NOTAS DE ESCURECIMENTO POR ESCRITO – Oswaldo Faustino
NOTAS DE ESCURECIMENTO POR ESCRITO – Série de questões enviadas para pretas escritoras negras e negros escritores pretos que gentilmente responderam
Por Plinio Camillo
· 17 min de leitura

Escritor de hoje: Oswaldo Faustino

O ESPELHO MÁGICO
Não. Ele não estava lá. Olhava que olhava, procurava que procurava, mas ele não conseguia ver sua imagem refletida na superfície daquele espelho. A sala estava lá, a mesa, cadeiras, a janela ao fundo, tudo, tudo menos ele…
“Caramba! Será que eu não existo?”, indagou assustado. Existia, sim. Mas, pasme, aquele era um menino invisível.
Você sabe o que é uma criança descobrir-se invisível? Não. A gente pode imaginar, pode ter uma vaga ideia. Mas saber, saber mesmo, só sabe quem é invisível. A dor da invisibilidade só sente quem é acometido por ela. E aquele menino era verdadeiramente invisível.
Claro que ele não era invisível para todos. A mãe conseguia vê-lo, amá-lo, compreendê-lo, e era para ela que ele sempre corria: “Mãe, eu quero me ver. Eu quero ser visto.” E ela, sempre generosa, dizia: “Calma, meu filho! Talvez isso seja porque você ainda é… ninguém. Mas um dia você será alguém. Aí, o mundo inteiro vai poder vê-lo, reconhecê-lo e amá-lo como eu”.
E o menino ficou matutando sobre aquelas palavras: “Um dia você será alguém. Aí, o mundo inteiro vai poder vê-lo, reconhecê-lo, amá-lo…”.
“Mas o que fazer para ser alguém?”, ele insistia. A própria mãe, que acreditava ter todas as respostas, disse-lhe o que ela imaginava ser a solução: “Para ser alguém você precisa estudar”.
“Mãe, então me põe na escola para eu ser alguém! Afinal, quem é ninguém jamais poderá se ver refletido no espelho”.
E lá foi o menino para o seu primeiro dia de aula e… Não. Ele não se via refletido no espelho escolar. Ele não estava lá também. Em nenhum espelho. Não estava no livro de Matemática. O livro de História não contava a sua história, o de Língua Pátria não falava a sua língua.
Nem a professora o enxergava. Ela beijava algumas crianças, acariciava, dava atenção, aplaudia suas respostas, caprichava na nota. Mas ele, não. Não estava lá.
O tempo passou. E, no mesmo dia em que se tornou adolescente, como num passe de mágica, ele deixou de ser invisível e se tornou… suspeito. Suspeito crônico, suspeito de todos os males que acometiam a comunidade em que vivia. De todos os males da sociedade.
E, no Brasil, se você é suspeito, já é culpado. Se não for culpado do que suspeitam, é culpado por terem suspeitado de você. E, finalmente, ele se tornou visível, na primeira página do noticiário policial.
Mas essa história não termina aí. Seria triste demais.
Aquele menino tinha uma irmãzinha caçula, tão invisível quanto ele. E, como ainda era criança, ela acreditava na existência de um velhinho que trazia presentes no dia de Natal. As outras crianças o chamavam de Papai Noel. Como a mãe, para ela, era Iyá e o pai, Baba, resolveu chamar o velhinho de Baba Noel. E, como as demais crianças, ela também escreveu uma cartinha para ele.
E Baba Noel começou a ler as cartinhas recebidas. Uma pedia boneca, outro queria bola, outras, bicicleta, celular, computador, vídeo game… Foi aí que ele abriu aquela carta com um pedido estranho: “Para que eu possa me ver, me reconhecer, me identificar, eu quero um espelho mágico”.
Só então Noel se deu conta de que não era a primeira carta que ele recebia com esse pedido. Havia outras, que ficaram esquecidas no fundo do baú de correspondências. Eram dezenas, centenas, milhares. “Caramba! Como arranjar espelhos para atender a tantos pedidos?
Pela primeira vez ele se sentiu incapaz. Decepcionar criança é o que jamais gostaria de fazer. Por isso chorou. Chorou muito, intensamente. Suas lágrimas escorreram até o chão e, de lá, para fora da casa e se misturaram às lágrimas de todas as crianças invisíveis do mundo todo, por todos os tempos, formando uma grande lagoa. O frio polar a congelou e o frio dos corações humanos se encarregou de cristalizá-la.
Foi aí que passou por ali, em trenós, uma caravana de peregrinos. Eles avistaram o imenso cristal e, com muito esforço, o arrancaram do solo e o levaram para sua aldeia distante. Seus magos artesãos lapidaram aquele cristal, durante anos, e o transformaram num gigantesco espelho mágico que trazia em seu reflexo todas as nossas personalidades, nossas culturas, nossas tradições, nossas realizações. Lá estão nossos ancestrais, nossa forma de ser e de pensar o mundo. Esse, sim, é o nosso espelho.
No dia em que o espelho mágico ficou pronto, todas as crianças, antes invisíveis, puderam ver seu reflexo e refletir sobre elas próprias, sua gente, sua cultura, sua história. Aí, descobriram que são belas, belíssimas, ricas, poderosas, não ficam a dever nada a todas as demais crianças do planeta.
Olha só a maravilha de sorriso que esse espelho revelou! E não é para menos, sobre a cabeça de cada uma delas há uma coroa, uma mais linda que a outra. Sabe o porquê? São verdadeiros reis e rainhas, legítimos herdeiros de civilizações gloriosas. E o melhor ainda é que as crianças, que antes eram as únicas visíveis, ao se olharem através do mesmo espelho, conseguem ver a si e às demais igualmente lindas. E passam a amá-las e a conviver com elas, em total harmonia.

Agora, àquelas pessoas que receberam a missão de educá-las cabe, apenas, o privilégio de polir essas maravilhosas coroas, cada vez mais, mais e mais. Deixem todo o restante por conta delas!

CONVERSAS
NOTAS DE ESCURECIMENTO: Por gentileza, se apresente:
OSWALDO FAUSTINO: Sou Oswaldo Faustino, jornalista, escritor, contador de histórias, militante do movimento negro, palestrante, formador de professor com base na Educação Antirracista e Obá de Xangô. Filho do ferroviário campineiro Benedicto Faustino, o Dito, e da piracicabana Odacira Rodrigues Faustino, a Dada, cozinheira de mão cheia. Tenho apenas uma irmã, a Maria Isabel, grande amiga e parceira. Nasci em Mairinque, no interior paulista, em 21 de março de 1952, mas desde bebê vivo na capital, São Paulo. Fui casado com a também jornalista e advogada Ana Maria da Silva Faustino. Somos parceiros, mesmo depois do divórcio, pois nos mantém unidos cinco filhos magníficos: Kenya Ayo-Kianga. Jomo Olanian, Monifa Fayola, Damiso Ajamu e Akil Kondwane; e oito netos encantadores: Nassor Lukata, João Kondwane, Anaê Milah. Pietro Falzi, Zuri Bomani, Thato Ike Amani, Pérola Ayana e Lila Amora.
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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Quando se descobriu negro?
OSWALDO FAUSTINO: Não tenho muita certeza, mas, se tivesse nascido numa maternidade, eu diria que foi no berçário. Porém, como nasci na casa de uma tia de minha mãe, deve ter sido olhando para aquela enorme família negra que se destacava, na vizinhança. Sentir o que era ser negro foi bem mais tarde, entrando para o grupo escolar e percebendo o tratamento diferenciado dado pelas professoras, dependendo da cor e traços dos alunos e alunas. Isto não diferenciava do olhar da vizinhança, no Alto da Lapa, demonstrando o quanto a presença daquela família negra os incomodava. Mas nossa ancestralidade só nos fortalecia para tais enfrentamentos e encontro de caminhos e soluções existenciais.
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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Como a sua ancestralidade estão nos seus escritos?
OSWALDO FAUSTINO: Comecei a publicar, tardiamente, em 1999. Porém, desde o primeiro livro de entrevistas, “A Cor do Sucesso”, escrito em parceria com Aroldo Macedo, o fundador da revista Raça, a ancestralidade se fazia presente, orientando-nos, desde a proposta da obra, que era construir “espelhos” para nossa gente se refletir, utilizando a tecnologia literária de Sankofa, o adinkra que nos ensina a nos alimentar do passado, ressignificar, no presente e projetar para o futuro. Seguiram-se os quatro infantis da série Aventuras de Luana, em que mantivemos a tecnologia e isso fez-se meu norte, ao longo das 13 obras que escrevi e publiquei, tanto em parceria, quanto solos.
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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Qual é ou foram as suas relações com os seus pais?
OSWALDO FAUSTINO: De absoluta harmonia e respeito. Com papai só convivi por 12 anos, pois um infarto do miocárdio fulminante o levou, em 1964, um ano após sua aposentadoria na ferrovia, depois de trabalhar por 45 anos na E. F. Sorocabana. Porém, até na véspera de seu falecimento ele me acompanhou aos ensaios e gravações de minha primeira experiência em televisão, na Record, como um dos personagens da novela infanto-juvenil “João Pão”, de Bráulio Pedroso. Já minha mãe ficou por aqui, no Ayê, até 2002, quando também seguiu para o Orum. Mas durante os 19 dias em que ela permaneceu numa UTI, em coma induzido, eu ia diariamente e me sentava na beirada da cama para contar-lhes tudo o que eu tinha feito, depois de te-la visitado no hospital, no dia anterior: as reportagens que havia feito, os bailes em que tinha ido e outras aventuras.
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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Qual é, na sua opinião, a função social da sua literatura?
OSWALDO FAUSTINO: A literatura, para mim, tem a mesma função social que, para uma cidade tem a engenharia, a arquitetura e a decoração: ela nos ajuda a nos planejarmos, organizarmos e nos construirmos. Em seguida, nos embeleza, com informações e conhecimentos, nos dá qualidade para escolha de rumos de vida, caminhos a serem seguidos, ideias de riqueza, não financeira – ou até ela –, mas uma riqueza cultural. A literatura, mais do que o próprio Turismo, nos leva para lugares inimagináveis, neste planeta ou em qualquer outro, em terra, sobre as ondas, ou no fundo dos mares. Tudo isso, sem sairmos da poltrona, ou de nossa escrivaninha. Informação, formação, conhecimento, lazer e imaginação. Não há nenhum alimento mais rico que a literatura.
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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Como é você leitor?
OSWALDO FAUSTINO: Ávido, insaciável, sedento… adoro cinema, em especial os produzidos com base literária, mas o poder da literatura em mexer com nossa imaginação, nossa criatividade é algo que não tem preço. Nós construímos em nossas mentes os personagens, os lugares, os gestos, movimentos e sentimentos lidos… se a obra é bem escrita, sentimos o que sentem os personagens, sofremos com seus sofrimentos e nos regozijamos, com suas euforias e prazeres. Talvez eu conseguisse sobreviver, com pequena porção de alimento e de água, sem literatura seria impossível.
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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Quais suas negras influencias?
OSWALDO FAUSTINO: Inúmeras, nacionais e internacionais. Quase não há um só dia em que eu não descubra uma nova influência e me pergunto: Como consegui viver até hoje sem conhecer esse herói, essa heroína!? Intelectuais ou pessoas anônimas, simplíssimas, que dominam uma arte, ou conhecimentos populares, que nos fazem rir, ou jorrar lágrimas. Só me nego a me deixar influenciar por pessoas que pregam ódio, preconceitos, intolerâncias, pessoas competitivas, ou que amam humilhar quem quer que seja. Para não ficar sem dar nenhum nome, aqui vai um: Luiz Gonzaga Pinto da Gama, sobre quem escrevi o romance juvenil “A Luz de Luiz”.
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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Qual foi o seu primeiro e decisivo ato literário?
OSWALDO FAUSTINO: Honestamente? Acho que um primeiro e decisivo ato literário foi ler, entre outros, o negro Alexandre Dumas – até mesmo antes de sabe-lo negro –. Porém, o convite de Aroldo Macedo para escrever com ele sobre a personagem Luana que ele havia criado, com o objetivo de, desde cedo formar leitores para a revista Raça, fez o jornalista se entender um autor de literatura, primeiro infantil, depois juvenil e – por que não? – adulta. Não há limites para a boa literatura. Ela só depende de que escrevamos, reescrevamos, quantas vezes forem necessárias, até que finalmente fique uma obra boa de ser lida.
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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Como é, para você ser um escritor negro no Brasil?
OSWALDO FAUSTINO: Ser um escritor negro, no Brasil, talvez não seja muito diferente de ser um escritor branco. A grande vantagem da literatura é a mesma do rádio: locutores, ou atores e atrizes de rádio não têm cor. Voz não tem cor, a escrita também não. Porém, nosso comprometimento com as causas, histórias, cultura, religiosidade e personagens de nosso povo, nos levam a escrever sobre algumas temáticas que podem ser rejeitadas pelas pessoas que nos rejeitam. Como eu também não leio autores que rejeitam meu povo, não me incomodo com leitores que não leiam, meus escritos.
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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Para que e quem você escreve?
OSWALDO FAUSTINO: Para quem quiser me ler. Não nego que gostaria muito de ser conhecido como um escritor que, além de escrever sobre temáticas relacionadas à negritude e à população negra, suas histórias, culturas, saberes, escreve muito bem. E sempre está buscando escrever melhor. Penso em meus livros (desde o primeiro) como espelhos que, não só refletem as faces negras que se olham neles, mas que ajudam outras faces não negras a refletirem sobre o que estes espelhos estão refletem.
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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Inspiração ou transpiração?
OSWALDO FAUSTINO: Alguém já afirmou e ouso repetir: “10% de inspiração e 90% de transpiração.” A gente tem de suar muito para escrever uma boa obra literária e, depois de entrega-la à editora, é como o pai no saguão da maternidade, à espera de notícias que, geralmente, parecem demorar muito mais do que o período de gestação. Mas quando a obra chega às nossas mãos a gente quer saboreá-la com os cinco sentidos e muitos outros mais, se os tivéssemos.
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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Qual é o seu processo de escrita?
OSWALDO FAUSTINO: Vem uma ideia, uma ambientação, um/uma personagem, começo a ler um milhão de coisas e a fazer anotações, para que a história tenha substância, seja muito bem ambientada, rica em conteúdo. Quando se inicia a fase da escrita, jamais acredito que aquele é o texto definitivo. Escrevo, reescrevo, escrevo novamente, corto, acrescento, sem preguiça, sem pressa, passo para alguém ler. Leio, novamente, até sentir que se tornou uma obra que eu leria com prazer.
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NOTAS DE ESCURECIMENTO: O que também se faz palavras em seus escritos? Quais são os seus principais temas?
OSWALDO FAUSTINO: Das minhas 13 obras publicadas, 12 estão relacionadas com a negritude e uma foi encomendada pela família do engenheiro brasileiro Luiz Alfredo Falcão Bauer, descendente de austríacos, que escrevi, em parceria com amiga historiadora Márcia Gonçalves, que trabalhou com ele, por volta de 30 anos. Para escrever essa biografia, com a expertise que desenvolvi ao longo dessa carreira, pensei nesse como em todos os meus livros anteriores: um espelho, pois o protagonista, nascido em 1921 e falecido em 1996, foi um personagem que refletia quase tudo o que há de melhor na humanidade. Então, no momento da escrita, eu não tinha a preocupação sobre a origem dele, sua etnia/cor, seu padrão de vida econômico/social, mas foquei no que seu reflexo poderia ajudar outras pessoas e se reconhecerem e a serem felizes.
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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Tem um narrador ou eu lírico que sempre utiliza em seus escritos?
OSWALDO FAUSTINO: Não, necessariamente. O eu lírico pode estar presente numa ou noutra obra, mas não se faz constante. Por exemplo, na minha obra “A Legião Negra”, um romance que se propõe a contar uma história (ou histórias), com relação aos batalhões exclusivamente formados por voluntários negros que participaram da Revolução Constitucionalista de 1932, a chamada Revolução Paulista tem por narrador, um personagem fictício centenário chamado Tião Mão Grande, que teria sido um legionário, ou seja, foi integrantes de algum desses batalhões. A Legião Negra Paulista existiu realmente e eu cheguei a conhecer um de seus tenentes, o Raul Joviano do Amaral. Sem saber da existência dela, tive uma longa conversa com ele, em seu apartamento na Vila Mariana e eu me contou algumas histórias sobre como os negros foram tratados no que ele chamou de “a guerra”. Um dia, o ator Milton Gonçalves me ligou encomendando uma pesquisa em São Paulo sobre a Legião Negra. Imaginei que ele falava sobre a Frente Negra, mas ele explicou que queria dirigir um filme sobre batalhões negros, como o do filme Glory, que aqui ganhou o título de Tempo de Glória. Sobre um batalhão de negros, sob o comando de um oficial branco, na Guerra de Secessão. Eu escrevi o que eu imaginava ser um argumento para ao filme e acabou se tornando um romance. Infelizmente, primeiro faleceu o José Louzeiro, que escreveria o roteiro do filme. Depois, o próprio Milton Gonçalves.
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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Como foram, para você, a publicação do seu primeiro livro e dos livros seguintes?
OSWALDO FAUSTINO: Ah! Uma soma infindável de emoções. Se bem que A Cor do Sucesso é um livro de entrevistas, coisa que eu já fazia, desde 1976, quando entrei na Agência Folhas. Mas, de alguma maneira, era diferente, por serem sete entrevistas longas e, diferentemente de todas as anteriores, publicadas em jornais e revistas, essas estavam num livro muito bem feito, por sinal. As sete personalidades entrevistas eram; o cantor Jair Rodrigues, a jornalista Glória Maria, a atriz e cantora Zezé Motta, o jornalista, ator e comentarista de desfiles de carnaval Haroldo Costa, a cantora Elza Soares, o ator Eduardo Silva e o próprio Aroldo Macedo, meu parceiro de escrita, fundador da revista Raça Brasil. Seguram-se as obras infantis, em parcerias com Aroldo: Luana, a menina que viu o Brasil neném; Luana, Capoeira e Liberdade; Luana e as Sementes de Zumbi; e Luana e as Asas da Liberdade. Depois a pequena biografia do compositor, cantor, pesquisador de cultura negro-brasileira e escritor Nei Lopes, para a Coleção Retratos do Brasil Negro; o romance A Legião Negra; o romance biográfico A Luiz de Luiz (sobre o advogado abolicionista e jornalista Luiz Gama os didáticos Africanidades Paulistas e Africanidades Paulistanas, escritos com Sueli Chan, Gevanilda Santos e Ramatis Jacino; ); o infantil Iorí descobre o Sol, o Sol descobre Iorí; e o romance juvenil Ah, se eu pudesse voar. Infelizmente os governos paulistas estadual e municipal, se negaram a adotara nossos livros sobre Africanidades, que são belíssimos. Aí veio o convite para eu escrever, com Márcia Gonçalves, a biografia do engenheiro e professor da Escola Politécnica Luiz Alfredo Falcão Bauer, que além de contar e história dele, desde a vinda se seu pai Alfred Bauer da Áustria, após a 1ª. Guetta Mundial, traz uma grande quantidade de depoimentos de profissionais alunos e pessoas que conhecer profundamente o biografado. Como não se emocionar com tudo isso?
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NOTAS DE ESCURECIMENTO: De que maneira você vê a representação de personagens e narrativas negras evoluindo na literatura brasileira atual?
OSWALDO FAUSTINO: Com muita satisfação, pois, no passado, muito dos nossos personagens, na literatura, eram descritos de maneira caricata, estereotipados, a exemplo da Bertoleza, e O Cortiço, de Aluísio Azevedo. Uma personagem que tem tudo para protagonizar a história – como pudemos ver, recentemente, numa montagem teatral –, é quase uma figurante, ao olhar o autor. Porém, quando nós próprios passamos escrever nossas histórias nossos personagens negros e negras assumem o protagonismo que lhes pertence. Como bem dia o ditado africano: “Até que os leões comecem a contar suas próprias histórias, os caçadores serão sempre os heróis das narrativas de caça”
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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Poderá nos oferecer sete ou mais livros, de autoras negras brasileiras ou autores negros brasileiros, que na sua opinião, são fundamentais?
OSWALDO FAUSTINO:
Rebeliões da Senzala, Quilombos, Insurreições, Guerrilhas – Clóvis Moura
Angola Janga: Uma história de Palmares – HQ de Marcelo D’Salete
Olhos D’Água – de Conceição Evaristo
O Quilombismo – Abdias do Nascimento
Festas Populares no Brasil – Lélia Gonzalez
Um defeito de Cor – Ana Maria Gonçalves
O Avesso da Pele – Jeferson Tenório
Intolerância religiosa – Sidnei Nogueira
Lugar de negro – coautoria de Lélia Gonzalez e Carlos Hasenbalg
Pequeno Manual Antirracista – Djamila Ribeiro
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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Aponte, por gentileza, sete ou mais figuras negras brasileiras importantes na sua opinião?
OSWALDO FAUSTINO: Luiz Gonzaga Pinto da Gama, Maria Firmina, Joaquim Maria Machado de Assis, Afonso Henriques de Lima Barreto, Kiusam de Oliveira, Matilde Ribeiro, Milton Santos, Profa. Sônia Guimarães, Prof. Kabengele Munanga e Estevão Maya Maya (E os autores e autoras citadas e citados, na lista dos livros, além dos meus pais, minha irmã, meus filhos e netos, citados na primeira resposta)
Matéria do acervo do Portal Afro, publicada originalmente em 31 de maio de 2025.







