Mahommah Gardo Baquaqua - fonte: observatorio3setor.org

Em 13 de Maio: vamos lembrar de Mahommah G. Baquaqua, autor da única autobiografia de um ex-escravizado no Brasil

Mahommah Gardo Baquaqua, o único ex-escravizado que publicou uma autobiografia sobre a escravidão no Brasil um relato histórico poderoso, e neste 13 de maio vamos resgatar sua vida e obra.

Mahommah Gardo Baquaqua - fonte: observatorio3setor.org
foto de Mahommah Gardo Baquaqua

O único ex-escravizado que deixou um relato autobiográfico sobre a escravidão no Brasil.

Quando o mês de maio chega, o Brasil volta a falar sobre abolição, liberdade e o fim oficial da escravidão. Mas existe uma pergunta que quase nunca aparece nessas conversas: quantas pessoas escravizadas conseguiram contar a própria história com a própria voz?

A resposta é brutal, quase nenhuma.

Por isso o nome de Mahommah Gardo Baquaqua deveria ocupar um espaço muito maior na memória histórica brasileira.

Baquaqua não foi apenas um homem escravizado no Brasil. Ele se tornou um dos raríssimos africanos escravizados nas Américas a publicar uma autobiografia narrando a violência da escravidão sob sua própria perspectiva. E mais do que isso: sua obra é considerada o único relato autobiográfico conhecido de uma pessoa que viveu a escravidão no Brasil e conseguiu registrar sua experiência em livro.

Isso transforma sua história em um documento histórico de valor incalculável.

Quem foi Mahommah Gardo Baquaqua?

Mahommah Gardo Baquaqua nasceu no início do século XIX, entre 1800 e 1830, na região onde hoje está localizado o Benim, na África Ocidental. Muçulmano e alfabetizado em árabe, ele fazia parte de uma sociedade africana organizada muito antes de ser sequestrado pelo tráfico transatlântico de pessoas escravizadas.

Essa parte é importante porque desmonta uma narrativa racista historicamente construída de que africanos escravizados não possuíam cultura, educação ou organização social.

Baquaqua tinha família, espiritualidade, identidade cultural e trajetória própria antes de ser capturado.

Ele foi traficado para o Brasil por volta de 1845 e passou pelos horrores da escravidão em Pernambuco e no Rio de Janeiro. Em seus relatos, descreveu castigos físicos, violência psicológica, fome, racismo e as condições desumanas impostas às pessoas negras escravizadas no país.

Mas sua história tomaria um rumo improvável.

biografia em inglês de Mahommah Gardo Baquaqua

Como Baquaqua conseguiu escapar da escravidão?

Após ser vendido diversas vezes no Brasil, Baquaqua acabou sendo levado para os Estados Unidos por um homem que o utilizava como ajudante em um navio.

Durante uma viagem, conseguiu fugir e encontrou apoio em movimentos abolicionistas norte-americanos ligados à comunidade negra e a grupos religiosos antiescravistas.

Foi nesse contexto que sua autobiografia nasceu. Em 1854, sua história foi publicada nos Estados Unidos com o título:

“The Biography of Mahommah Gardo Baquaqua”

A obra foi organizada com apoio do abolicionista Samuel Moore, mas baseada nos relatos do próprio Baquaqua.

E aqui existe algo profundamente simbólico.

Enquanto milhões de pessoas negras escravizadas tiveram suas vozes apagadas pela violência colonial, Baquaqua conseguiu atravessar o oceano, sobreviver à escravidão e registrar sua própria memória para a história.

Quando a obra foi lançada no Brasil?

Embora o livro tenha sido publicado originalmente em 1854 nos Estados Unidos, a obra demorou mais de um século para ganhar circulação ampla no Brasil, após mais de 160 anos da sua publicação original, em inglês.

Uma das edições brasileiras mais conhecidas foi lançada oficialmente em 13 de novembro de 2014, impulsionando debates acadêmicos e históricos sobre memória negra e escravidão brasileira.

E sinceramente?
Isso também diz muito sobre o Brasil.

O único relato autobiográfico conhecido de uma pessoa escravizada no país passou décadas praticamente invisível da educação formal brasileira.

O relato de Baquaqua revela sobre o Brasil escravista

O livro mostra que a violência da escravidão brasileira não era um “modelo mais brando”, como durante muitos anos tentaram ensinar.

Baquaqua descreve agressões físicas severas, humilhações constantes e condições degradantes.

Também revela como pessoas africanas escravizadas tentavam preservar:

  • Idiomas
  • Espiritualidade
  • Laços culturais
  • Memórias da terra natal

Mesmo em meio ao processo brutal de desumanização.

Outro ponto muito forte da autobiografia é a dimensão psicológica da escravidão. O texto mostra medo, solidão, trauma e desespero, mas também resistência, inteligência e desejo de liberdade.

Precisamos falar mais sobre Baquaqua e de outros nomes que foram apagados da história

Durante muito tempo, o Brasil construiu uma visão romantizada da escravidão, minimizando violências e silenciando vozes negras.

Baquaqua rompe esse silêncio, sua autobiografia não é apenas um livro antigo.  Ela é um testemunho.

Uma prova escrita de que pessoas negras escravizadas tinham pensamento crítico, memória, intelectualidade e consciência sobre o sistema brutal ao qual foram submetidas.

E talvez exista algo ainda mais forte nisso tudo, Baquaqua escreveu para sobreviver ao apagamento.

Escreveu para que o mundo soubesse, escreveu porque entendeu que memória também é liberdade.

Em um país que ainda conhece tão pouco sobre a própria história negra, lembrar Mahommah Gardo Baquaqua é um ato de reparação histórica.

Seu nome precisa ser mencionado quando falamos sobre escravidão, literatura, memória e resistência negra.

Especialmente no 13 de maio.

Porque enquanto muitos celebram uma abolição incompleta, Baquaqua nos obriga a olhar diretamente para aquilo que o Brasil ainda tenta evitar: as vozes negras que sobreviveram apesar da violência da história.

 

É verdade, que meu corpo traz as marcas das correntes,

É verdade que minhas costas trazem as cicatrizes das chicotadas,

Mas não é verdade que o poder do tirano

Jamais tenha feito de meu coração um covarde.

Não! Ele é livre como quando eu brincava

À sobra das palmeiras de minha terra natal.

Esse é um trecho de um poema de Mahommah Baquaqua.

Um beijo e até o próximo post!

 

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