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CulturaColuna, Entrevista

NOTAS DE ESCURECIMENTO POR ESCRITO – Maria Luiza da Silva Hastenreiter

NOTAS DE ESCURECIMENTO POR ESCRITO – Série de questões enviadas para pretas escritoras negras e negros escritores pretos que gentilmente responderam

Por
· 11 min de leitura

Escritora de hoje: Maria Luiza da Silva Hastenreiter


MAIS UMA MARIA

Maria Paula benzedeira,

com mãos cheias de graças,

foi a primeira que nos abençoou.

Maria Augusta seguiu o irmão,

vieram de muito longe,

novo destino traçado,

nova vida, nova missão.

Maria dos Anjos pagou um preço alto,

curou no seu próprio ventre

as dores causadas pelo colonizador.

Maria Antônia fez o contrário:

com muita liberdade

seus seios nos alimentou.

A outra Maria abdicou do nome,

traçou novos rumos,

escolheu o caminho pelo qual andou.

Diferente foi sua história,

pois através da maternidade, nesse mundo, se afirmou.

Eu sou mais uma Maria,

construtora de minhas próprias pontes,

curo-me ressignificando as memórias de dor.

Para cada batalha tivemos uma vitória,

cada momento de solidão

serviu para a execução

daquilo que já foi sonho

e hoje é presente provedor.

Agradeço a cada uma pela independência recebida.

E de posse dessa liberdade, peço

a bênção de minha mãe e minhas avós queridas.

Nos protejam mulheres benditas

em nome do sagrado amor,

dom da vida.

CONVERSAS

NOTAS DE ESCURECIMENTO: Por gentileza, se apresente:

MARIA LUIZA DA SILVA HASTENREITER: Eu me chamo Maria Luiza da Silva Hastenreiter, sou cria de Caxias – Baixada Fluminense -, filha da dona Tania e do seu Luiz, neta das donas Marias, irmã da Ludmila e mãe do Lupe. Sou educadora por vocação desde os quinze anos, e por formação desde 2009. Atuo como professora de português na SEEDUC RJ desde 2014. Mestra em literatura brasileira, ofereço oficinas e palestras sobre culturas e literaturas negras. Publico materiais didáticos desde 2013 e ficções desde 2023 em antologias de variados gêneros literários.

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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Quando se descobriu negra?

MARIA LUIZA DA SILVA HASTENREITER: Não me descobri negra porque fui educada como uma menina negra, sabendo que era negra, com todas as nuances desse recorte social, inclusive o racismo. Mas naquela época, anos 1980 – 1990, não se falava sobre questões raciais como se fala hoje. Na minha cidade ainda havia muito resquício da ditadura e da tal “democracia racial”. Além disso, por ter a pele mais clara, me via sempre num não-lugar, não era pertencente aos espaços de resistência e nem me sentia à vontade nos núcleos de pessoas brancas. Por isso o letramento racial chegou aos poucos. Primeiro na escola, no pré-vestibular comunitário da EDUCAFRO, depois na universidade, tanto no enfrentamento ao racismo quanto no aprendizado sobre literatura africana. Mais tarde, em sala de aula, já praticava uma educação antirracista, mas sem a consciência da importância que esse trabalho teria na vida daqueles adolescentes. Acredito que a partir de 2012 iniciei as leituras que ainda me auxiliam na compreensão do que é ser uma pessoa negra e periférica no Brasil. Mas agradeço muito à minha mãe que nunca permitiu que caíssemos na conversa racista “você não é negra, é morena”, e nos ensinou a termos orgulho do nosso cabelo e dos nossos traços. Alguns professores também fizeram a diferença na minha vida e sou muito grata pela oportunidade de aprender com essas pessoas.

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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Como a sua ancestralidade está nos seus escritos?

MARIA LUIZA DA SILVA HASTENREITER: Está sempre presente, seja em prosa ou em verso. Tenho o hábito de refletir sobre as questões sociais quando escrevo e, constantemente, releio meus textos pensando que mulheres que não tiveram acesso à educação formal, como as minhas avós, precisam se identificar com o que eu escrevo. É a partir daí que a minha ancestralidade aparece na minha literatura. Para além disso, tenho alguns textos que contam as histórias das mulheres da minha família, como o poema “Mais uma Maria” e outros que homenageiam as yabás como “Yoni”. Acredito na força dos orixás como uma força ancestral e, por isso, creio que estou homenageando toda a minha ancestralidade quando falo delas ou para elas, até mesmo aqueles de quem nunca ouvi falar estão representados ali.

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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Qual é ou foram as suas relações com os seus pais?

MARIA LUIZA DA SILVA HASTENREITER: Costumo dizer que sou fruto de, pelo menos, dois matriarcados. Não conheci nenhum dos meus avôs, apesar de admirá-los por suas histórias de superação, cresci entre mulheres. Os homens raramente estavam presentes e quando estavam era nos momentos de lazer. Eram as mulheres quem tomavam as decisões importantes, tomavam conta da casa, das crianças e decidiam sobre o que podia e o que não podia. Meus pais se separaram quando eu era ainda muito criança, então não convivi muito com meu pai. Ele estava sempre trabalhando e quando ficávamos juntos não havia muito assunto. Na fase adulta é que passei a ter mais contato com ele, mas quando a coisa aperta, ou precisamos tomar alguma decisão importante, ainda recorremos à mamãe.

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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Qual é, na sua opinião, a função social da literatura?

MARIA LUIZA DA SILVA HASTENREITER: Acredito que possam ser várias, mas a mais importante para mim é o despertar para novos mundos, outras ideias e diferentes contextos sociais. Através da emoção transmitida pela ficção há uma identificação do leitor com personagens tão diferentes e distantes das nossas realidades, acredito que seja um bom caminho para falarmos sobre assuntos difíceis ou que teoricamente não nos interessaria. Nesse sentido, a literatura pode conferir destaque social a pessoas empobrecidas e marginalizadas socialmente, como as personagens de Carolina de Jesus por exemplo.

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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Como é você leitora?

MARIA LUIZA DA SILVA HASTENREITER: Eu sou leitora voraz, quando começo um livro não quero parar de ler até a última página, inclusive leio muito no transporte público. Mas se preciso ler algo que não me agrada, tenho que intercalar com outra leitura para que finalize, caso contrário ficará pela metade. Gosto muito de ler mulheres, desde criança lia Cecília Meireles, mas me apaixonei por Raquel de Queiroz e Clarice Lispector, os únicos livros de escritor negro que tive acesso naquele período foi Machado de Assis. Hoje leio mais escritoras negras, inclusive por conta do meu campo de pesquisas e atuação profissional, gosto muito de Carolina de Jesus, Miriam Alves, Geni Guimarães. Acho que eu gosto da forma como as mulheres escrevem as amarguras da vida, aquelas situações ruins que precisamos vencer no dia a dia mesmo. Mas me agradam muito os contos do Cuti e do Stefano Volp (meu conterrâneo), a temática e a sutileza para tratar de temas difíceis, gosto bastante da forma como eles abordam as masculinidades e as questões raciais.

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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Quais suas negras influencias?

MARIA LUIZA DA SILVA HASTENREITER: Não conheci minha avó materna, Maria Antônia, não temos fotos dela, então a construção dessa mulher ficou por conta da nossa imaginação, ouvindo as histórias que minha mãe contava. Acho que a primeira vez que consegui imaginar uma conversa com a minha avó foi quando li Quarto de despejo pela primeira vez. A partir dessa experiência, entendo que as mulheres da minha família são minhas negras influências porque seus conselhos partem de um lugar subalterno que, na simplicidade e sem teorias mirabolantes, nos fizeram ocupar de forma digna espaços que não foram pensados para nós. Por essa identificação Carolina Maria de Jesus é uma forte influência na minha escrita. Para além disso, as feministas negras também me inspiram bastante, gosto principalmente de bell hooks e Audre Lorde. Na teoria literária me utilizo constantemente da Conceição Evaristo porque a admiro muito enquanto pesquisadora.

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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Qual foi o seu primeiro e decisivo ato literário?

MARIA LUIZA DA SILVA HASTENREITER: Acredito que me assumir como escritora, publicar meus escritos para que outras pessoas pudessem ler, ainda nas redes sociais mesmo, verbalizar que sou uma escritora negra, periférica, brasileira. Tudo isso carrega muito valor não só para mim como para outras mulheres como eu.

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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Como é, para você ser uma escritora negra no Brasil?

MARIA LUIZA DA SILVA HASTENREITER: É sobretudo um ato de resistência. Ao longo dos anos a gente passa por muitos desafios, as pessoas não olham para uma mulher negra e identificam uma escritora, como a dona Conceição Evaristo diz esperam que a gente dance, que cante, que cozinhe, até que sejamos amantes inesquecíveis, menos que a gente escreva. Meu maior prazer é quando uma mulher negra lê um poema meu e se sente mais livre, quando dou oficinas sempre finalizo com um momento de escrita criativa e ouvir outras mulheres negras me traz muita satisfação porque entendo que a caminhada não será interrompida e a literatura está se tornando um espaço mais democrático.

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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Para que e quem você escreve?

MARIA LUIZA DA SILVA HASTENREITER: Principalmente para outras pessoas negras, para que possamos sonhar, mas também estejamos despertos porque pessoas despertas realizam seus maiores sonhos.

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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Inspiração ou transpiração?

MARIA LUIZA DA SILVA HASTENREITER: Acredito que o ato da escrita começa com a inspiração, mas só se conclui com muita transpiração. Principalmente para quem trabalha para pagar as contas, corre para pegar a condução e, muitas vezes, escreve e lê e estuda de pé no ônibus, na fila do mercado ou enquanto cuida de outras pessoas. Muitas vezes escrevemos sobre aquilo que vemos durante o dia porque uma determinada situação de injustiça nos inspira sentimentos de revolta que só podem ser exorcizados de forma saudável através da palavra escrita. Inclusive essa palavra nos mantém mais seguros, para nós a oralidade se faz inviável em algumas situações. Depois de escrito aquele texto ainda precisa ser maturado, melhor trabalhado, lido e relido. Quantas vezes pesquisamos mais de um teórico para colocarmos uma expressão num texto ficcional, portanto a transpiração sobrepõe a inspiração.

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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Qual é o seu processo de escrita?

MARIA LUIZA DA SILVA HASTENREITER: Em geral, algum tema me inspira, eu escrevo alguma coisa ou no bloco de notas do celular, ou nos meus cadernos, que sempre estão na mochila durante a semana. Depois, quando tenho um tempo vou relendo e reescrevendo os pedaços até virar um texto que eu acredite estar pronto para ser lido por mais alguém. Isso leva tempo porque sou perfeccionista.

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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Tem um narrador ou eu lírico que sempre utiliza em seus escritos?

MARIA LUIZA DA SILVA HASTENREITER: Meu eu lírico é uma militante, já tentei me desvencilhar dessa identidade, mas ainda não consegui, estou no processo.

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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Quais são os seus principais temas?

MARIA LUIZA DA SILVA HASTENREITER: Questões sociais, principalmente atravessamentos de raça e gênero. Também escrevo literatura erótica, mas sempre com esse viés da liberdade do corpo feminino que julgo ainda ser muito importante.

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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Como foi e é para você a publicação de um livro?

MARIA LUIZA DA SILVA HASTENREITER: Uma vitória, um sonho realizado, uma conquista familiar. Venho de uma longa linhagem de empregadas domésticas, minha bisavó era empregada doméstica, minha avó era empregada doméstica, minha mãe foi empregada doméstica, eu sou professora, escritora e palestrante. Então quando um livro é publicado, seja uma coletânea da qual participo, seja de qualquer outro escritor/a é a conquista de toda uma família, sinto meus ancestrais atrás de mim vibrando e comemorando junto comigo, orgulhosos de quem eu me tornei.

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NOTAS DE ESCURECIMENTO: O que também se faz palavras em seus escritos?

MARIA LUIZA DA SILVA HASTENREITER: Principalmente o desejo de liberdade. Mas não é qualquer liberdade é a liberdade de ser quem quiser, de ser feliz, de ser respeitada sendo alguém feliz, realizada e livre.

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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Poderá nos oferecer cinco livros, de autores negros brasileiros, que na sua opinião, são fundamentais?

MARIA LUIZA DA SILVA HASTENREITER: Juntar pedaços da Miriam Alves*, Homens negros (não) choram* do Stefano Volp, Macabéa: flor de mulungu da Conceição Evaristo, Poemas ynacabados da Esmeralda Ribeiro e a Coletânea de poesias do Prêmio Conceição Evaristo de literatura da mulher negra 2ª edição, do qual eu tive o prazer de participar.

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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Aponte, por gentileza, cinco figuras negras brasileiras importantes?

MARIA LUIZA DA SILVA HASTENREITER: Esperança Garcia, Zumbi dos Palmares, Maria Firmina dos Reis, Nilma Lino Gomes e Beatriz Nascimento. Enquanto educadora percebo que essas figuras deveriam ser amplamente conhecidas e estudadas nas salas de aula.

Matéria do acervo do Portal Afro, publicada originalmente em 15 de fevereiro de 2025.

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