Da Piazza Grande sob a chuva aos laboratórios do Open Doors, Locarno transforma o cinema africano e afro-diaspórico em uma das agendas centrais do audiovisual mundial
O cinema sempre foi muito mais do que entretenimento. Ele constrói imaginários, preserva memórias, cria referências culturais e influencia diretamente a forma como povos e sociedades são vistos pelo mundo. Durante décadas, a África e sua diáspora foram retratadas majoritariamente pelo olhar de produtores e diretores europeus e norte-americanos. Hoje, esse cenário está mudando — e um dos espaços mais importantes dessa transformação é o Festival Internacional de Cinema de Locarno, na Suíça.
Minha estreia no Festival de Locarno não poderia ter sido mais impactante. Vivenciar as exibições mundiais na lendária Piazza Grande — a maior tela a céu aberto da Europa — é uma experiência sensorial sem igual. Dividir o calor da noite de verão e a emoção de uma sessão com cerca de 9 mil pessoas trouxe uma atmosfera elétrica para o festival.
O grande destaque dessa experiência foi a exibição de The Dead of Winter, protagonizado por Emma Thompson. A atriz, que recebeu uma calorosa homenagem do festival, esbanjou simpatia e brilhantismo em sua entrevista coletiva, reafirmando por que é uma das artistas mais completas de sua geração. Outra avant-première memorável na praça foi The Birthday Party, que contou com um depoimento presencial do aclamado ator Willem Dafoe minutos antes da projeção.
Para além das telas, um dos momentos mais disputados e eletrizantes foi o encontro com Jackie Chan. Homenageado nesta edição de 2025 pelo conjunto de sua carreira como ator e diretor, ele cativou o público e os fãs em uma masterclass descontraída, repleta de histórias de bastidores e reflexões valiosas sobre o cinema de ação.
Cobrir o festival presencialmente também me permitiu mergulhar na indústria global. Além de acompanhar o glamour do tapete vermelho, tive o privilégio de participar ativamente das atividades do programa Open Doors. Essa imersão proporcionou encontros fundamentais com a nova geração de produtores, diretores e roteiristas africanos, profissionais que estão redefinindo as narrativas e a estética do cinema contemporâneo do continente
Open Doors: uma nova janela para o cinema africano
Em 2025, o Festival de Locarno iniciou um ciclo de quatro anos do programa Open Doors voltado a 42 países da África Ocidental, Central e Oriental. O objetivo é ampliar oportunidades para cineastas que enfrentam dificuldades de financiamento, formação técnica e acesso ao mercado internacional.
Além da seleção de filmes, o programa reúne:
- oficinas de desenvolvimento de projetos;
- laboratórios de roteiro;
- mentorias individuais;
- encontros entre produtores, distribuidores e agentes de vendas;
- rodadas de coprodução internacional.
O foco não é apenas exibir filmes, mas fortalecer toda a cadeia produtiva do cinema africano.
A edição de 2026 mantém esse compromisso, consolidando a África como prioridade estratégica do festival.
Os países envolvidos em 2025 e 2026
O Open Doors trabalha com a mesma base geográfica nas duas edições.
Entre os países elegíveis estão:
- Angola
- Cabo Verde
- Guiné-Bissau
- Moçambique
- São Tomé e Príncipe
- Nigéria
- Senegal
- Gana
- Quênia
- República Democrática do Congo
- Burkina Faso
- Ruanda
- Tanzânia
- Uganda
- Etiópia
- Mali
- Níger
- Camarões
- Costa do Marfim
- Benim
- Chade
- Somália
- Sudão do Sul
- Zâmbia
- Madagascar
Entre outros.
Essa continuidade é fundamental para a criação de redes permanentes de colaboração entre África, Europa e diáspora.
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Quanto foi investido e quem participou do Open Doors
Em 2025, o programa selecionou:
- 6 projetos de longa-metragem;
- 6 produtores;
- 5 diretores;
- dezenas de profissionais convidados para as atividades de mercado.
Os participantes vieram de países como Nigéria, Burkina Faso, República Democrática do Congo, Senegal, Quênia, Ruanda e Cabo Verde.
O Open Doors é financiado em parceria com a Agência Suíça para o Desenvolvimento e Cooperação (SDC), que sustenta o programa como uma política internacional de fortalecimento do audiovisual africano.
Mais do que números, o investimento representa uma mudança de paradigma: o apoio deixa de ser apenas exibição e passa a incluir desenvolvimento, formação e circulação internacional.
As oficinas que visitei em Locarno
FIZ UMA VISITA NO LOCAL onde pulsa o coração do Locarno Pro e do Open Doors.
Ali, o foco principal era preparar diretores e produtores para negociar em pé de igualdade com fundos europeus, plataformas e distribuidores internacionais.
Entre os participantes que ganharam destaque estavam:
- Dika Ofoma (Nigéria) — Kachifo;
- Azata Soro (Burkina Faso) — Journal Intime d’une Femme-Chèvre;
- Erickey Bahati (República Democrática do Congo) — Les Bilokos.
Acompanhei esses profissionais tanto nos workshops quanto no red carpet, observando como o festival cria pontes concretas entre o continente africano e a indústria audiovisual global.
Os filmes africanos que marcaram Locarno
A curadoria do Open Doors Screenings apresentou obras contemporâneas e clássicos restaurados.
Entre os destaques:
- Kaddu Beykat (1975), da pioneira senegalesa Safi Faye;
- Nome (Guiné-Bissau);
- The Bride (Ruanda);
- When Nigeria Happens (Nigéria);
- Omi Nobi (The New Man) (Cabo Verde).
Um dos títulos mais comentados foi So Long a Letter (Une si longue lettre), da cineasta senegalesa Angèle Diabang. O filme, apoiado pelo ator francês Omar Sy, percorreu diversas cidades da França em sessões de grande repercussão.
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Baseado no clássico romance de Mariama Bâ, o longa acompanha uma mulher que, após o segundo casamento do marido, encontra forças para se divorciar e reconstruir sua autonomia. Trata-se de uma obra profundamente ligada aos debates sobre direitos das mulheres, patriarcado, religião, tradição e emancipação feminina no contexto africano.
Outro filme que merece destaque é o documentário cabo-verdiano Omi Nobi, de Carlos Yuri Ceuninck, que acompanha o cotidiano de um pescador idoso vivendo praticamente sozinho em uma das ilhas de Cabo Verde. O filme transforma a rotina, o silêncio, o mar e a memória em elementos de uma poderosa reflexão sobre envelhecimento, isolamento e dignidade humana.
De Burkina Faso que estreou na seleção oficial de exibições do Festival de Locarno de 2025 o filme Katanga la danse des scorpions, dirigido pelo renomado cineasta Dani Kouyaté.
Como o foco do programa Open Doors (vertente industrial e de fomento do festival) em 2025 foi o continente africano, Burkina Faso teve uma presença de peso com diferentes tipos de produções e projetos:
1. Filmes em Exibição (Open Doors Screenings)
Katanga la danse des scorpions: O drama em preto e branco com 113 minutos de duração de Dani Kouyaté.
Catcher: Um longa-metragem co-produzido entre Burkina Faso, França e República Democrática do Congo, dirigido por Derhwa Kasunzu.
The Envoy of God (L’Envoyée de Dieu): Um curta-metragem de ficção de 2023 dirigido por Amina Abdoulaye Mamani (co-produção envolvendo Níger, Burkina Faso e Ruanda).

Este filme mexe com a gente é um suspense com roteiro bem elaborado, fiquei ligado na trama e os outros comentários do público foi o mesmo. O filme fez sucesso e foi premiado em outros festivais após seu lançamento no festival,
2. Clássico Restaurado
Samba Traoré (1992): O festival também exibiu uma cópia restaurada em 4K desta obra-prima do aclamado diretor burquinense Idrissa Ouédraogo.
3. Projeto em Desenvolvimento (Open Doors Projects)
Journal Intime d’une Femme-Chèvre (Diary of a Goat Woman): Um híbrido de documentário e animação da diretora Azata Soro, selecionado como projeto em coprodução entre a Costa do Marfim e Burkina Faso.
4. O filme Silent Legacy dirigido por dois diretores da Finlândia e uma participação de quase uma co-produção do do coreógrafo e bailarino, Sibiry Konate da Burquina Faso que é o protagonista do filme, passou na Semaine de la Critique é uma mostra independente paralela organizada pela Associação Suíça de Jornalistas de Cinema dentro do festival de Locarno. Fundada em 1990, ela tem características bem específicas:

- Seleção Ultra-Exclusiva: São escolhidos apenas sete documentários de longa-metragem por ano.
- Inovação e Debate: O foco está em produções que fogem do circuito comercial tradicional, explorando novas linguagens audiovisuais e realidades sociais urgentes.
- Exigência de Ineditismo: Todos os filmes participantes devem ser estreias mundiais ou internacionais.
O Brasil em Locarno: novos olhares e memória restaurada
O diálogo de Locarno com o cinema brasileiro é histórico.
Na edição de 2026, o longa A Margem do Rio, dirigido por Matheus Farias e Enock Carvalho, integra a seleção oficial e disputa os principais prêmios do festival. A produção reforça a força do cinema nordestino e das narrativas periféricas no circuito internacional.
Também merece destaque o curta-metragem O Rio de Janeiro Continua Lindo (2025), uma coprodução internacional envolvendo uma cineasta brasileira e uma cineasta cubana, exemplo concreto de colaboração entre países do Sul Global, infelizmente esse não consegui assistir.
Mas fui assisti o filme que a única cineasta brasileira que está em Cuba produziu com outra diretora cubana e encontrei as duas nos bastidores e na sessão de cinema.
O filme fez sua estreia mundial na prestigiada mostra competitiva Pardi di Domani (focada em curtas e médias-metragens de talentos emergentes). O filme foi premiado pela direção da dupla, Aria Sánchez, cubana e Marina Meira, brasileira, foram muito elogiadas nesta seção durante a 78ª edição do festival. [1]
A Trama: Com duração de 14 minutos e filmado em espanhol, o filme une as visões criativas de Cuba e do Brasil para explorar, de forma poética, o cotidiano escolar primário e revelar o absurdo nas pequenas sutilezas do dia a dia.
Outro momento de grande importância começou na escolha do filme brasileiro em 2023 do projeto restaura.
Ele foi exibido em 2024 durante a o Festival de número 77 em Locarno. Para a memória do cinema brasileiro foi a exibição de um filme restaurado que marcou a primeira participação de Inezita Barroso no cinema. A sessão teve forte valor histórico, resgatando uma artista fundamental para a cultura popular brasileira e aproximando o público internacional de um patrimônio audiovisual muitas vezes pouco conhecido fora do Brasil.
O nome do filme é Mulher de Verdade (1954).
Dirigida por Alberto Cavalcanti e produzida pela Companhia Cinematográfica Maristela, esta comédia social brasileira marca a estreia de Inezita Barroso com um papel de destaque como atriz nas telas de cinema.
Reconhecimento Histórico: Pelo papel da enfermeira Amélia nessa produção, Inezita Barroso chegou a ganhar os importantes prêmios Saci e Governador do Estado de Melhor Atriz na época do lançamento original.
Outro momento especial foi a exibição de um clássico brasileiro restaurado que marcou a primeira participação de Inezita Barroso no cinema, recuperando um importante capítulo da memória audiovisual brasileira.
A preservação e restauração dessas obras demonstram que o futuro do cinema também depende da valorização de seu passado.
Diversidade: Locarno, FESPACO, Bollywood e o Oscar
Oscar (Hollywood)
A Academia passou a adotar critérios de diversidade para a categoria de Melhor Filme, ampliando a representatividade de profissionais de diferentes origens étnicas, culturais e sociais.
Cannes
Cannes continua sendo uma das maiores vitrines do cinema mundial, mas ainda é frequentemente questionado pela baixa proporcionalidade de cineastas africanos em suas seleções.
Berlim (Berlinale)
A Berlinale é historicamente uma das mostras mais abertas a temas de direitos humanos, migração, colonialismo e racismo.
Veneza
Veneza ampliou a presença de realizadores negros, embora ainda enfrente críticas sobre representatividade.
FESPACO (Burkina Faso)
Criado em 1969, o FESPACO é o maior festival dedicado exclusivamente ao cinema africano e continua sendo o principal espaço de afirmação estética e política do continente.
Bollywood
Bollywood não é um festival, mas a maior indústria cinematográfica da Índia. Seu impacto comercial é gigantesco, porém sua lógica industrial difere da proposta autoral e de formação de mercado adotada por Locarno.
Quem contou as histórias da África?
Durante boa parte do século XX, muitos filmes sobre a África foram realizados por cineastas europeus e norte-americanos. Essas obras frequentemente reproduziam visões coloniais, exotizantes ou paternalistas.
A virada começou com os processos de independência africana nas décadas de 1950 e 1960.
Nomes fundamentais:
- Ousmane Sembène (Senegal)
- Souleymane Cissé (Mali)
- Djibril Diop Mambéty (Senegal)
- Sarah Maldoror (França/Angola)
Eles inauguraram uma cinematografia produzida a partir da perspectiva africana, transformando o cinema em instrumento de memória, identidade e resistência.
Quando surgiram os cineastas negros na Europa?
Embora artistas negros já atuassem no cinema europeu desde o pós-guerra, a consolidação de um movimento autoral ganhou força nas décadas de 1980 e 1990, especialmente no Reino Unido, França e Bélgica.
Nos anos 2000 e 2010, uma nova geração passou a explorar:
- identidade afro-europeia;
- colonialismo;
- imigração;
- racismo estrutural;
- pertencimento;
- memória da diáspora.
Mesmo assim, o acesso a financiamento e distribuição continua sendo um dos principais desafios.
A noite da chuva na Piazza Grande
É impossível falar de Locarno sem falar da Piazza Grande, o maior cinema a céu aberto do mundo.
Estar ali com cerca de 9 mil pessoas é uma experiência de comunhão cinematográfica.
Durante a estreia do musical O Beijo da Mulher Aranha , com Jenifer Lopes, que retrata, o início dos anos 1980 (especificamente 1983) na Argentina, durante o período final da violenta ditadura militar conhecida como a Guerra Suja é uma adaptação cinematográfica de um musical da Broadway baseado no famoso livro do argentino Manuel Puig..
No momento da exibição uma forte chuva começou a cair sobre a praça.
O que poderia ter sido um problema transformou-se em uma cena digna do próprio cinema.
A relação é assistir na chuva um filme que não é o famoso Singing in the Rain com Gene Kelly dançando na chuva, .
Enquanto o musical projetava suas coreografias na tela gigante, a plateia também parecia fazer parte de um espetáculo assistindo sob a chuva, com capas e guarda-chuvas.
Foi um dos momentos simbólicos para mim da edição de 2025.
O tapete vermelho, os encontros e a festa de encerramento
Acompanhei os participantes do Open Doors tanto no red carpet e ver cineastas africanos ocupando o centro de um dos festivais mais prestigiados do mundo teve um significado simbólico profundo.
A festa de encerramento de 2025 foi igualmente marcante: música ao vivo, DJ, afrobeat, ritmos da diáspora e um ambiente de networking horizontal, Foi ali que ficou ainda mais evidente que o futuro do cinema mundial depende da circulação de vozes historicamente marginalizadas.
Cinema, diversidade e direitos humanos
Acredito que a diversidade no audiovisual não é apenas uma questão de representatividade estética.
Ela é uma questão de direitos humanos.
Quando mulheres africanas contam suas próprias histórias, quando cineastas negros dirigem filmes sobre suas comunidades, quando povos historicamente silenciados ocupam as telas internacionais, o cinema deixa de ser apenas entretenimento e torna-se um instrumento de:
- conscientização social;
- combate ao racismo;
- valorização da memória;
- igualdade de gênero;
- preservação cultural;
- democratização do imaginário.
O Open Doors demonstra exatamente isso: inclusão não significa apenas selecionar mais filmes, mas criar condições para que cineastas africanos e afro-diaspóricos produzam, distribuam e controlem suas próprias narrativas.
Mais do que uma tendência, trata-se de uma mudança estrutural.
O fortalecimento do cinema africano e afro-brasileiro amplia as possibilidades de representação, enriquece o patrimônio cultural mundial e reafirma que a pluralidade de vozes é essencial para o futuro do audiovisual.
Locarno, ao abrir suas portas para a África, está ajudando a escrever um novo capítulo da história do cinema mundial — um capítulo em que a diáspora negra deixa de ser objeto de observação e assume definitivamente o lugar de autora de suas próprias imagens.

Fundador nascido em 07/06/1956, preto e empreendedor social e atual Presidente do Portal Afro em 2000, com larga expertise na elaboração de entrevistas, artigos, fotos e vídeos que hoje compõem o grande acervo do Portal Afro aberto a toda a sociedade.



















