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NOTAS DE ESCURECIMENTO POR ESCRITO – Jefferson Lima

NOTAS DE ESCURECIMENTO POR ESCRITO – Série de questões enviadas para pretas escritoras negras e negros escritores pretos que gentilmente responderam

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· 11 min de leitura

NOTAS DE ESCURECIMENTO POR ESCRITO – Jefferson Lima
Foto: Acervo Portal Afro

Escritor de hoje: Jefferson Lima

Para Abraçar Fantasmas

Escrevo…

Por teimosia, por inquietação,

para deixar implodir emoções represadas e paixões latentes.

Por precisar gritar mais alto que o silêncio das quatro da manhã,

para aliviar a insensatez de bater boca com quem não vale a pena.

Escrevo…

Porque quero fazer cócegas com leveza e incomodar com acidez

e para fazer eclodir o riso, a revolta, a corrente marítima dos olhos.

Porque quero que alguém conteste a minha forma de expressar

e para sugerir que, talvez, eu consiga despertar-te algum encanto.

Escrevo…

Para tornar intensas

as cores de um caleidoscópio disforme,

porque a realidade que me cerca

me espreme, suga e arde.

Escrevo…

Porque enquanto um vírus ataca a todos, sem fazer acepção de pessoas,

segregamos e selecionamos quem vai subir na arca.

Porque vejo pessoas adoecendo e choro pelos que morrem perto de mim,

enquanto escrotos politizam e ironizam, sem pudor, nos palácios ou nos botecos.

Escrevo…

Porque na minha estrada as pontes são tortas,

os freios são falhos, o retrovisor é sujo e o condutor, um covarde.

Não raras vezes, caio das minhas estúpidas convicções

e, se não morro, é pela magia do espírito que insiste em prosseguir.

Escrevo…

Porque nos dias felizes, em volta das mesas, ou sobre os palcos,

verti muito líquido gelado, palavras quentes, rimas voláteis e olhares penetrantes.

Porque enquanto pessoas, sem norte, temem pelo destino incerto

eu, sem rumo, tento me orientar por linhas apagadas e letras embaçadas.

Escrevo…

Para abraçar os fantasmas que me levam ao encontro de mim mesmo.

Nessa fuga da realidade, deixo manchar a folha em branco,

imprimindo o meu reflexo, ora obscuro, ora borrado, ora sem cores,

tentando focar o meu olhar que, por vezes, é sensível às luzes contrárias.

Escrevo…

E deixo jogado por aí,

talvez alguém leia…


CONVERSAS

NOTAS DE ESCURECIMENTO: Por gentileza, se apresente:

JEFFERSON LIMA: Sou Jefferson Lima, mineiro de João Monlevade, mas atualmente resido em Santa Luzia. Filho de um jardineiro e de uma dona de casa, casado com a Sandra, pai da Yasmin, profissional da área de Sistema da Qualidade, licenciado em Letras e pretenso escritor de incômodos e reflexões. Publiquei dois livros de poemas: Se For Poesia… e Sobre os Nossos Dias e Alguns Desejos. Publiquei ainda o livro de contos Meu Grito.

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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Quando se descobriu negro?

JEFFERSON LIMA: Confesso que esta reflexão não fez parte da minha formação nos primeiros 20 anos de vida. Sou de uma cidade com uma miscigenação bastante acentuada e com uma tradição forte do Congado; também cresci num bairro de operários, sempre estudei em escolas públicas e frequentava uma igreja pentecostal formada por pessoas simples, onde a presença dos negros era abundante e muito normal.

Em termos de família, sou filho de pai branco e mãe mestiça, uma vez que meus avós maternos era um avô negro e avó mestiça de pele clara. Sendo assim, na minha família também sempre houve um espectro variado de tonalidades. No entanto, cresci num lar bastante racista, onde não nos enxergávamos como negros. Porém os filhos quebraram a estrutura, alguns se casando com pessoas negras, inclusive é este o meu caso.

Mas o me descobrir e me enquadrar como tal se deu na minha mudança, aos vinte e quatro anos, para a capital Belo Horizonte. Foi quando passei a frequentar ambientes, tanto profissionais como sociais, onde a separação era gritante e onde a ascensão hierárquica era dificultada à medida que o tom da pele escurecia.

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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Como a sua ancestralidade estão nos seus escritos?

JEFFERSON LIMA: Impossível não haver traços das minhas raízes nos meus escritos, ainda que muitas vezes implícitos. Seja no amor à natureza, origem do meu pai jardineiro e da minha mãe que cuidava dos vasos de plantas como objetos sagrados; seja na crítica religiosa e social, que remontam ao meu passado de não-pertencimento à igreja, por ser questionador demais; na observação das pessoas, fruto da capacidade de análise desenvolvida por ser o filho mais novo que comparava os bastidores da família com as relações externas e ia notando tanto as incoerências, como as bênçãos da educação recebida.

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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Qual é ou foram as suas relações com os seus pais?

JEFFERSON LIMA: Uma relação muito mais próxima com a minha mãe, já que meu pai trabalhava em outra cidade e ia em casa aos finais de semana. Ela, de personalidade forte e dominante. Ele, mais calado, do tipo que concordava para não encarar o conflito, ainda que discordando internamente. Ele, mais de uma década mais velho, bastante reservado e que não sabia como se fazer presente na vida dos filhos, além do ato de prover o necessário. Ela, de muita vitalidade, acompanhava a vida escolar e, apesar de não ter concluído os anos iniciais, incentivava a leitura e os estudos. Ela acompanhava de perto os meus atos e, como são as mães atentas, às vezes se intrometia demais. Ele, pelo contrário, nunca se intrometia e, muito menos, aconselhava. Quando eu tinha 14 anos eles se separaram, retomei o contato com o meu pai aos 24 anos. Ele já fez a passagem, ela hoje é uma idosa, que ainda fraca demonstra a sua personalidade.

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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Qual é, na sua opinião, a função social da sua literatura?

JEFFERSON LIMA: A minha literatura é um sinal de alerta, um chamado à reflexão para as inconsistências e incoerências da existência. Gosto de partir das coisas simples do cotidiano para confrontar as nossas reações ante os atos das classes dominantes e ante as injustiças. Não consigo ser ‘fofo’, se vou escrever sobre o Natal, vou deixar explícito que por detrás da beleza das luzes, há uma aberração capitalista e um abismo social, onde o filho não terá foto com o Papai Noel do shopping, porque o pai não pode pagar essa exploração.

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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Como é você leitor?

JEFFERSON LIMA: Sou um leitor bastante diverso, transitando da mineiridade de Guimarães Rosa, Adélia Prado e Conceição Evaristo, passando pela beleza de Ana Maria Gonçalves e aplaudindo a contemporaneidade de Itamar Vieira Júnior, que nos traz um Brasil desconhecido por muitos. Gosto de ler os autores contemporâneos da mesma forma que gosto de perambular pelos clássicos. O ato de ler aprimora a minha escrita e me humaniza.

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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Quais suas negras influências?

JEFFERSON LIMA: Machado de Assis, com a sua temática cada vez mais atual, principalmente nos contos e Conceição Evaristo, que chama a atual geração de volta às raízes; uma voz que até pouco tempo era quase solitária e que veio ganhando espaço, adentrando ambientes, sofrendo reveses e conquistas, mas se fazendo ouvir com firmeza e serenidade.

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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Qual foi o seu primeiro e decisivo ato literário?

JEFFERSON LIMA: A minha primeira participação numa coletânea, em 2009, chamada Latinidade Poética, organizada por Marcelo Púglia. Eu tinha alguns rabiscos guardados e não fazia a mínima ideia de como publicar. Foi um marco.

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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Como é, para você ser um escritor negro no Brasil?

JEFFERSON LIMA: A escrita para mim sempre foi um hobby, no entanto, quando se publica, é sempre mais difícil conseguir bons lugares para um lançamento, a divulgação é mais complicada e nem vou entrar no mérito dos contratos com editoras. Para quem deseja viver deste ofício é quase impossível furar a bolha sem bons contatos e muito lobby.

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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Para que e quem você escreve?

JEFFERSON LIMA: Escrevo para aliviar minhas inquietações internas e para quem quer ler e refletir sobre o texto. Escrevo para incomodar e para fazer pensar, na esperança de, talvez, acender uma pequena luz, uma fagulha, que poderá, no mínimo, despertar o gosto pela leitura num jovem leitor e, quem sabe, ramificar em outros escritos, outras leituras e outras atitudes.

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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Inspiração ou transpiração?

JEFFERSON LIMA: Inspiração gerada por inquietação e transpiração para aquietação do espírito.

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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Qual é o seu processo de escrita?

JEFFERSON LIMA: Não tenho uma rotina disciplinada para escrever. Tenho hiatos prolongados e períodos férteis de inspiração. Geralmente sou arrebatado por inquietações que podem surgir do fatídico noticiário, de uma conversa que tenho com alguém, das coisas que ouço nos meus trajetos ou de algum fato específico ocorrido. De vez em quando me dou ao direito de escrever algo leve para não surtar. Quando o texto vem, rabisco em algum papel, no bloco de notas do celular ou outro meio qualquer. Às vezes perco o texto porque a ideia veio e não consegui anotar na hora. Lamento quando isso acontece!

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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Tem um narrador ou eu lírico que sempre utiliza em seus escritos?

JEFFERSON LIMA: Não. Há variações entre primeira e terceira pessoas, entre um eu-lírico masculino ou feminino.

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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Quais são os seus principais temas?

JEFFERSON LIMA: Escrevo muito sobre temas sociais, como a desigualdade social; gosto também dos temas sobre educação, politicagem e dos conflitos existenciais tão humanos e presentes em nossas vidas. De vez em quando falo de amor.

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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Como foi para você a publicação do seu primeiro livro?

JEFFERSON LIMA: Se For Poesia…, de 2017, publicado pela Editora Delicatta. É um livro de poemas, aonde eu ainda fui muito sutil em meus posicionamentos, pois fiquei receoso de que fosse um livro um tanto quanto “lacrador”. Mas foi um bom começo e faz parte do meu processo e amadurecimento. Nesta época eu já vinha participando de coletâneas há quase dez anos e publicar um livro meu era um sonho. Não conhecia ninguém do meio, não fiz festa de lançamento, pois não sabia como e onde lançar. Hoje está esgotado, mas é um livro cheio de sentimentos e com um significado especial, pois nele há muitos textos que escrevi sob a tristeza da perda da nossa primeira filha, Melissa.

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NOTAS DE ESCURECIMENTO: De que maneira você vê a representação de personagens e narrativas negras evoluindo na literatura brasileira atual?

JEFFERSON LIMA: Acho que Itamar Vieira Júnior faz um ótimo serviço neste quesito. De certa forma, trouxe o grande público para esta narrativa. Se muita gente o lê para dar um ‘check’ e bancar o intectualóide, acredito que outros o leem e são levados a pesquisar sobre esse nosso Brasil negro e profundo. Gostei muito do fato da escola de samba Portela ter se inspirado no livro Um Defeito de Cor, da Ana Maria Gonçalves, em 2024, alavancando assim as vendas do referido livro ao longo do ano. É um livro que fez diferença na minha vida, ao trazer pontos sobre a religiosidade de origem africana que eu desconhecia, dada as minhas origens já citadas. Aos poucos as bolhas são rompidas. O meu xará, Jefferson Tenório, que também incomoda com o a crueza dos seus relatos soma muito neste cenário. Que venham outros, que este incômodo permaneça até se tornar um sentir constante.

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NOTAS DE ESCURECIMENTO: O que também se faz palavras em seus escritos?

JEFFERSON LIMA: Nos meus escritos estão os paradoxos humanos, o dilema entre a fé e a descrença, a exploração do outro, o descaso com a educação, os conflitos e incertezas do amor.

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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Como foi e é para você a publicação de um livro?

JEFFERSON LIMA: É a realização de um sonho, no entanto não é algo que quero fazer todo ano, tampouco tenho metas de publicar X livros a cada X anos. Escrevo quando tenho incômodos e publico quando tenho textos o suficiente para ter um livro que considero decente. O sábio Salomão já dizia que “de muito fazer livros não há fim…”, então eu sou do tipo que leio mais do que escrevo. E como não faço da escrita uma carreira, não tenho pressa. Mas confesso que amo publicar e é sempre uma alegria ver um livro novo nascendo!

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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Poderá nos oferecer sete ou mais livros, de autoras negras brasileiras ou autores negros brasileiros, que na sua opinião, são fundamentais?

JEFFERSON LIMA: Um Defeito de Cor – Ana Maria Gonçalves

O Avesso da Pele – Jefferson Tenório

Olhos d’Água – Conceição Evaristo

Torto Arado – Itamar Vieira Júnior

50 Contos de Machado de Assis

Os Peixes do Meu Pano de Prato – Elisa Santana

Pequeno Manual Antirracista – Djamila Ribeiro

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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Aponte, por gentileza, sete ou mais figuras negras brasileiras importantes na sua opinião?

JEFFERSON LIMA: Carolina Maria de Jesus

Luís Gama

Ana Maria Gonçalves

Conceição Evaristo

Macaé Evaristo

Abdias do Nascimento

Gilberto Gil

Djamila Ribeiro

Matéria do acervo do Portal Afro, publicada originalmente em 24 de maio de 2025.

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