Locarno Film Festival 2026 - capa matéria- Portal Afro

Locarno Film Festival 2026: África retorna às telas da Europa para contar as histórias que tentaram apagar e Brasil brilha com filme premiado A Margem do Rio

Europa recebe o cinema de um continente que resistiu ao apagamento de sua memória

Há algo profundamente simbólico quando filmes africanos atravessam fronteiras e chegam aos grandes festivais europeus para contar histórias de seus povos, de suas ancestralidades e de suas culturas.

Durante séculos, foi da Europa que partiram projetos de colonização que alcançaram diferentes territórios do continente africano. Não se tratava apenas da ocupação da terra ou da exploração de riquezas. A colonização também tentou impor valores, idiomas, religiões e modelos culturais. Em muitos casos, tentou definir quem poderia contar a história da África e de que maneira essa história deveria ser contada.

Mas a memória resiste.

Resiste nas tradições transmitidas entre gerações. Resiste na música, na dança, nos idiomas, nos saberes e nas espiritualidades. Resiste nos corpos que atravessaram oceanos e construíram comunidades em diferentes partes do planeta. E resiste, agora também com grande força, através do cinema.

No Locarno Film Festival 2026, realizado na Suíça, essa presença ganha um significado especial. A África chega às telas não apenas como cenário, objeto de observação ou território explicado por outros. Ela chega através de cineastas, atores, produtores e projetos que apresentam suas próprias visões, conflitos, memórias e sonhos.

É como se a história percorresse, em sentido contrário, alguns dos caminhos que um dia foram impostos pela violência da colonização.

Agora, são as imagens africanas que atravessam o continente europeu.

São histórias que retornam.

São vozes que não aceitaram o silêncio.

E são memórias que continuam vivas, apesar de todas as tentativas de apagamento.

Esta é uma reportagem introdutória da cobertura especial do Portal Afro sobre o Locarno Film Festival 2026. Acompanhar o festival como jornalista afro-brasileiro, vivendo essa experiência entre filmes, realizadores, profissionais da indústria e o público internacional, também significa observar de perto como as narrativas africanas e afro-diaspóricas conquistam, cada vez mais, espaços no cinema mundial.

A cobertura continuará no PortalAfro.com.br, no canal do YouTube e no Instagram do Instituto Portal Afro, com entrevistas, reportagens e análises sobre filmes, profissionais e projetos presentes no festival.

Locarno Film Festival: uma experiência que ultrapassa a tela

O Locarno Film Festival proporciona uma experiência singular. Estar imerso em um ambiente formado por cineastas, atores, produtores, jornalistas e profissionais da indústria cinematográfica permite observar o cinema de uma forma diferente.

O filme deixa de ser apenas aquilo que aparece na tela.

Por trás de cada sessão existem anos de trabalho, dúvidas, investimentos, escolhas, encontros e histórias pessoais. E, muitas vezes, a emoção que acontece depois da exibição revela tanto sobre uma obra quanto o próprio filme.

Uma das experiências mais marcantes do Locarno Film Festival é assistir às produções na histórica Piazza Grande. Diante de milhares de pessoas, em uma das maiores telas ao ar livre da Europa, cada sessão se transforma em uma experiência coletiva.

Na primeira semana do Locarno Film Festival 2026, no dia 6 de agosto, assisti à avant-première do filme francês Les Yeux Verts,, dos diretores Fanny Liatard, Jérémy Trouilh uma obra profunda sobre a busca pelo autoconhecimento.

Locarno Film Festival 2026 - avant-première - diretores Fanny Liatard, Jérémy Trouilh do filme Les Yeux Verts - Portal Afro
Filme – Les Yeux Verts – da esquerda para direita, Jader, o diretor Jérémy Trouilh, ator do filme, a diretora Fanny Liatard e integrante da produção do filme

Após a sessão, houve uma conversa com o diretor no meio da plateia. Foi interessante observar a alegria e a emoção de um realizador e de sua equipe diante da recepção do público. Para quem acompanha o cinema de perto, esse encontro entre quem cria e quem recebe a obra possui uma dimensão profundamente humana.

É o momento em que o filme deixa de pertencer somente à equipe que o realizou e passa a existir também dentro de cada pessoa que o assiste.

Brasil no Locarno Film Festival 2026 com A Margem do Rio, que recebeu o prêmio especial do Jury de filmes internacionais

Outro momento importante foi a estreia mundial do longa-metragem brasileiro A Margem do Rio dos diretores Matheus Farias, Enock Carvalho que recebeu o premio especial do Jury no valor de 30 mil francos suíços.

Presenciar o lançamento de uma produção brasileira fora do país e acompanhar de perto as reações do público, as análises e as conversas com integrantes do elenco e da direção foi uma experiência especial.

Brasil no Locarno Film Festival 2026 - Portal Afro
Primeira coletiva do filme com diretores e artistas, produtor, antes da exibição do filme

Estar na Suíça, em um festival internacional, e encontrar o Brasil na tela, ouvir a língua portuguesa e reconhecer parte da nossa realidade é uma sensação que ultrapassa o simples orgulho nacional.

A exibição aconteceu no Palaexpo (FEVI), espaço adaptado para receber aproximadamente 2.400 pessoas e utilizado para uma das competições do festival. A sala estava lotada.

O filme, que deverá estrear no Brasil no próximo ano, propõe discussões relacionadas à religião, à política, à homofobia e à identidade. São temas que certamente poderão provocar debates importantes.

Participei de duas coletivas de imprensa, uma antes da exibição oficial e outra posteriormente. Um dos momentos mais marcantes foi observar a emoção de integrantes do elenco ao assistirem à obra.

E agora saber que eles receberam o Prêmio especial do Jury mantém o respeito que o cinema brasileiro tem aqui na Suiça, pois na conversa na escola de cinema em Locarno quando mencionei que era do Brasil, os comentários foram de respeito as conquistas que temos conquistado e este prêmio confirmou este reconhecimento.

O ator Ítalo Martins viveu esse momento de maneira intensa. A emoção estava presente em seu olhar e em sua reação depois da sessão.
Será um dos temas de uma próxima reportagem da cobertura especial do Portal Afro.
Existe algo muito bonito em acompanhar um artista que emociona tantas pessoas através de seus personagens e, naquele momento, se deixa também ser profundamente tocado pela própria arte.
Imaginem como eles devem estar agora após a premiação especial.

O Congo e África ganham força na Piazza Grande com o filme  Congo Boy

Locarno Film Festival 2026 - estreia europeia de Congo Boy - Portal Afro
Momentos antes da projeção do filme a entrada do diretor Rafiki Fariala com buzios nas tranças e do ator de lenço do festival Bradley Fiomona, projetado no telão para 9 mil pessoas

Um dos momentos mais significativos desta experiência no Locarno Film Festival 2026 foi acompanhar a estreia europeia de Congo Boy, do diretor Rafiki Fariala.

A obra teve uma avant-première no Festival de Cannes 2026, dentro da mostra Un Certain Regard, onde seu protagonista, Bradley Fiomona, recebeu o prêmio de Melhor Interpretação Masculina.

O filme acompanha a trajetória de um cineasta refugiado do Congo em Paris e constrói uma narrativa sensível sobre identidade, deslocamento, sobrevivência e cultura.

Mas Congo Boy também possui uma força que ultrapassa a história individual de seu personagem.

Ao acompanhar a trajetória de um jovem ligado ao Congo e à experiência da diáspora, o filme também abre espaço para refletir sobre milhões de pessoas que deixaram seus países por diferentes razões e precisaram reconstruir suas vidas em outras partes do mundo.

Assistir a essa narrativa na Piazza Grande foi emocionante.

Aquele espaço monumental, ocupado por milhares de pessoas, recebeu uma história que carrega referências africanas e uma forte presença da diáspora. E o público respondeu.
Bradley Fiomona também envolveu a plateia com sua presença e com a música ligada à trilha sonora do filme. Foi um momento intenso, que demonstrou que o talento do jovem artista não está apenas no personagem que interpreta.

Ele leva para o palco uma energia própria.

E talvez seja justamente essa uma das grandes forças do cinema: quando o filme termina, algumas histórias continuam vivendo dentro de nós.

África no Locarno Film Festival: novas histórias, novos caminhos

A presença africana no Locarno Film Festival 2026 não se limita às grandes sessões e às estreias internacionais.

O programa Open Doors proporcionou uma oportunidade importante para conhecer diretores, produtores, profissionais do setor e projetos que poderão se transformar em futuros filmes.

Minha experiência com o programa este ano foi especialmente positiva. Entrevistei realizadores, produtores, participantes do Open Doors Connect e profissionais ligados aos projetos selecionados.

Primeira exibição da série de filmes do Open Doors, - Portal Afro
Primeira exibição da série de filmes do Open Doors, com a apresentação após a exibição dos diretores dos curtas metragens do dia. Dos 5 filmes exibidos 4 são dirigidos por mulheres

Entre os trabalhos que mais chamaram minha atenção estão A Kora do Meu Pai, do diretor Ayeman Aymar Esse, do Benin; Cotton Queen, de Suzannah Mirghani, do Sudão; Diya, de Achille Ronaimou, do Chade; e Crocodile, projeto que envolve Nigéria e Nova Zelândia.

Também merecem destaque Goat, da diretora Judy Kibinge, do Quênia, e Submergindo, do diretor Ariel Añez, de Moçambique.

No Concorso Cineasti del Presente, outro título que despertou interesse foi Ego Reach We All, do diretor Amartei Armar, de Gana. O fime ganhou o prêmio de 20 mil francos suíços , na categoria Pardo for Changee também de melhor ator na categoria Pardo Performance.

São filmes e projetos que nascem de diferentes realidades.
Benin, Sudão, Chade, Nigéria, Quênia, Moçambique, Gana, Congo e outros territórios africanos que carregam histórias próprias, idiomas, tradições e experiências impossíveis de serem reduzidas a uma única ideia sobre o que é o continente africano.

Essa diversidade é uma das maiores riquezas do continente.

África não é apenas passado: é memória, criação, tecnologia e futuro

Durante muito tempo, grande parte das imagens sobre a África apresentadas ao mundo foi construída a partir de uma visão externa.

Uma África reduzida à pobreza, às guerras e às crises.
Essas realidades existem e precisam ser discutidas, mas elas não representam a totalidade de um continente formado por dezenas de países, milhares de grupos culturais e linguísticos e uma das histórias mais profundas da humanidade.

Existe uma África ancestral.

Existe uma África contemporânea.

Existe uma África tecnológica.

Existe uma África empreendedora, artística, científica e criativa.

E existe também uma África espalhada pelo mundo através de sua diáspora.

Do Brasil ao Caribe, dos Estados Unidos à Europa, diferentes comunidades afro-diaspóricas continuam criando novas formas de cultura sem perder completamente os fios que as ligam às suas ancestralidades.

O cinema é um desses espaços onde esses fios podem ser reencontrados.

Uma cobertura afro-brasileira sobre o cinema e a diáspora

A cobertura do Locarno Film Festival 2026 pelo Portal Afro continuará nas próximas semanas com novas reportagens, entrevistas e conteúdos audiovisuais.

A proposta não é apenas registrar os filmes exibidos.

É também observar quem está contando essas histórias.

Quem está financiando.

Quem está produzindo.

Quem está ocupando os espaços de decisão.

E quais narrativas conseguem atravessar as fronteiras e chegar ao público internacional.

Como jornalista afro-brasileiro, acompanhar o Locarno Film Festival também é perceber que a presença africana e afro-diaspórica no cinema mundial não representa uma tendência passageira.

É resultado de uma longa trajetória de resistência.

Depois de séculos de tentativas de imposição cultural e apagamento histórico, novas gerações chegam com câmeras, roteiros, projetos e outras formas de expressão.

Elas não pedem apenas espaço.

Elas criam seus próprios espaços.

A África retorna às telas da Europa.

Mas não retorna como um continente que precisa ser descoberto.

Retorna como um continente que sempre esteve aqui.

Com suas memórias.

Com suas feridas.

Com suas conquistas.

Com sua arte.

Com sua tecnologia.

Com sua ancestralidade.

E, principalmente, com o direito de contar suas próprias histórias.

A série especial do Portal Afro sobre o Locarno Film Festival 2026 continuará no PortalAfro.com.br, no YouTube e no Instagram, trazendo novas entrevistas, análises e encontros com os protagonistas de um cinema que continua atravessando fronteiras e transformando a forma como o mundo olha para a África e para a diáspora africana.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *