NOTAS DE ESCURECIMENTO POR ESCRITO – Lilia Guerra
NOTAS DE ESCURECIMENTO POR ESCRITO – Série de questões enviadas para pretas escritoras negras e negros escritores pretos que gentilmente responderam
Por Plinio Camillo
· 7 min de leitura

Escritora de hoje: Lilia Guerra

Em casa, o terror aumentava. Os móveis cresciam e o acusavam. O dinheiro acabara, investido no que ele considerava um consolo. Sentia-se impotente para realizar ganhos pela noite. A cabeça não ia bem, podia escolher mal a vítima. Soube de um maluco que abordou um policial à paisana e cantou pra subir. A televisão gerava sons e imagens aterrorizantes. Precisava se livrar dela. Embrulhou-a num lençol e rumou para a toca. Trocou por uma quantidade de alívio. Se trancou e, por dias, manteve-se sob efeito. Até liquidar o estoque. Decidiu sair, mas a luz do dia o cegava. Esperou a escuridão tomar conta de tudo. Desta vez, era o rádio que o ameaçava.
trecho de Novelas que escrevi para o rádio, volume 3 – Editora Patuá

CONVERSAS
NOTAS DE ESCURECIMENTO: Por gentileza, se apresente:
LILIA GUERRA: Olá! Eu sou Lilia Guerra, brasileira, paulistana, filha e neta de Júlias e tenho 48 anos. Sou casa com Marcelo. Mãe de Barbara e de Thaís. profissional da saúde na área de enfermagem. Sou servidora pública em São Paulo. E, escrevo! Sobre me descobrir negra. Ah! Eu sempre soube. Nos espaços em que vivi e convivi desde pequena, isso esteve sempre muito claro.
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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Qual é ou foram as suas relações com os seus pais**?**
LILIA GUERRA: Eu tive pouco contato com o meu pai. Na verdade, não me lembro de estar com ele. Mas estive. Era um homem branco, tinha uma família dita tradicional com esposa e muitos filhos. Minha mãe, cinquenta e oito anos mais nova que ele, uma menina negra e pobre em meados da década de setenta, se apaixonou não apenas por ele, mas por sua mão estendida. Acho que o simples fato de ter se dirigido a ela, fez com que não se sentisse invisível. Então, esse é a figura do meu pai. Minha mãe tornou-se adulta e posteriormente consciente da situação que viveu. Minha Vó, ajudou a cuidar de mim. na verdade, me criou, no que diz respeito à companhia. Tudo o que eu escrevo começa nela. passa por ela. E nela se encerra.
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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Qual é, na sua opinião, a função social da sua literatura**?**
LILIA GUERRA: Eu não dispenso a oportunidade de fazer a literatura desenvolver uma função social. Eu considerava isso pretensioso, mas, para mim, é indispensável. E até espontâneo. E é libertador, também. Eu quero que o leitor se entretenha, que reflita, que se emocione e identifique elementos que também percebe. Ou que, experimente ambientes e situações que nem imagina que existam. Não acontece sempre, mas, quando acho possível, procuro injetar tópicos inerentes ao convívio social nas histórias que escrevo.
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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Qual foi o seu primeiro e decisivo ato literário**?**
LILIA GUERRA: Acho que, procurar saber mais sobre as minhas origens. Conhecer a existência das minhas mais velhas. Pesquisar sobre nós. E fazer registros.
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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Como é você leitora**?**
LILIA GUERRA: Gosto muito de conhecer autores da minha geração e saber o que pensam e como desenvolvem seus escritos. É o que tenho tentado ler ultimamente. Mas, em geral, a liberdade de garimpar estantes, algo que cultivei frequentando bibliotecas é fascinante também. Eu geralmente me relaciono com o objeto livro com muito afeto. Me apego aos livros fisicamente e os carrego como amuletos e amigos.
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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Como é, para você ser uma escritora negra no Brasil**?**
LILIA GUERRA: Eu estou descobrindo isso, ainda. Mas observo que é algo visto como uma conquista, sempre desperta curiosidade como se não pudesse ser natural.
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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Inspiração ou transpiração? Para que e quem você escreve**?**
LILIA GUERRA: Eu acredito na inspiração e na necessidade de escrever. Hoje, encaro como prazer e como ofício. Já não escrevo somente quando sinto vontade, tenho a literatura como tarefa e me sento para escrever mesmo que não identifique algo inspirador para o momento. sei que escrever é um exercício e valorizo os resultados desse exercitar. Acumulo volume e utilizo o material oportunamente.
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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Qual é o seu processo de escrita**?**
LILIA GUERRA: Como eu disse, é exercício. Experimentos. Não tenho ainda um expediente de escrita definido, mas estou buscando por isso. Não tenho um método exato a ser seguido e escrever crônicas é algo que faço quase todos os dias. Transformar as crônicas em contos é algo que gosto muito de fazer. Então, muitos escritos nascem como crônicas e depois se transformam em histórias vividas por personagens. Eu gosto muito de fazer isso.
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NOTAS DE ESCURECIMENTO: O que também se faz palavras em seus escritos?
LILIA GUERRA: Gosto de escrever sobre situações que vi, ouvi ou vivi. Ainda é difícil para mim escrever sobre temas que não fazem parte do meu cotidiano, criar cenários e paisagens que não vi com meus próprios olhos. Como, por exemplo, escrever sobre outro tempo. Já fiz isso me baseando em processos de escuta, mas a pesquisa me interessa muito. Acho que é um plano, sabe? Escolher um tema desconhecido e escrever sobre ele me baseando em pesquisas. Mas isso demanda um tempo diferenciado. E condições elementares como patrocínio.
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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Como foram, para você, a publicação do seu primeiro livro e dos livros seguintes**?**
LILIA GUERRA: O primeiro livro foi, praticamente, uma publicação independente. E, posso dizer, um projeto solitário. Do segundo livro em diante, contei com recursos como oficinas e ateliês de criação literária, textos compartilhados e discutidos e isso fez uma grande diferença. a perspectiva mudou. No começo, eu acho que escrevia tendo como ideia de público eu mesma como leitora. Hoje, tento ampliar essa ideia e escrever de forma a tentar me comunicar com diversos tipos de leitores.
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NOTAS DE ESCURECIMENTO: De que maneira você vê a representação de personagens e narrativas negras evoluindo na literatura brasileira atual**?**
LILIA GUERRA: Acho que falar sobre nossas existências é necessário, urgente e natural. Os protagonistas e narradores negros transitando pelas histórias, conversando com os leitores, se estabelecendo e se instalando nas estantes, se tornando conhecidos do grande público, migrando para o teatro e para o audiovisual, sendo criações de autores negros é um salto. Li muitos livros cujos personagens pretos foram criados por autores brancos, cujas situações vividas por eles eram vistas de fora e, puxa! Consigo identificar esses escritos sem dificuldade. Indiscutivelmente é notória a diferença no relato. Os personagens e as histórias caminham para a naturalidade de experiências diversas. É um processo muito interessante de se acompanhar.
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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Poderá nos oferecer sete ou mais livros, de autoras negras brasileiras ou autores negros brasileiros, que na sua opinião, são fundamentais**?**
LILIA GUERRA: Quarto de despejo – Carolina Maria de Jesus
Casa de alvenaria – Carolina Maria de Jesus
Diário de Bitita – Carolina Maria de Jesus
Cartas para a minha avó – Djamila Ribeiro
Água de barrela – Eliane Alves Cruz
Mata doce Luciany Aparecida
Para diminuir a febre de sentir – Dalva Maria Soares
Os supridores – José Falero
Louças de família – Eliane Marques
Tecnologias ancestrais de produção de infinitos – Cidinha da Silva
Marinheira no mundo – Ruth Guimarães
Ponciá Vicêncio – Conceição Evaristo
O carro do êxito – Oswaldo de Camargo
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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Quais suas negras influencias? E, sendo possível, aponte, sete ou mais figuras negras brasileiras importantes na sua opinião**?**
LILIA GUERRA: Dona Ivone Lara
Clementina de Jesus
Lélia Gonzalez
Jarid Arraes
Geraldo Filme
Sueli Carneiro
Miriam Alves
Nei Lopes
Moisés da Rocha
Eu poderia citar tantos nomes. De tantos segmentos. Inclusive o seu, Plínio, sempre disposto a registrar nossas trajetórias, contribuindo para a preservação da nossa memória e com os seus escritos, também. Obrigada por isso! As minhas influências são muito musicais. Minha Vó não era alfabetizada, mas lia através do samba. E me ensinou a fazer isso também. eu nunca desaprendi.
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NOTAS DE ESCURECIMENTO: Obrigado pelas suas palavras!! Seus contatos**?**
LILIA GUERRA: Lilia Guerra Instagram / _@liliaguerra – Facebook: Lilia Guerra
open.substack.com/pub/liliaguerra – linktr.ee/liliaguerra
Matéria do acervo do Portal Afro, publicada originalmente em 19 de julho de 2025.





