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NOTAS DE ESCURECIMENTO POR ESCRITO – Janaína Nascimento

NOTAS DE ESCURECIMENTO POR ESCRITO – Série de questões enviadas para pretas escritoras negras e negros escritores pretos que gentilmente responderam

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· 9 min de leitura

NOTAS DE ESCURECIMENTO POR ESCRITO – Janaína Nascimento
Foto: Acervo Portal Afro

Escritora de hoje: Janaína Nascimento

Ainda bem

Gente como a gente não

Se encontra a cada esquina

Luz para os dias

Deleite que faz brilhar a retina

Gente gostosa

Que irradia boas energias.

Ainda bem que a gente tem a gente

Ainda bem que existem outras formas

De amar que não são tão

Adoecedoras e destrutivas

Como as do ocidente.

Ainda bem que tem gente da gente

Que demonstra afeto através dos

Pequenos detalhes, seja através

De um sorriso, um afago

Uma reza ou um poema.

A solidão, a rejeição, fazem parte

Desse projeto que nos causa

Dores profundas desde a infância

Amar como os nossos ancestrais

É libertador …. Precisamos!

Com leveza nos acolher, demonstrar,

Dizer, escrever, gritar pro mundo

E de uma vez por todas

Compreender que

O Amor em sua essência também

É cura para nossas múltiplas dores.

CONVERSAS

NOTAS DE ESCURECIMENTO: Por gentileza, se apresente:

JANAÍNA NASCIMENTO: Sou cria de Parada de Lucas, moradora de Caxias, na Baixada Fluminense no rio de Janeiro. Uma mulher de Axé, Omo Orixá Oxum no Terreiro de Tradição Efon Ilê Asé Tógun Layó. Sou uma mulher movida pelo afeto, que acredita na democratização da leitura, que acredita que não é necessário ser membro da ABL, para apreciar e fazer literatura. Sou escritora, poeta, pedagoga, professora (SME de Duque de Caxias e SME de São João de Meriti), Especialista em ensino de História da África, Mestra em Relações Étnico- Raciais pelo CEFET-RJ, com a pesquisa “Literatura e Pertencimento: trajetórias e influências de escritores negros dos subúrbios do Rio de Janeiro”.

Sou integrante do Mutirão Cultural Rolé Literário e organizadora do Sarau Vingando Ismênia. Sou Coautora em 13 antologias, incluindo o livro Encruzilhadas Suburbanas e a edição 45 dos Cadernos Negros. Organizei, juntamente com Pedro Machado, duas obras e sou autora do livro de contos Águas que passam não voltam.

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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Quando se descobriu negra?

JANAÍNA NASCIMENTO: Esse processo pra mim foi bem natural, desde a infância convivendo em meio a pessoas negras: família, parentes, amigos da rua e da escola, a sabedoria da minha avó e tias avós, morando em um bairro permeado por cultura preta e também por violência. Na adolescência os bailes funk, charme, os sambas, as escolas de samba, as festas no terreiro, os namoros com meninos também negros. As violências do racismo também nunca me fizeram esquecer, estampadas na hipersexualização, abordagens policiais, comportamento de professores, das falas sobre meu nariz e meu cabelo, das pessoas brancas que convivia, nos empregos. Chego à universidade sem ter a minha própria negritude como novidade, eu sempre soube, desde a infância e a vida, o convívio social, as violências sofridas, nunca me deixaram esquecer disso.

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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Como a sua ancestralidade estão nos seus escritos?

JANAÍNA NASCIMENTO: A minha ancestralidade está sempre presente e viva em meus escritos, trago histórias de nós, de pessoas que acertam, que erram, sem mocinhas, ou vilões, apenas pessoas negras, periféricas, em uma perspectiva humanizada, livres de estereótipos. Ali têm histórias da minha avó Arlete, minhas, de amigos e amigas, familiares, pessoas que cruzo no trem, de amores que vivi ou acompanhei, escrevivências que como diz Conceição Evaristo, não são histórias para ninar gente grande e sim incomodar o sono dos injustos. Também gosto muito de escrever sobre orixás e espiritualidade.

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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Qual é ou foram as suas relações com os seus pais?

Não conheci meu pai, o mesmo só ouviu meu choro, viu minhas fraldas penduradas no varal e roubou uma foto minha da casa de meu padrinho que era meu tio avô materno e também amigo dele. Infelizmente meu pai entrou nas estatísticas e com 38 anos foi assassinado brutalmente à tiros, quando eu tinha apenas 11 meses de idade. Esse também foi um demarcador da falta de sensibilidade das pessoas nas escolas, na minha infância. A relação com minha mãe, tem conflitos, como qualquer relação, mas ela foi uma incentivadora e grande responsável por me ensinar valores muito importantes na vida.

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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Qual é, na sua opinião, a função social da sua literatura?

A função social da literatura deveria ser a de trazer pertencimento. Ela está muito além do entretenimento. Mas, sabemos como durante muito tempo fomos tratados nas obras literárias. O livro no Brasil também não é barato e de acesso democrático a todos. Felizmente a gente vem caminhando, um processo que não foi fácil. Mas, hoje nossas crianças podem se enxergar também nos livros: sua cor, seu cabelo, suas variadas famílias, lugares de onde vem, angústias. Seguiremos!

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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Como é você leitora?

JANAÍNA NASCIMENTO: Aprendi a ler e escrever entre quatro e cinco anos e desde então não parei. Minha mãe achava estranho uma menina tão pequena, que vivia com a cara enfiada em livros e revistas em quadrinhos e me mandava ir brincar. Tenho um gosto variado, gosto muito de ler contos, poesias e crônicas, leio muito meus amigos e amigas, que constroem comigo nos coletivos e fora deles. Nos últimos dois anos precisei mergulhar nas referências biográficas para a minha dissertação de mestrado, composta majoritariamente por autoras e autores negros.

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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Quais suas negras influencias?

JANAÍNA NASCIMENTO: Nossa… São muitas, como disse anteriormente tenho a honra de conviver e construir com pessoas das quais também sou fã e leitora, como os escritores que compõem o Rolé Literário e as escritoras que compõem o Vingando Ismênia, dentre outros. Conceição Evaristo, Carolina Maria de Jesus, Cidinha da Silva, Elizandra Souza, Sergio Vaz Cuti, Ele Semog, Lima Barreto, Machado de Assis, são grandes inspirações, nossa fica até difícil de escolher alguns para citar… Você também é uma grade inspiração.

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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Qual foi o seu primeiro e decisivo ato literário?

JANAÍNA NASCIMENTO: Eu já conhecia pessoas do meio literário. Mas, creio que foi escutar o conselho de uma pessoa do campo das artes, que me relacionei e apreciava muito a minha escrita e transformar a minha página no Instagram em uma página para divulgar meus escritos (hoje a página leva meu nome, mas inicialmente se chamava Escrevivências da Alma, em homenagem a Conceição Evaristo), em meio a Pandemia da COVID -19, em 2020. A partir daí meus escritos começaram a circular, conheci pessoas, em 2021 comecei a publicar e também articular cultura, e até hoje sigo nessa jornada literária.

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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Como é, para você ser uma escritora negra no Brasil?

JANAÍNA NASCIMENTO: Nossa… É buscar aprimoramento, espaço, subverter estereótipos, não estar nas caixas que querem nos colocar, é batalhar diariamente por espaço, oportunidades, reconhecimento e circulação da minha obra. Mas também ter a alegria de ver outras pessoas se reconhecendo na minha escrita, sentindo pertencimento e se encorajando também a escrever.

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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Para que e quem você escreve?

JANAÍNA NASCIMENTO: Escrevo porque transbordo! Precisamos contar as nossas histórias a partir das nossas próprias e negras narrativas. Escrevo histórias de nós, do nosso cotidiano que é permeado pela dor, mas não se resume a ela. Então tem lutas, mas tem amor, prazer, alegrias, ancestralidade, etc. Escrevo para pessoas que vivem e se identificam com essas histórias.

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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Inspiração ou transpiração?

JANAÍNA NASCIMENTO: Creio que a inspiração e a transpiração, principalmente nos dias atuais, fazem parte e são fundamentais no processo.

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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Qual é o seu processo de escrita?

JANAÍNA NASCIMENTO: Peculiar rs. Depende muito do gênero que estou escrevendo. Mas quando a inspiração chega, seja na madrugada, no trem, em uma festa, eu já começo a rascunhar aquele texto ou aquela poesia. Tem contos que organizo mentalmente e depois passo para o papel. Quando são textos, resenhas encomendadas o processo já é outro.

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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Tem um narrador ou eu lírico que sempre utiliza em seus escritos?

JANAÍNA NASCIMENTO: Tem sim, mas se aprofundar, entrego algo que interliga os meus contos rs.

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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Quais são os seus principais temas?

JANAÍNA NASCIMENTO: Amor, prazer, lutas, cotidiano dos nossos e das nossas, subúrbios, memórias da infância, ancestralidade.

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NOTAS DE ESCURECIMENTO: O que também se faz palavras em seus escritos?

JANAÍNA NASCIMENTO: O afeto.

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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Como foi e é para você a publicação de um livro?

JANAÍNA NASCIMENTO: Sempre um processo, uma emoção diferente a cada publicação. O livro publicado, para além da perspectiva da carreira literária, também é um sonho materializado.

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NOTAS DE ESCURECIMENTO: De que maneira você vê a representação de personagens e narrativas negras evoluindo na literatura brasileira atual?

JANAÍNA NASCIMENTO: De uma maneira positiva, que precisa seguir se expandindo, foi uma caminhada fácil, não! Ainda tem muito a se percorrer, mas a ´partir do momento em que os que chegaram antes nos abriram portas, nos vemos representados nos personagens e nas narrativas, não mais pelo olhar de quem nos oprime, pelo olhar do julgamento e do estereótipo, mas pelas nossas afro perspectivas. As editoras que se especializaram em publicações das negras escritas também são uma importante conquista.

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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Poderá nos oferecer sete ou mais livros, de autoras negras brasileiras e de autores negros brasileiros, que na sua opinião, são fundamentais?

JANAÍNA NASCIMENTO: Literatura negro- Brasileira – Cuti

Olhos d´água e Insubmissas lágrimas de mulheres- Conceição Evaristo

Cadernos Negros (45 edições) – Quilombhoje

Um defeito de cor – Ana Maria Gonçalves

Quarto de Despejo- Carolina Maria de Jesus

O Pacto da branquitude- Cida Bento

O triste fim de Policarpo Quaresma – Lima Barreto

Amor e outras revoluções – Organização de Ele Semog (Grupo Negrícia)

O menino Nito – Sônia Rosa

Ashanti : Nossa Pretinha – Taís Espírito Santo

Da minha Janela – Otávio Júnior

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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Ofereça, por gentileza, sete ou mais figuras negras brasileiras importantes na sua opinião:

JANAÍNA NASCIMENTO: Azoilda Loretto da Trindade, Nilma Lino Gomes, Roberto Borges, Ivanir dos Santos, Renato Noguera, Helena Theodoro, Conceição Evaristo, Carolina Maria de Jesus, Abdias do Nascimento, Nei Lopes … são tantas…

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Instagram: Instagram.com/janainanascimentoescritora

Matéria do acervo do Portal Afro, publicada originalmente em 14 de junho de 2025.

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