O reconhecimento internacional do Dia Internacional da Mulher ocorreu em 1975, quando a Organização das Nações Unidas passou a oficializar o 8 de março como data mundial de reflexão sobre os direitos das mulheres. No entanto, muito antes desse reconhecimento, diferentes acontecimentos e datas já marcavam a luta feminina no Brasil e no mundo.
O próprio 8 de março já era lembrado desde o início do século XX por trabalhadoras e movimentos operários. A data ganhou força após manifestações de mulheres durante a Revolução Russa, em 1917, quando operárias saíram às ruas em São Petersburgo reivindicando pão, paz e melhores condições de trabalho.
No Brasil, outra conquista importante ligada à participação feminina ocorreu com a aprovação do voto das mulheres no Código Eleitoral de 1932, durante o governo de Getúlio Vargas. A luta por esse direito teve como uma de suas principais líderes a cientista e ativista Bertha Lutz.
Entretanto, quando se observa a história social brasileira em perspectiva mais ampla, percebe-se que a emancipação feminina no país foi profundamente influenciada pela experiência histórica das mulheres negras, especialmente aquelas que viveram durante o período da escravidão e do pós-abolição.
Mulheres negras e a construção da autonomia feminina
Durante o período colonial e imperial, mulheres negras exerceram papel essencial na economia urbana brasileira. Muitas trabalhavam como ganhadeiras, quitandeiras, lavadeiras, cozinheiras e parteiras.
Em cidades como Salvador, Rio de Janeiro e Recife, essas mulheres circulavam pelas ruas vendendo alimentos, produtos e serviços, formando uma rede econômica própria.
Do ponto de vista histórico e econômico, estudos sobre a economia colonial indicam que o trabalho urbano dos escravizados movimentava parte significativa da vida econômica das cidades. As atividades das chamadas ganhadeiras garantiam abastecimento alimentar e circulação de mercadorias, além de gerar renda que em alguns casos foi utilizada para comprar a própria liberdade ou a de familiares.
Esse protagonismo econômico criou uma tradição de autonomia feminina que antecede muitos dos direitos conquistados posteriormente pelas mulheres brasileiras.
Liderança feminina negra e resistência histórica
A história da resistência à escravidão também revela importantes lideranças femininas negras. Uma das figuras mais emblemáticas é Dandara dos Palmares, que participou da organização política e militar do Quilombo dos Palmares, um dos maiores símbolos de resistência negra no Brasil colonial.
Outra personagem frequentemente lembrada na tradição histórica é Luísa Mahin, associada às articulações da Revolta dos Malês, levante ocorrido na cidade de Salvador no século XIX.
No campo cultural e religioso, mulheres negras também foram fundamentais na preservação das tradições africanas no Brasil. Nos terreiros de candomblé, lideranças femininas tiveram papel central na organização espiritual e comunitária. Entre elas destacam-se Mãe Aninha e Mãe Menininha do Gantois, referências históricas da religiosidade afro-brasileira.
Essas mulheres organizaram redes de solidariedade social, preservaram tradições africanas e fortaleceram comunidades negras em diferentes regiões do país.
Manifestações populares ligadas à presença feminina negra
A influência das mulheres negras também pode ser observada em importantes manifestações culturais e religiosas do Brasil.
Uma delas é a devoção à Nossa Senhora Aparecida, celebrada em 12 de outubro. A padroeira do Brasil foi encontrada por pescadores negros no rio Paraíba do Sul no século XVIII, e sua devoção tornou-se uma das maiores expressões populares de fé do país.
Outra grande manifestação popular ligada à presença feminina na religiosidade brasileira são as festas dedicadas a Iemanjá, realizadas em diversas cidades do Brasil. Nessas celebrações, milhares de mulheres e devotos participam de rituais, oferendas e procissões nas praias, celebrando a divindade das águas e a força simbólica do feminino nas tradições afro-brasileiras.
Essas celebrações mostram como a presença das mulheres negras ajudou a moldar importantes manifestações culturais que atravessam diferentes religiões e comunidades.
O 25 de julho e a valorização das mulheres negras
Outra data significativa ligada à valorização das mulheres negras é o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, celebrado em 25 de julho.
A data foi instituída em 1992 durante um encontro de mulheres negras realizado em Santo Domingo, na República Dominicana, e representa um marco importante na luta contra o racismo e o sexismo na América Latina e no Caribe.
No Brasil, a data também homenageia a memória de Tereza de Benguela, líder quilombola que comandou o Quilombo do Quariterê no século XVIII.
Heranças africanas do protagonismo feminino
O protagonismo das mulheres negras no Brasil também tem raízes profundas em tradições africanas trazidas pelos povos escravizados.
Entre os povos iorubás, presentes principalmente na Nigéria, mulheres ocupam posições espirituais importantes e estão associadas a divindades como Oxum, símbolo de fertilidade e prosperidade.
Entre os povos akan, predominantes em Gana, a organização social tradicional é matrilinear, onde a linhagem familiar é transmitida pelo lado materno e a figura da rainha-mãe exerce grande influência política.
Já entre os tuaregues, presentes em regiões do Saara como Mali e Níger, as mulheres são reconhecidas como guardiãs da tradição cultural e da memória oral.
Essas heranças ajudam a compreender que o protagonismo feminino negro no Brasil também representa a continuidade de tradições africanas que valorizavam a centralidade das mulheres na organização social.
O significado histórico do 8 de março
Quando o 8 de março foi oficialmente reconhecido pela Organização das Nações Unidas em 1975 como Dia Internacional da Mulher, a data já carregava décadas de mobilizações de trabalhadoras e movimentos sociais.
No Brasil, compreender essa história implica reconhecer a contribuição decisiva das mulheres negras que, desde o período da escravidão, participaram da economia urbana, lideraram resistências políticas e preservaram valores culturais fundamentais para a formação da sociedade brasileira.
A emancipação feminina no país é resultado dessa trajetória coletiva, marcada pela força, pela organização e pela capacidade histórica das mulheres negras de transformar a sociedade brasileira.

Fundador nascido em 07/06/1956, preto e empreendedor social e atual Presidente do Portal Afro em 2000, com larga expertise na elaboração de entrevistas, artigos, fotos e vídeos que hoje compõem o grande acervo do Portal Afro aberto a toda a sociedade.




















