No aniversário de nascimento de Antonieta de Barros, conheça a história da educadora, jornalista e parlamentar que abriu caminhos para mulheres negras na vida pública brasileira
Em 11 de julho, o Brasil rememora o nascimento de Antonieta de Barros, educadora, jornalista, escritora e política nascida em Florianópolis, Santa Catarina, em 11 de julho de 1901. Filha de Catarina de Barros, uma mulher negra que havia vivido a escravidão, Antonieta tornou-se a primeira mulher negra eleita para um cargo parlamentar no Brasil e uma das pioneiras da participação feminina na política nacional.
Mais de um século depois de seu nascimento, sua trajetória continua sendo referência quando o assunto é educação, igualdade racial, representatividade feminina e democratização do acesso ao conhecimento. Conhecer sua história é compreender que muitas das conquistas atuais têm raízes no trabalho de mulheres que desafiaram estruturas profundamente excludentes.
Embora seu nome venha ganhando mais espaço nos últimos anos, Antonieta de Barros ainda é pouco conhecida fora dos círculos acadêmicos e dos movimentos dedicados à preservação da memória da população negra brasileira. Essa invisibilidade ajuda a explicar por que relembrar seu aniversário de nascimento vai muito além de uma homenagem. Trata-se de reconhecer uma personagem fundamental da história do Brasil.
Nascida poucos anos após a abolição da escravidão, Antonieta cresceu em um país que ainda negava oportunidades à população negra, especialmente às mulheres. Seu pai morreu quando ela ainda era criança, e foi sua mãe, que trabalhava como lavadeira e empregada doméstica, quem fez da educação uma prioridade para os filhos.
Ainda jovem, Antonieta ingressou na Escola Normal Catarinense, formando-se professora. Em uma época marcada por altos índices de analfabetismo, ela compreendeu que ensinar significava oferecer possibilidades reais de transformação social. Em 1922, fundou o Curso Antonieta de Barros, destinado à alfabetização de pessoas sem condições financeiras de estudar. A escola permaneceu ativa por aproximadamente três décadas e tornou-se um dos maiores símbolos de seu compromisso com a educação pública e inclusiva.
Sua atuação, entretanto, não ficou restrita às salas de aula
Antonieta também encontrou na escrita uma poderosa ferramenta de transformação. Atuou como jornalista, cronista e escritora, publicando mais de mil artigos em diferentes jornais catarinenses. Muitos desses textos foram assinados sob o pseudônimo “Maria da Ilha”, estratégia utilizada em um período em que mulheres frequentemente enfrentavam resistência para ocupar espaços de opinião pública.
Em seus artigos, defendia educação de qualidade, valorização dos professores, participação feminina na política, justiça social e combate às desigualdades. Também dirigiu periódicos como A Semana e Vida Ilhoa, contribuindo para ampliar o debate público em Santa Catarina. Em 1937, publicou o livro Farrapos de Ideias, obra que reúne parte de sua produção intelectual e revela um pensamento extremamente atual sobre cidadania, educação e democracia. A renda da primeira edição foi destinada à construção de uma escola para crianças cujos pais estavam internados na Colônia Santa Teresa.
A primeira mulher negra eleita
Após a conquista do direito ao voto feminino no Brasil, oficializada em 1932, ela foi eleita deputada estadual em Santa Catarina em 1934, assumindo o mandato em 1935. Tornou-se a primeira mulher negra eleita no país para exercer um mandato parlamentar e também a primeira deputada estadual catarinense.
Sua atuação política foi marcada pela defesa permanente da educação como direito de todos. Entre suas contribuições mais conhecidas está o projeto que instituiu o Dia do Professor em Santa Catarina, celebrado em 15 de outubro. Somente cerca de quinze anos depois a data seria oficializada nacionalmente, demonstrando o caráter pioneiro de sua iniciativa. Também defendeu concursos públicos para o magistério, valorização docente e ampliação do acesso ao ensino.
Sua trajetória política sofreu interrupção com o Estado Novo, instaurado por Getúlio Vargas em 1937, quando os parlamentos estaduais foram fechados. Anos depois, Antonieta retornaria à Assembleia Legislativa como deputada suplente convocada, mantendo sua defesa da educação e da cidadania.
Mas talvez seu maior legado seja justamente a capacidade de unir diferentes frentes de atuação.
Antonieta foi professora, jornalista, escritora, diretora escolar, parlamentar e intelectual negra em um período no qual esses espaços eram quase exclusivamente ocupados por homens brancos. Sua existência desafiava expectativas sociais profundamente enraizadas.
Por isso, quando falamos hoje sobre representatividade, equidade racial, inclusão educacional e participação feminina na política, estamos dialogando com pautas que Antonieta já defendia há quase um século.
Nos últimos anos, sua memória passou a receber maior reconhecimento institucional. Em 2023, seu nome foi inscrito no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria, localizado no Panteão da Pátria e da Liberdade Tancredo Neves, em Brasília. A homenagem reconhece oficialmente sua contribuição para a história nacional e fortalece o movimento de valorização de personagens negros frequentemente apagados da narrativa histórica brasileira.
Ao mesmo tempo, universidades, escolas, centros de pesquisa e organizações dedicadas à promoção da igualdade racial vêm ampliando estudos sobre sua produção intelectual. A criação da Cátedra Antonieta de Barros na Universidade Federal de Santa Catarina é um exemplo desse esforço para manter vivo seu pensamento e incentivar pesquisas sobre educação, direitos humanos e combate ao racismo.
Em um momento em que o Brasil debate inclusão, diversidade e fortalecimento da democracia, revisitar a trajetória de Antonieta de Barros também significa ampliar nossa compreensão sobre quem ajudou a construir o país.
Sua história demonstra que educação nunca foi apenas transmissão de conhecimento. Para Antonieta, ensinar era formar cidadãos capazes de transformar a realidade. Escrever era ocupar espaços de poder. Fazer política era defender direitos coletivos.
Sua vida continua inspirando professoras, jornalistas, estudantes, pesquisadoras, parlamentares e todas as pessoas que acreditam que o conhecimento pode abrir caminhos para uma sociedade mais justa.
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Perguntas frequentes sobre Antonieta de Barros
Quem foi Antonieta de Barros?
Antonieta de Barros foi professora, jornalista, escritora e política brasileira nascida em Florianópolis em 11 de julho de 1901. É reconhecida como a primeira mulher negra eleita para um cargo parlamentar no Brasil.
Por que Antonieta de Barros é considerada uma personagem histórica?
Porque rompeu barreiras de raça e gênero ao tornar-se deputada estadual, defendeu a educação pública, produziu importante obra jornalística e contribuiu para políticas educacionais pioneiras em Santa Catarina.
Qual foi a principal contribuição de Antonieta de Barros para a educação?
Ela fundou uma escola destinada à alfabetização de pessoas sem recursos financeiros, defendeu a valorização dos professores e apresentou o projeto que instituiu o Dia do Professor em Santa Catarina.
O que é o livro Farrapos de Ideias?
É uma obra publicada por Antonieta de Barros em 1937, reunindo textos e reflexões sobre educação, cidadania, política e sociedade, originalmente escritos sob o pseudônimo Maria da Ilha.
Por que o aniversário de Antonieta de Barros é lembrado em 11 de julho?
Porque ela nasceu em 11 de julho de 1901, data utilizada para homenagear sua trajetória e estimular o reconhecimento de sua importância para a história da educação, da política e da luta antirracista no Brasil.

Colunista do Portal Afro
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