Apoie

Notícias

Por um Afrofuturo do Trabalho

E, quando pensa… como imagina as pessoas das suas futuras relações? E das suas futuras relações de trabalho?

Por
· 6 min de leitura

Por um Afrofuturo do Trabalho
Foto: Acervo Portal Afro

Com que frequência você pensa no futuro?

E, quando pensa… como imagina as pessoas das suas futuras relações? E das suas futuras relações de trabalho?

Como imagina suas futuras lideranças? Como imagina suas professoras e professores dos cursos de pós-graduação, mestrado e doutorado que você fará?

Como imagina a médica que vai te atender na sua próxima consulta? Como imagina a equipe médica dos filhos que deseja ter? E o arquiteto que contratará para reformar seu apartamento?

Como imagina os próximos e próximas Presidentes da República? Os vereadores de sua cidade, as deputadas federais? Como imagina as pessoas que serão eleitas para a prefeitura de sua cidade e governo do seu estado?

Para o governo que for eleito para a presidência em 2026, 2030 e 2034, como você imagina que serão as futuras Ministras e Ministros?

Como você imagina que serão os futuros advogados, advogadas, juízes, juízas, desembargadores e desembargadoras do país?

Não foi fornecido texto alternativo para esta imagem

Como você imagina as futuras grandes referências da tecnologia? Que pessoas estão recebendo e receberão milhões de dólares em investimento para criar o próximo Google?

Como você imagina as futuras pessoas ganhadoras do Nobel e do Pulitzer?

E as pessoas que protagonizarão a próxima grande franquia de filme de super-heróis que vai arrecadar bilhões no mundo inteiro?

Como imagina que serão as pessoas que comandarão organizações como o Fórum Econômico Mundial, a ONU (Organização das Nações Unidas), a OMS (Organização Mundial da Saúde), a OIT (Organização Internacional do Trabalho)?

Ao imaginar o futuro, é normal, é comum para você visualizar pessoas Negras e Indígenas nestas posições e lugares?

Ou você se surpreende com a possibilidade de um Senado Federal 56% negro?

Afrofuturismo

Afrofuturismo é um movimento decolonial que vem do mundo das artes. A ficção científica, a literatura, o cinema, a música, a cultura pop trazem, através de suas narrativas e estéticas, provocações para o nosso cérebro – justamente para que imaginemos a possibilidade de pessoas negras existirem no presente e no futuro.

Doido, né?

Há grandes referências do Afrofuturismo. Dentre elas, o compositor de jazz e pianista norte-americano Sun Ra, a escritora norte-americana Octavia Butler. No Brasil, podemos citar diversos nomes como a cantora Xênia França, a escritora Lu Ain-Zaila, os escritores Ale Santos e Fábio Cabral.

É possível encontrar vários elementos de narrativa e estética Afrofuturista nas músicas de Elza Soares, Beyoncé. Pantera Negra, nos quadrinhos e no filme, também é um expoente do Afrofuturismo.

Outro grande nome, a cantora norteamericana Janelle Monáe, em seu álbum The ArchAndroid, faz uma brilhante referência ao filme Metropolis (1927), que é considerado o pioneiro no gênero de ficção científica:

O Futurismo Indígena é também um movimento que vem conquistando cada vez mais espaço – pautando a existência das pessoas indígenas para além de um imaginário colonial e limitado. Fora do Brasil, personalidades como a escritora Joy Harjo e a professora Grace L. Dillon se destacam. No Brasil, temos nomes como os artistas Kadu Xukuru e Tadeu Kaingang, dentre outros.

E o que seria então um Afrofuturo do Trabalho, Arlane?

Nós estamos no país mais negro do mundo fora da África, você sabia?

Sim, este é o Brasil.

Ainda assim, você notou que as respostas que nós temos para as perguntas acima centralizam-se na visão natural e automática de, somente ou majoritariamente, pessoas Brancas ocupando estas posições e lugares?

Não é que pessoas Negras e Indígenas não existam, no sentido literal da palavra.

É que, geralmente, a inteligência, a estratégia, a capacidade de liderar, de criar coisas revolucionárias e inovadoras são qualidades que, culturalmente e socialmente, atribuímos mais às pessoas e aos traços brancos.

Pessoas Negras até existem – mas achamos mais normal visualizá-las como o porteiro do prédio, como a empregada doméstica. Pessoas Indígenas, se lembradas, são reservadas a um espaço tão longe e tão fora do que entendemos como “civilização”.

Trazer o Afrofuturismo para o mundo do trabalho é confrontar esta normalidade – e passar a nos levar para a postura de ABSOLUTO INCÔMODO.

Ou seja: vamos passar a imaginar e a trabalhar intencionalmente por futuros nos quais as pessoas Negras e Indígenas existam e possam exercer o total potencial de seus protagonismos na sociedade. Sem serem mais delegadas ao imaginário da exceção e da inferioridade.

É esta a abordagem que precisamos adotar ao refletir e falar sobre o Futuro do Trabalho.

Cada vez mais nos preocupamos com este tema e com tantas variáveis que o impactam, como a Revolução 4.0, a transformação digital, as mudanças climáticas, a Inteligência Artificial, a inclusão 50+… No entanto, pouco ou quase nada destas articulações notam e vão para além da obviedade do exclusivo protagonismo branco.

Como estão refletidas as populações negra e indígena nos movimentos e investimentos que fazemos para moldar as organizações do futuro? Como estão refletidas as mulheres e as pessoas LGBT+ Negras e Indígenas?

Para onde esta reflexão nos leva

Talvez você esteja se perguntando: mas, Arlane, o que tem a ver a minha imaginação com estas grandes questões aqui colocadas?

E eu te digo: tem tudo a ver, cara pessoa leitora. Lembremo-nos que é a somatória das nossas mentes que resulta na cultura que compartilhamos no coletivo.

É como o poder de um pequeno fósforo para causar um grande incêndio.

É da nossa inconformidade, movimento, do nosso simples, mas incomum questionamento que são iniciadas as grandes mudanças. No começo do artigo eu te perguntei sobre as suas futuras relações – e pode ser este o seu ponto de partida agora.

Por exemplo: como está hoje o seu círculo de confiança profissional? Qual é a presença de pessoas Negras dentre aquelas que você indica e contrata de olhos fechados?

O Afrofuturo do Trabalho envolve transformações grandiosas E envolve os micro impactos que devemos gerar no nosso imaginário, nas nossas relações e práticas cotidianas.

Fazer grandes movimentos por um Afrofuturo do Trabalho, seja na rodada milionária de investimentos ou nas políticas afirmativas (públicas e privadas), andam lado a lado com a aceleração da carreira e negócios de pessoas Negras do seu ecossistema, por exemplo.

O nosso objetivo é saltar da estética, da tela do cinema, da faixa do álbum, da página do livro para a realidade. É sair do “não notar as absurdas ausências” para o “não aceitar a possibilidade de perpetuar um presente tão excludente”. Tem que ser – e haverá de ser – natural e automático imaginar e conviver com pessoas Negras e Indígenas em TODAS as posições e lugares. Incluindo nos espaços de decisão, influência e poder. Na proporção de suas existências. E contemplando suas pluralidades.

Este é o AFROFUTURO DO TRABALHO.

E este é o convite para embarcar na construção intencional e urgente dele: convite decisivo para mim e para você.

——–

Arlane Gonçalves é CEO da AG Consultoria, cuja missão é trabalhar e inovar por mais igualdade nas organizações e para além delas. Arlane é LinkedIn Top Voice, foi premiada duas vezes com o Feedz RH e é professora do Curso Aberje de Diversidade. No Instagram você a encontra como @arlanegoncalvesoficial.

Para Palestras, Treinamentos e Eventos para o mês da Consciência Negra, fale com a nossa equipe em contato@arlanegoncalves.com.br

Matéria do acervo do Portal Afro, publicada originalmente em 28 de agosto de 2023.

Compartilhe WhatsApp Facebook X

Mais de Clarice Tatyer

Todas

Leia também em Notícias

Ver a editoria