Mercedes Baptista, pioneira da dança afro-brasileira e inspiração do espetáculo “Quando Dança um Baobá”.

Existe algo muito simbólico quando uma mulher negra transforma o próprio corpo em linguagem de resistência.
E talvez ninguém tenha feito isso de forma tão profunda na dança brasileira quanto Mercedes Baptista.
Primeira bailarina negra a integrar o corpo de baile do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, Mercedes não apenas ocupou um espaço historicamente elitizado. Ela reinventou a forma como a dança afro-brasileira seria vista no Brasil.
Décadas depois, sua trajetória continua inspirando novas gerações.
E agora ganha nova homenagem no espetáculo “Quando Dança um Baobá”, protagonizado pela atriz e multiartista Aisha Jambo, em cartaz no Teatro Correios Léa Garcia.
Quem foi Mercedes Baptista?
Nascida em Campos dos Goytacazes, no Rio de Janeiro, em 1921, Mercedes Baptista veio de origem humilde e enfrentou inúmeros obstáculos para conseguir estudar dança. Trabalhou como empregada doméstica, operária e bilheteira de cinema antes de entrar no universo artístico.
Mas havia algo nela impossível de silenciar.
Seu talento.
Nos anos 1940, começou a estudar balé clássico e, em 1948, entrou para o corpo de baile do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, tornando-se a primeira mulher negra a conquistar esse espaço.
Só que ocupar aquele lugar não significou acolhimento.
Mercedes enfrentou racismo explícito dentro do próprio ambiente artístico. Mesmo sendo oficialmente parte da companhia, frequentemente era deixada de lado nas apresentações.
E talvez tenha sido justamente dessa exclusão que nasceu sua revolução.

A criação da dança afro-brasileira
Mercedes Baptista entendeu cedo que o balé clássico europeu não contemplava os corpos negros, suas ancestralidades e suas formas próprias de expressão.
Então ela criou algo novo.
Inspirada pelos movimentos dos terreiros de candomblé, pelas danças afro-brasileiras e pela cultura negra, Mercedes desenvolveu uma técnica própria, considerada hoje a primeira metodologia estruturada de dança afro-brasileira.
E isso muda tudo.
Porque ela não estava apenas dançando.
Ela estava criando linguagem, método e identidade estética.
Seu trabalho ajudou a construir um espaço onde bailarinos negros pudessem existir artisticamente sem precisar apagar suas origens.
A relação com o Teatro Experimental do Negro
Existe outro ponto fundamental nessa história.
Mercedes Baptista também teve relação com o Teatro Experimental do Negro, movimento criado por Abdias Nascimento, que buscava ampliar a presença negra nas artes brasileiras.
Naquele período, artistas negros enfrentavam enormes barreiras para acessar os palcos, os cinemas e os espaços culturais institucionais.
Então esses movimentos funcionavam como territórios de resistência cultural e política.
Mercedes fazia parte dessa construção.
O espetáculo “Quando Dança um Baobá”
É justamente essa trajetória que inspira o espetáculo “Quando Dança um Baobá”.
A montagem marca os 25 anos de carreira de Aisha Jambo e mistura teatro, música e dança para revisitar o legado de Mercedes Baptista.
No palco, Aisha é acompanhada por contrabaixo e percussão, recriando atmosferas que atravessam ancestralidade, memória e resistência negra.
O espetáculo também dialoga com o Brasil dos anos 1960 e com a fusão entre balé clássico e referências dos terreiros de candomblé, algo central na obra de Mercedes Baptista.
A supervisão artística é de Zezé Motta, com direção de Cátia Costa, e a dramaturgia foi inspirada na biografia escrita por Paulo Melgaço, pesquisador que dedicou parte de sua obra ao estudo da bailarina.
O título da peça também carrega um significado potente.
O baobá, árvore sagrada em diversas culturas africanas, simboliza ancestralidade, memória, força e permanência.
E talvez não exista metáfora melhor para falar de Mercedes Baptista.
Porque seu legado continua vivo.
Mesmo décadas depois, a dança afro-brasileira ainda carrega muitos dos fundamentos criados por ela.
O Teatro Correios Léa Garcia e a valorização da arte negra
Outro detalhe importante é o local onde o espetáculo acontece.
O Teatro Correios Léa Garcia foi reinaugurado em 2024 com proposta voltada à valorização do teatro negro, das ancestralidades afro-brasileiras e das culturas populares.
O próprio nome do teatro homenageia Léa Garcia, uma das maiores atrizes negras da história do Brasil e também integrante do Teatro Experimental do Negro.
Percebe como tudo se conecta?
Mercedes Baptista, Léa Garcia, Abdias Nascimento… todos fazem parte de uma mesma linha histórica de resistência artística negra no Brasil.

Por que falar sobre Mercedes Baptista hoje?
Porque é mais que um nome, é a presença de uma mulher preta que transformou o belo em mais belo, misturando o balé com a cultura afro.
Eu faço atualmente aula de dança afro, e cada passo revivemos seu legado e mantemos vivo o que ela fez pela dança.
Muita gente conhece grandes nomes da dança europeia, mas nunca ouviu falar da mulher negra que revolucionou a dança afro-brasileira.
E isso revela muito sobre quais histórias recebem destaque no Brasil.
Resgatar a memória de Mercedes Baptista é também disputar narrativa.
É dizer que a arte negra brasileira não nasceu à margem. Ela ajudou a construir a própria identidade cultural do país.
Mercedes Baptista não apenas abriu portas.
Ela construiu caminhos inteiros para que artistas negros pudessem existir na dança sem abandonar sua ancestralidade.
Seu corpo virou linguagem.
Sua arte virou memória.
E agora, através de “Quando Dança um Baobá”, sua história continua atravessando gerações.
Porque existem pessoas que não passam pela arte.
Elas transformam a própria arte para sempre.
E Mercedes Baptista foi uma delas.
Um beijo e até o próximo post!

Colunista do Portal Afro
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