Conheça a história das joias crioulas, balangandãs e das mulheres negras que transformaram ouro em liberdade, patrimônio e resistência no Brasil escravista.

Muito antes da educação financeira virar tendência, e os berloques ser acessórios de marcas famosas de joias, as mulheres negras já transformavam joias em patrimônio, proteção e liberdade.
Quando falamos sobre inteligência financeira, patrimônio e investimento, quase sempre a conversa começa a partir de referências modernas. Cartão, banco, bolsa de valores, empreendedorismo, independência financeira.
Mas existe uma parte da história brasileira que quase nunca é contada. No Brasil dos séculos XVIII e XIX, mulheres negras escravizadas, libertas e alforriadas já utilizavam joias como estratégia de proteção patrimonial, reserva de valor, construção de autonomia e até compra da própria liberdade.
Enquanto o sistema escravista tentava reduzir essas mulheres à condição de mercadoria, muitas delas já compreendiam o valor econômico do ouro, da prata e dos metais preciosos como instrumento de sobrevivência e mobilidade social.
E talvez uma das expressões mais simbólicas disso sejam as chamadas joias crioulas e as famosas pencas de balangandãs.
O que eram as joias crioulas?
As joias crioulas, também conhecidas como joalheria afro-brasileira ou joalheria escrava, eram adornos utilizados principalmente por mulheres negras na Bahia colonial e imperial.
Essas peças incluíam:
- Colares
- Pulseiras
- Argolas
- Anéis
- Correntões
- Balangandãs
- Pulseiras tipo copo
- Brincos exuberantes
Eram confeccionadas em:
- Ouro
- Prata
- Cobre
- Coral
- Marfim
- Pedras
- Contas coloridas
Mas reduzir essas peças a simples adornos é um erro histórico enorme.
Essas joias carregavam:
- Espiritualidade
- Proteção
- Status social
- Memória ancestral
- Resistência cultural
- Estratégia econômica
E aqui existe algo extremamente poderoso.
Muitas dessas mulheres utilizavam as joias literalmente no próprio corpo como forma de guardar patrimônio.
Na tentativa de continuar com o apagamento e querer enfatizar uma incapacidade inexistente, alguma pessoa ainda hoje querem afirmar que essas mulheres que andavam todas bem vestidas em roupas de renda e cheias de joias era porque seus senhores vestiam bem seus escravos como uma forma de demonstração de que ele tem riquezas ao ponto de até vestir bem seus escravos favoritos, chamados de “escravos de luxo”, escravos domésticos ou de confiança.
Isso até que existiu, porém, há uma grande diferença.
Esses acessórios eram compostos de peças forjadas em formas de símbolos de suas crenças, como figas, conchas e outros símbolos afro. É lógico que seus senhores cristãos e religiosos não iriam permitir isso.
As negras do partido alto e a construção de riqueza
Na Bahia, algumas mulheres negras que conseguiam circular economicamente, trabalhar, vender produtos e acumular riqueza ficaram conhecidas como “negras do partido alto”.
Esse nome não tinha relação com festa ou ostentação vazia.
Falava sobre posição social, sobre prestígio.
Sobre mulheres negras que conseguiam construir autonomia financeira mesmo dentro de uma sociedade escravista.
Muitas eram:
- Quituteiras
- Comerciantes
- Vendedoras de rua
- Escravizadas de ganho
- Lavadeiras
- Trabalhadoras urbanas
Elas entregavam parte do lucro aos senhores, mas conseguiam guardar excedentes.
E o que faziam com esse dinheiro?
- Compravam ouro.
- Compravam joias.
- Transformavam metal precioso em patrimônio portátil.
Como assim, Mari?
Muito antes da lógica bancária ser acessível à população negra, essas mulheres compreendiam que metais preciosos preservavam valor.
As joias funcionavam como:
- Reserva financeira
- Proteção patrimonial
- Moeda de troca
- Herança
- Símbolo de autonomia

Algumas conseguiram inclusive comprar a própria alforria através desse acúmulo, ou de alguma pessoa da família.
Eu já comentei sobre esses sistema financeiro para o objetivo de liberar os seus no post sobre o Xitique.
Se quiser saber mais sobre Xitique, clique no link abaixo?
Xitique: o que é e como essa prática ancestral fortalece sonhos coletivos
Balangandãs: amuletos, proteção e ciência ancestral
As pencas de balangandãs talvez sejam uma das maiores expressões da joalheria afro-brasileira.
Esses conjuntos de miniaturas penduradas na cintura eram compostos por pequenos símbolos, objetos e figuras que carregavam significados espirituais, religiosos e culturais.
Muita gente acha que eram apenas enfeites.
Mas não eram somente isso.
Os balangandãs funcionavam como:
- Amuletos
- Objetos de proteção
- Símbolos de fertilidade
- Elementos espirituais
- Representações de ancestralidade
- Prevenção da saúde
E existe algo fascinante que conversa até com a ciência moderna.
Metais como ouro, prata e cobre possuem propriedades antimicrobianas conhecidas cientificamente. O cobre, por exemplo, é estudado até hoje por sua ação contra bactérias e microrganismos.
Ou seja, quando ancestrais utilizavam metais preciosos próximos ao corpo também existia ali uma dimensão prática de proteção e cuidado.
Isso é sabedoria ancestral.
É entender que tecnologia nem sempre nasce em laboratório moderno.
Muitas vezes ela nasce da observação, da experiência e da transmissão cultural entre gerações.

O apagamento da inteligência financeira negra
Existe uma narrativa muito cruel construída historicamente no Brasil: a ideia de que pessoas negras escravizadas viviam apenas em condição de submissão absoluta, sem estratégia, sem organização econômica e sem construção patrimonial.
Mas as pesquisas recentes ajudam a desmontar isso.
A historiadora Keila Grinberg, entre outros pesquisadores, tem aprofundado estudos sobre liberdade, patrimônio e relações econômicas da população negra no Brasil escravista.
E quanto mais documentos aparecem, mais percebemos algo importante:
Mesmo dentro da violência do sistema escravista, muitas pessoas negras criavam estratégias sofisticadas de sobrevivência econômica.
As joias fazem parte disso.
As joias como patrimônio feminino negro
Existe também uma camada muito forte de gênero nessa história.
As joias crioulas estavam profundamente ligadas ao corpo feminino negro.
E isso é simbólico.
Porque numa sociedade que tentava controlar completamente o corpo da mulher negra, essas mulheres transformavam o próprio corpo em espaço de resistência, identidade e patrimônio.
O ouro não era apenas luxo.
- Era segurança.
- Era autonomia.
- Era possibilidade de futuro.
Muitas mulheres carregavam literalmente sua riqueza na cintura, no pescoço e nos braços porque aquele patrimônio podia significar sobrevivência em tempos de extrema instabilidade.

As joias crioulas não contam apenas uma história sobre estética.
Elas contam uma história sobre inteligência financeira negra.
Sobre mulheres que, mesmo escravizadas, conseguiram enxergar caminhos possíveis dentro de uma realidade brutal.
Mulheres que acumulavam ouro enquanto o sistema tentava negar até sua humanidade.
Mulheres que entendiam valor.
Entendiam proteção.
Entendiam estratégia.
Talvez por isso essas joias incomodem tanto a narrativa tradicional da escravidão brasileira.
Porque elas provam algo muito poderoso:
O corpo negro nunca foi apenas sobrevivência.
Também foi memória, tecnologia, patrimônio e visão de futuro.
E você, já conhecia a história das joias crioulas e das negras do partido alto?
Um beijo e até o próximo post!

Colunista do Portal Afro
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