Nascido em 24 de junho de 1880, o líder da Revolta da Chibata transformou uma denúncia contra a violência racial em um dos maiores marcos da história brasileira

No dia 24 de junho lembramos o nascimento de João Cândido Felisberto, conhecido nacionalmente como o Almirante Negro. Nascido em 24 de junho de 1880, na então localidade de Encruzilhada, no Rio Grande do Sul, filho de pessoas ex-escravizadas, João Cândido entrou para a história ao liderar a Revolta da Chibata, movimento ocorrido em novembro de 1910 que denunciou os castigos físicos e as condições degradantes impostas aos marinheiros da Marinha brasileira, em sua maioria homens negros e pobres.
Mais de um século depois, seu nome continua associado à resistência, à luta por direitos humanos e ao enfrentamento das desigualdades raciais que marcaram os primeiros anos da República brasileira.
Celebrar a memória de João Cândido não é apenas recordar um personagem histórico. É revisitar uma página fundamental da história do Brasil e refletir sobre como determinadas estruturas de exclusão continuaram existindo mesmo após o fim oficial da escravidão.
A Marinha do Brasil como meio de emprego
Quando a escravidão foi abolida em 1888, muitos acreditavam que o país caminharia para uma sociedade mais justa. A realidade foi bem diferente. A população negra permaneceu excluída do acesso à educação, à terra, aos empregos qualificados e aos espaços de poder.
A Marinha do Brasil refletia essa contradição. Embora a escravidão tivesse sido oficialmente extinta, os castigos corporais continuavam sendo aplicados aos marinheiros. A chibata, instrumento de punição herdado do período escravista, ainda fazia parte da rotina disciplinar da corporação, apesar de sua proibição legal já ter sido discutida anos antes.
João Cândido ingressou na Marinha ainda muito jovem. Ao longo dos anos, destacou-se pela disciplina, pela competência técnica e pela liderança entre os companheiros. Durante sua trajetória, realizou viagens internacionais e teve contato com outras marinhas ao redor do mundo, observando formas de organização e tratamento bastante diferentes da realidade brasileira.
O estopim da revolta ocorreu em novembro de 1910, quando um marinheiro recebeu centenas de chibatadas como punição disciplinar. O episódio provocou indignação entre os tripulantes e acelerou um movimento que já vinha sendo articulado havia meses.
A Revolta da Chibata
Na noite de 22 de novembro de 1910, marinheiros tomaram o controle de importantes navios de guerra da frota brasileira, incluindo o encouraçado Minas Geraes, um dos mais modernos do mundo na época. Sob a liderança de João Cândido, os revoltosos exigiam o fim dos castigos corporais, melhores condições de trabalho e anistia para os participantes do movimento.
A imagem de homens negros assumindo o controle de alguns dos mais poderosos navios do país causou enorme impacto político.
A revolta colocou o governo federal diante de uma situação inédita. Os navios posicionados na Baía de Guanabara tinham poder de fogo suficiente para atingir a então capital da República.
Após dias de tensão, o governo aceitou as reivindicações e prometeu anistia aos participantes. Entretanto, pouco tempo depois, muitos marinheiros foram perseguidos, presos, expulsos da corporação e submetidos a novas punições. João Cândido também foi alvo da repressão estatal e passou anos enfrentando dificuldades para reconstruir sua vida.
Durante muito tempo, sua história foi silenciada.
A Revolta da Chibata como um histórico
A narrativa oficial frequentemente tratava a Revolta da Chibata apenas como um motim militar, ignorando seu profundo significado social e racial.
Nas últimas décadas, no entanto, pesquisadores, historiadores, movimentos sociais e instituições culturais contribuíram para recuperar sua trajetória. Hoje, João Cândido é reconhecido por amplos setores da sociedade como um símbolo da luta contra a violência institucional e o racismo estrutural.
Seu legado ultrapassa os limites da história militar.
João Cândido representa a coragem de questionar estruturas injustas mesmo diante de riscos pessoais enormes. Sua liderança demonstrou que a busca por dignidade não pode ser separada da luta por igualdade.
É impossível não perceber a atualidade de sua história.
O racismo institucional
Questões relacionadas à discriminação racial, à violência institucional e ao acesso igualitário a direitos continuam fazendo parte do debate público brasileiro. Por isso, lembrar João Cândido é também refletir sobre os caminhos que ainda precisam ser percorridos.
Outro aspecto pouco conhecido de sua trajetória é sua sensibilidade artística. Durante períodos de prisão, produziu bordados e trabalhos manuais que revelam uma dimensão humana muitas vezes esquecida por relatos tradicionais sobre sua vida. Esses registros ajudam a compreender a complexidade de um homem que foi simultaneamente marinheiro, líder político e artista.
Nos últimos anos, diversas iniciativas buscaram ampliar o reconhecimento de sua contribuição histórica. Monumentos, museus, documentários, livros e homenagens têm ajudado novas gerações a conhecer sua história e compreender seu papel na construção do Brasil contemporâneo.
Ao recordar o nascimento de João Cândido Felisberto em 24 de junho de 1880, não celebramos apenas um homem. Celebramos a memória de milhares de brasileiros negros que resistiram a um sistema que insistia em negar sua humanidade.
A história do Almirante Negro nos lembra que a dignidade nunca foi uma concessão. Ela sempre foi uma conquista construída por pessoas que tiveram coragem de enfrentar a injustiça.
Mais de cem anos depois da Revolta da Chibata, sua voz continua ecoando como um convite à memória, à consciência histórica e à construção de uma sociedade verdadeiramente democrática.
O que foi a Revolta da Chibata?
Foi um movimento liderado por marinheiros da Marinha brasileira contra os castigos físicos, especialmente as chibatadas, e contra as más condições de trabalho existentes na corporação.
Por que João Cândido recebeu o apelido de Almirante Negro?
O apelido surgiu devido à sua liderança durante a Revolta da Chibata e à admiração conquistada entre os marinheiros que participaram do movimento.
Onde nasceu João Cândido?
João Cândido nasceu em Encruzilhada, atual região de Encruzilhada do Sul, no estado do Rio Grande do Sul.
Qual é o legado de João Cândido para o Brasil?
Seu legado está associado à defesa da dignidade humana, à luta contra os castigos corporais e ao combate às desigualdades raciais presentes na sociedade brasileira.
Salve, o Almirante Negro!
João Cândido Felisberto foi um marinheiro brasileiro nascido em 24 de junho de 1880, conhecido como Almirante Negro e líder da Revolta da Chibata em 1910.
Para conhecer mais sobre a vida do Almirante Negro, acesse o artigo: João Cândido, o Almirante Negro, um Herói Nacional!
Um beijo e até o próximo post!

Colunista do Portal Afro
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