Muito antes de Lionel Messi, existiu María Remedios del Valle. Uma mulher negra que lutou pela independência da Argentina e passou quase dois séculos esquecida pela história.
Quando pensamos na Argentina, é comum que venham à mente o futebol, os títulos mundiais e grandes jogadores. Em 2026, enquanto o mundo acompanha mais uma Copa do Mundo, um detalhe chama a atenção: a seleção argentina atual é frequentemente apontada pela ausência de atletas negros no seu time.
Essa observação nos leva a uma pergunta muito maior do que o esporte. Como um país pode celebrar seus heróis nacionais e, ao mesmo tempo, esquecer uma mulher negra que ajudou a conquistar sua independência?
Neste Julho das Pretas, vale lembrar uma personagem que durante muito tempo permaneceu invisibilizada nos livros de história. Seu nome era María Remedios del Valle, uma mulher negra que participou das guerras pela independência Argentina, recebeu reconhecimento de importantes líderes militares da época e, décadas depois, passou a ser oficialmente homenageada como uma das grandes heroínas nacionais.
Mais do que contar uma biografia, este texto é um convite para refletirmos sobre memória, identidade e sobre quem escolhemos lembrar.
Quem foi María Remedios del Valle?
María Remedios del Valle nasceu em Buenos Aires, por volta de 1766, quando o território ainda fazia parte do domínio colonial espanhol. Pouco se sabe sobre sua infância, realidade comum para pessoas negras naquele período, cujas trajetórias raramente eram registradas pelos documentos oficiais.
Sua história muda de rumo em 1810, quando começam os movimentos que dariam origem à independência Argentina.
Ela passou a acompanhar o Exército do Norte, inicialmente prestando assistência aos soldados. Preparava alimentos, cuidava dos feridos e auxiliava na logística das tropas. Com o passar do tempo, porém, sua participação deixou de ser apenas de apoio.
María passou a atuar diretamente nos combates.
Relatos históricos indicam que enfrentou batalhas decisivas, foi capturada pelas forças realistas, sofreu castigos físicos e conseguiu escapar para retornar ao exército patriota. Também perdeu familiares durante o conflito, incluindo marido e filhos.
Sua coragem chamou a atenção de um dos principais líderes da independência Argentina.

O reconhecimento de Manuel Belgrano
O general Manuel José Joaquín del Corazón de Jesús Belgrano, conhecido simplesmente como Manuel Belgrano, foi um dos comandantes militares mais importantes da independência Argentina e criador da bandeira nacional.
Belgrano reconheceu publicamente a dedicação e a bravura de María Remedios del Valle.
Segundo registros históricos, ele passou a chamá-la de “Madre de la Patria“, expressão que simbolizava seu papel de proteção aos soldados e sua dedicação à causa da independência.
Esse reconhecimento, no entanto, não foi suficiente para garantir que ela tivesse uma vida digna após o fim da guerra.
Isso mesmo, a Mãe da Pátria Argentina é uma mulher preta!
Uma heroína esquecida pelo próprio país
Terminados os conflitos, María Remedios del Valle viveu anos de extrema pobreza.
Documentos históricos relatam que ela chegou a pedir esmolas nas ruas de Buenos Aires.
Foi apenas na década de 1820 que o general Juan José Viamonte a reconheceu em condições precárias e iniciou uma campanha para que o governo lhe concedesse uma pensão pelos serviços prestados durante a guerra.
Após debates no Congresso argentino, María finalmente recebeu uma pensão militar.
Mesmo assim, sua história desapareceu gradualmente da memória nacional.
Como um país pode celebrar seus heróis e esquecer uma mulher negra que ajudou a conquistar sua independência?
Essa pergunta tem sido feita por diversos pesquisadores da história afro-argentina.
Ao longo dos séculos XIX e XX, consolidou-se na Argentina uma narrativa nacional baseada na ideia de um país predominantemente europeu. A intensa imigração europeia, somada às guerras, epidemias e mudanças nos métodos censitários, contribuiu para reduzir a visibilidade da população afrodescendente na narrativa oficial.
Hoje, historiadores mostram que pessoas negras participaram ativamente da formação econômica, cultural e militar da Argentina.
O esquecimento de María Remedios del Valle tornou-se um dos maiores símbolos desse apagamento histórico.
É necessário reconhecer que recuperar memórias de personalidade negras esquecidas também faz parte da construção de uma sociedade mais justa.

O reconhecimento oficial finalmente chegou
Nas últimas décadas, a Argentina iniciou um importante movimento de recuperação da memória afro-argentina.
Em 2013, foi sancionada a Lei nº 26.852, que instituiu o Dia Nacional dos Afro-argentinos e da Cultura Afro, celebrado em 8 de novembro, data da morte de María Remedios del Valle.
A legislação reconhece oficialmente sua importância histórica e busca valorizar as contribuições da população afrodescendente para a formação do país.
Além da lei, María recebeu diversas homenagens.
Seu nome passou a integrar escolas, monumentos, espaços públicos e produções acadêmicas. Sua história também voltou aos livros didáticos e aos debates sobre identidade nacional.
O título de Madre de la Patria ganhou força como símbolo de uma mulher que ajudou a construir a nação argentina, mas que permaneceu invisível por tempo demais.

O que essa história tem a ver com o Julho das Pretas?
Tudo!
O Julho das Pretas é um período dedicado à valorização das mulheres negras, de suas trajetórias, saberes e contribuições para a sociedade.
María Remedios del Valle representa exatamente isso.
Ela rompeu barreiras impostas pelo racismo, pelo colonialismo e pelo patriarcado de sua época. Lutou em um contexto extremamente hostil para mulheres negras e pagou um alto preço por essa participação.
Lembrar seu nome durante uma Copa do Mundo também amplia nossa compreensão sobre identidade nacional.
Antes das camisas, dos estádios e dos títulos mundiais, existiram pessoas que ajudaram a construir os próprios países que hoje disputam o maior torneio do futebol.
Nem todas aparecem nas fotografias oficiais, nem todas ganharam monumentos no tempo em que viveram, mas suas histórias continuam existindo.
A história de María Remedios del Valle nos lembra que memória também é uma forma de justiça.
Nenhuma nação é construída apenas por seus personagens mais famosos. Ela também é construída por mulheres anônimas, por pessoas negras cujos nomes foram silenciados e por trajetórias que desafiam as versões simplificadas da história.
Neste Julho das Pretas, enquanto o mundo acompanha mais uma Copa do Mundo, talvez seja o momento de ampliar nosso olhar.
Porque antes de existir uma seleção campeã do mundo, existiu uma mulher negra que ajudou a construir a própria Argentina.
E seu nome merece ser lembrado.
Perguntas frequentes sobre María Remedios del Valle
Quem foi María Remedios del Valle?
Foi uma mulher afro-argentina que participou das Guerras de Independência da Argentina e é reconhecida como uma das heroínas nacionais do país.
Por que María Remedios del Valle é chamada de Madre de la Patria?
Porque sua dedicação às tropas e sua coragem durante a guerra levaram o general Manuel Belgrano a reconhecê-la como uma figura materna e essencial para a luta pela independência.
O que é a Lei 26.852 da Argentina?
É a lei que instituiu o Dia Nacional dos Afro-argentinos e da Cultura Afro, celebrado em 8 de novembro em homenagem a María Remedios del Valle.
A população negra participou da formação da Argentina?
Sim. Pesquisas históricas demonstram que afrodescendentes tiveram papel importante na economia, na cultura, nas forças militares e nas guerras de independência do país.
Por que María Remedios del Valle ficou esquecida por tanto tempo?
Especialistas apontam que a construção da identidade nacional argentina privilegiou durante muitos anos uma narrativa centrada na imigração europeia, reduzindo a visibilidade histórica das contribuições afro-argentinas.
E aí, você já conhecia a história de María Remedios del Valle, a Madre de la Patria da Argentina?
Um beijo e até o próximo post!

Colunista do Portal Afro
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