19 de junho dia do cinema brasileiro - Portal Afro

Dia do Cinema Brasileiro: quando celebrar o cinema nacional também significa reconhecer a força do cinema negro brasileiro

Do pioneirismo de Zózimo Bulbul ao manifesto Dogma Feijoada, a história de quem transformou a tela em espaço de representatividade, memória e protagonismo negro

19 de junho dia do cinema brasileiro - Portal Afro

No dia 19 de junho é celebrado o Dia do Cinema Brasileiro. A data faz referência às primeiras imagens em movimento registradas em território nacional, captadas por Affonso Segretto em 19 de junho de 1898, durante a entrada do navio Brésil na Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro. Esse marco é reconhecido por instituições como a Agência Nacional do Cinema (ANCINE) e a Fundação Biblioteca Nacional como um dos momentos fundadores da cinematografia brasileira.

Mas celebrar o cinema brasileiro é também olhar para histórias que durante muito tempo ficaram fora dos holofotes.

É impossível falar sobre a trajetória do audiovisual nacional sem refletir sobre quem esteve atrás das câmeras, quem teve direito à narrativa e quem foi sistematicamente reduzido a estereótipos.

Por isso, neste Dia do Cinema Brasileiro, quero voltar o olhar para uma parte fundamental dessa história: o cinema negro brasileiro.

Um movimento artístico, político e cultural que ajudou a transformar a forma como pessoas negras passaram a ser vistas, representadas e retratadas nas telas.

Cinema negro brasileiro?

O cinema negro brasileiro não é um gênero cinematográfico.

Trata-se de um movimento que busca valorizar as experiências, memórias, culturas e narrativas da população negra, ao mesmo tempo em que questiona representações racistas e estereotipadas historicamente reproduzidas pelo audiovisual.

Mais do que personagens negros em cena, o movimento reivindica a presença de profissionais negros em funções como direção, roteiro, produção, fotografia, crítica e curadoria.

A discussão é simples e profunda ao mesmo tempo.

Quem conta a história?

Quem escolhe os enquadramentos?

Quem define quais personagens serão protagonistas?

Durante décadas, o cinema brasileiro apresentou pessoas negras quase sempre associadas a papéis secundários, caricatos ou subalternizados.

O cinema negro surge justamente como uma resposta a esse apagamento.

Zózimo Bulbul e a construção de uma nova narrativa

Se existe um nome indispensável para compreender o cinema negro brasileiro, esse nome é Zózimo Bulbul.

Nascido em 1937, no Rio de Janeiro, Zózimo Bulbul foi ator, diretor, roteirista, produtor e um dos maiores ativistas da cultura afro-brasileira no audiovisual. Sua trajetória ajudou a abrir caminhos para gerações inteiras de realizadores negros.

Ao longo da carreira, participou de dezenas de produções e dirigiu obras que abordavam diretamente a experiência negra no Brasil.

Entre seus trabalhos mais conhecidos está o documentário “Abolição”, lançado em 1988, que refletiu sobre os cem anos da assinatura da Lei Áurea e questionou o que realmente havia mudado para a população negra após o fim oficial da escravidão.

Mas talvez seu maior legado tenha sido a criação de espaços permanentes para o fortalecimento do cinema negro.

Em 2007, fundou o Centro AfroCarioca de Cinema, instituição dedicada à promoção da cultura afro-brasileira e à formação de novos profissionais do audiovisual. Também esteve à frente do Encontro de Cinema Negro Brasil, África e Américas, evento que se tornou uma das principais referências internacionais para a difusão de produções negras.

Zózimo compreendia que a luta por representatividade não era apenas uma questão estética.

Era uma questão de memória, identidade e poder.

O impacto do Dogma Feijoada no cinema brasileiro

Se Zózimo Bulbul ajudou a construir os alicerces do cinema negro brasileiro, o cineasta e roteirista Jeferson De foi responsável por provocar uma importante ruptura no início dos anos 2000.

Em 2000, Jeferson De lançou o manifesto Dogma Feijoada.
Tive conhecimento desse movimento recentemente num curso que estou fazendo de “Artes Negras em Perspectivas Contemporâneas”.

Inspirado em movimentos internacionais de renovação cinematográfica, o documento propunha a criação de um cinema negro brasileiro comprometido com o protagonismo negro e com o rompimento dos estereótipos raciais que dominavam grande parte das produções nacionais.

O manifesto defendia que pessoas negras deixassem de ocupar apenas posições periféricas nas histórias e passassem a construir suas próprias narrativas.

O Dogma Feijoada questionava a ausência de profissionais negros em posições criativas e denunciava a repetição de personagens associados à criminalidade, à servidão ou ao humor estereotipado.

Mais do que um manifesto artístico, foi um chamado para repensar a estrutura do audiovisual brasileiro.

E seu impacto continua sendo percebido até hoje.

O cinema negro brasileiro vive um novo momento

Nas últimas décadas, o crescimento de festivais, coletivos audiovisuais, produtoras independentes e políticas de inclusão ajudou a ampliar a presença de realizadores negros no cinema nacional.

Filmes dirigidos por cineastas negros passaram a circular em festivais internacionais, conquistar premiações e alcançar novos públicos.

Além disso, o debate sobre diversidade, representatividade e protagonismo ganhou espaço dentro das universidades, escolas de cinema e plataformas de streaming.

Isso não significa que todos os desafios foram superados.

Ainda existem barreiras relacionadas ao financiamento, distribuição e acesso aos grandes circuitos de exibição.

Mas o cenário é muito diferente daquele encontrado por pioneiros como Zózimo Bulbul.

Hoje existe uma geração inteira produzindo histórias que dialogam com a ancestralidade, a periferia, a identidade negra, as religiões de matriz africana, os afetos, a memória e os múltiplos modos de existir da população negra brasileira.

Por que essa história importa no Dia do Cinema Brasileiro?

Porque o cinema é uma ferramenta poderosa de construção de imaginários.

As histórias que vemos nas telas ajudam a moldar percepções sobre quem somos, quem pertence a determinados espaços e quais vidas merecem ser contadas.

Quando o cinema negro brasileiro amplia o protagonismo negro, ele não está apenas produzindo entretenimento.

Está preservando memórias.

Está disputando narrativas.

Está ampliando horizontes.

Está garantindo que futuras gerações possam se reconhecer em histórias que durante muito tempo lhes foram negadas.

Neste 19 de junho, celebrar o cinema brasileiro também é reconhecer aqueles que transformaram as câmeras em instrumentos de resistência cultural.

E poucos fizeram isso de forma tão profunda quanto Zózimo Bulbul, Jeferson De e tantos outros profissionais que ajudaram a construir uma cinematografia mais diversa, mais plural e mais próxima da realidade brasileira.

O futuro do cinema brasileiro passa pela valorização de todas as vozes que compõem o país. E o cinema negro continuará sendo uma das forças mais importantes dessa transformação.

Perguntas frequentes sobre o cinema negro brasileiro

O que é cinema negro brasileiro?

É um movimento audiovisual voltado à valorização das experiências, culturas, histórias e perspectivas da população negra, tanto na frente quanto atrás das câmeras.

Quem foi Zózimo Bulbul?

Zózimo Bulbul foi ator, cineasta, produtor e ativista cultural. É considerado um dos principais pioneiros do cinema negro brasileiro.

O que foi o Dogma Feijoada?

Foi um manifesto lançado pelo cineasta Jeferson De em 2000 defendendo a criação de um cinema negro brasileiro baseado em protagonismo, representatividade e combate aos estereótipos raciais.

Quando é comemorado o Dia do Cinema Brasileiro?

O Dia do Cinema Brasileiro é celebrado em 19 de junho, data associada ao registro das primeiras imagens cinematográficas realizadas no Brasil em 1898.

Por que o cinema negro brasileiro é importante?

Porque amplia a diversidade de narrativas, fortalece a representatividade e contribui para a preservação da memória e da cultura afro-brasileira.

Onde saber mais

 

Diga nos comentários qual filme do cinema negro brasileiro que você mais gosta.

Um beijo e até o próximo post!

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