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NOTAS DE ESCURECIMENTO – O NAMORADO DO PAPAI RONCA

O autor negro Plínio Camillo apresenta a nova impressão do livro “ O Namorado do Papai Ronca ”. Esta obra, que busca promover o debate sobre a questão homoerótica, continua a encantar leitores de…

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· 7 min de leitura

NOTAS DE ESCURECIMENTO – O NAMORADO DO PAPAI RONCA
Foto: Acervo Portal Afro

Plínio Camillo apresenta nova impressão do livro “O Namorado do Papai Ronca”

Obra convida o leitor a reaprender aceitação, respeito e acolhimento da diversidade

O autor negro Plínio Camillo apresenta a nova impressão do livro “O Namorado do Papai Ronca”. Esta obra, que busca promover o debate sobre a questão homoerótica, continua a encantar leitores de todas as idades com sua história e personagens que envolvem o leitor desde o primeiro capítulo.

A narrativa acompanha a jornada de Dante, um garoto de 12 anos apaixonado por futebol, que enfrenta uma série de desafios ao mudar-se para a casa de seu pai em uma cidade do interior. O livro aborda as dificuldades que Dante enfrenta ao adaptar-se a essa nova realidade, enquanto também explora questões relacionadas a relacionamentos e identidade.

Plínio Camillo surpreende os leitores ao trazer diálogos e personagens com uma linguagem moderna, típica da web, incorporando elementos como conversas por Skype e perfis de redes sociais. Essa abordagem tem sido elogiada por sua originalidade e pela habilidade de envolver os leitores na trama.

“O namorado do papai ronca” foi selecionado pelo Concurso de Apoio a Projeto de Primeira Publicação de Livro no Estado de São Paulo e lançado pela Prólogo Selo Editorial em parceria com o Instituto Cultural Mundo Mundano.

Esta segunda impressão é um testemunho do impacto positivo que “O namorado do papai ronca” está causando no cenário literário atual. Ao apresentar temas relevantes de forma sensível e cativante, o livro continua a conquistar leitores de todas as idades, promovendo discussões importantes sobre diversidade e aceitação.

Para mais informações e adquirir a obra, acesse Alfarrábios: https://pliniocamillo.wordpress.com/onamorado/

TRECHO 1

SÁBADO – 11 DE SETEMBRO

MANHÃ

Treina. Treina. Treina e treina. Canelas roxas e sorriso nos lábios. Os meninos marcam de se encontrar às duas e meia na frente da casa de Paulo.

TARDE

Toma banho muito rápido. Não lava as orelhas. Dante almoça correndo. Não come o espinafre. Coloca um tênis muito velho e o pai o obriga a por outro, o azul.

13:45hs. – Dante está ansioso na frente da casa do Paulo. Paulo nem tinha tomado banho.

13:46hs – Ninguém chegou e Paulo não tomou banho. O pai de Paulo grita com ele. A mãe de Paulo grita com ele também.

13:54hs – Ninguém chegou e Paulo não tomou banho. O pai de Paulo xinga o Paulo. A mãe de Paulo xinga o menino também.

14:02hs – Ninguém chegou e Paulo foi tomar banho. O pai de Paulo continua a gritar com o Paulo. A mãe do Paulo não.

14:06hs – Ninguém chegou e Paulo está tomando banho

14:13hs – Ninguém chegou e Paulo já saiu do banho. O pai do Paulo continua a gritar com ele. A mãe do Paulo sai para ir ao supermercado.

— Quer entrar?

— Fico bem aqui, obrigado …

— Que menino educado! O Paulo devia ser assim …

14:24hs – Ninguém chegou e Paulo troca a camisa verde pela vermelha.

14:25hs – Ninguém chegou e Paulo troca a camisa vermelha pela rosa.

14:26hs – Ninguém chegou e Paulo troca a camisa rosa pela amarela.

14:27hs – Ninguém chegou e Paulo troca a calça preta pela azul. O pai do Paulo está assistindo televisão e tomando cerveja.

14:28hs – Ninguém chegou.

14:29hs – A molecada chega e entra na casa do Paulo sem bater.

14:30hs – O pai do Paulo pede, gritando, que tragam mais cerveja e fechem direito à porta da geladeira.

14:38hs – Saem e Dante vai atrás.

Ficam na frente do Tênis. Tiram sarro de todos que entram.

— Olhe aquela ali: está com todas as cores!

— Aquele ali foi a “mamãe que arrumou”.

— Aquela ali é “emo”.

— Aquele ali é um “vara pau”!

Entram e ficam ao lado do DJ.

— Essa música é muito ruim!

— O quê?

— Aquela parece o “Friagem” do Ben 10.

— O quê?

— Aquele parece a “Gosma”.

— O quê?

— Aquela está mais feia que o “Macaco-aranha”.

— O quê?

— Olha quem vem vindo: a gorda!

— O quê?

Priscila vem em direção de Dante. Nem dá atenção aos olhares dos moleques.

— Você me deixou esperando.

Dante não sabe o que dizer. Olha para os moleques que riem.

— A gente não combinou nada.

— Combinou sim. Eu convidei você e pensei que viríamos juntos.

— Não combinou.

— Combinou.

— Não combinou.

Priscila vai embora.

— Você deu bolo na gorda.

— Dei não.

— Namorado da gorda.

— Sou não.

— É sim!

— Sou não …

— Já beijou a boca gorda da gorda?

— Beijei não.

— Quer beijar?

— Não!

— Cara, deixe o baixinho em paz … Olha, aquele ali parece o “Enormossauro”.

— O quê?

NOITE

A molecada foi expulsa do salão. Fizeram brincadeiras indecentes: passaram a mão nas meninas, puxarem as cuecas dos pequenos e roubaram refrigerantes.

Alguém deu uma ideia.

— Vamos dar um “salve” no baixinho.

Todos concordaram, inclusive Paulo. Dante tentou correr, mas pegaram. Tapas na cabeça e o deixaram de cueca! Levaram as roupas para fora. Foi uma puta falta de sacanagem! Dante corre para o banheiro, porém devido ao pânico, primeiro entra no banheiro feminino e depois, sob uma gritaria infernal, entra no masculino.

Dante só sai quando um segurança volta com as suas roupas todas sujas de lama.

— Como foi?

— Legal

— O que aconteceu com você?

— Choveu e cai.

— Mas não choveu.

— Caí em uma poça de chuva sem chuva …

— Encontrou a Priscila lá? Ela estava procurando por você.

— Encontrei sim …

— Dançou bastante?

TRECHO 2

SÁBADO – 9 DE OUTUBRO

MANHÃ

Feriado prolongado. Vão para uma fazenda de um amigo de Ademar. Elenco: Heitor, Ademar, Priscila e Dante.

TARDE

Andam a cavalo. Tomam banho de cachoeira. Caminham por muitas trilhas. Priscila conduz a charrete com maestria, Ademar cozinha bem, Heitor é fera na mímica e Dante pega as mangas nos galhos mais altos.

Ademar prepara o jantar,

Priscila brinca com os filhos do caseiro.

Heitor faz uma longa caminhada pela fazenda. Dante o acompanha.

— Você é gay, pai?

— Como?

— Quero saber se você é gay?

— O que é ser gay, filho?

— Pai! Estou perguntando e não quero responder!

— Filho, sou um homem que adora o filho que tem e que ama outro homem.

— Mas então, é gay!

— Não sei. Sou alguém que gosta do que é.

— Não é gay?

— Filho!

— É, ou não é?

— Sem entender o que você quer dizer não sei responder.

— Então tá: gay é aquele que anda rebolando, fala fino e faz coisas como se fosse uma mulher.

— Então eu não sou.

— E que também transa com homem.

— Então eu sou.

— Mas você transou com a minha mãe?

— Sim, querendo, gostando dela.

— É ou não é?

— Imagine se é difícil entender, muito mais é viver. Gostei, amei muito a sua mãe. Ficamos juntos muito tempo. Ficamos juntos querendo ficar. Um dia deixamos de gostar de ficar juntos.

— Eu sei, sempre dizem isto.

— Então, depois comecei a me perceber. Ouvir a mim mesmo. Nunca quis ser uma mulher ou outra coisa diferente do que sou. Nem sempre tendo focinho de porco, pé de porco, orelha de porco é porco.

— Então o que é?

— Pode ser uma feijoada.

— Então você saiu do armário?

— Nunca estive em um, sou um professor e nem por isto me sinto menor ou menos importante do que um médico. Sou um homem que ama outro homem e não me sinto menor e nem pior que outro homem qualquer.

— Sei.

— Com todas as dificuldades, com as certezas, estou muito mais feliz, tranquilo. Sei que sua avó não quer falar comigo. Sei que me olham torto, imagino o quanto é difícil para você.

— Mas pai, antes nunca foi! Agora é estranho, meio complicado.

— Imagino.

— Para mim é um problema seu e não meu.

— Para mim não é mais um problema, mas é para você.

— Um pouco.

— Não procure rótulos, gavetas ou encaixes; por sorte, ou azar, somos todos diferentes, com diferentes olhares, diferentes formas de ver, sorrir e andar. E, principalmente, nem sempre o que é diferente da gente é ruim.

— Difícil!

— Sim, é.

NOITE

Priscila acorda no meio da noite assustada.

— O que é isto?

— Seu tio roncando!

— Mas não parece o ronco dele.

— É o ronco do seu tio, quase todos os dias ouço isto …

— Sei lá … pode ser, mas não parece.

Para adquirir a obra, acesse Alfarrábios: https://pliniocamillo.wordpress.com/onamorado/

Matéria do acervo do Portal Afro, publicada originalmente em 16 de março de 2024.

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