Desenvolvida por mulheres indígenas de diferentes povos, a Arandu mostra que a inteligência artificial também pode fortalecer línguas, proteger saberes ancestrais e ampliar a autonomia das comunidades originárias
Muito se fala sobre inteligência artificial como uma tecnologia voltada para produtividade, automação e inovação. Mas e se ela também pudesse ser uma aliada da memória, da cultura e da preservação de conhecimentos transmitidos há gerações? Essa é a proposta da Arandu, uma inteligência artificial criada por mulheres indígenas de diferentes etnias brasileiras para registrar saberes ancestrais, fortalecer línguas originárias e criar novas possibilidades de desenvolvimento para suas comunidades.
O projeto reúne mulheres indígenas, especialistas em tecnologia e organizações da sociedade civil em torno de um objetivo comum: garantir que os conhecimentos tradicionais sejam preservados e valorizados sem perder o protagonismo de quem os produziu. Mais do que desenvolver uma ferramenta tecnológica, a iniciativa propõe uma nova forma de pensar a inteligência artificial, colocando os povos originários no centro da construção do conhecimento.
A Arandu foi apresentada em 2026 como parte da plataforma Círculos Indígenas, iniciativa apoiada pela Recode, organização brasileira dedicada à inclusão digital e ao uso da tecnologia para transformação social. A proposta nasceu do diálogo entre mulheres indígenas de diferentes povos, que identificaram na inteligência artificial uma oportunidade para registrar histórias, idiomas, práticas culturais e conhecimentos tradicionais respeitando os direitos culturais e intelectuais das comunidades.
O nome Arandu tem origem na língua Guarani e significa “sabedoria” ou “conhecimento”. A escolha não poderia ser mais simbólica. Em vez de representar apenas uma inovação tecnológica, a ferramenta expressa a ideia de que a tecnologia pode caminhar lado a lado com os conhecimentos ancestrais, sem substituir a tradição, mas contribuindo para sua continuidade.
Essa perspectiva é especialmente importante em um momento em que diversas línguas indígenas enfrentam risco de desaparecimento. Segundo a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), centenas de idiomas indígenas em todo o mundo estão ameaçados, o que representa também a perda de formas únicas de compreender a natureza, a história e as relações humanas.
Quando uma língua desaparece, não desaparecem apenas palavras.
Desaparecem modos de nomear o mundo, formas de transmitir conhecimentos sobre plantas medicinais, ciclos da natureza, cosmologias, práticas agrícolas, cantos, narrativas e memórias coletivas que dificilmente podem ser traduzidas integralmente para outro idioma.
É justamente nesse contexto que a Arandu ganha relevância.
Uma inteligência artificial construída a partir do protagonismo indígena
Ao longo dos últimos anos, a inteligência artificial passou a ocupar espaço em praticamente todos os setores da sociedade. Ferramentas capazes de gerar textos, imagens, traduções e análises tornaram-se parte da rotina de milhões de pessoas. No entanto, grande parte dessas tecnologias foi desenvolvida utilizando bases de dados que pouco representam a diversidade cultural existente no planeta.
Isso significa que muitos povos tradicionais continuam invisíveis dentro dos sistemas de inteligência artificial mais populares.
A Arandu nasce propondo um caminho diferente.
Em vez de utilizar conhecimentos indígenas apenas como fonte de dados, o projeto parte do princípio de que os próprios povos originários devem decidir quais informações podem ser registradas, como serão organizadas e de que maneira poderão contribuir para fortalecer suas comunidades.
Essa diferença é fundamental.
Durante séculos, conhecimentos indígenas foram documentados por pesquisadores, viajantes, missionários e instituições externas. Em muitos casos, esses registros ocorreram sem consulta, consentimento ou reconhecimento das comunidades responsáveis por esse patrimônio cultural.
Hoje, o debate sobre soberania de dados indígenas ganha força em diferentes partes do mundo. O conceito defende que povos indígenas têm o direito de controlar a coleta, o armazenamento, o uso e o compartilhamento das informações relacionadas às suas culturas, territórios e conhecimentos tradicionais.
A Arandu dialoga diretamente com esse princípio ao colocar mulheres indígenas na liderança do desenvolvimento da ferramenta.
Não se trata apenas de criar uma inteligência artificial que fale sobre povos indígenas.
Trata-se de construir uma inteligência artificial pensada por mulheres indígenas, para responder às necessidades identificadas por elas próprias.
Essa mudança de perspectiva altera completamente a relação entre tecnologia e cultura.
Muito além da preservação cultural
Embora a preservação das línguas e dos saberes tradicionais seja um dos principais objetivos da Arandu, o projeto também busca ampliar oportunidades econômicas para as comunidades indígenas.
Ao registrar conhecimentos, organizar conteúdos e fortalecer a produção cultural, a plataforma cria condições para que iniciativas locais possam alcançar novos públicos de maneira ética e respeitosa.
Isso pode favorecer ações voltadas ao turismo de base comunitária, à educação intercultural, à produção de materiais didáticos, ao fortalecimento do artesanato, à divulgação de práticas sustentáveis e à valorização de expressões culturais produzidas pelos próprios povos originários.
Em outras palavras, a inteligência artificial deixa de ser vista apenas como uma ferramenta tecnológica e passa a atuar como um instrumento de fortalecimento cultural e desenvolvimento social.
Esse aspecto merece atenção porque rompe uma ideia ainda bastante difundida de que inovação e tradição ocupam lugares opostos.
Durante muito tempo, a narrativa predominante sugeriu que o avanço tecnológico exigiria o abandono dos conhecimentos ancestrais.
A Arandu demonstra exatamente o contrário.
A inovação pode nascer do diálogo entre diferentes formas de conhecimento.
A tecnologia não precisa apagar a ancestralidade para existir.
Ela pode ser utilizada para protegê-la, fortalecê-la e garantir que novas gerações tenham acesso a saberes que atravessaram séculos de história.
Talvez essa seja a maior contribuição do projeto.
A Arandu nos convida a ampliar a própria definição de inteligência.
Se uma inteligência artificial é construída para aprender, organizar informações e gerar conhecimento, por que ela deveria aprender apenas com aquilo que foi produzido pelas grandes empresas de tecnologia ou pelos centros tradicionais de pesquisa?
Os conhecimentos indígenas também são resultado de séculos de observação da natureza, de experiências coletivas, de práticas de cuidado e de formas próprias de compreender o mundo.
Reconhecer esse patrimônio como parte da construção tecnológica do presente talvez seja um dos passos mais importantes para que a inovação também reflita a diversidade humana.
E é justamente nesse encontro entre tecnologia e ancestralidade que a Arandu revela seu maior significado.
Mulheres indígenas no centro da inovação
Um dos aspectos mais inspiradores da Arandu é que ela nasce de uma inversão de lógica. Durante décadas, povos indígenas foram retratados apenas como destinatários de políticas públicas ou como personagens de pesquisas realizadas por terceiros. Na Arandu, isso muda.
As mulheres indígenas deixam de ocupar o lugar de fonte de informação e assumem o papel de criadoras, gestoras e protagonistas da tecnologia.
Esse protagonismo tem um significado profundo.
Em diversas comunidades indígenas, as mulheres são responsáveis por preservar histórias, transmitir conhecimentos sobre alimentação, plantas medicinais, espiritualidade, artesanato, educação das crianças e práticas comunitárias. Muitos desses saberes atravessaram séculos graças à tradição oral.
Ao participar do desenvolvimento de uma inteligência artificial, essas mulheres demonstram que tradição e inovação não são conceitos incompatíveis. Pelo contrário. A tecnologia pode se tornar uma aliada na preservação daquilo que há de mais valioso em uma cultura: sua memória coletiva.
Essa abordagem também desafia estereótipos ainda presentes na sociedade. Durante muito tempo, inovação tecnológica foi associada quase exclusivamente a grandes empresas, universidades ou centros de pesquisa. A Arandu amplia esse horizonte ao mostrar que inovação também pode surgir dos territórios, da escuta, do diálogo intercultural e do protagonismo comunitário.
Inteligência artificial também pode promover diversidade
Quando pensamos em inteligência artificial, geralmente imaginamos modelos treinados com enormes volumes de dados disponíveis na internet.
Mas essa realidade levanta uma questão importante.
Quem produz esses dados?
Quais culturas estão representadas?
Quais histórias permanecem invisíveis?
Essas perguntas fazem parte de um debate internacional sobre ética, diversidade e inclusão na inteligência artificial.
Modelos treinados apenas com conteúdos produzidos por determinados grupos tendem a reproduzir as mesmas limitações, invisibilizando povos, idiomas e conhecimentos que historicamente receberam pouca representação digital.
Projetos como a Arandu ajudam a ampliar essa discussão.
Ao incentivar o registro de saberes indígenas por meio do protagonismo das próprias comunidades, a iniciativa contribui para construir um ambiente digital mais diverso e representativo.
Mais do que aumentar a quantidade de informações disponíveis, a proposta busca preservar o contexto, o significado e o respeito às formas tradicionais de transmissão do conhecimento.
Esse cuidado é essencial porque nem todo conhecimento ancestral deve ser transformado em dado público. Muitas informações pertencem à esfera cultural ou espiritual de determinados povos e somente podem ser compartilhadas mediante autorização das próprias comunidades.
A tecnologia, nesse contexto, não substitui o diálogo.
Ela depende dele.
O futuro da inovação pode ser mais diverso
A história da tecnologia costuma destacar grandes invenções, empresas globais e avanços científicos. Mas talvez estejamos entrando em uma nova fase, na qual inovação também significa preservar culturas, fortalecer identidades e ampliar oportunidades para grupos historicamente invisibilizados.
A Arandu representa exatamente essa mudança de perspectiva.
Ela demonstra que inteligência artificial não precisa servir apenas para acelerar processos ou automatizar tarefas.
Também pode fortalecer idiomas ameaçados, preservar patrimônios imateriais, apoiar processos educativos e contribuir para a geração de renda de forma ética e sustentável.
É um exemplo de como inovação social e tecnologia podem caminhar juntas.
Ao mesmo tempo, o projeto amplia uma discussão importante sobre quem participa da construção das tecnologias que irão moldar o futuro.
Quanto maior for a diversidade entre as pessoas que desenvolvem inteligência artificial, maiores serão as possibilidades de criar soluções capazes de atender às necessidades reais da sociedade.
Nesse sentido, a Arandu não beneficia apenas os povos indígenas.
Ela contribui para ampliar a própria compreensão do que significa produzir conhecimento no século XXI.
Como conhecer mais sobre a Arandu?
A Arandu integra a iniciativa Círculos Indígenas, desenvolvida com apoio da Recode, organização brasileira voltada à inclusão digital e ao uso da tecnologia para transformação social.
Até o momento da publicação deste artigo, a iniciativa ainda não possui um portal exclusivo da inteligência artificial Arandu. As informações oficiais estão sendo divulgadas pelos canais institucionais da Recode e por reportagens da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), que apresentou o projeto ao público em 2026.
Quem deseja acompanhar novidades sobre a iniciativa pode consultar os canais oficiais da Recode e acompanhar as publicações da EBC sobre inovação, inclusão digital e povos indígenas.
Sugestão de leitura no Portal Afro
Se você se interessa por iniciativas que unem tecnologia, inclusão e impacto social, vale conferir também estes conteúdos publicados no Portal Afro:
- IA Libras: tecnologia criada por estudante da UFF traduz Língua Brasileira de Sinais em tempo real e amplia a inclusão no Brasil.
- IARAA: a inteligência artificial criada no Brasil para fortalecer a agroecologia e a soberania popular.
Esses artigos mostram como a inteligência artificial pode ser utilizada para responder a desafios sociais, culturais e ambientais quando desenvolvida com propósito.
Perguntas frequentes sobre a Arandu
O que é a Arandu?
A Arandu é uma iniciativa de inteligência artificial criada por mulheres indígenas de diferentes povos para contribuir com a preservação de saberes ancestrais, fortalecer línguas indígenas e apoiar iniciativas de desenvolvimento comunitário por meio da tecnologia.
Quem criou a Arandu?
A ferramenta foi desenvolvida com o protagonismo de mulheres indígenas participantes da plataforma Círculos Indígenas, iniciativa apoiada pela organização Recode.
Qual é o objetivo da Arandu?
Seu principal objetivo é utilizar inteligência artificial para registrar conhecimentos tradicionais, preservar patrimônios culturais, fortalecer idiomas indígenas e criar oportunidades de geração de renda para as comunidades.
O que significa o nome Arandu?
Arandu é uma palavra da língua Guarani que significa “sabedoria” ou “conhecimento”, refletindo a proposta de unir tecnologia e ancestralidade.
Existe um site oficial da Arandu?
Até o momento, a Arandu não possui um portal próprio. As informações oficiais são divulgadas por meio da Recode, da iniciativa Círculos Indígenas e de reportagens institucionais sobre o projeto.
Tecnologia também pode preservar memórias
Durante muito tempo, imaginamos o futuro como um lugar onde a tecnologia substituiria tudo o que veio antes.
A Arandu nos convida a pensar diferente.
Ela mostra que inovar não significa apagar a história, mas encontrar novas formas de protegê-la.
Quando mulheres indígenas utilizam inteligência artificial para preservar línguas, registrar saberes e fortalecer suas comunidades, elas demonstram que o conhecimento ancestral continua vivo, capaz de dialogar com o presente e de inspirar o futuro.
Talvez a maior inovação da Arandu não esteja apenas na tecnologia que utiliza.
Ela esteja na mensagem que transmite.
O futuro será verdadeiramente inteligente quando for capaz de reconhecer o valor de todas as formas de conhecimento, especialmente daquelas que atravessaram séculos resistindo, ensinando e mantendo viva a memória dos povos originários.
Um beijo e até o próximo post!

Colunista do Portal Afro
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