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Mônica Calazans: A voz da enfermagem e a força da maternidade solo no Brasil

A trajetória de Mônica Calazans que esteve na linha de frente da saúde brasileira reflete a realidade de milhões de mulheres que equilibram o cuidado com a vida e a liderança de seus lares.

Colaboração da jornalista  Clarice Tatyer

A realidade invisível por trás do símbolo nacional

Em janeiro de 2021, o rosto de Mônica Calazans, intensivista do Hospital Emílio Ribas, se tornou o símbolo de um momento histórico para o país. Ao receber a primeira dose da vacina contra a Covid-19 aplicada no Brasil, ela representou uma categoria inteira de profissionais que arriscaram as próprias vidas na linha de frente de uma das maiores crises sanitárias da nossa história.
No entanto, aquela imagem icônica capturada pelas câmeras não conta a história inteira. Por trás da profissional que virou referência nacional, existe uma mulher preta que conhece profundamente as engrenagens e as dificuldades do Sistema Único de Saúde (SUS), os desafios históricos da enfermagem e a urgência de políticas públicas que protejam tanto os pacientes quanto os trabalhadores da saúde.

O retrato da maternidade solo e a chefia de família no Brasil

Antes de se tornar uma figura pública, Mônica já vivenciava na pele o que significa cuidar. Enfermeira, mãe solo e trabalhadora dedicada, sua rotina sempre foi pautada por um equilíbrio complexo que dialoga diretamente com a estrutura social de milhões de brasileiras: conciliar o trabalho técnico e exaustivo, a maternidade e as responsabilidades domésticas sem deixar de seguir em frente, mesmo diante das maiores adversidades.

Mas vamos trazer um histórico desta realidade da mulher preta brasileira com intuito de elucidar melhor a realidade pouco avaliada da nossa história.

A criminalização do corpo e a emancipação fraturada

A abolição da escravidão em 1888 ocorreu sem qualquer política de integração econômica ou reparação social para os recém-libertos. No vácuo do cativeiro, o Estado brasileiro utilizou o Código Penal de 1890 para criar a figura jurídica do “vadio”. A Lei da Vadiagem criminalizava quem não possuísse emprego formal ou moradia fixa — condições quase impossíveis para a imensa maioria dos ex-escravizados.
A Caça ao Homem Preto: O foco principal da repressão policial recaiu sobre o homem negro circulando pelo espaço urbano. O homem preto sem “patrão” ou contrato formal era visto como uma ameaça à ordem pública e sumariamente encarcerado, enviado para colônias agrícolas ou submetido a trabalhos forçados “corretivos”.
Impacto na Cultura: Práticas culturais identitárias e de resistência ligadas ao universo masculino e comunitário, como a capoeira e o samba, foram diretamente perseguidas e enquadradas como vadiagem ou desordem. Isso impediu a livre circulação e a organização política/econômica autônoma dos homens negros logo nos primeiros anos da República.

A Perspectiva Sociológica (Mulheres Pretas e Maternidade Solo)
A sobrecarga histórica do cuidado e a “responsabilidade compulsória”

Enquanto os homens negros enfrentavam o encarceramento em massa e o exílio social pela Lei da Vadiagem, o mercado de trabalho herdado do escravismo absorveu as mulheres negras de forma precária e imediata. Elas continuaram ocupando o trabalho doméstico, a lavagem de roupas e o comércio ambulante (ganhadeiras).

A ilusão da emancipação financeira: A inserção da mulher negra no mercado informal ou doméstico garantiu-lhe uma renda de subsistência, poupando-as relativamente da acusação direta de “vadiagem” (visto que o trabalho reprodutivo e de servidão era socialmente esperado delas). No entanto, essa “autonomia” financeira veio desacompanhada de emancipação social real.

A Origem da Maternidade Solo Estrutural: O desmantelamento das redes de apoio familiar e o encarceramento, assassinato ou exclusão socioeconômica dos homens pretos forçaram a mulher negra a assumir, de forma isolada, o sustento financeiro e afetivo de seus filhos. A solidão da mãe preta e a chefia de família solo não decorrem de uma “escolha cultural”, mas sim de uma contingência histórica de sobrevivência diante do racismo estrutural que debilitou a estabilidade e a emancipação dos homens negros.

A vivência pessoal de Mônica é um reflexo fiel das estatísticas nacionais sobre arranjos familiares.
De acordo com os dados do Censo 2022 do IBGE, as mulheres são responsáveis por 49,1% das unidades domésticas do Brasil, o que representa cerca de 35,6 milhões de lares.
O cenário fica ainda mais evidente quando observamos o recorte da monoparentalidade: dentro desse universo de domicílios sob liderança feminina, 10,3 milhões são compostos por mulheres sem cônjuge e com filhos. Mônica Calazans faz parte desse grupo de milhões de brasileiras que sustentam e lideram suas famílias de forma autônoma.

O compromisso com a valorização de quem cuida

A experiência acumulada na linha de frente e a bagagem de uma vida inteira de superações hoje orientam a atuação política e social de Mônica. Sua trajetória se transformou em um compromisso firme com a valorização real dos profissionais de saúde e com o fortalecimento de redes de apoio para mães solo.
Entender a história de Mônica Calazans é compreender a necessidade urgente de dar visibilidade e direitos estruturais a quem, historicamente, cuida da população brasileira.

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