No artesanato, você compra a história: o Quilombo Sapatu e as Guardiãs de Guapiara na Feira do Empreendedor
Do Vale do Ribeira para São Paulo, o milho crioulo virou flor, cesto e orixá. Seu Ivo Santos Rosa e a mestra Alice de Oliveira contam de onde vem essa arte e por que ela precisa chegar às escolas.
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O artesanato do Quilombo Sapatu, de Eldorado, e das mulheres de Guapiara, as guardiãs do milho crioulo, ocupou o Espaço dos Povos Tradicionais da 15ª Feira do Empreendedor do Sebrae-SP, em outubro de 2026, em São Paulo. Na oficina, o público aprendeu a fazer flores de palha de milho. No estande, cestos de cipó, vassouras quilombolas e orixás de palha premiados no Recife. Para quem faz, cada peça carrega uma origem. "O artesanato é como a história", resume Ivo Santos Rosa, coordenador do Sapatu.

Oficina de flores de palha de milho. Foto: Jader Nicolau Junior / Portal Afro
Onde fica o Quilombo Sapatu?
O Sapatu fica em Eldorado, no Vale do Ribeira, sul do estado de São Paulo, perto das margens do rio Ribeira de Iguape. O território tem pouco mais de 3.700 hectares, segundo a rede Quilombos do Ribeira. A comunidade faz parte do Circuito Quilombola do Vale do Ribeira, com turismo de base comunitária, comida típica, oficinas de cestaria e a dança Nha Maruca, segundo a Prefeitura de Eldorado.
Seu Ivo nasceu e se criou no quilombo. Na feira, ele explicou que o saber vem dos mais velhos da comunidade: "Isso vem de geração a geração, de 200, 300 anos atrás." A cestaria de cipó timbopeva, nome indígena, nasceu na roça. "Na roça, usava-se o cesto para colher o arroz, a mandioca, o milho", conta. Depois, o cesto virou adorno e luminária.

Ivo Santos Rosa e a cestaria de cipó timbopeva. Foto: Jader Nicolau Junior / Portal Afro
Hoje, 13 artesãos produzem de 100 a 200 peças a cada dois meses, vendidas nos eventos. "Elas ganham integralmente. A gente leva o dinheiro inteiro para a pessoa", diz Ivo.
O que é o milho crioulo?
É a semente tradicional, guardada e replantada pelas famílias, sem passar pela indústria. No estande, seu Ivo mostrou o milho macabu, de palha escura, e o milho cunha. A cor das peças é a da própria palha: "Não usa nenhum tipo de pigmento. É uma produção orgânica, não tem nenhum pingo de agrotóxico."

O milho crioulo de palha escura. Foto: Jader Nicolau Junior / Portal Afro
Em Guapiara, na serra, as mulheres da Associação de Mulheres Artesãs de Guapiara Arte e Vida se apresentam como guardiãs dessa semente. A associação recebeu em 2017 o Selo de Certificação de Tecnologia Social da Fundação Banco do Brasil, segundo a Rede Artesol.
Quem é Alice de Oliveira?
Alice de Oliveira é artesã de Guapiara e trabalha com palha de milho crioulo, taboa e fibra de bananeira. É reconhecida como mestra pelo Programa do Artesanato Brasileiro, segundo a Rede Artesol. Na feira, contou que vive só do artesanato há mais de 20 anos e que foi convidada a ser embaixadora do artesanato do Brasil.
Ela começou a fazer orixás em 2017, quando um estudante pediu um Omolu. Depois, sonhou com a Oxum: "Sonhei com uma mulher linda, maravilhosa, numa cachoeira. Levantei de manhã cedo e fiz." Venceu o concurso Arte Popular Religiosa, no Recife, em 2021, com Nanã, e em 2023, com o terreiro de Omolu. Também venceu o 1º Concurso de Presépios do Vale do Ribeira, do Sebrae-SP.

Orixá em palha de milho crioulo, de Alice de Oliveira. Foto: Kelly Karina Oliveira de Almeida / Rede Artesol
Ao lado dela, Lídia Santos chamou a atenção para os detalhes das vestimentas, como a saia do Oxalá. "Ela é realmente uma guardiã, porque está transformando todas as vestimentas."

Oxalá em palha de milho crioulo, de Alice de Oliveira. Foto: Kelly Karina Oliveira de Almeida / Rede Artesol
Por que levar essa arte para as escolas?
Para Alice, o caminho para produzir mais passa pelos jovens. "O que você aprende quando criança, você nunca esquece." Ela mesma aprendeu assim: "Eu aprendi quando criança, com a minha mãe, com a minha avó, com os vizinhos." Ela defende uma aula de arte pelo menos uma vez por semana: "Quem sabe, no futuro, ela faria disso a sua profissão, assim como a minha."
Seu Ivo lembra que a oficina serve para mais do que vender: "A importância é a divulgação do quilombo: falar quem somos nós, de onde nós somos, qual a nossa origem." E leva junto uma cobrança antiga: "A gente precisa da regularização fundiária, e luta por isso, para ser dono do território."
Onde comprar
As peças do Sapatu são vendidas nos eventos e feiras de que a comunidade participa. A mestra Alice de Oliveira atende pelo perfil @belaspalhas, no Instagram.
Fontes
- Entrevistas de Jader Nicolau Junior com Ivo Santos Rosa, Alice de Oliveira e Lídia Santos na 15ª Feira do Empreendedor do Sebrae-SP, em 21 de outubro de 2026.
- Rede Artesol, perfil "Alice de Oliveira" (redeartesol.org.br).
- Agência Sebrae de Notícias SP, "Artesã de Guapiara é a vencedora do 1º Concurso de Presépios do Vale do Ribeira", 16 de dezembro de 2024.
- Quilombos do Ribeira, página do Sapatu (quilombosdoribeira.org.br).
- Prefeitura de Eldorado, Comunidades Tradicionais (eldorado.sp.gov.br).



