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NOTAS DE ESCURECIMENTO POR ESCRITO – Márcia Cristina Leite Rosa

NOTAS DE ESCURECIMENTO POR ESCRITO – Série de questões enviadas para pretas escritoras negras e negros escritores pretos que gentilmente responderam

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· 13 min de leitura

NOTAS DE ESCURECIMENTO POR ESCRITO – Márcia Cristina Leite Rosa
Foto: Acervo Portal Afro

Escritora de hoje: Márcia Cristina Leite Rosa

RIQUEZA DO BRASIL

Ela cresceu sabendo que era uma princesa. Não de contos de fadas, mas de todos que a conheciam.

Fora uma criança muito bonita, doce e inteligente. Seus pais se orgulhavam, pois sua personalidade se destacava em todos os lugares. Ninguém resistia à menina de pele cor de chocolate e brilhantes olhos verdes.

Agora, aos 14 anos, ouvia as pessoas dizerem que parecia uma modelo das passarelas. Gostava de ser querida, tinha entrada em todos os grupos sociais, distribuía simpatia por onde quer que andasse.

Estudava num dos mais seletos colégios da Zona Sul do Rio e seus professores diziam que teria sucesso em qualquer faculdade que escolhesse. Era muito popular entre os alunos, que a apreciavam por ser muito inteligente, mas também linda e gentil.

Naquele último ano do Ensino Médio, o professor de História programara diversas aulas de campo. Sua turma visitara o Real Gabinete de Leitura, o Museu Nacional na Quinta da Boa Vista, percorrera o Paço Imperial e se deslumbrara no Museu Imperial em Petrópolis. Então, o professor anunciou o passeio mais distante; visitariam uma antiga fazenda cafeeira no município de Vassouras no Vale do Café.

O professor os preparara. Mostrara em lindas fotografias o prédio do século XIX que visitariam, as entradas das fazendas ladeadas por palmeiras imperiais, trajes usados pelos barões do café e suas famílias, assim como uma pequena biografia do antigo proprietário da fazenda. Voltariam quase 150 anos na história do Brasil e conheceriam a riqueza produzida pelo Ciclo Áureo do Café.

Na manhã do passeio, ela estava muito excitada. Não só visitariam o interior do estado, como no ônibus iria sentada com o garoto mais interessante e bonito do colégio, com seus longos cabelos dourados! Vestiu uma calça jeans que abraçava seus quadris curvilíneos e uma blusa florida de amarelo que destacava lindamente a cor da sua pele. Na tarde anterior, retocara o alisamento das raízes do seu cabelo e passara uma prancha quente para deixa-lo lisinho e brilhante.

A viagem foi o que ela imaginara. Seu acompanhante era tão inteligente quanto ela e conversavam sobre os locais pelos quais passavam. Quando a fazenda apareceu, ambos responderam às perguntas da turma, enchendo o professor de orgulho.

Ela se maravilhou com o caminho para a sede da fazenda e suas palmeiras imperiais. O professor chamou a atenção da turma para as esculturas de leões que mostravam poder em frente à escadaria larga da residência. O prédio era magnífico, pintado de branco, dois andares que se alongavam em duas direções e janelas azuis originais do século XIX. Como ela, uma princesa, não ficaria encantada com aquela beleza?

E, como uma princesa, percorreu cada cômodo da casa. Os móveis no famoso estilo Chippendale, pareciam ter acabado de sair da fábrica. O lustre da sala principal era francês e seus pingentes eram de cristal Baccarat. E os quartos? Móveis elegantes, janelas brilhantes e um luxuoso ar de aconchego. Tudo isso mostrava que o cultivo de café trouxera muita riqueza para o país.

O guia da visitação mostrou os quadros da família antiga. Rostos sérios os olhavam do alto, vestidos com magnificência e usando joias de alto valor. Ela se lembrou do seu avô paterno, que se orgulhava das suas origens aristocráticas e da jornada da família pela história da República.

Um quadro destoava dos outros. Era de uma jovem negra com roupas brancas e curtas que deixavam ver os seus pés descalços. Duas crianças com trajes ricos seguravam sua saia e ela trazia nos braços um bebê louro. O guia explicou que era a aia dos filhos do último barão, no final do Brasil Imperial. Ela não gostou da pintura. Aquela mulher não parecia feliz; seus olhos miravam o expectador com uma sombra de tristeza e seus ombros estavam caídos.

Uma colega começou a falar da escravidão no Brasil e ela se afastou. Aquele era um assunto que não a interessava. Os anos da escravização dos negros estavam muito distantes da sua vida.

O passeio continuou, mas havia perdido um pouco do seu brilho. O guia explicou que depois da Abolição da Escravatura a fazenda sofrera uma grande queda financeira, mas logo se recuperara com a contratação dos ex escravizados, que não tiveram para onde ir. O homem, que mostrava ser familiarizado com aquele tema, discorreu sobre a difícil ascensão dos negros à uma vida digna no século que se seguiu e até os dias atuais.

Ela observou seus colegas. Todos estavam muito compenetrados no que o guia dizia. Então ele anunciou a parte da visita considerada a mais interessante pelos visitantes: a senzala!

Saíram pelos fundos da residência. Passaram pela enorme cozinha e desceram uma desgastada escada de pedra.

Ela percorreu a distância da casa até a senzala em silêncio. Nem o seu lindo cavalheiro dourado conseguiu tirá-la da introspecção. O rosto da jovem negra no quadro não saía da sua mente.

Quando chegaram na senzala percebeu a grande diferença entra aquela habitação e a casa-grande. O prédio baixo e longo era escuro e suas paredes irregulares. Ali viviam centenas de pessoas escravizadas, amontoadas, fosse no frio ou no calor.

 Espalhados pelo lugar estavam estranhos objetos que o guia explicou serem para o castigo dos escravizados. Enquanto ele contava da rotina dos negros na senzala, os colegas expressavam pena daquelas pessoas.

Para ela a senzala era sufocante. Cada canto representava uma prisão da qual ela não admitia ter relação. Aqueles objetos de tortura não se encaixariam na história da sua mãe, uma modelo famosa e nem na sua. Eram ricas, frequentavam um clube exclusivo e possuíam amigos da alta sociedade.

A visita na senzala trouxe uma sombra na sua doce existência.

Quando saíram, os adolescentes se espalharam ao sol. Riam muito, zombando um do outro, ameaçando-se a sofrer torturas. Um colega atleta reclamou que não conseguiria viver comendo angu de milho todos os dias. Um outro respondeu que ele podia comer bastante banana e manga do pé.

Foram ver a cocheira e uma antiga carruagem e logo se esqueceram da escuridão da senzala. Ela não. Ela lembrava de cada detalhe do que o guia falara. Lembrava-se da humilhação que os negros sofriam, das torturas, da fome. E o homem falara de jovens que eram submetidas à luxúria dos seus senhores? Falara. De jovens como ela.

Enquanto os colegas se revezavam na carruagem, ela olhou ao redor. Há muito, muito tempo, uma garota negra estivera em pé naquele mesmo lugar. Mas aquela garota não vestira roupas descoladas, sua pele não era tratada com cosméticos caros e nem poderia escolher o que fazer e a quem amar.

Observou seus colegas se divertindo. Nunca se dera conta, mas era a única aluna negra em sua turma. Para falar a verdade, conhecia apenas mais dois alunos do colégio que eram negros; um era filho do embaixador de Moçambique.

De repente, alguns momentos de conversa passaram por sua mente. Você estuda aqui mesmo? Seu cabelo é aplique ou alisado? Eu tenho outro amigo negro. É verdade que gente da sua cor demora a envelhecer? Você deveria ser atleta. E ela ria sempre que ouvia.

Quantas outras frases sutis não ouvira durante sua vida? Quantas vezes causara estranheza por estar em alguns espaços e nem sabia o porquê? Pensou na Jussara e no Roberto que limpavam as mesas do refeitório do colégio, onde ela e os seus colegas deixavam os restos dos seus lanches. Lembrou-se do seu Roque, o porteiro, que ouvia impropérios pela manhã dos alunos que chegavam quando o portão já estava fechado. E, claro, recordou o rostinho negro e lustroso do Henrique, o filho da empregada, que tinha a escola paga por seu pai.

Olhou novamente para o casarão. Por uma casualidade temporal podia entrar ali, sentar nos sofás caros e desconfortáveis e se olhar no espelho de cristal veneziano. Por um pouco mais de um século espanaria o sofá e limparia o espelho, já que era bonita e simpática. Por um pouco mais de um século seria um brinquedo sexual do filho do barão do café. E, se não fosse tão bonita, trabalharia de 12 horas na lavoura construindo a riqueza do Brasil.

Por uma questão de oportunidade dada à sua mãe morava num duplex no Leme e não no Morro da Babilônia.

Sempre tinha a diversão que queria, estudava no colégio mais tradicional, comprava roupas não importando o quanto custavam e usava um tênis importado. Tinha tudo que considerava mais importante.

Um peso se abateu sobre ela; um que a unia ao seu Roque e à Jussara. Acariciou seu rosto. Era lindo, era macio, mas a cor dele podia torna-la uma pária em alguns lugares. Respirou fundo. Não. Nunca se conformaria à situação de um escravizado. Seu povo lutou e sofreu por uma igualdade que até hoje buscava. Por que ela deveria se abater pela estranheza entre os seus pares na sociedade? Por que não se reconhecer no filho da empregada?

Olhou novamente para os colegas de turma. Ainda era a Adriana Elizabeth de Aires e Couto. Ainda usava suas roupas de grife. Ainda convivia com os filhos da nata da sociedade. Entretanto agora se sentia investida de uma herança que nunca reconhecera, mas da qual fazia parte.

Agora reconhecia que a sua pele era negra, sua consciência humana e sua força ancestral.

CONVERSAS

NOTAS DE ESCURECIMENTO: Por gentileza, se apresente:

MÁRCIA CRISTINA LEITE ROSA: Meu nome é Márcia Cristina Leite Rosa, carioca do Castelo e cria da Baixada Fluminense. Tenho 55 anos. Sou mãe de uma bênção de filha, a Gabriela Leite. Sou professora da rede municipal de Petrópolis. Me considero uma escritora de romances femininos, porém o trabalho não me permite escrever no tempo que eu gostaria. Pertenço à uma denominação evangélica desde criança.

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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Quando se descobriu negra?

MÁRCIA CRISTINA LEITE ROSA: Passei minha infância e adolescência sem me importar com a questão da cor da minha pele. Sempre acreditei na meritocracia e consegui vencer no que me propus. Somente quando vim para Petrópolis notei que os brancos me tratavam com condescendência, como se fosse um favor eu ocupar o mesmo espaço que eles. Então há alguns anos num mercado uma mulher branca me pediu para pegar pães. Educadamente eu expliquei que não era funcionária. Foi quando percebi o olhar da minha filha; ela mostrava raiva. E me perguntou: Você viu que acabou de sofrer racismo? E eu vi! Depois revisitei vários acontecimentos na minha vida e “descobri” que a cor da minha pele incomodava algumas pessoas.

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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Como a sua ancestralidade estão nos seus escritos? Qual é ou foram as suas relações com os seus pais?

MÁRCIA CRISTINA LEITE ROSA: Meu pai, negro, foi criado por uma família branca. O ideal de beleza dele é o branco. Minha mãe nasceu em Pernambuco e não foi criada dentro da cultura nordestina. Logo, cresci numa casa no qual não se reverenciava a ancestralidade, tanto negra quanto nordestina. Eu também via o mundo constituído por brancos e dentro dos ideais que os brancos propagavam, na cultura ou na beleza. Também através da minha filha me conscientizei de que meus personagens eram brancos, a cor tida como a universal. Em 2020 eu havia iniciado um romance histórico, cuja protagonista tinha uma prima escravizada. Minha filha me perguntou por que a negra não era a protagonista e “meus olhos se abriram”. Por que em tantos textos, apenas uma personagem era morena? Não foi fácil, mas hoje já tenho um romance publicado por uma grande plataforma de autopublicação.

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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Qual é, na sua opinião, a função social da sua literatura?

MÁRCIA CRISTINA LEITE ROSA: A literatura, assim como o cinema e televisão, auxiliam a se formar a cultura. O que é o belo, o sábio, o vantajoso pode ser ensinado e moldado pela literatura.

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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Qual foi o seu primeiro e decisivo ato literário?

MÁRCIA CRISTINA LEITE ROSA: Minha abertura do Mar Vermelho foi o romance O Tempo e a Verdade. A protagonista é negra. O enredo, passado entre os Anos Dourados e os Anos de Chumbo, é traçado pelo racismo que separa o jovem casal.

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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Como é você leitora?

MÁRCIA CRISTINA LEITE ROSA: Sou literalmente viciada em leitura. Ler me traz prazer, mexe com as minhas emoções e levanta questionamentos sobre vivências que tive ou não. Não cogito passar um dia sem ler.

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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Como é, para você ser uma escritora negra no Brasil?

MÁRCIA CRISTINA LEITE ROSA: Estou apenas iniciando essa jornada, mas percebi que é esperado que uma autora negra escreva somente temas considerados sérios, como Conceição Evaristo ou Djamila Ribeiro.

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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Inspiração ou transpiração? Para que e quem você escreve?

MÁRCIA CRISTINA LEITE ROSA: No meu caso, mais inspiração. Meus textos surgem e se desenvolvem fluidamente.

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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Qual é o seu processo de escrita?

MÁRCIA CRISTINA LEITE ROSA: É engraçado, mas já escrevi a partir de sonhos. Também já escrevi fanfics, ou seja, sob a inspiração de outros textos e personagens. A ideia surge e começo a escrever, mas já iniciei textos que nunca concluí.

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NOTAS DE ESCURECIMENTO: O que também se faz palavras em seus escritos? Quais são os seus principais temas?

MÁRCIA CRISTINA LEITE ROSA: Meu principal tema é o amor, aquele amor marcante, que causa dor ao transformar os personagens, porém sempre com um alívio doce ou cômico.

Os gestos, como olhares ou reações mais físicas, como a excitação, também falam muito e alto nas minhas histórias.

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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Tem um narrador ou eu lírico que sempre utiliza em seus escritos?

MÁRCIA CRISTINA LEITE ROSA: Eu sou sempre a contadora da história, olhando de fora, mas explicando as emoções do personagem.

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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Como foram, para você, a publicação do seu primeiro livro e dos livros seguintes?

MÁRCIA CRISTINA LEITE ROSA: Minha vida de escritora parece uma colcha de retalhos. Comecei postando histórias como folhetins no antigo Orkut usando minhas amigas literárias como inspiração para as personagens. Somente em 2020 publiquei meu primeiro livro. Desde então escrevo numa plataforma e meus textos são gratuitos. O livro O Tempo e a Verdade representou a possibilidade de permitir a leitora por pessoas fora dos meus círculos de amizade.

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NOTAS DE ESCURECIMENTO: De que maneira você vê a representação de personagens e narrativas negras evoluindo na literatura brasileira atual?

MÁRCIA CRISTINA LEITE ROSA: Vejo surgirem personagens-gente. Personagens que podem ser eu e você.

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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Poderá nos oferecer sete ou mais livros, de autoras negras brasileiras ou autores negros brasileiros, que na sua opinião, são fundamentais?

MÁRCIA CRISTINA LEITE ROSA: Quarto de despejo de Carolina Maria de Jesus, Um defeito de cor de Ana Maria Gonçalves, Becos da memória de Conceição Evaristo, Pequeno manual antirracista da Djamila Ribeiro e o fantástico e pouco conhecido Úrsula de Maria Firmino dos Reis. Mas sinto muita falta de literatura mais recreativas, como as comédias românticas.

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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Quais suas negras influencias? E, sendo possível, aponte, sete ou mais figuras negras brasileiras importantes na sua opinião?

MÁRCIA CRISTINA LEITE ROSA: Para o meu nicho literário, o romance romântico, não tenho uma forte influência, mas Djamila Ribeiro me representa. Algumas figuras negras mexem com a minha imaginação, como André Rebouças, figura famosa no 2º Reinado; Maria Beatriz Nascimento, historiadora e fundadora do MNU; a atriz Ruth de Souza; o ex-presidente Nilo Peçanha e o juíz Joaquim Barbosa.

Matéria do acervo do Portal Afro, publicada originalmente em 21 de junho de 2025.

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