Aoua Kéita, Sarah E. Goode, Beth A. Brown e Sônia Guimarães - Portal Afro

25 de Julho: mulheres negras que transformaram a história, a ciência e o mundo

Aoua Kéita, Sarah E. Goode e Beth A. Brown mostram que a história das mulheres negras também foi construída em hospitais, oficinas, laboratórios e diante do universo

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Aoua Kéita, Sarah E. Goode, Beth A. Brown e Sônia Guimarães
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Aoua Kéita, Sarah E. Goode, Beth A. Brown e Sônia Guimarães

Quando pensamos nas mulheres negras que marcaram a história, é comum que algumas imagens apareçam primeiro. A liderança política. A resistência. A luta por direitos. A produção cultural. Tudo isso é fundamental. Mas existe uma parte dessa história que também precisa ser contada com mais frequência: a das mulheres negras que produziram conhecimento, criaram soluções, desenvolveram tecnologias e ocuparam espaços científicos que, durante muito tempo, foram apresentados como se não lhes pertencessem.

Aoua Kéita, Sarah E. Goode e Beth A. Brown nasceram em épocas, países e contextos completamente diferentes.

  • Aoua Kéita nasceu no Mali colonial e se tornou parteira, escritora e militante anticolonial.
  • Sarah E. Goode viveu nos Estados Unidos do século XIX e registrou uma invenção voltada a um problema cotidiano: como aproveitar melhor o espaço dentro de uma casa.
  • Beth A. Brown nasceu em 1969 e dedicou sua carreira à astrofísica, estudando fenômenos extremos do universo, incluindo galáxias elípticas e buracos negros.

A história das mulheres negras não pode ser reduzida a uma única narrativa de superação. Aoua Kéita, Sarah E. Goode e Beth A. Brown mostram três formas diferentes de olhar para um problema e imaginar que ele poderia ser enfrentado de outra maneira.

Uma olhou para a saúde e para o futuro de uma nação, outra olhou para o espaço onde as pessoas viviam e a  terceira olhou para o universo.

Aoua Kéita: a primeira mulher eleita para um parlamento em um território colonial africano

Aoua Kéita

Aoua Kéita nasceu em 12 de julho de 1912, em Bamako, então parte do Sudão Francês, território que mais tarde se tornaria o Mali. Sua trajetória atravessou alguns dos processos mais importantes da história política africana do século XX: o colonialismo, a organização dos movimentos de independência, a participação política das mulheres e a construção do Mali independente.

Mas começar sua história apenas pela política seria deixar de fora uma dimensão essencial de sua trajetória.

Aoua Kéita era parteira/obstetra

Ela estudou em Bamako e posteriormente se formou em obstetrícia na Escola de Medicina de Dakar, no Senegal, em 1931. Ao longo de sua carreira, trabalhou em diferentes regiões da África Ocidental. Em Gao, no norte do atual Mali, atuou por muitos anos em um contexto colonial no qual a saúde, o trabalho e a organização social eram atravessados pelas estruturas do domínio francês.

A profissão a colocou em contato direto com mulheres e comunidades. Mas a experiência profissional não a manteve afastada da política. Pelo contrário. Aoua Kéita tornou-se uma das mulheres que participaram da construção da luta anticolonial e da organização política que acompanhou o processo de independência do Mali.

Em 1946, envolveu-se com o Rassemblement Démocratique Africain, movimento político anticolonial que atuava em diferentes territórios da África Ocidental francesa. Sua participação ocorreu em um momento em que a presença das mulheres na política formal e nos movimentos nacionalistas ainda era frequentemente limitada ou subordinada às lideranças masculinas.

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A primeira mulher eleita para um parlamento em um território colonial africano

Aoua Kéita não aceitou esse lugar secundário

Sua trajetória é particularmente importante porque demonstra que a participação das mulheres africanas na luta anticolonial não se resumiu a apoiar homens que ocupavam posições de liderança. Mulheres organizaram campanhas, mobilizaram comunidades, participaram de sindicatos, construíram redes e disputaram diretamente os rumos políticos de seus países.

Em 1959, Aoua Kéita foi eleita para uma cadeira parlamentar, sendo reconhecida como a primeira mulher eleita para um parlamento em um território colonial africano. Após a independência do Mali, em 1960, continuou participando da vida política do novo Estado.

Mas existe outro aspecto de sua trajetória que merece atenção: Aoua Kéita também escreveu.

Sua autobiografia, publicada em 1975 sob o título Femme d’Afrique: La vie d’Aoua Kéita racontée par elle-même, tornou-se um importante testemunho sobre a experiência de uma mulher africana que viveu a passagem do colonialismo à independência e participou ativamente da construção política do Mali.

Isso dá à sua história uma dimensão particularmente poderosa.

Aoua Kéita não foi apenas objeto da história.

Ela foi uma de suas autoras.

Foi parteira, militante, política e escritora. Cuidou de corpos, participou da organização de comunidades e ajudou a construir um projeto de país.

Talvez seja por isso que sua trajetória seja tão importante para pensar a produção de conhecimento pelas mulheres negras. Aoua Kéita mostra que conhecimento não nasce apenas em universidades ou laboratórios. Também pode nascer da experiência profissional, da organização coletiva, da observação das necessidades de uma população e da decisão de transformar essa experiência em ação política.

Sua vida também desmonta uma ideia muito limitada sobre a mulher africana na história. Aoua Kéita não aparece apenas como alguém afetada pelo colonialismo. Ela aparece como alguém que pensou, organizou, participou e interveio nos acontecimentos do seu tempo

Sarah E. Goode: quando uma necessidade cotidiana virou uma invenção

Sara Elizabeth Jacobs Goode

Sarah E. Goode viveu em um período em que as possibilidades de reconhecimento profissional e intelectual para mulheres negras nos Estados Unidos eram profundamente limitadas.

Ela era empresária e administrava, junto com o marido, uma loja de móveis em Chicago. Foi nesse contexto que surgiu a ideia que resultaria em sua patente.

Em 12 de novembro de 1883, Sarah E. Goode apresentou um pedido de patente para um cabinet-bed, uma cama que podia ser dobrada e transformada em uma peça semelhante a um armário ou gabinete. A patente foi concedida em 14 de julho de 1885, sob o número US322177A.

invençãode Sarah E. Goode
Uma cama dobrável que virava uma escrivaninha funcional com espaços para guardar objetos.

A invenção parece simples quando observada com os olhos de hoje.

Mas é justamente aí que está a sua importância. A inovação não precisa começar com uma máquina gigantesca ou com uma descoberta que muda imediatamente o destino da humanidade. Muitas vezes, ela nasce de uma observação concreta: existe um problema. Existe uma limitação. Existe uma maneira mais inteligente de fazer alguma coisa.

A cama-armário de Sarah E. Goode respondia a uma necessidade muito específica de pessoas que viviam em espaços pequenos. Quando fechada, a estrutura ocupava menos espaço e assumia a aparência de um móvel. Quando aberta, podia ser utilizada como cama.

A patente descreve uma estrutura com partes dobráveis e mecanismos de suporte destinados a permitir essa transformação. O documento também registra o nome de Sarah E. Goode como inventora e residente em Chicago.

Essa documentação é importante porque nos permite sair da narrativa vaga de que Sarah E. Goode foi simplesmente uma “mulher negra inventora” e observar o que ela realmente criou.

Ela identificou uma necessidade prática, pensou em uma solução, desenvolveu um mecanismo, solicitou proteção legal para sua invenção e obteve uma patente.

Esse processo importa porque a história das invenções costuma ser contada como se a inovação tivesse um único perfil. O inventor aparece frequentemente como um homem ligado a grandes indústrias, laboratórios ou instituições de pesquisa.

Sarah E. Goode nos lembra que a inovação também pode surgir de uma loja de móveis, da observação de uma casa e da experiência de alguém que percebe que os objetos ao seu redor podem funcionar de outra maneira.

Há ainda um cuidado histórico necessário. A data de nascimento de Sarah E. Goode é frequentemente indicada como 14 de julho de 1855 em biografias secundárias, mas a documentação primária mais robusta localizada para este artigo é a própria patente de 1885. Por isso, sua presença em uma seleção de mulheres negras nascidas em julho deve ser apresentada com essa cautela, sem transformar uma data biográfica amplamente repetida em certeza documental quando a fonte primária disponível não a confirma.

O que podemos afirmar com segurança é que, em julho de 1885, uma mulher negra chamada Sarah E. Goode recebeu uma patente por uma invenção que transformava a maneira de utilizar um móvel dentro de uma casa.

E isso já é uma história extraordinária.

Dra. Beth A. Brown: quando uma mulher negra olhou para as estrelas

Dra. Beth A. Brown

Beth A. Brown nasceu em 4 de julho de 1969, em Roanoke, no estado da Virgínia, nos Estados Unidos. Desde cedo, desenvolveu interesse por ciência e pelo espaço. Sua curiosidade foi alimentada, entre outras coisas, pelo imaginário da ficção científica e por seu interesse em compreender o universo.

Ela estudou na Howard University, uma das mais importantes universidades historicamente negras dos Estados Unidos, onde se formou em astrofísica em 1991, com distinção acadêmica.

Durante a graduação, realizou estágios na NASA. Essas experiências foram importantes para aproximá-la da pesquisa científica e do ambiente profissional da astronomia. Mais tarde, seguiu para a University of Michigan, onde concluiu o mestrado em astronomia em 1994 e o doutorado em 1998.

Beth A. Brown tornou-se a primeira mulher negra a obter um Ph.D. em astronomia pelo Departamento de Astronomia da University of Michigan.

Mas sua importância não está apenas em ter sido a primeira.
A pergunta mais interessante é: o que ela estudava?

Beth Brown dedicou-se à astrofísica de altas energias e pesquisou galáxias elípticas, observações em raios X e fenômenos associados a buracos negros. Em termos simples, seu trabalho ajudava a investigar objetos e processos que ocorrem em algumas das condições mais extremas do universo.

Depois do doutorado, trabalhou em instituições ligadas à pesquisa científica e ingressou no Goddard Space Flight Center, da NASA. Sua carreira incluiu pesquisa, educação e divulgação científica.

Esse último ponto merece atenção.

Beth Brown não parecia entender a ciência como um conhecimento que deveria permanecer restrito a quem já tinha acesso a ela. Durante sua formação, criou um curso de astronomia que continuou sendo oferecido na University of Michigan. Também atuou na comunicação pública da ciência e se preocupou com a presença de pessoas negras e de outros grupos sub-representados nas áreas científicas.

Há uma dimensão muito bonita em sua trajetória.

Beth Brown estudou o universo, mas também se preocupou com quem teria a oportunidade de estudar ciência.

A astronomia pode parecer distante das questões sociais. Afinal, o que um buraco negro tem a ver com desigualdade racial ou representação?
A resposta está em quem tem a oportunidade de fazer as perguntas.

Durante muito tempo, meninas negras foram ensinadas, explícita ou implicitamente, a imaginar determinados espaços como pertencentes a outras pessoas. Laboratórios, universidades, observatórios e centros de pesquisa eram apresentados como territórios neutros, mas nunca foram igualmente acessíveis a todos.

Beth Brown não apenas entrou nesse espaço.

Ela se tornou uma pesquisadora capaz de fazer perguntas sobre o universo e uma educadora interessada em abrir caminhos para que outras pessoas também pudessem fazê-lo.

Sua vida foi interrompida precocemente. Beth Brown morreu em 2008, aos 39 anos, após uma embolia pulmonar. Sua carreira foi curta, mas sua influência permanece associada à pesquisa em astrofísica, à educação científica e à ampliação da presença de mulheres negras na astronomia.

Sônia Guimarães: primeira mulher negra brasileira a obter um doutorado em Física

Dra. Sônia Guimarães - Fonte: revistacienciaecultura
Dra. Sônia Guimarães – Fonte: revistacienciaecultura

Quero aqui fazer uma menção honrosa à Sônia Guimarães. Ela não nasceu em julho, mas foi perto…rs
Não teria como não citar essa mulher contemporânea que é uma inspiração para mim, assim como outras mulheres negras da área de tecnologia.

Sônia Guimarães é uma física e professora brasileira cuja trajetória também rompeu barreiras históricas no acesso de mulheres negras à ciência. Nascida em 26 de junho de 1957, em São Paulo, tornou-se a primeira mulher negra brasileira a obter um doutorado em Física, concluído em 1989 pela University of Manchester, no Reino Unido.

Especialista em Física de Materiais, desenvolveu pesquisas relacionadas a semicondutores e à tecnologia de dispositivos eletrônicos e construiu sua carreira como professora e pesquisadora no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA). Mais do que uma pioneira, Sônia Guimarães tornou-se uma referência para a presença negra na ciência brasileira, especialmente em áreas nas quais mulheres negras continuam sub-representadas.

Sua trajetória lembra que ocupar um laboratório, uma sala de aula ou uma instituição científica também é uma forma de ampliar os limites do que outras meninas e mulheres negras podem imaginar para si mesmas.

Quatro mulheres e suass escalas de transformação

Aoua Kéita olhou para uma sociedade submetida ao colonialismo e participou da construção política de um país.

Sarah E. Goode olhou para um problema cotidiano e criou uma solução tecnológica.

Beth A. Brown olhou para o universo e ajudou a investigar fenômenos que acontecem muito além da experiência humana cotidiana.

Sônia Guimarães olhou para uma carreira num Instituto predominantemente branco e viu que ali também é o seu lugar.

A história das mulheres negras não é uma história de um único talento ou de uma única forma de protagonismo. Não existe uma profissão que seja naturalmente destinada a elas. Não existe uma única maneira de produzir conhecimento.

Uma mulher negra pode construir uma carreira na saúde e na política, pode criar uma invenção para transformar o espaço de uma casa, pode dedicar a vida a estudar galáxias e buracos negros e pode fazer tudo isso em diferentes épocas, em diferentes países e sob diferentes condições históricas.

O que conecta Aoua Kéita, Sarah E. Goode, Beth A. Brown e Sônia Guimarães não é uma trajetória semelhante.

É a capacidade de olhar para o mundo e fazer perguntas.

  • Como cuidar melhor de uma população?
  • Como resolver um problema concreto?
  • Como compreender o universo?

Perguntas diferentes. Campos diferentes. Respostas diferentes.

Mas existe algo em comum: nenhuma delas aceitou que o mundo precisava permanecer exatamente como havia sido construído.

Perguntas frequentes sobre Aoua Kéita, Sarah E. Goode e Beth A. Brown

Quem foi Aoua Kéita?

Aoua Kéita foi uma parteira, escritora, ativista anticolonial e política do Mali. Nascida em 12 de julho de 1912, em Bamako, participou da luta pela independência e tornou-se, em 1959, a primeira mulher eleita para um parlamento em um território colonial africano. Também escreveu uma autobiografia sobre sua trajetória e o processo de transformação do Mali do período colonial à independência.

O que Sarah E. Goode inventou?

Sarah E. Goode inventou uma cama-armário dobrável, conhecida em inglês como cabinet-bed. O móvel podia ser fechado e funcionar como uma peça de mobiliário, ocupando menos espaço, e aberto para ser utilizado como cama. Sua patente foi concedida nos Estados Unidos em 14 de julho de 1885, sob o número US322177A.

Quem foi Beth A. Brown?

Beth A. Brown foi uma astrofísica norte-americana que pesquisou galáxias elípticas, observações em raios X e fenômenos relacionados a buracos negros. Ela foi a primeira mulher negra a obter um doutorado em astronomia pelo Departamento de Astronomia da University of Michigan e trabalhou como pesquisadora na NASA.

Por que é importante conhecer mulheres negras na ciência e na invenção?

Porque a história da ciência e da tecnologia foi frequentemente contada de forma incompleta, deixando de reconhecer a participação de mulheres negras. Conhecer trajetórias como as de Sarah E. Goode e Beth A. Brown amplia a compreensão sobre quem produz conhecimento e ajuda a romper a ideia de que inovação, ciência e invenção pertencem naturalmente a um único grupo social.

O conhecimento também tem muitos lugares de nascimento

Ao concluir esse texto, eu percebo que talvez seja essa a maior provocação deixada por essas três histórias.

  • Aoua Kéita mostra que conhecimento também pode nascer do cuidado, da experiência profissional e da organização política.
  • Sarah E. Goode mostra que uma invenção pode nascer da observação de uma casa e de uma necessidade aparentemente simples.
  • Beth A. Brown mostra que uma menina negra fascinada pelo espaço pode crescer, tornar-se astrofísica e dedicar sua vida a investigar o universo.
  • Sônia Guimarães mostra que podemos estar em qualquer lugar que desejamos estar, mesmo que ainda nossos iguais não estejam lá.

O conhecimento nunca teve um único endereço.

Leia também sobre Antonieta de Barros, a primeira mulher negra eleita no Brasil

A história é que, por muito tempo, insistiu em registrar apenas alguns deles.

Salve 25 de Junho, salve o Dia da Mulher Negra Latino-americana e Caribenha!

Um beijo e até o próximo post!

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