Como um homem de Chicago criou uma das maiores vitrines da música, da dança e da cultura negra nos Estados Unidos
Antes da era dos clipes, Don Cornelius colocou música, dança, moda e orgulho negro na televisão com o inesquecível Soul Train.

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Em 27 de setembro de 1936, nascia em Chicago, nos Estados Unidos, Donald Cortez Cornelius, conhecido mundialmente como Don Cornelius. Anos mais tarde, ele se tornaria o criador, produtor e apresentador de Soul Train, um dos programas musicais mais importantes da televisão norte-americana.
Mas reduzir Don Cornelius ao papel de apresentador seria perder justamente a parte mais interessante de sua história.
Mesmo eu não sendo nascida nos anos de ouro do Soul Train, eu gosto e admiro muito aquele movimento que Don Cornelius criou, e meu coração anseia que surja nesta era um “novo Soul Trains”.
Ele criou Soul Train em Chicago em 1970, inicialmente como um programa local da emissora WCIU-TV. Em 1971, o programa passou a ser distribuído nacionalmente e permaneceu no ar até 2006. Durante esse período, levou para milhões de casas apresentações musicais, danças, estilos de roupas e referências culturais negras que raramente encontravam espaço semelhante na televisão norte-americana.
O Smithsonian Institution registra Soul Train como uma das séries televisivas mais duradouras da história da televisão norte-americana em distribuição independente. O acervo do Smithsonian também preserva objetos do programa, reconhecendo sua importância para a música afro-americana, a dança, a televisão e a cultura popular.
Quem foi Don Cornelius?
Don Cornelius nasceu no South Side de Chicago, em uma região marcada por uma intensa vida cultural e pela presença de importantes movimentos sociais e políticos negros.
Depois de concluir o ensino médio, serviu no Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos durante a Guerra da Coreia. Posteriormente, trabalhou como vendedor de seguros, mas decidiu mudar de trajetória profissional.
Em 1966, conseguiu seu primeiro trabalho em rádio na WVON, emissora de Chicago conhecida por sua programação voltada à comunidade negra. Foi ali que começou a desenvolver sua experiência como locutor, apresentador e comunicador.
A experiência no rádio seria fundamental para o que viria depois.
Segundo a Television Academy, Cornelius chegou a investir US$ 400 em um curso de radiodifusão antes de conseguir espaço profissional no rádio. Sua trajetória mostra algo que hoje parece comum, mas era muito mais difícil naquele período: um homem negro construindo autoridade em uma indústria na qual pessoas negras ainda tinham acesso limitado aos espaços de produção e decisão.
Como nasceu Soul Train?
Antes de chegar à televisão, Don Cornelius já organizava apresentações musicais e eventos para jovens em escolas da região de Chicago.
A ideia era simples e, ao mesmo tempo, bastante poderosa: levar música negra, artistas negros e jovens negros para um espaço de entretenimento criado a partir de sua própria perspectiva.
Em 1970, essa experiência ganhou uma versão televisiva.
Soul Train estreou localmente na WCIU-TV, em Chicago. O programa reunia apresentações musicais e dança, mas havia algo diferente acontecendo diante das câmeras.
Os jovens negros não apareciam apenas como plateia.
Eles eram parte do espetáculo.
Essa mudança é importante.
Em uma época na qual a televisão norte-americana ainda oferecia poucas representações positivas e protagonizadas por pessoas negras, Soul Train apresentava jovens negros vestidos de acordo com seu próprio estilo, dançando suas próprias danças, ouvindo sua própria música e ocupando o centro da tela.
A Television Academy destaca que Cornelius queria apresentar uma visão positiva da juventude negra e oferecer uma alternativa às representações estereotipadas existentes na televisão.
De Chicago para toda a América
O sucesso local abriu caminho para algo muito maior.
Em 1971, Soul Train começou sua distribuição nacional. Cornelius transferiu a produção para Los Angeles, aproximando o programa da indústria musical e de um mercado televisivo muito maior.
O programa permaneceu no ar por aproximadamente 35 anos, de 1971 a 2006.
Durante esse período, passaram pelo palco nomes fundamentais da música negra norte-americana, como James Brown, Aretha Franklin, Marvin Gaye, Stevie Wonder, The Jackson 5, Gladys Knight & the Pips, Al Green e muitos outros.
O Smithsonian mantém registros e objetos relacionados ao programa e destaca sua atuação na divulgação de rhythm and blues, soul e hip hop, além de artistas de funk, jazz, disco e gospel.
Isso ajuda a compreender a dimensão de Soul Train.
Não era simplesmente um programa de música.
Era também uma espécie de arquivo audiovisual da cultura negra norte-americana.
Quando a dança também virou protagonista
Talvez uma das características mais lembradas de Soul Train seja a famosa Soul Train Line.
Os dançarinos formavam duas filas, deixando um corredor no centro. Um casal ou uma dupla atravessava esse espaço dançando enquanto os demais aguardavam sua vez.
Parece algo simples hoje.
Mas a televisão de então raramente concedia tanto espaço para jovens anônimos mostrarem seus próprios movimentos diante das câmeras.
A dança tornou-se uma linguagem.
Movimentos como locking, robot e waacking encontraram no programa um espaço de exposição e circulação cultural. O Smithsonian destaca justamente a importância dos dançarinos e das novas formas de dança associadas ao programa.
A Soul Train Line também ajudou a transformar dança e moda em elementos fundamentais da identidade visual do programa.
Cabelos afro, roupas coloridas, plataformas, estampas, acessórios e diferentes expressões de estilo passaram a fazer parte daquela estética.
E isso também é história.
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Soul Train e a construção de uma imagem positiva da população negra

Data: 27 de agosto de 1975 – Acervo: Los Angeles Times Photographic Collection, UCLA Library
Licença: CC BY 4.0
Existe uma dimensão de Soul Train que vai muito além da música.
Durante os anos 1970, os Estados Unidos atravessavam profundas transformações relacionadas aos direitos civis, ao movimento Black Power e à afirmação da identidade negra.
Chicago, onde Cornelius iniciou sua carreira, era um importante centro dessas transformações.
A pesquisadora Ayana Contreras, da University of Illinois, analisa Soul Train dentro de uma cultura de criatividade e afirmação negra de Chicago. Seu trabalho destaca como o programa ajudou a transmitir imagens de beleza, empoderamento e orgulho negro para diferentes partes dos Estados Unidos.
Essa perspectiva é especialmente interessante porque nos ajuda a perceber que representação não significa apenas aparecer na televisão.
- Quem controla a narrativa também importa.
- Quem escolhe os artistas importa.
- Quem decide como esses artistas serão apresentados importa.
- Quem determina quais corpos, cabelos, roupas, músicas e comportamentos merecem ocupar a tela também exerce poder cultural.
Don Cornelius compreendeu isso.
Soul Train também foi uma plataforma para artistas
O impacto do programa sobre a música foi enorme.
Para muitos artistas negros, aparecer em Soul Train significava alcançar uma audiência que já estava profundamente conectada ao rhythm and blues, ao soul, ao funk e, posteriormente, ao hip hop.
O programa criou uma ponte entre artistas e público.
Em uma época anterior à MTV e muito antes das plataformas digitais, uma apresentação televisiva podia ajudar a definir a trajetória de uma música.
O palco de Soul Train tornou-se, portanto, uma vitrine.
Mas não apenas para os artistas.
Era também uma vitrine para compositores, dançarinos, coreógrafos, estilistas, cabeleireiros, produtores e profissionais envolvidos na indústria cultural.
Esse aspecto empresarial ajuda a explicar por que Don Cornelius é lembrado também como empreendedor.
Don Cornelius criou muito mais do que um programa
Com o crescimento da marca Soul Train, Cornelius ampliou o projeto.
Em 1987, surgiu o Soul Train Music Awards, criado para reconhecer realizações na música negra.
O Smithsonian preserva documentos dos Soul Train Music Awards, dos Soul Train Lady of Soul Awards, do Soul Train Comedy Awards e de outros eventos associados à marca.
Isso mostra uma estratégia que hoje parece familiar no mercado de mídia: transformar um programa em uma marca cultural.
Don Cornelius não criou somente conteúdo.
Ele construiu propriedade intelectual, eventos, premiações e novas oportunidades de visibilidade para artistas negros.
O legado de Soul Train chegou aos museus
Talvez uma das formas mais simbólicas de compreender a importância de Soul Train seja observar onde parte dessa história está preservada.
O National Museum of African American History and Culture, do Smithsonian, possui objetos relacionados ao programa em sua coleção.
Entre eles está um dos grandes letreiros luminosos utilizados na produção de Soul Train entre 1993 e 2006. O objeto integra a exposição Musical Crossroads, dedicada a diferentes dimensões da música e da cultura afro-americana.
Também fazem parte das coleções do Smithsonian materiais relacionados aos Soul Train Music Awards.
Ou seja, aquilo que um dia poderia ser tratado apenas como entretenimento passou a fazer parte do patrimônio cultural documentado.
E isso diz muito.
Don Cornelius deixou uma pergunta para a televisão
Don Cornelius morreu em 1º de fevereiro de 2012, aos 75 anos.
Sua trajetória, entretanto, continuou sendo reconhecida.
Em 2023, ele foi incluído postumamente no Rock & Roll Hall of Fame, recebendo o Ahmet Ertegun Award. A instituição reconheceu sua atuação como criador, produtor e apresentador de Soul Train e seu papel na abertura de espaço para soul, R&B, dança e hip hop na televisão.
Mais de uma década depois de sua morte, talvez a pergunta mais interessante não seja apenas por que Soul Train fez tanto sucesso.
É perguntar o que tornou aquele programa necessário.
Don Cornelius percebeu uma ausência.
- Havia música negra.
- Havia artistas negros.
- Havia dançarinos negros.
- Havia consumidores negros.
- Havia uma enorme produção cultural negra.
Mas ainda faltava espaço suficiente para que essa cultura aparecesse na televisão a partir de uma perspectiva própria.
Ele criou esse espaço.
E o impacto ultrapassou a televisão.
O que Don Cornelius nos ensina hoje?
Vivemos em uma época em que qualquer pessoa pode produzir vídeos, criar um podcast, publicar textos, lançar uma música ou construir uma comunidade digital.
Mas ter acesso às ferramentas não significa necessariamente ter controle sobre a narrativa.
Essa é uma das razões pelas quais a história de Don Cornelius continua atual.
Ele entendeu que representação também envolve produção, curadoria, distribuição e propriedade.
Não bastava colocar pessoas negras diante das câmeras.
Era necessário criar um espaço em que elas pudessem aparecer com sua música, sua estética, seus movimentos, seus talentos e suas referências.
Soul Train ajudou a mostrar que cultura negra não era um nicho menor da indústria cultural. Era uma força criativa capaz de movimentar música, televisão, dança, moda, publicidade e comportamento.
Talvez seja justamente aí que esteja a maior herança de Don Cornelius.
Ele não esperou que alguém abrisse a porta.
Construiu o próprio palco.
E, quando o palco ficou grande demais para ele sozinho, transformou aquele espaço em uma plataforma para que muitos outros artistas pudessem entrar.
Perguntas frequentes sobre Don Cornelius, criador do programa Soul Train.
Quem foi Don Cornelius?
Don Cornelius foi um apresentador, produtor e empreendedor norte-americano, nascido em Chicago em 27 de setembro de 1936. Ele ficou mundialmente conhecido por criar, produzir e apresentar o programa musical Soul Train.
Quando Soul Train foi criado?
Soul Train foi criado por Don Cornelius em 1970 e estreou como programa local na WCIU-TV, em Chicago. Em 1971, passou a ser distribuído nacionalmente nos Estados Unidos.
Por que Soul Train foi importante para a cultura negra?
Porque ofereceu uma plataforma nacional para artistas, músicos e dançarinos negros e ajudou a popularizar referências de música, dança, moda e estética negra em uma época em que essas representações ainda eram limitadas na televisão.
Quem participou do Soul Train?
Entre os artistas que passaram pelo programa estão James Brown, Aretha Franklin, Marvin Gaye, Stevie Wonder, The Jackson 5, Gladys Knight & the Pips e muitos outros nomes importantes da música negra norte-americana.
O que era a Soul Train Line?
Era um dos segmentos mais conhecidos do programa. Os dançarinos formavam duas filas e atravessavam um corredor central para apresentar seus movimentos diante das câmeras. A dinâmica ajudou a popularizar diferentes estilos de dança e tornou os dançarinos parte essencial do programa.
Quando Don Cornelius morreu?
Don Cornelius morreu em 1º de fevereiro de 2012, aos 75 anos, em Los Angeles. Seu legado continuou sendo reconhecido posteriormente, incluindo sua entrada no Rock & Roll Hall of Fame em 2023.
E talvez essa seja uma boa maneira de lembrar Don Cornelius: não apenas como a voz que anunciava Soul Train, mas como alguém que percebeu o poder de criar um espaço próprio.
Porque, quando uma comunidade passa a controlar também a forma como sua história, sua beleza, sua música e sua criatividade são apresentadas ao mundo, alguma coisa muda.
A televisão mudou.
A música mudou.
A cultura popular mudou.
E aquele trem que Don Cornelius colocou nos trilhos continua atravessando gerações.
Onde saber mais?
- Television Academy: Don Cornelius, Creator and Longtime Host of Soul Train
- Smithsonian Institution: Soul Train Music Awards Records
- National Museum of African American History and Culture: objetos e acervo de Soul Train
- Smithsonian Institution: Soul Train Items Donated to the National Museum of African American History and Culture
- Rock & Roll Hall of Fame: Don Cornelius
- University of Illinois / Oxford Academic: estudo sobre Soul Train, Don Cornelius e a criatividade negra de Chicago
- PBS: Black America Since MLK, And Still I Rise, referência ao impacto cultural de Soul Train
Um beijo e até o próximo post!

Colunista do Portal Afro
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