Mulheres Negras no Poder - Coluna Bahfonica - Portal Afro

Mulheres Negras no Poder – Bahfonica

Mulheres Negras no Poder: presença, liderança e legado em diferentes áreas da sociedade

Bahfonica, escritora demonstra a importância de Mulheres Negras ocuparem lugares no mercado de trabalho, em diferentes áreas.
Bahfonica, escritora. Rodeada de Mulheres Negras em diferentes áreas de atuação no mercado.

Da política à ciência, da televisão ao esporte, da cultura aos negócios, em todos os âmbitos mulheres negras estão ocupando espaços historicamente restritos e transformando a maneira como o Brasil enxerga liderança, competência e representatividade.

Desde o principio mulheres negras estiveram presentes nas musicas, no ativismo, na literatura, na ciência. Mas na maioria das vezes, quando eram contadas as histórias, já não estavam destacadas em lugares de protagonismo. Nem mesmo de suas próprias histórias.

Por muito tempo, também ouvimos falar sobre mulheres as negras no Brasil como significado de resistência. Sobrevivência. Sobre a necessidade de abrir caminhos em espaços que, durante gerações, foram construídos sem a nossa presença registrada, ou registrada nas piores posições em que queriam nos colocar.

Contudo, isso já não define mais o contexto em que somos colocadas e nem é suficiente para contar toda a nossa história.

Hoje, mulheres negras também estão no centro das decisões, conduzindo empresas, produzindo conhecimento, ocupando cargos públicos, comandando projetos culturais, conquistando medalhas, escrevendo livros, dirigindo filmes, apresentando programas de televisão, criando negócios e influenciando novas gerações.

A presença da mulher negra no mercado não está apenas chegando, já está sendo colocada com liderança. Ainda que estejamos a largos passos de termos o devido reconhecimento que é necessário.

Acredito que uma das maiores mudanças esteja justamente na possibilidade de enxergar mulheres negras não somente pelo lugar de onde vieram ou pelas barreiras que a grande maioria enfrentaram, mas também pelo lugar que escolheram ocupar e pelo impacto que produzem a partir dele.

Poder também é presença

Quando falamos em poder, é comum pensar imediatamente em política, cargos públicos ou grandes posições empresariais. Mas poder também está na capacidade de produzir conhecimento, criar narrativas, influenciar comportamentos, movimentar a economia, transformar a cultura e abrir portas para outras pessoas.

É nesse sentido mais amplo que a presença de mulheres negras se torna tão significativa.

Ana Elisa (PT) - Coluna Bahfonica - Portal Afro
Crédito: Foto Divulgação / Redes Sociais – Ana Elisa (PT) – Coluna Bahfonica – Portal Afro

Na política brasileira, nomes como Marina Silva, uma das principais referências da participação política de mulheres negras no país, representam uma trajetória que atravessa décadas. Ao lado dela, uma nova geração ampliou a presença negra nos espaços institucionais, com nomes como Erika Hilton, Talíria Petrone, entre tantas outras mulheres que passaram a ocupar lugares de decisão e visibilidade.

Cada trajetória é diferente. Mas existe algo em comum: a presença de mulheres negras em espaços de poder modifica não apenas quem ocupa a cadeira, mas também quais pautas chegam à mesa de decisões. Pois desde que o mundo é mundo, mulheres negras viabilizam o mundo de maneiras totalmente diferente de outras raças ou sexo. Trazendo sempre um contexto e olhar mais aprofundado devido as suas vivências.

E isso torna ainda mais importante para repensarmos nossas decisões quando vemos mulheres negras que precisam do apoio de outras mulheres negras. Mulheres negras que precisam ver mulheres negras. Mulheres negras que precisam ouvir mulheres negras.

Por exemplo,  Ana Elisa (imagem destacada acima), com certeza será uma sucessora de muitas mulheres negras que a antecederam. Assim como, quando for eleita, estará ao lado de grandes nomes podendo contribuir para que nosso legado enquanto mulheres negras em cargo de poder. Inclusive, nos possibilitando acreditar que podemos ver uma mulher negra na presidência, imagine só!

Nenhum outro ser humano na face da Terra, poderá representar tanto uma mulher negra, como outra mulher negra. Podemos analisar as falácias do feminismo comum, do homem branco que historicamente vem liderando por tempos e tempos, ou até mesmo de um homem negro. Mas ninguém entenderá uma mulher negra e seu impacto na sociedade, quanto outra mulher negra.

Recentemente gravei um video que está no instagram do Portal Afro em que converso com a Atleta de Peso e Wanderson Dutch em que ressaltamos a importância da presença das mulheres pretas em todos os espaços e inclusive, incentivando que mulheres pretas votem em mulheres pretas, que nos apoiemos em tudo quanto for necessário. Daí vem a importância de nós nos um preocuparmos de dar poder a essas. O que precisamos sempre será de mais de nós mesmas.

Nas telas, novas imagens de mulheres negras estão sempre presentes

Na televisão e no audiovisual, a transformação também pode ser percebida de diversas formas. Desde a garota do tempo até uma atriz mirim, mulheres negras estão protagonizando sua própria história (fica uma dica para que entre em ascensão mulheres negras que dirigem os cenários teleauditivos, para uma representação completa).

Taís Araújo, Erika Januza, Maju Coutinho, Rita Batista, Cris Vianna, Adriana Lessa e tantas outras profissionais estão recriando o imaginário coletivo e ampliando a presença feminina negra diante das câmeras.

Cris Vianna na série Arcanjo Renagado - Coluna Bahfonica - Portal Afro
Foto: César Diógenes / Divulgação Globoplay – Cris Vianna na série Arcanjo Renagado – Coluna Bahfonica – Portal Afro

 

Mais do que aparecer na televisão, estar nesses espaços significa participar da construção das imagens que milhões de brasileiros recebem diariamente. Atuando diretamente no subconsciente coletivo.

Durante muito tempo, mulheres negras foram representadas de maneira limitada. Hoje, podem ser protagonistas, jornalistas, apresentadoras, empresárias, personagens centrais de suas próprias histórias e referências para meninas que passam a compreender que também podem estar diante das câmeras.

A mudança está além de quando uma mulher negra ocupa um espaço, também acontece quando esse espaço deixa de parecer uma exceção.

Mulheres negras produzindo conhecimento

Existe um espaço fundamental para compreender essa transformação: a ciência e a academia. Afinal, quem nunca assistiu o filme “Estrelas Além do Tempo”?! (Se ainda não assistiu se faça esse favor).

 

Filme-Estrelas-Alem-do-Tempo-Coluna-Bahfonica-Portal-Afro
As atrizes Octavia Spencer, Taraji P. Henson, Janelle Monáe e Kirsten Dunst celebram o prêmio de Melhor Elenco pelo filme “Estrelas Além do Tempo” no SAG Awards. (Foto: Jordan Strauss/Invision/APF/ Frederick J. BROWN/AFP/Reprodução/) – Coluna-Bahfonica-Portal-Afro

Mulheres negras como Sonia Guimarães, uma das primeiras mulheres negras brasileiras a conquistar destaque na física e referência na formação de novas gerações, e Jaqueline Goes de Jesus, pesquisadora que ganhou projeção nacional e internacional por seu trabalho científico, ajudam a romper uma imagem historicamente limitada sobre quem produz conhecimento no Brasil.

A presença de mulheres negras nesse cenário, é especialmente importante porque a ciência sempre produziu autoridade para aqueles que se apropriaram e cresceram através dela. Quem pesquisa, ensina, publica e desenvolve conhecimento participa da construção do futuro.

E quando uma mulher negra ocupa esse lugar, ela também amplia a pergunta sobre quem pode ser reconhecido como cientista, pesquisador e intelectual.

A palavra como ferramenta de transformação

Na literatura e no pensamento, mulheres negras também vêm produzindo algumas das narrativas mais importantes do Brasil contemporâneo

Conceição Evaristo é uma das maiores referências da literatura brasileira atual. Sua escrita, marcada pelo conceito de “escrevivência”, transformou experiências, memórias e vozes historicamente silenciadas em literatura de grande alcance.

Ao lado dela, escritoras como Cidinha da Silva, Jarid Arraes, Bianca Santana e muitas outras ampliam a presença de mulheres negras na produção literária e intelectual brasileira. Trazendo renome e cultura para mulheres que nunca entenderam o seu direito de viver através de sua própria arte.

Escrever também é ocupar poder!

Pois quem escreve participa da construção da memória e quem participa da construção da memória também participa da construção do futuro.

Nas quadras, pistas, tatames e piscinas

O esporte talvez seja um dos lugares onde a potência feminina negra brasileira se tornou impossível de ignorar.

Rebeca Andrade, Beatriz Souza, Rafaela Silva, Daiane dos Santos, Formiga, Atleta de Peso e dentre muitas outras atletas representam diferentes modalidades, gerações e potenciais.

Rebeca Andrade, por exemplo, tornou-se uma das maiores referências da ginástica artística brasileira, acumulando conquistas que ultrapassaram as fronteiras do esporte. Beatriz Souza colocou seu nome entre as grandes atletas do judô mundial. Rafaela Silva construiu uma trajetória marcada por títulos e pela transformação de sua história pessoal em referência esportiva. Essas, são mulheres que competem, vencem, treinam, caem e recomeçam. E não desistem de viver seus sonhos, lutando e buscando com tudo o que podem fazer, de acordo com o que a vida oferece em dado momento.

E também são mulheres que ocupam o centro do imaginário coletivo quando se trata de mulheres no esporte (e não somente quando falamos de mulheres negras no esporte).

Quando uma menina negra vê uma atleta negra subindo ao pódio, ela vê muito além do que uma medalha representa. Ela está vendo uma possibilidade de também poder estar ali no futuro.

Mulheres negras movimentando negócios e a economia no Brasil

Monique Evelle - Coluna Bahfonica - Portal Afro
Foto: Divulgação / Forbes Brasil – Monique Evelle – Coluna Bahfonica – Portal Afro

No empreendedorismo, devemos muito mencionar a presença e o impacto das mulheres negras no mercado brasileiro.

Rachel Maia, Zica Assis, Nina Silva, Adriana Barbosa e Monique Evelle são exemplos concretos de mulheres que construíram trajetórias relevantes no mundo dos negócios, da inovação e do empreendedorismo. Se durante muito tempo mulheres negras foram vistas principalmente como força de trabalho, sem o devido reconhecimento, hoje devemos exaltar a cada uma como donas de negócios, executivas, investidoras, criadoras, estrategistas e líderes.

Porque ocupar o poder econômico nos permite ampliar autonomia, criando o poder de mudar relações, que outrora não seriam nem cogitadas para nós enquanto mulheres negras.

Cultura, cinema e construção de narrativas

No cinema e na produção cultural, mulheres negras também vêm reivindicando o direito de contar suas próprias histórias.

Zezé Motta, por exemplo, é uma referência histórica da presença negra nas artes brasileiras. Sua trajetória atravessa décadas e contribuiu para transformar a representação da população negra no cinema, na televisão e no teatro. Ao lado de outros nomes consagrados, novas profissionais seguem ampliando esse território, seja como atrizes, diretoras, produtoras, roteiristas ou gestoras culturais. A importância dessa presença está também na possibilidade de deixar de ser apenas personagem para tornar-se autora das narrativas do feminismo negro.

A música é um dos principais territórios de poder

Liniker, renomada cantora brasileira - Coluna Bahfonica - Portal Afro
Crédito: Divulgação / Equipe Liniker – Liniker, é uma renomada cantora brasileira – Coluna Bahfonica – Portal Afro

Na música, mulheres negras brasileiras sempre tiveram papel fundamental na construção da identidade cultural do país. Ainda que o reconhecimento se dê de forma bem diferente, diante da dimensão que existe dentro de nossa cultura.

Alcione, Beth Carvalho, Margareth Menezes, IZA, Ludmilla, Liniker, Luedji Luna e Xênia França representam diferentes gerações, estilos e formas de criar.

Alcione e Beth Carvalho carrega décadas de contribuição para a música brasileira. Margareth Menezes transformou sua trajetória artística em uma atuação que também alcança a cultura e a gestão pública. IZA e Ludmilla se tornaram nomes de enorme alcance na indústria musical. Liniker, Luedji e Xênia França representam novas possibilidades estéticas e sonoras para a música brasileira.

Reconhecer é construir memórias

Ruth Lopes - Candidata Eleitoral - Coluna Bahfonica - Portal Afro
Foto: Frente Negra/ Instituto Mulher Negra & Cia – Ruth Lopes – Candidata Eleitoral – Coluna Bahfonica – Portal Afro

Nesse cenário, iniciativas de reconhecimento ganham importância. Não apenas porque celebram trajetórias individuais, mas porque ajudam a registrar, ainda no presente, mulheres que estão construindo capítulos importantes da nossa história.

Um exemplo muito importante, desse movimento foi o evento “Mulheres Pretas no centro do Poder – A Noite das Vozes Negras”, realizado por Ruth Lopes, junto à Frente Negra Online e em parceria com o Instituto Mulher Negra e Cia. Essa iniciativa reuniu e homenageou mulheres negras de diferentes áreas de atuação, dando visibilidade a trajetórias construídas na política, na comunicação, no esporte, na cultura e em outros espaços de liderança e influência.

Foi algo mágico para a maioria das mulheres negras que ali estiveram presente (incluindo eu), especialmente em uma noite muito importante criada para reconhecer mulheres negras enquanto estamos produzindo, liderando e transformando nossos respectivos espaços. Durante muito tempo, grandes contribuições de mulheres negras foram reconhecidas tardiamente, ou sequer receberam o registro proporcional à sua importância. Criar espaços de celebração no presente também é uma maneira de acrescentar a memória que estamos deixando para o futuro.

Raquel-Lopes-Frente-Negra-Online-Coluna-Bahfonica-Portal-Afro
Raquel-Lopes-Frente-Negra-Online-Coluna-Bahfonica-Portal-Afro

 

Mais do que uma premiação, encontros como esse colocam lado a lado diferentes formas de exercer o poder da mulher negra. A mulher que ocupa um espaço político encontra aquela que transforma a cultura; a comunicadora divide o reconhecimento com a atleta e assim, diferentes gerações e trajetórias passam a compor uma mesma fotografia: a de mulheres negras reconhecidas pela excelência daquilo que constroem.

Numa dimensão ainda mais significativa que destaca mulheres negras reconhecendo mulheres negras, celebrando e legitimando nossas trajetórias. Não esperando que o tempo decida quem merece entrar para a história, mas participando ativamente da construção dessa memória.

Uma sociedade também revela seus valores por meio das pessoas que escolhe celebrar. E assim nós estaremos acrescentando incontáveis valores em nossas histórias.

Reconhecer mulheres negras por sua atuação profissional, intelectual, cultural, política, esportiva e social significa registrar que não estivemos apenas presentes na história. Nós também ajudaremos e continuaremos dando novos motivos para que possamos sempre descrever.

Mulheres Negras no Poder - Coluna Bahfonica - Portal Afro
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