Mulheres negras, riqueza e poder nas séries
Quando você imagina uma mulher rica, poderosa, extremamente bem-sucedida, vestindo roupas impecáveis, frequentando lugares sofisticados, vivendo sua vida em tranquilidade, tomando decisões capazes de movimentar dinheiro, negócios e pessoas, qual é a primeira imagem que aparece na sua cabeça?

“Eu espero que também seja a de uma mulher preta!”
Esta matéria parte de uma provocação que, além de divertida, diz muito sobre o imaginário que quero construir aqui: o dinheiro também nos cai muito bem.
E eu poderia começar tentando justificar essa frase, explicando que dinheiro não é tudo, que riqueza não determina caráter e que luxo não deveria ser a medida do sucesso de ninguém. Tudo isso é verdade, mas não é exatamente essa conversa que quero ter. Quero falar sobre algo que me interessa muito mais: o que acontece com o nosso imaginário quando mulheres pretas também passam a ocupar, com naturalidade, imagens de riqueza, sofisticação, influência, conforto, inteligência, prazer e poder?
Porque dinheiro importa. Não como medida de valor humano, mas como uma das ferramentas capazes de modificar concretamente as possibilidades de uma vida.
Existe diferença entre precisar aceitar e poder escolher. Escolher onde morar, como cuidar da própria saúde, quanto tempo dedicar ao trabalho, onde estudar, quando viajar, em quais ideias investir, como proporcionar conforto para si e para quem se ama. Até mesmo o direito de dizer “não” pode ser profundamente atravessado pelas condições materiais que uma pessoa possui.
Não precisamos romantizar o dinheiro para reconhecer o que a falta dele nos impede de escolher
É justamente por isso que, quando falo sobre mulheres negras vivendo no luxo, não estou interessada apenas no preço das bolsas, nos carros estacionados diante das mansões ou nas etiquetas costuradas dentro das roupas. Tudo isso também faz parte da estética dessas produções e eu particularmente adoro assistir, mas existe uma conversa muito maior acontecendo por trás dessas imagens.
Luxo também pode significar tempo disponível, repertório cultural, acesso à informação, conforto, privacidade, descanso, segurança, autonomia e liberdade para decidir os rumos da própria vida. O dinheiro compra coisas, naturalmente, mas para muito além disso, o acesso que ele proporciona pode mudar rotas.
E a possibilidade de escolha, em determinadas circunstâncias, pode mudar uma vida inteira.
Talvez seja justamente por isso que algumas imagens na televisão sejam tão poderosas.
Quando vemos uma mulher preta entrando em um restaurante sofisticado, comandando uma empresa, negociando grandes valores, escolhendo uma obra de arte, vivendo em uma casa extraordinária, viajando ou simplesmente desfrutando daquilo que conquistou, não estamos olhando apenas para os objetos que existem ao redor dela. Estamos entrando em contato com uma possibilidade de existência. E o imaginário importa.
Aquilo que aparece em uma série evidentemente não se transforma automaticamente em realidade, mas a idealização realizada a partir das imagens que consumimos, ajudam a compor nosso repertório sobre quem imaginamos ocupando determinados lugares, exercendo determinadas profissões e vivendo determinadas experiências.
Por isso quero histórias sobre mulheres negras que amam, estudam, empreendem, criam, comandam, descansam, viajam, investem, erram, acertam, desejam, conquistam e desfrutam. Quero personagens complexas o suficiente para que riqueza possa ser apenas uma das muitas coisas que existem em suas vidas, sem que toda a narrativa precise parar para explicar por que aquela mulher preta tem dinheiro.
Existe algo ainda mais interessante quando a sofisticação deixa de ser tratada como acontecimento e passa a ser simplesmente parte da personagem.
E é a partir desse olhar que escolhi estas cinco séries, você vai perceber que não estou procurando cinco versões da mesma mulher.
Em cada uma delas, luxo e poder assumem significados diferentes e falam por si próprios.
Porque o dinheiro também nos cai muito bem, mas essa conversa está apenas começando.
Série 1: Run the World, o luxo de construir uma vida que tenha a sua medida

Em Run the World, o luxo além de estética, contém linguagem. Vistas através de roupas, os ambientes (maravilhosos por sinal), os restaurantes, a própria cidade de Nova York, as carreiras e os códigos sociais ajudam a construir um universo no qual mulheres pretas não aparecem apenas como visitantes. Elas pertencem àquele espaço. E a ideia de pertencimento é gigantesca quando se trata de lugares que não foram construídos pensando em nós.
E existe uma diferença enorme entre ser autorizada a entrar e sentir que determinado lugar também pode lhe pertencer.
As personagens vivem suas questões profissionais, amorosas e pessoais dentro de um universo em que mulheres negras também podem experimentar sucesso, desejo, amizade, frustração, prazer, ambição, consumo e conforto sem que nenhuma dessas coisas precise resumir quem elas são.
Talvez uma das maiores riquezas de Run the World esteja justamente nas alianças entre essas mulheres. São personagens construindo suas próprias trajetórias enquanto encontram umas nas outras reconhecimento, confronto, acolhimento, diversão e crescimento. A série consegue fazer algo que me interessa particularmente: colocar mulheres pretas desejando mais da vida sem transformar esse desejo automaticamente em ingratidão, arrogância ou excesso.
Uma vida rica não é necessariamente aquela em que existem apenas objetos caros. Uma vida rica também pode ser aquela em que existem relações capazes de sustentar quem estamos nos tornando.
É por isso que falo do luxo, aqui, como forma de pertencimento.
Pertencer é poder entrar em determinados lugares sem passar a existência inteira se perguntando se alguém descobrirá que você não deveria estar ali. É poder reconhecer experiências, ambientes e possibilidades como parte legítima da própria vida. Espero que você entenda isso.
E pertencimento também é uma forma de poder
Run the World mostra mulheres pretas com desejos que vão muito além da sobrevivência. Elas querem crescer profissionalmente, amar, se realizar, experimentar a cidade, preservar amizades, mudar de ideia e descobrir o que fazer quando aquilo que parecia certo já não corresponde mais à mulher que estão se tornando (muitas de nós estamos nessa fase).
Essa é uma série que certamente fará você desejar um pouco do poder que essas mulheres demonstram, mas espero que também provoque outra pergunta: que tipo de vida você construiria se pudesse escolher com mais liberdade?
Se você é ou pretende ser uma mulher cada vez mais consciente do próprio poder, Run the World merece estar na sua watch list.
E talvez ela seja a melhor série para abrir esta matéria porque apresenta a primeira dimensão daquilo que estamos chamando de luxo: ter condições para construir uma vida que se pareça com você.
“O dinheiro também nos cai muito bem.
Mas a possibilidade de escolher quem queremos ser nos cai ainda melhor.”
Série 2: Bel-Air, quando a sofisticação não precisa de explicação

Em Bel-Air, o foco da narrativa não está exclusivamente nas mulheres pretas, mas seria impossível construir uma lista como esta sem olhar para três mulheres da família Banks: Vivian, Hilary e Ashley.
Existe algo que me interessa profundamente quando observo as três: a liberdade de existir dentro de uma realidade de conforto e acesso sem que a presença de mulheres negras naquele universo precise ser constantemente justificada. Ao mesmo tempo, cada uma desenvolve uma relação muito particular com o poder, o dinheiro, o repertório e os privilégios que existem ao seu redor.
A sofisticação já faz parte da construção dessas personagens. Existe uma liberdade imensa em simplesmente ser.
O poder que existe em uma mulher preta entrando em um ambiente elegante sem que sua presença naquele lugar precise se transformar no acontecimento principal da cena (como tantas vezes nos acontece até na vida real).
Vivian expressa um luxo atravessado por cultura, arte, maturidade, pensamento e repertório. Sua sofisticação ultrapassa aquilo que veste e alcança a maneira como conversa, pensa, se posiciona, interpreta o mundo e se relaciona com sua própria identidade. Há nela uma riqueza que também vem do conhecimento acumulado, da experiência e da consciência sobre quem se tornou.

Hilary apresenta outra expressão desse universo. Nela encontramos glamour contemporâneo, imagem, desejo, influência, beleza, carreira e autonomia. A imagem ganha profundidade porque ela compreende seu potencial como linguagem e aprende a transformá-la em instrumento profissional. Hilary entende que visibilidade pode gerar influência e que influência, quando bem administrada, também pode se converter em oportunidade.

Ashley acrescenta uma terceira dimensão, e talvez seja justamente por ser a mais jovem que sua relação com aquele universo se torna tão interessante. Ela nasceu cercada pelo conforto e pelo acesso dos Banks, mas começa a construir pensamento próprio sobre aquilo que existe para além dessa bolha. Questões raciais, identidade, sexualidade, direitos LGBTQ+ e consciência social atravessam sua formação e influenciam a maneira como ela compreende o lugar privilegiado que ocupa.
Ashley nos apresenta, então, outra pergunta sobre poder: o que fazemos com aquilo a que temos acesso?

Ela cresce cercada de possibilidades materiais, educação e influência familiar, enquanto desenvolve consciência sobre como pretende se relacionar com tudo isso. E essa também é uma forma de riqueza: possuir recursos e, ao mesmo tempo, desenvolver pensamento suficiente para decidir quais valores irão orientar o uso deles.
Vivian, Hilary e Ashley pertencem à mesma família, vivem cercadas pelo mesmo patrimônio e, ainda assim, mostram que mulheres negras podem estabelecer relações completamente diferentes com sucesso, influência, dinheiro e poder.
É justamente por isso que não precisamos escolher qual delas representa melhor uma mulher poderosa. As três ampliam o significado da palavra.
Vivian nos oferece repertório, cultura e maturidade. Hilary trabalha imagem, influência, carreira e autonomia. Ashley acrescenta consciência, posicionamento e a compreensão de que acesso também pode ampliar nossa capacidade de participar das transformações que consideramos importantes.
Entender isso também nos faz repensar o olhar sobre mulheres pretas vivendo suas próprias vidas.
Mulheres negras podem ser intelectuais e extremamente vaidosas, amar arte e moda, desejar patrimônio e propósito, construir carreiras tradicionais ou inventar maneiras completamente diferentes de trabalhar. Podem desfrutar daquilo que possuem, multiplicá-lo, questioná-lo, ressignificá-lo e decidir que tipo de legado desejam construir a partir dele. Assim como descrevi em uma matéria recente intitulada “Mulheres negras no poder”.
“Não existe uma única estética possível para o sucesso de uma mulher negra e
também não existe uma única maneira de exercer poder.”
Foi por isso que trouxe Bel-Air.
Vivian, Hilary e Ashley ampliam nosso repertório justamente porque nenhuma delas precisa representar todas as mulheres negras. Elas podem ser diferentes umas das outras, desejar coisas diferentes e atribuir significados diferentes ao acesso que possuem. E talvez uma das maiores demonstrações de privilégio seja justamente poder desenvolver individualidade sem carregar a obrigação de representar todo mundo.
“A sofisticação de uma mulher negra pode simplesmente fazer parte da personagem. E o poder também pode estar na liberdade de decidir o que fazer com tudo aquilo a que se tem acesso.”
Quando representações assim se tornam familiares, mulheres pretas cercadas de beleza, conforto, cultura, patrimônio, possibilidades e influência também passam a ocupar nosso imaginário com maior naturalidade. E aquilo que reconhecemos como possível também participa da construção daquilo que nos permitimos desejar.
Como por exemplo, você pode acabar de assistir um episódio que seja marcante e em seguida ter vontade de ir a um museu encontrar obras feitas por mulheres pretas, assim como a Tia Vivian faz. Entende?
Então não duvide quando eu digo: o dinheiro também nos cai muito bem!
Mas Bel-Air acrescenta algo ainda mais interessante à nossa conversa: riqueza também é repertório. E poder também é ter consciência suficiente para escolher o que fazer com aquilo que se possui.
Série 3: Empire, Cookie Lyon e o poder de continuar sendo reconhecível depois da ascensão

Agora chegamos a ela: Cookie Lyon, que amooo!
Interpretada por Taraji P. Henson, Cookie é uma daquelas personagens que entram em cena com personalidade suficiente para modificar a temperatura do ambiente, admito desde já que sou extremamente fã.
Cookie é irreverente, ambiciosa, inteligente, intensa e muito consciente da própria presença. Em Empire, ocupa um lugar fundamental na história da família Lyon e na construção do império musical que dá nome à série.
Sua trajetória passa por contextos difíceis e por um universo em que dinheiro, indústria musical, família, fama, negócios e interesses pessoais frequentemente se misturam. Mas existe uma dimensão da personagem que me interessa especialmente nesta matéria: Cookie aprende os códigos dos ambientes aos quais passa a ter acesso sem entregar sua identidade em troca de aceitação.
Isso merece atenção porque ascensão social e financeira também envolve linguagem.
Existem códigos de vestimenta, negociação, comportamento, etiqueta, relações empresariais e circulação social. Existem lugares nos quais determinadas informações funcionam quase como senhas invisíveis. Saber como determinado ambiente opera pode influenciar tanto a entrada quanto a permanência nele.
Cookie aprende tudo isso e continua sendo Cookie.
E aqui vemos uma diferença é fundamental, em que ela permanece com sua linguagem, jeito e tudo mais que era, porém dentro do sistema e usando cada coisa que existe nele a seu favor. Além de estar sempre rodeada de outras mulheres negras que foram parte da sua vida na pobreza, dando a elas cargos importantes.
Ascender não deveria exigir que uma mulher negra desapareça para caber no lugar ao qual chegou

Adquirir repertório não significa apagar personalidade. Sua elegância não precisa significar silêncio, assim como sofisticação não exige que todas as mulheres se comportem da mesma maneira.
Cookie compreende progressivamente que dinheiro abre portas, enquanto influência, negociação, leitura de ambiente e consciência do próprio valor ajudam a determinar o que fazemos depois que atravessamos essas portas.
Ela se adapta quando considera necessário sem permitir que a adaptação se transforme em completo desaparecimento de si mesma.
Fazendo com que sua presença especialmente interessante dentro de uma conversa sobre luxo.
Há uma diferença entre evoluir e desaparecer; entre aprender novos códigos e permitir que esses códigos determinem completamente quem você deve ser; entre adquirir repertório e interpretar permanentemente uma personagem criada apenas para ser aceita.
Cookie pode ser luxuosa, extravagante, intensa e poderosa ao mesmo tempo.
E eu gosto disso. Muito.
”O dinheiro também nos cai muito bem, mas dinheiro nenhum deveria exigir que nossa identidade fosse deixada do lado de fora da porta.”
P.S.: Sou extremamente fã de Cookie Lyon e recomendo muito assistir à representação de mulher que ela nos traz.
Série 4: Scandal, quando informação também é patrimônio

Há um tipo de luxo que não se anuncia imediatamente pela roupa, pelo endereço ou pelo saldo bancário. Ele aparece na maneira como alguém compreende um ambiente, administra o próprio tempo, interpreta pessoas e antecipa consequências. Reflita nisso.
Em Scandal, Olivia Pope encarna esse tipo de poder com uma precisão impressionante. Mulher preta, elegante e estrategista, ela ocupa espaços centrais da política americana dentro da narrativa e constrói sua influência através de algo que acrescenta uma nova dimensão a esta matéria: informação.
Olivia poder sabe usar o seu poder e organiza-lo de acordo com a maneira devida.
Saber como determinada estrutura funciona é poder, um tipo de poder que precisamos ter em nós todos os dias e em todos os lugares que estivermos. Compreender quem realmente decide, identificar interesses, antecipar movimentos, perceber aquilo que não foi dito e reconhecer o momento certo para falar são habilidades capazes de alterar completamente uma negociação. Senso esse necessário em momento de eleição, como esse que estamos vivendo.
A elegância visual de Olivia é evidente, mas reduzi-la aos figurinos impecáveis seria perder justamente aquilo que faz da personagem uma referência tão interessante.
Seu maior luxo esta no domínio que exerce sobre o próprio pensamento.
Olivia compreende que poder raramente se resume à pessoa que aparece na fotografia oficial. Existem estruturas, alianças, informações, reputações e relações funcionando por trás daquilo que o público consegue enxergar.
Há pessoas que entram em uma sala usando poder.
Olivia Pope entra sabendo onde o poder está, sem se preocupar com quem apenas o usa.
É por isso que sua presença amplia aquilo que podemos entender como riqueza.
Existe capital financeiro, mas também existem capital intelectual, cultural, social e simbólico. O dinheiro proporciona acessos importantes; repertório ajuda a compreender esses acessos; informação pode determinar o que fazemos quando uma oportunidade finalmente aparece.
Olivia acrescenta à nossa psique um pensamento político e estratégico.
Ela nos faz refletir sobre como, quando e pelo que nos posicionamos, além de demonstrar que uma mulher não precisa necessariamente ser a pessoa mais barulhenta de uma sala para exercer influência sobre aquilo que acontecerá nela.
Talvez essa seja uma das imagens mais sofisticadas de poder feminino negro presentes nesta lista: uma mulher cuja importância não depende apenas de ser vista. Ela é procurada porque sabe o que fazer.
“Inteligência também é patrimônio. Estratégia também é poder.”
E se o dinheiro também nos cai muito bem, o conhecimento certamente quando unidos fazem uma composição maravilhosa.
Série 5: Tudo É Justo, quando mulheres também ocupam o lugar de quem decide

Chegamos à última série desta lista, e talvez agora seja possível compreender por que escolhi deixá-la para o final.
Tudo É Justo nos conduz para um universo atravessado por carreira, dinheiro, imagem, relações, desejo, conflitos e poder profissional, dentro de ambientes construídos visualmente para transmitir muita sofisticação. Toda a cenografia, falas, vestimentas são perfeitas e é tudo muito modernos.
Mas o que me interessa não é apenas observar o que essas mulheres vestem ou coisas do tipo.
Quero olhar para o lugar que ocupam, pois quando vemos o luxo sem poder de decisão pode se transformar apenas em cenário.
O que me interessa nesta matéria é a mulher que escolhe, negocia, trabalha, ganha, perde, muda de ideia, deseja mais e possui recursos suficientes para transformar algumas de suas decisões em movimento. Sabendo o quanto isso custa.
E existe uma frase que precisamos conseguir dizer sem culpa:
“Uma mulher negra não precisa transformar riqueza em militância para ter direito a desfrutá-la.”
Responsabilidade coletiva importa. Comunidade importa. Legado importa. Transformação social importa. Mas isso não significa que toda experiência de prazer vivida por uma mulher negra precise apresentar uma justificativa social antes de ser considerada legítima. Em hipótese alguma.
Ela pode comprar algo porque gostou. Pode viajar porque quis. Pode desejar uma casa extraordinária porque aquela casa corresponde à vida que decidiu construir. Pode querer ganhar muito dinheiro, investir, consumir, descansar, construir patrimônio e desejar ainda mais. Ou não.
Mas nenhuma dessas escolhas deve ser explicada pela quantidade de sofrimento que veio antes.
“Prazer não precisa ser indenização por sofrimento.
Uma vida boa pode simplesmente ser uma vida boa.”
Essa talvez seja uma das razões pelas quais me interessa tanto observar mulheres negras em narrativas de luxo e poder. Não porque todas devam desejar o mesmo tipo de vida, mas justamente porque essa possibilidade também precisa existir dentro do nosso repertório.
Uma menina, uma adolescente ou uma mulher deveria poder olhar para diferentes representações e encontrar muitas respostas possíveis para uma mesma pergunta: “Que tipo de vida eu posso construir?”
Talvez ela queira luxo. Talvez queira uma vida simples. Talvez queira comandar uma empresa, escrever livros, construir patrimônio suficiente para trabalhar menos, conhecer o mundo ou criar uma vida completamente diferente de todas essas.
O poder está justamente na existência de possibilidades.
Depois de falar sobre pertencimento, repertório, identidade, influência, inteligência e estratégia, podemos voltar ao lugar onde começamos sem qualquer constrangimento:
Sim, o dinheiro também nos cai muito bem.
Afinal, de qual luxo estamos falando?
Depois de atravessar todas essas histórias, talvez fique mais evidente que, quando falo de luxo e poder nesta matéria, nunca estive falando apenas sobre roupas caras, casas enormes, carros, viagens ou sobre quanto dinheiro existe em uma conta bancária.
Dinheiro importa. Acesso importa. Poder escolher onde morar, o que vestir, onde estudar, para onde viajar, como cuidar de si e quais experiências viver pode modificar profundamente uma vida.
Não precisamos fingir que condições financeiras não proporcionam liberdade em muitos aspectos.
E, convenhamos: o dinheiro também nos cai muito bem.
Mas foi justamente por isso que escolhi mulheres tão diferentes para esta lista.
Em cada série, o luxo assume uma dimensão diferente
Pertencimento, autonomia, repertório, imagem, influência, inteligência, estratégia, escolha e, sim, dinheiro também.
Run the World nos apresenta pertencimento e autonomia. Bel-Air permite observar como repertório, imagem e sofisticação podem fazer parte da construção de mulheres negras sem consumir toda a sua identidade. Cookie Lyon nos lembra da importância de acessar novos ambientes sem entregar a própria personalidade como pagamento pela entrada. Olivia Pope transforma informação, inteligência e estratégia em instrumentos de poder. E Tudo É Justo nos devolve à possibilidade de mulheres ocuparem espaços atravessados por decisão, dinheiro, desejo e desfrute.
Percebe?
Esta não é simplesmente uma lista de mulheres pretas usando roupas maravilhosas em cenários milionários.
É uma conversa sobre imaginário.
Sobre aquilo que aprendemos a reconhecer como possível quando pensamos em uma mulher preta.
Não precisamos abandonar narrativas sobre nossas lutas. Elas fazem parte da história de qualquer pessoa, ajudam a compreender estruturas sociais e dão nome a experiências que precisam ser conhecidas. O que não podemos permitir é que a luta se transforme no limite daquilo que conseguimos imaginar para nossas personagens e, consequentemente, para nós mesmas.
Sobreviver não pode e não será o limite daquilo que conseguimos imaginar para uma mulher negra.
Também quero nos ver escolhendo, criando, liderando, descansando, viajando, amando, investindo, sendo desejadas, construindo patrimônio, tendo tempo, mudando de ideia, tomando decisões e entrando em lugares bonitos sem que nossa presença precise ser explicada.
Quero ver mulheres pretas cercadas de possibilidades.
Não porque todas nós precisamos querer as mesmas coisas, pois isso também seria uma prisão. Mas a verdadeira ampliação do imaginário acontece quando existem possibilidades suficientes para que nenhuma mulher negra precise carregar a obrigação de representar todas as outras.
Uma personagem negra pode ser milionária enquanto outra deseja uma vida tranquila. Uma pode ser executiva, outra artista, intelectual, empreendedora ou herdeira. Outra pode ainda estar descobrindo o que deseja. A riqueza da representação está justamente na possibilidade de todas essas mulheres existirem sem que uma precise invalidar a outra. Tudo isso é poder!
É por isso que falar sobre mulheres negras vivendo no luxo e no poder pode ser muito mais interessante do que discutir apenas o preço das coisas que aparecem na tela.
Estamos falando sobre quem imaginamos tendo acesso a elas. Quem imaginamos decidindo, descansando, construindo patrimônio, possuindo tempo, sendo servido em vez de estar permanentemente servindo e tendo escolhas suficientes para poder mudar de caminho.
Estamos falando, principalmente, sobre a possibilidade de construir uma vida que não precise ser explicada o tempo inteiro.
Acredito que essa seja a maior riqueza que essas séries podem oferecer enquanto representação:
Um repertório completo de maiores possibilidades.
Aquilo que conseguimos imaginar não determina sozinho aquilo que conseguiremos viver, mas ampliar o imaginário se vendo a partir de qualquer lugar significa também ampliar as referências a partir das quais construímos nossos desejos.
Por isso quero mais personagens negras ricas, poderosas, sofisticadas, intelectuais, empresárias, artistas, estrategistas, donas de casas com cheiro de bolo com café ou herdeiras. Quero mulheres construindo patrimônio e também personagens descansando tomando chá da tarde durante a semana. Quero mulheres negras vivendo histórias em que dinheiro não precise ser necessariamente o problema central da existência.
Quero personagens tão complexas que possam ter dinheiro e ainda possuir outros cinquenta assuntos para resolver.
Porque riqueza também pode deixar de ser o enredo e simplesmente fazer parte do cenário.
Também precisamos de histórias sobre tudo aquilo que podemos viver.
E se, depois dessas cinco séries, alguma imagem dentro de você tiver se ampliado, esta matéria cumpriu exatamente aquilo que eu queria quando comecei a escrevê-la.
Que quando falarmos de luxo, você também consiga imaginar uma mulher preta. Quando falarmos de inteligência, também. Quando falarmos de influência, elegância, estratégia, patrimônio, conforto, liberdade, escolha e poder, também.
Nenhuma dessas palavras deveria nos parecer estrangeira e sim muito próxima de acord0 com aquilo que temos em mente.
O dinheiro também nos cai muito bem. Mas uma vida inteira de possibilidades nos cai ainda melhor.

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Escritora e colunista do Portal Afro. Escrevo sobre cultura, comportamento e os muitos imaginários possíveis para mulheres negras.
Especialmente aqueles em que poder, afeto, prazer, inteligência e prosperidade também nos pertencem.
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Bárbara Nascimento l abahfonica
30 anos, Mineira de Uberaba-MG.
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O centro sempre foi nosso
Uma dedicada Professora de Inglês que conhece cada um dos seus alunos na íntegra.

















