pai (negro) e da minha mãe (povos indígenas). Pelo fato de meu pai fazer parte do Teatro Popular Brasileiro, em Duque de Caxias, RJ, fundado por Margarida Trindade, Solano Trindade e Edison Carneiro, é inegável que os poemas de Solano Trindade, produziram um grande impacto na minha maneira de ver o mundo e escrever. Quando li pela primeira vez os poemas de Solano Trindade, disse para mim mesmo: este é o meu povo, quero ser poeta e lutar por liberdade e defender a cultura negra!
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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Qual foi o seu primeiro e decisivo ato literário?
EDSON ROBSON ALVES DOS SANTOS: Foi participar dos Cadernos Negros, volume 25, em 2002, publicado pelo Quilombhoje Literatura, Coordenado por Esmeralda Ribeiro e Márcio Barbosa. A partir dai não parei mais!
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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Como é, para você ser um escritor negro no Brasil?
EDSON ROBSON ALVES DOS SANTOS: É difícil porque encontramos muitas barreiras para publicar e divulgar nossos trabalhos! Se eu fosse ouvir a turma do contra, não publicaria um poema! Só na série Cadernos Negros, publiquei mais de 53 poemas e 05 contos!
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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Para que e quem você escreve?
EDSON ROBSON ALVES DOS SANTOS: Escrevo para deixar registrado que a cultura negra é riquíssima, tem seus significados, fundamentos e que merece o devido respeito. Escrevo para aqueles que lutam contra todas as formas de opressão e racismo!
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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Inspiração ou transpiração?
EDSON ROBSON ALVES DOS SANTOS: Os dois, as vezes o poema ou conto, vem pronto e outras, após um estudo e leitura sobre o assunto escrevo o conto, poema e cordel.
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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Qual é o seu processo de escrita?
EDSON ROBSON ALVES DOS SANTOS: Acredito que não existe uma fórmula para escrever. As vezes o poema ou conto, nasce da observação de um fato, de algo que escuto, que sinto (no arrepio da pele), vivencio ou visualizo. Geralmente eu anoto a ideia central para depois escrever ou desenvolver no papel ou computador. Meu primeiro poema, publicado nos Cadernos Negros, escrevi em menos de quinze minutos. Não tenho pressa de escrever, deixo fluir a inspiração ou estudo para desenvolver a obra.
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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Tem um narrador ou eu lírico que sempre utiliza em seus escritos?
EDSON ROBSON ALVES DOS SANTOS: É variado! Tem contos que são narrados na primeira pessoa do singular e outros na terceira. Depende muito da temática e do domínio que tenho sobre o assunto.
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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Quais são os seus principais temas?
EDSON ROBSON ALVES DOS SANTOS: Meus principais temas são: a) liberdade religiosa; b) capoeira; amor; respeito; ancestralidade; cultura negra e recentemente, devido as origens da minha mãe, passei a estudar e escrever sobre povos indígenas.
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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Como foi para você a publicação do seu primeiro livro?
EDSON ROBSON ALVES DOS SANTOS: Escrevi três livros (de contos, poemas e a biografia de Mestre Bolinha – Criador de Cultura), no entanto, ainda não tive condições financeira para publicar. Tenho mais de 53 poemas publicados e 06 contos.
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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Quais são os seus principais temas?
EDSON ROBSON ALVES DOS SANTOS: Meus principais temas são: combate ao racismo; combate ao ódio; respeito as culturas dos )as) negros (as) e dos povos indígenas; preservação da natureza; combate ao extermínio da juventude negra (violência policial), religiosidade; etc.
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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Como foi e é para você a publicação de um livro?
EDSON ROBSON ALVES DOS SANTOS: Participei de 13 coletâneas dos Cadernos Negros, da antologia “Os Negros em Versos” da Editora Moderna e outras publicações. Tenho 04 (quatro)livros escritos, no entanto, ainda não publicados!
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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Poderá nos oferecer cinco livros, de autores negros brasileiros, que na sua opinião, são fundamentais:
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NOTAS DE ESCURECIMENTO: 01 – Francisco Solano Trindade, 02 – Abdias do Nascimento; 03 – Luiz Silva (Cuti); 04 – Oliveira Silveira; 05 – Esmeralda Ribeiro; 06 – Márcio Barbosa. etc.
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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Aponte, por gentileza, cinco figuras negras brasileiras importantes?
EDSON ROBSON ALVES DOS SANTOS: 01 – Abdias do Nascimento; 02 – Lélia Gonzales; 03 – Sueli Carneiro; 04 – Francisco Solano Trindade e 05 – Vovô do Ilê Aiyê; João Jorge (Olodum), etc.
Matéria do acervo do Portal Afro, publicada originalmente em 22 de fevereiro de 2025.




