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Marchas da Consciência Negra e a trajetória do povo preto no Brasil

Marchar com passos da marca de nossos ancestrais e deixar uma trilha dos nossos direitos

fotos de Jader Nicolau Jr.

A história do povo preto no Brasil é formada por passos de resistência que atravessam séculos e moldam a identidade do país. Das lutas dos quilombos ao legado espiritual das religiões afro-brasileiras, da capoeira, gastronomia e ritmos e danças afrobrasileiros, cada capítulo revela força, memória e organização comunitária. As antigas irmandades negras criaram redes de apoio e preservaram tradições que dariam origem a celebrações como as congadas e folias, símbolos de fé e liberdade.

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No período pós-abolição, novos espaços surgiram, como os clubes sociais negros, os bailes black e escolas de samba, que transformaram a cultura urbana. Nos campos de várzea, o talento rejeitado pelos clubes brancos floresceu no futebol de periferia, criando ídolos e comunidades.

Toda essa trajetória ecoa hoje nas Marchas da Consciência Negra, que ocupam as ruas para afirmar dignidade, direitos e pertencimento. Marchar é continuar escrevendo a verdadeira história do Brasil.
A data celebra Zumbi dos Palmares, líder do maior quilombo do país, morto em 1695. Em 2023, o dia 20 de novembro foi reconhecido como feriado nacional pela Lei nº 14.759, sancionada pelo presidente Lula.

O feriado da Consciência Negra não é apenas uma pausa no calendário. É um ato de justiça histórica. É reconhecer que o Brasil foi erguido por mãos negras — e que continua sustentado por elas. A Marcha de São Paulo é o espelho dessa história: nela desfilam os ecos de Palmares, os tambores das congadas, o batuque das escolas de samba, os campos de várzea e as vozes dos quilombos urbanos. Marchar é resistir. Marchar é existir. Marchar é reescrever o Brasil.

Deixo abaixo links para seguir algumas pegadas da nossa história sobre o prisma de quem vive na autenticidade de uma pele preta:

1) Fé, festa e liberdade: o berço das expressões afro-brasileiras –
2) Sincretismo e axé: o poder das religiões afro
3) Clubes, sambas e bailes black: o Brasil urbano é negro
4) Futebol e várzea: o esporte negro que virou paixão nacional
5) Quilombos e intelectuais: heróis de ontem e de sempre
6) Do feriado local ao feriado nacional

1) Fé, festa e liberdade: o berço das expressões afro-brasileiras

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Durante a escravidão, os domingos e as festas católicas eram os raros momentos de descanso dos africanos e seus descendentes. Foi nesses intervalos que nasceram as congadas, mocambiques, folias de reis e outras expressões sincréticas — celebrações que mesclavam santos católicos e orixás africanos. Em 1711, surgia em São Paulo a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, primeira instituição negra da cidade, que promovia ajuda mútua, alforrias e enterros dignos. A Igreja do Rosário, no Largo do Paissandu, é até hoje um dos marcos da fé afro-católica. Essas irmandades também se espalharam por Salvador, Ouro Preto, Rio de Janeiro, Recife e pelo Sul do país, formando redes comunitárias que misturavam religião, política e solidariedade. “As irmandades negras foram os primeiros espaços de cidadania no Brasil”, lembra o historiador Sidney Chalhoub (Unicamp).

2) Sincretismo e axé: o poder das religiões afro

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O sincretismo entre santos e orixás foi a forma de preservar a espiritualidade africana sob vigilância colonial. Desse encontro nasceram a Umbanda e o Candomblé, pilares espirituais e culturais do país. Em Salvador, o Ilê Axé Opô Afonjá; em São Paulo, o Axé Ilê Obá e a Casa das Águas são referências vivas da fé e da resistência. Festas como as de Yemanjá, Oxóssi e Xangô — com música, dança e oferendas — são também afirmações políticas: “Estamos vivos, somos sagrados”.

3) Clubes, sambas e bailes black: o Brasil urbano é negro

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No pós-abolição, a exclusão continuava. Negros eram barrados em clubes de brancos — e criaram seus próprios espaços: o Clube Floresta Aurora (1872, Porto Alegre) e o Clube 28 de Setembro (1897, Jundiaí) são exemplos pioneiros. Desses espaços surgiram os bailes black e as escuderias de dança, como a lendária Chic Show (São Paulo) e as equipes Soul Grand Prix e Black Power (Rio de Janeiro), que difundiram a Black Music e o Charme nos anos 1970 e 1980. No samba, a resistência virou patrimônio. De Vai-Vai, Camisa Verde e Branco e Nenê de Vila Matilde em São Paulo, às lendárias Portela, Mangueira, Salgueiro e Beija-Flor no Rio, o batuque se tornou o coração da cultura brasileira. Mesmo assim, muitos dos antigos dirigentes negros foram substituídos — reflexo da disputa simbólica e econômica sobre o que é ser “popular”.
O som da resistência: “Na batida do tambor, ecoa a história que o livro não contou.” — Dona Ivone Lara

4) Futebol e várzea: o esporte negro que virou paixão nacional
Nos primórdios do futebol brasileiro, negros eram proibidos nos grandes clubes. O esporte floresceu nos campos de várzea, nos bairros operários e periféricos, onde o talento ignorava a cor. Um desses pioneiros foi Leônidas da Silva, o “Diamante Negro”, estrela do São Paulo Futebol Clube e primeiro craque negro a ser idolatrado pelas massas. Até hoje, os clubes de várzea da capital paulista — como o Vila Missionária, Unidos do Peruche e União da Leste — mantêm viva essa tradição: o futebol como espaço de dignidade, pertencimento e comunidade.
Temos de citar o nosso ídolo mundial Pelé que levou o nome do Brasil pelo globo.

5) Quilombos e intelectuais: heróis de ontem e de sempre

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O Quilombo dos Palmares, fundado no século XVI em Alagoas, foi a primeira república autônoma do Brasil, com mais de 30 mil habitantes. Sob liderança de Zumbi e Dandara, manteve-se por quase um século, com economia própria e defesa organizada. Outros quilombos, como Ambrósio (MG), Campo Grande (SP/MG) e Buraco do Tatu (BA), formaram uma vasta rede de resistência, cujos descendentes ainda vivem em comunidades reconhecidas.

Entre os intelectuais negros que pavimentaram a cidadania, destacam-se Luiz Gama, advogado abolicionista; André Rebouças, engenheiro e inventor; e Aleijadinho, escultor do barroco mineiro com raízes africanas.

6) Do feriado local ao feriado nacional

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O Dia da Consciência Negra surgiu como celebração popular em Porto Alegre, em 1988. Depois, foi adotado por cidades como São Paulo, Salvador, Rio de Janeiro e Belo Horizonte. Em 2011, a Lei nº 12.519 oficializou a data nacionalmente, mas sem feriado. Somente em 2023, com a Lei nº 14.759, o 20 de novembro tornou-se feriado nacional, consolidando um marco de reconhecimento histórico.

BOX – Cidades pioneiras que adotaram o 20 de novembro como feriado
• Porto Alegre (1988)
• São Paulo (2004)
• Salvador (2005)
• Belo Horizonte (2007)
• Rio de Janeiro (2008)

Por que a marcha importa?

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A Marcha da Consciência Negra é um grito coletivo contra o apagamento histórico. Ela celebra a fé, a cultura, a música, a intelectualidade e o trabalho do povo negro que construiu o Brasil. É também um chamado à ação:
• ampliar o acesso às universidades
• garantir direitos quilombolas
• combater o racismo institucional
• reescrever os livros de história com as vozes que antes foram silenciadas

 

“Não marchamos apenas por nós. Marchamos por quem veio antes e pelos que ainda virão”, resume a líder comunitária Ana Paula Oliveira, do coletivo Uneafro.

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