Quando produzir conhecimento também é uma forma de ocupar espaço
Existe uma pergunta que atravessa a história da educação e da ciência no Brasil, embora nem sempre seja feita de maneira explícita: quem aparece quando procuramos quem produz conhecimento?
A resposta, durante muito tempo, foi marcada por uma presença majoritariamente branca nos espaços de reconhecimento acadêmico. Isso não significa que pessoas negras não tenham produzido conhecimento. Significa que uma parte importante dessa produção permaneceu dispersa, pouco conhecida, pouco circulada ou distante dos espaços que definem quais autores e pesquisas ganham visibilidade.
É nesse cenário que surge o OPA, Observatório de Produções Afro Acadêmicas, uma plataforma digital criada para valorizar, organizar, preservar e ampliar a circulação da produção acadêmica de estudantes, docentes e pesquisadores negros no ensino superior brasileiro.
O OPA não se apresenta apenas como um repositório. A proposta combina visibilidade, sistematização, intercâmbio e produção de dados sobre a intelectualidade negra. A plataforma reúne produções como trabalhos de conclusão de curso, dissertações, teses, artigos e outras pesquisas de autoria negra, além de prever ferramentas de busca, diretório de pesquisadores, indicadores e um mapa de organizações negras ligadas ao universo acadêmico.
Há uma escolha importante por trás dessa proposta. O OPA não pretende catalogar apenas pesquisas sobre relações raciais. Seu foco está na autoria negra. Isso significa reconhecer que pesquisadores negros produzem conhecimento em todas as áreas, das ciências da saúde às engenharias, das artes ao direito, da comunicação às ciências exatas.
Essa diferença parece pequena, mas não é.
Ela desloca o olhar. Em vez de perguntar apenas o que pesquisadores negros estudam, o OPA também pergunta quem são essas pessoas, onde estão, o que estão produzindo e como esse conhecimento pode circular.
O próprio nome da plataforma carrega esse sentido. ọ̀pá, palavra de origem iorubá, significa bastão ou cetro e está associado à ideia de autoridade. No contexto do OPA, o nome afirma que estudantes e pesquisadores negros produzem conhecimento com autoridade intelectual legítima e que essa produção merece ser preservada, valorizada e reconhecida.
E talvez esteja justamente aí uma das questões mais interessantes desse projeto.
O que acontece quando uma pesquisa deixa de ser apenas um trabalho acadêmico guardado em uma biblioteca ou em um repositório institucional e passa a fazer parte de uma rede capaz de conectar autores, pesquisas, instituições e sociedade?
O OPA pretende caminhar nessa direção.
A dimensão do pertencimento merece atenção especial.
Encontrar referências importa.
Para um estudante negro que ingressa na universidade, descobrir que existem pesquisadores negros produzindo conhecimento em diferentes áreas pode significar mais do que encontrar um artigo para citar em um trabalho. Pode significar enxergar uma possibilidade de futuro.
E é justamente nesse ponto que esta matéria se transforma em uma conversa.
Para compreender o que existe por trás da plataforma, da tecnologia e da proposta acadêmica, conversamos com Lívia Albuquerque, idealizadora do OPA.
Comunicadora com mais de 10 anos de experiência, dedicados nos últimos anos à comunicação institucional em instituições de ensino e pesquisa — FGV EESP, FMUSP e Mackenzie. É graduada em Publicidade e Propaganda pelo Mackenzie, com pós-graduações pela ESPM e pela FAAP, e conclui em 2026 o Mestrado Profissional em Comunicação Intercultural nas Organizações, no Mackenzie, onde pesquisa a permanência de estudantes negros no ensino superior privado. Criou o OPA a partir dessa pesquisa.
Mais do que falar sobre funcionalidades, nesta conversa Lívia fala sobre a origem da ideia, as experiências que ajudaram a moldá-la, o sentimento de pertencimento que impulsionou a construção do projeto e o futuro que ela imagina para o Observatório de Produções Afro Acadêmicas.
Porque, antes de ser uma plataforma, o OPA nasceu de uma inquietação.
E talvez seja justamente essa inquietação que explique por que esse projeto pretende ser muito maior do que um banco de dados.
Uma conversa com Lívia Albuquerque, idealizadora do OPA

Como surgiu a ideia de criar o OPA?
O OPA nasce como produto técnico-tecnológico do meu mestrado profissional em Comunicação Intercultural nas Organizações. Inicialmente, a proposta era desenvolver um protótipo como resposta à minha pergunta de pesquisa, que investiga como a comunicação das instituições de ensino pode contribuir para fortalecer o sentimento de pertencimento e ampliar a permanência de estudantes negros na universidade.
Ao longo desse percurso, percebi que esse produto não poderia se limitar ao escopo de uma dissertação e, depois, ser arquivado como acontece com tantos trabalhos acadêmicos. Senti que tinha a responsabilidade de transformá-lo em uma iniciativa real, capaz de gerar impacto para além da universidade.
Foi nesse momento que o OPA deixou de ser apenas um produto de pesquisa e passou a se tornar um projeto de vida. Mais do que cumprir uma exigência acadêmica, ele nasceu do desejo de criar uma plataforma que valorizasse, desse visibilidade e conectasse a produção intelectual negra, contribuindo para que esse conhecimento circulasse, fosse reconhecido e inspirasse novas trajetórias dentro e fora da academia.
Em que momento você percebeu que o Brasil precisava de um observatório dedicado à produção afro acadêmica?
Essa percepção foi sendo construída ao longo da minha trajetória profissional e acadêmica.
Tive a oportunidade de atuar em instituições como a Universidade Presbiteriana Mackenzie, a Faculdade de Medicina da USP e a FGV. Nesses espaços, conheci inúmeros estudantes, professores e pesquisadores negros desenvolvendo pesquisas de enorme qualidade e relevância.
Ao mesmo tempo, como estudante e pesquisadora, sempre me chamou atenção o contraste entre essa produção e aquilo que tradicionalmente ocupa o centro da academia. As bibliografias dos cursos, as ementas das disciplinas e grande parte dos autores apresentados durante a formação ainda são predominantemente compostos por intelectuais brancos. Isso me fez perceber que não faltam pesquisadores negros produzindo conhecimento; o que muitas vezes falta é visibilidade, circulação e reconhecimento para essa produção.
Existe alguma história, experiência pessoal ou situação específica que despertou a necessidade de transformar essa ideia em realidade?
Houve um episódio durante o mestrado que marcou profundamente a minha reflexão.
Ao submeter meu projeto de pesquisa a uma premiação da universidade, um dos pareceres elogiava a relevância do tema, mas apontava como erro o fato de eu ter escrito o nome da autora bell hooks em letras minúsculas. O que chamou minha atenção é que essa é justamente a forma como a autora escolheu assinar todas as suas obras. A opção pelas letras minúsculas fazia parte de seu posicionamento político e intelectual, colocando o foco nas ideias, e não na figura da autora.
Aquele comentário me fez refletir sobre algo maior do que uma observação de revisão textual. Ele evidenciou que, mesmo entre intelectuais amplamente reconhecidos internacionalmente, ainda há um desconhecimento sobre autoras e autores negros e suas contribuições.
Esse episódio reforçou uma convicção que eu já vinha construindo ao longo da minha trajetória: não basta que a produção afro-acadêmica exista. Ela precisa circular, ser conhecida, referenciada e ocupar os espaços de legitimidade que historicamente lhe foram negados. O OPA nasce também desse compromisso: contribuir para que esse conhecimento seja mais visível, acessível e reconhecido.
Como essa percepção influenciou a construção do OPA e qual foi o sentimento que mais impulsionou a equipe durante o desenvolvimento do projeto?
Essa percepção influenciou todas as decisões relacionadas à construção do OPA. Desde o início, quis criar uma plataforma que celebrasse e desse visibilidade à produção intelectual negra.
Existem organizações que desempenham um papel fundamental na denúncia das desigualdades e do racismo estrutural. O OPA escolheu contribuir de outra forma: evidenciando aquilo que já está sendo produzido, valorizando pesquisadores negros e ampliando a circulação de seus conhecimentos.
O sentimento que mais me impulsionou durante o desenvolvimento do projeto foi o de pertencimento. Queria construir um espaço em que pesquisadores negros pudessem se reconhecer e reconhecer seus pares. Um espaço que dissesse: nós existimos, produzimos conhecimento de excelência e estamos presentes em todas as áreas do saber.
Também pensei muito nos estudantes que estão iniciando sua trajetória acadêmica. Quero que eles encontrem referências, descubram pesquisadores que compartilham de suas vivências e percebam que esse caminho já foi percorrido por muitas pessoas antes deles. Quando um estudante consegue enxergar quem veio antes, ele passa a acreditar que também pode ocupar esse espaço.
Mais do que reunir produções acadêmicas, o OPA busca fortalecer o sentimento de pertencimento e inspirar novas trajetórias, mostrando que a produção intelectual negra faz parte da ciência brasileira e merece ser conhecida, reconhecida e valorizada.
Se a equipe desse projeto pudesse resumir, em uma única frase, o propósito do OPA, qual seria essa frase?
O OPA existe para tornar a produção afro acadêmica visível, conectada e mensurável, fortalecendo o reconhecimento da intelectualidade negra e contribuindo para uma academia mais plural e equitativa.
Como o OPA seleciona e organiza as produções acadêmicas?
O principal critério de elegibilidade é a autodeclaração racial da autora ou do autor. Esse costuma ser um dos pontos que mais desperta dúvidas, porque muitas pessoas imaginam que um observatório afro acadêmico reuniria apenas pesquisas sobre relações étnico-raciais. Mas não é essa a proposta do OPA.
Pesquisadores negros produzem conhecimento em todas as áreas do saber: engenharia, saúde, direito, comunicação, ciências exatas, artes, entre tantas outras. Restringir a curadoria apenas a estudos sobre raça significaria reproduzir justamente a lógica que buscamos enfrentar: a de que pessoas negras só podem pesquisar ou falar sobre questões relacionadas à negritude.
O OPA parte de outro princípio: o que nos interessa é tornar visível a produção intelectual de pesquisadores negros, independentemente da área do conhecimento ou do tema pesquisado.
Atualmente, o ingresso acontece por submissão espontânea, por meio de um formulário disponível no site. Essa é uma escolha deliberada do projeto: entendemos que cabe ao próprio autor decidir se deseja integrar o observatório. Após a submissão, a equipe editorial realiza a verificação das informações, organiza os registros e faz a curadoria dos metadados, garantindo a qualidade e a padronização do acervo.
Como vocês pretendem aproximar a produção acadêmica da sociedade?
Acreditamos que grande parte da produção acadêmica permanece restrita aos ambientes universitários, muitas vezes acessível apenas a quem já conhece determinados autores, grupos de pesquisa ou instituições.
O OPA busca reduzir essa distância ao tornar esse conhecimento mais visível, organizado e fácil de encontrar. Quando uma pesquisa pode ser localizada por tema, área do conhecimento ou autoria, ela passa a ter mais chances de ser lida, citada e utilizada por outras pessoas.
Aproximar a produção acadêmica da sociedade também significa aproximar pessoas. Queremos que jornalistas encontrem especialistas para entrevistas, que gestores públicos identifiquem pesquisadores para subsidiar políticas públicas, que organizações da sociedade civil estabeleçam parcerias, que empresas encontrem referências para seus projetos e que estudantes descubram pesquisadores que possam inspirar suas trajetórias.
Nosso objetivo é que a produção afro acadêmica deixe de circular apenas entre especialistas e passe a ocupar também os espaços onde decisões são tomadas, políticas são formuladas e novas referências são construídas. Deixa de valer a resposta de que não se encontrou ninguém qualificado, quando se mostra uma base como o OPA.
Qual é a visão de longo prazo para o OPA?
Ser referência nacional na visibilidade e na preservação da produção acadêmica negra, contribuindo para um ensino superior mais plural, no qual estudantes e pesquisadores negros sejam reconhecidos como sujeitos legítimos de produção de conhecimento.
Ao mesmo tempo, queremos que o OPA seja uma fonte confiável de dados. À medida que a base cresce, ela permite produzir indicadores capazes de revelar quem produz conhecimento, em quais áreas, em quais instituições e como essa produção evolui ao longo do tempo. Esses dados podem apoiar universidades na formulação de políticas de diversidade, pertencimento e permanência, além de subsidiar pesquisas e decisões de gestores públicos e organizações da sociedade civil.
Para que essa visão se concretize em toda a sua dimensão, será fundamental construir um modelo de sustentabilidade para o OPA, com parcerias e fontes de financiamento que garantam sua continuidade e expansão. Esse apoio permitirá ampliar a equipe, fortalecer a plataforma, desenvolver novas funcionalidades, produzir indicadores cada vez mais qualificados e consolidar o OPA como uma infraestrutura permanente de valorização e difusão da produção afro acadêmica no Brasil.

Mais do que encontrar pesquisas, encontrar quem produz conhecimento
Talvez a maior força do OPA esteja justamente naquilo que não aparece imediatamente quando abrimos uma plataforma digital.
Por trás de cada produção acadêmica existe uma trajetória. Existe alguém que entrou em uma universidade, enfrentou desafios, encontrou ou não encontrou referências, desenvolveu uma pergunta, pesquisou, escreveu e produziu conhecimento.
Organizar essas produções é, portanto, também organizar uma memória.
O OPA propõe transformar uma produção que muitas vezes permanece fragmentada em uma rede de conhecimento mais visível. Seu repositório, seu diretório de pesquisadores, os indicadores, o mapa de organizações negras e as ferramentas de busca fazem parte de uma mesma ideia: aproximar pessoas e conhecimento.
E existe uma dimensão especialmente potente nessa proposta. Quando um jornalista procura uma fonte negra para uma reportagem, quando uma universidade busca pesquisadores para uma parceria, quando uma organização procura conhecimento para subsidiar uma ação ou quando um estudante busca referências para imaginar sua própria trajetória acadêmica, a visibilidade deixa de ser apenas simbólica.
Ela passa a produzir consequências concretas.
O Portal Afro tem acompanhado diferentes iniciativas que trabalham justamente na ampliação do acesso, da presença e da circulação do conhecimento. Entre elas está o Programa Beatriz Nascimento de Mulheres na Ciência, que busca ampliar oportunidades para mulheres negras, indígenas, quilombolas e ciganas na pesquisa científica. A proposta do OPA dialoga com esse mesmo debate por outro caminho: tornar visível quem já está produzindo conhecimento e criar condições para que essa produção circule.
Também vale conhecer conteúdos do Portal Afro relacionados à educação e à democratização do conhecimento, como a matéria sobre a Zumbi Digital, plataforma de cursos da Universidade Zumbi dos Palmares.
No fundo, projetos como esses nos colocam diante de uma questão que ultrapassa a universidade.
- Que conhecimento estamos escolhendo preservar?
- Quem aparece quando procuramos especialistas?
- Quem é citado?
- Quem é convidado para falar?
- Quem é reconhecido como referência?
- E, principalmente, quem consegue se enxergar como alguém que também pode produzir conhecimento?
O OPA nasce de uma resposta concreta a essas perguntas. Não pretende dizer que pesquisadores negros começaram agora a produzir ciência. Eles sempre estiveram produzindo.
A diferença está em criar mais um lugar onde essa produção possa ser encontrada.
Porque conhecimento que existe, mas não circula, corre o risco de permanecer invisível.
E talvez uma das formas mais importantes de transformar a universidade brasileira seja justamente fazer com que mais pessoas possam olhar para ela e reconhecer, nos espaços de produção intelectual, não apenas um lugar onde estão, mas também um lugar onde podem chegar.
Perguntas frequentes sobre o OPA, Observatório de Produções Afro Acadêmicas
O que é o OPA, Observatório de Produções Afro Acadêmicas?
O OPA é uma plataforma digital dedicada à valorização, visibilidade e disseminação da produção acadêmica de estudantes, docentes e pesquisadores negros no ensino superior brasileiro. O projeto reúne produções acadêmicas, organiza informações e busca gerar dados sobre a produção intelectual negra.
Que tipos de trabalhos podem fazer parte do OPA?
A proposta inclui trabalhos de conclusão de curso, dissertações, teses, artigos e outras produções de autoria negra. A plataforma também disponibiliza recursos para organização e localização dessas produções.
O OPA reúne apenas pesquisas sobre relações raciais?
Não. O critério central é a autoria negra, e não o tema da pesquisa. O projeto reconhece que pesquisadores negros produzem conhecimento em diferentes áreas, incluindo saúde, engenharia, direito, comunicação, artes e ciências exatas.
Quem pode participar do OPA?
A plataforma informa que pessoas negras vinculadas ao ensino superior brasileiro, como estudantes, docentes e pesquisadoras, podem submeter suas produções. O projeto também prevê participação por meio de colaboração em áreas como curadoria, comunicação, tradução e desenvolvimento.
Por que um observatório de produção acadêmica negra é importante?
Porque a organização e a visibilidade dessa produção podem facilitar seu acesso, circulação e reconhecimento, além de contribuir para a formação de redes acadêmicas e para a produção de dados que subsidiem políticas institucionais de equidade racial.
Onde conhecer o OPA?
O Observatório de Produções Afro Acadêmicas pode ser acessado pelo site oficial:
Conheça o OPA – Observatório de Produções Afro Acadêmicas
Um beijo e até o próximo post!

Colunista do Portal Afro
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