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No artesanato, você compra a história: o Quilombo Sapatu e as Guardiãs de Guapiara na Feira do Empreendedor

Do Vale do Ribeira para São Paulo, o milho crioulo virou flor, cesto e orixá. Seu Ivo Santos Rosa e a mestra Alice de Oliveira contam de onde vem essa arte e por que ela precisa chegar às escolas.

· 4 min de leitura

A artesã Alice de Oliveira segura uma Oxum feita de palha de milho, com vestido amarelo, no estande da feira
A artesã Alice de Oliveira segura uma Oxum feita de palha de milho, com vestido amarelo, no estande da feira. Foto: Jader Nicolau Junior / Portal Afro

O artesanato do Quilombo Sapatu, de Eldorado, e das mulheres de Guapiara, as guardiãs do milho crioulo, ocupou o Espaço dos Povos Tradicionais da 15ª Feira do Empreendedor do Sebrae-SP, em outubro de 2026, em São Paulo. Na oficina, o público aprendeu a fazer flores de palha de milho. No estande, cestos de cipó, vassouras quilombolas e orixás de palha premiados no Recife. Para quem faz, cada peça carrega uma origem. "O artesanato é como a história", resume Ivo Santos Rosa, coordenador do Sapatu.

Oficina de flores de palha de milho no Espaço dos Povos Tradicionais

Oficina de flores de palha de milho. Foto: Jader Nicolau Junior / Portal Afro

Onde fica o Quilombo Sapatu?

O Sapatu fica em Eldorado, no Vale do Ribeira, sul do estado de São Paulo, perto das margens do rio Ribeira de Iguape. O território tem pouco mais de 3.700 hectares, segundo a rede Quilombos do Ribeira. A comunidade faz parte do Circuito Quilombola do Vale do Ribeira, com turismo de base comunitária, comida típica, oficinas de cestaria e a dança Nha Maruca, segundo a Prefeitura de Eldorado.

Seu Ivo nasceu e se criou no quilombo. Na feira, ele explicou que o saber vem dos mais velhos da comunidade: "Isso vem de geração a geração, de 200, 300 anos atrás." A cestaria de cipó timbopeva, nome indígena, nasceu na roça. "Na roça, usava-se o cesto para colher o arroz, a mandioca, o milho", conta. Depois, o cesto virou adorno e luminária.

Ivo Santos Rosa no estande, com cestos e luminárias de cipó

Ivo Santos Rosa e a cestaria de cipó timbopeva. Foto: Jader Nicolau Junior / Portal Afro

Hoje, 13 artesãos produzem de 100 a 200 peças a cada dois meses, vendidas nos eventos. "Elas ganham integralmente. A gente leva o dinheiro inteiro para a pessoa", diz Ivo.

O que é o milho crioulo?

É a semente tradicional, guardada e replantada pelas famílias, sem passar pela indústria. No estande, seu Ivo mostrou o milho macabu, de palha escura, e o milho cunha. A cor das peças é a da própria palha: "Não usa nenhum tipo de pigmento. É uma produção orgânica, não tem nenhum pingo de agrotóxico."

Ivo Santos Rosa mostra uma espiga de milho crioulo de palha escura

O milho crioulo de palha escura. Foto: Jader Nicolau Junior / Portal Afro

Em Guapiara, na serra, as mulheres da Associação de Mulheres Artesãs de Guapiara Arte e Vida se apresentam como guardiãs dessa semente. A associação recebeu em 2017 o Selo de Certificação de Tecnologia Social da Fundação Banco do Brasil, segundo a Rede Artesol.

Quem é Alice de Oliveira?

Alice de Oliveira é artesã de Guapiara e trabalha com palha de milho crioulo, taboa e fibra de bananeira. É reconhecida como mestra pelo Programa do Artesanato Brasileiro, segundo a Rede Artesol. Na feira, contou que vive só do artesanato há mais de 20 anos e que foi convidada a ser embaixadora do artesanato do Brasil.

Ela começou a fazer orixás em 2017, quando um estudante pediu um Omolu. Depois, sonhou com a Oxum: "Sonhei com uma mulher linda, maravilhosa, numa cachoeira. Levantei de manhã cedo e fiz." Venceu o concurso Arte Popular Religiosa, no Recife, em 2021, com Nanã, e em 2023, com o terreiro de Omolu. Também venceu o 1º Concurso de Presépios do Vale do Ribeira, do Sebrae-SP.

Escultura de orixá em palha de milho, com vestido lilás e bastão

Orixá em palha de milho crioulo, de Alice de Oliveira. Foto: Kelly Karina Oliveira de Almeida / Rede Artesol

Ao lado dela, Lídia Santos chamou a atenção para os detalhes das vestimentas, como a saia do Oxalá. "Ela é realmente uma guardiã, porque está transformando todas as vestimentas."

Escultura de Oxalá em palha de milho, em tons claros, com cajado

Oxalá em palha de milho crioulo, de Alice de Oliveira. Foto: Kelly Karina Oliveira de Almeida / Rede Artesol

Por que levar essa arte para as escolas?

Para Alice, o caminho para produzir mais passa pelos jovens. "O que você aprende quando criança, você nunca esquece." Ela mesma aprendeu assim: "Eu aprendi quando criança, com a minha mãe, com a minha avó, com os vizinhos." Ela defende uma aula de arte pelo menos uma vez por semana: "Quem sabe, no futuro, ela faria disso a sua profissão, assim como a minha."

Seu Ivo lembra que a oficina serve para mais do que vender: "A importância é a divulgação do quilombo: falar quem somos nós, de onde nós somos, qual a nossa origem." E leva junto uma cobrança antiga: "A gente precisa da regularização fundiária, e luta por isso, para ser dono do território."

Onde comprar

As peças do Sapatu são vendidas nos eventos e feiras de que a comunidade participa. A mestra Alice de Oliveira atende pelo perfil @belaspalhas, no Instagram.

Fontes

  • Entrevistas de Jader Nicolau Junior com Ivo Santos Rosa, Alice de Oliveira e Lídia Santos na 15ª Feira do Empreendedor do Sebrae-SP, em 21 de outubro de 2026.
  • Rede Artesol, perfil "Alice de Oliveira" (redeartesol.org.br).
  • Agência Sebrae de Notícias SP, "Artesã de Guapiara é a vencedora do 1º Concurso de Presépios do Vale do Ribeira", 16 de dezembro de 2024.
  • Quilombos do Ribeira, página do Sapatu (quilombosdoribeira.org.br).
  • Prefeitura de Eldorado, Comunidades Tradicionais (eldorado.sp.gov.br).
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