13 de Maio: Comemorar ou Conscientizar? Negro é a raiz da liberdade!
O dia 13 de maio é uma das datas mais comemoradas e pouco conscientizadas no Brasil. Sabendo que nós negros somos a raiz desse país e que tudo fora construído a partir de nossa mão de obra escravizada que sucedeu praticamente tudo o que temos hoje.
Essa data ocupa um lugar complexo na história do Brasil. Oficialmente a data marca a assinatura da Lei Áurea em 1888, que extinguiu juridicamente a escravidão no país. No entanto, para grande parte do movimento negro, o 13 de maio não é celebrado como símbolo de liberdade plena, mas lembrado como um marco incompleto. A abolição ocorreu sem reparação, sem políticas de inclusão e sem garantia de dignidade para milhões de pessoas negras.

Negro é a raiz da Liberdade
Em São Paulo, poucas regiões expressam essa complexidade histórica de forma tão intensa quanto o bairro da Liberdade. Antes de ser Liberdade, havia um território negro.
Hoje, a Liberdade é internacionalmente reconhecida pela forte presença da comunidade japonesa e por sua importância como centro da cultura asiática no Brasil. Essa identidade é legítima e constitui parte fundamental da história do bairro.
Mas existe uma camada anterior, muito pouco falada, menos conhecida e igualmente importante: a Liberdade foi, por muito tempo, um território profundamente marcado pela presença negra.
Nos séculos XVIII e XIX, tempo não tão distante, visto que ainda estamos no século XXI.
A região concentrava pessoas escravizadas, libertas e seus descendentes. Também era um espaço de circulação, comércio, religiosidade e convivência comunitária. Ali se localizava o Largo da Forca, onde eram realizadas execuções públicas de pessoas condenadas, muitas delas negras.
A atual Praça da Liberdade, portanto, carrega uma memória paradoxal. O próprio nome do bairro ganha um significado simbólico quando lembramos que aquele espaço já foi associado ao controle e à violência sobre corpos negros.
Igreja dos Enforcados e a memória de Chaguinhas
Um dos marcos mais conhecidos da região é a Capela de Santa Cruz das Almas dos Enforcados, construída em homenagem dos que ali foram mortos no antigo patíbulo. Embora a narrativa popular destaque a figura de Chaguinhas militar executado no século XIX, uma persona que mereceu destaque e ter sido reconhecido, ao ter duas forcas sendo quebradas no momento de sua execução. O local também preserva a lembrança de inúmeras vidas anônimas que passaram por ali.

Ao caminhar pela Liberdade, é possível perceber que a história do bairro não se resume a uma única identidade. Trata-se de um território onde diferentes trajetórias migratórias e experiências sociais se sobrepõem, formando uma paisagem urbana plural.
O 13 de maio e o sentido da liberdade
Além de tudo relacionar o 13 de maio ao bairro da Liberdade é um convite à reflexão e automaticamente conscientização.
Aqui no Portal Afro falamos sobre algumas pesquisas que foram reveladas recentemente também têm revelado aspectos pouco conhecidos da experiência negra no século XIX, como o acesso de algumas pessoas escravizadas e libertas a mecanismos de poupança e movimentação financeira. Registros da antiga Caixa Econômica e de outras instituições mostram que homens e mulheres negros, mesmo submetidos a severas restrições, buscavam guardar recursos, comprar alforrias, apoiar familiares e construir alguma autonomia material. Esses documentos ajudam a desmontar a imagem de passividade frequentemente atribuída à população negra e evidenciam estratégias concretas de planejamento e autodeterminação. Clique para ler a matéria completa.
Essa informação dialoga de forma poderosa com a história da Liberdade. O ideal seria que a data de 13 de Maio e o bairro simbolizassem não apenas a conquista formal de direitos, mas também a capacidade histórica da população negra de criar caminhos para existir com dignidade, administrar seus próprios projetos e imaginar futuros possíveis. A abolição legal foi um passo decisivo, mas não significou liberdade plena. Para a população negra, a liberdade precisou ser construída no cotidiano: no trabalho, na criação de vínculos comunitários, na religiosidade, na cultura e na luta por direitos. O bairro da Liberdade simbolizaria, de forma poderosa, essa ambivalência. Um espaço cujo nome evoca emancipação e que seria mais que justo que representasse essa história cujo solo guarda marcas de sofrimento e, ao mesmo tempo, poderia representar um ato de permanência e reinvenção.
A presença negra que permanece

Mesmo com as transformações urbanas e demográficas, a presença negra em São Paulo e em todo o Brasil permanece com Festas no dia 13 de Maio, congados que percorrem ruas e até mesmo marchas. Inclusive aqui em São Paulo, tem uma marcha que sai da Praça da Liberdade e caminha até o Centro da cidade, mantendo uma tradição de muitos anos.
Todas essas formas de permanência se manifesta na produção intelectual, nas expressões culturais, nos territórios afetivos e na forma como a memória vem sendo recuperada por pesquisadores, artistas e coletivos. Ao revisitar a história da Liberdade, no dia 13 de Maio percebemos que a cidade é feita de camadas. Algumas estão visíveis; outras exigem atenção e escuta.
Uma data para aprender, aprofundar e conscientizar
A data 13 de maio necessita ser compreendida não como ponto final, em que algo “acabou”, mas como ponto de partida para uma conversa mais honesta sobre o Brasil e a forma que o mesmo sistema sucede. Pois o Brasil foi o último país a abolir a escravidão resistindo até o último momento lucrando com a mão de obra escrava.
Primeiro no Brasil veio a Lei de Euzebio de Queirós que proibiu o tráfico de escravos, mas os que já estavam aqui continuavam sendo escravizados. Depois veio a Lei do Ventre Livre que libertou os filhos de mães escravizadas, mas os obrigavam a trabalhar até seus 21 anos. Depois a Lei do Sexagenário, que libertou idosos escravizados, porque não podiam mais trabalhar, devido a falta de força física.
Nosso povo precisou resistir por muito tempo com fugas, movimentos de revoltas, quilombos e inúmeras formas de organização coletiva dando a própria vida (que para muitos já era considerado como nada), até que Princesa Isabel assinasse o documento mais curto da história e assim foi-se considerado o fim da escravidão.
Ao conectar essa data ao bairro da Liberdade, ampliamos o significado da palavra liberdade e reconhecemos que ela não é apenas um ato jurídico, mas um processo contínuo de construção de cidadania, memória e dignidade. Ainda que no País continua sendo algo bastante complexo ao ser falado e vivido, com a estrutura que permanece ainda hoje.
Falsa Liberdade no Brasil

A liberdade concedida em 1888 foi profundamente limitada. A população negra não recebeu indenização, acesso à educação, distribuição de terras ou qualquer política concreta de inclusão.
A falsa liberdade que nos foi dada no passado mostra que o país continua escrevendo a mesma história em que o mesmo povo continua resistindo. Pois na época o povo que recebeu a liberdade.
Não recebeu indenização financeira (de um povo que muito lucrou);
Não recebeu educação, consequentemente nem acesso ao conhecimento.
Nem mesmo recebeu um pedaço de terra para chamar de sua, que no caso é mais conhecido como reforma agrária.
Após nosso povo ser liberto não tivemos qualquer política concreta de inclusão.
Ou seja, nosso povo continuou refém daqueles que ironicamente diziam que agora eles eram livres.
Em outras palavras, um povo que construiu o país permaneceu abandonado à própria sorte.
Muitos continuaram dependentes das mesmas estruturas que, ironicamente, agora os chamavam de livres.
Sonho da Liberdade

Liberdade é perceber que o passado permanece presente e que toda liberdade, para ser verdadeira, precisa ser acompanhada de reconhecimento, pertencimento e futuro.
No 13 de maio, mais do que comemorar, é preciso conscientizar.
Porque negro é, e sempre foi, a raiz da liberdade.
Homenagem Especial
Gostaria de dedicar essa matéria a minha avó Marinete Costa Batista, que sempre foi inteligentíssima e me ensinou muito sobre cultura negra e sempre me incentivou para que hoje eu pudesse compartilhar meus conhecimentos com vocês.

Bahfonica.
Escritora do Portal Afro, especialista em narrativas afrocentradas e protagonismo feminino negro.

Bárbara Nascimento l abahfonica
30 anos, Mineira de Uberaba-MG.
Psicanálise| Idiomas| Cultura
Bahfonica
Psicanálise & narrativas afrocentradas
Protagonismo feminino negro
O centro sempre foi nosso
Uma dedicada Professora de Inglês que conhece cada um dos seus alunos na íntegra.



















