NOTAS DE ESCURECIMENTO POR ESCRITO – Dayo e a Ejomiran
Há muito tempo… muito mesmo… quando o mundo engatinhava e a terras eram de todos nós, ocorreu esta história.
Por Plinio Camillo
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DAYO E A EJOMIRAN por Plínio Camillo
Há muito tempo… muito mesmo… quando o mundo engatinhava e a terras eram de todos nós, ocorreu esta história.
O lugar era entre lá, muito longe, e cá, muito pertinho.
De repente!!!!
Sem nenhum aviso: Houve uma enorme seca!!
Õran, o Sol, pelos motivos dele, ficou mais forte, vigoroso e raivoso. O mormaço era fervilhante. Ardia.
Queimava.
Maltratava.
Condenava
As pessoas.
Os bichos.
As plantas foram caindo, minguando, virando poeira e fumaça. Falecendo.
Só a menor das meninas da aldeia ficou em pé: Dayo, aquela que traz a alegria.
Só aquela que parecia ser a mais fraquinha.
Magrinha.
Levinha, foi a que cuidou de todos!
Ela tristemente testemunhou:
A cartaxo-nortenho caminhando de cabeça baixa.
A chita do Sahara que parou de correr.
A gazela-dama sem fôlego não conseguir fugir.
As crianças em silêncio.
As esperanças sucumbirem.
Mães faltarem.
Muitas aves expirarem.
Muitas flores desaparecerem.
O antílope sem nada comer.
O falcão-lanário parando de suspirar.
Os chefes fracassarem.
Os desejos se minguarem.
Os guerreiros desacorçoar.
Os lagos secarem.
Os sonhos perecerem.
Os velhos zunindo viram as cachoeiras se acabarem.
Nada pôde fazer.
Dayo, muito aborrecida, só resolveu andar.
Seca, tinha uma esperança de existir um lugar melhor do que aquele.
Um lugar tão bom quanto o seu era.
Tinha passo que acreditava que iria encontrar.
Outro passo tinha certeza de que não.
Resolveu andar para não se entregar.
Por algum tempo, andou até as pernas fraquejarem. Começou a engatinhar.
Ainda mais cansada, só conseguia se arrastar.
Até que, não aguentando mais, parou, respirou com dificuldade.
Arrastou um pouco mais e ficou deitada no chão quente, constatando que nada encontrou. Que nada valeu o tempo de caminhada. Que não tinha mais ninguém. Que não iria crescer e virar uma mulher. Guerreira.
Uma pequena lágrima saiu de seu olho esquerdo.
Quando caiu, encontrou uma grande pedra redonda e lisa. O encontro foi silencioso, porém, potente: Rachou a pedra e Dayo, maravilhada, viu sair dali um pequeno pardal.
Diferente de todos que ela tinha visto antes, esse era muito colorido. Com todas as cores e os tons que tinha visto e até que nunca havia admirado.
Alegre e feliz.
— Como vai? — Cantarolou o pardal festivamente.
Dayo não conseguia responder, porém, maravilhada sorriu.
— Novidades? — A menina apenas balançou negativamente a cabeça. — Então, vamos procurar novidades. — O pardal cantou uma canção.
A cantiga e a companhia fizeram Dayo se levantar.
Andar mais um pouco.
Apesar da profunda tristeza, com um pardal amigo, tudo parecia mais fácil.
— O que lhe entristece, amiga?
— Sede!
O Pardal olhou em volta e percebeu a seca que se abatia por ali.
Aflito, voou em direção aos céus.
E assim volteou até cansar!
Passou por todas as nuvens.
Lembrava da amiga e não desistia.
Até que as forças acabaram.
Caiu como uma pesada lágrima!
Desceu muito mais rápido do que subiu.
Durante a queda, Pardal pensava na amiga.
Durante a queda, Pardal rezava pela amiga.
Assolou perto da menina.
Foi um enorme estrondo que formou um enorme buraco.
A menina ficou surda. seca pela poeira levantada e mais triste ainda!
Naquele escuro buraco estava seu último amigo. Seus joelhos fraquejaram, toda a alegria e as suas forças foram embora.
Era o seu fim.
Dayo ficou ali, esperando o seu termino.
Por muito tempo.
Dormiu.
Despertou com a voz longínqua do amigo.
Quando abriu os olhos, viu o pardal, muito maior, boiando em uma lagoa de águas límpidas. Do buraco, jorrava água!
Sedenta pulou e bebeu o que pôde.
Brincou, cantou, dançou e agradeceu. Lembrou-se do amigo e o procurou.
Viu que o Pardal estava transformado.
Uma Ejomiran: O amigo Pardal agora era uma grande cobra com todas as cores ao mesmo tempo misturadas e ao mesmo tempo separadas. Dayo se assustou, quis fugir, mas Ejomiran falou, carinhosamente.
— Amiga, dentro de mim sou o mesmo, agora posso lhe ajudar melhor!
—Trouxe felicidade.
A Ejomiran sentiu uma tremenda fome e rapidamente começou a comer a terra. Comia com muito vigor e muito apetite.
Uma grande vala ia se formando e a água saía do buraco, enchendo tudo.
A cobra devorava a terra e Dayo o seguia admirada.
Ao mesmo tempo, Ejomiran vomitava e ia fertilizando a terra seca.
Surgiram plantas, capins e árvores.
Fez isso por muitos dias!
Vieram bichos.
Outras aves.
Insetos
Vida!
Novas pessoas. Novas crianças. Novos velhos.
De vez em quando, paravam para conversar, cantavam, brincavam. Porém, a fome recomeçava e voltava a comer.
Passados algum tempo, conseguiu formar vários rios, córregos e ribeirões.
Brincava daqui para lá e de lá para cá. Até que a terra refloresceu e a Ejomiran voltou a ser um pardal e Dayo começou a crescer.
Matéria do acervo do Portal Afro, publicada originalmente em 8 de fevereiro de 2025.





