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Marrom – uma cartilha que educa

Muitos traumas da população negra já na fase adulta vêm da vida infantil quando o preconceito já se expõe de forma fria, agressiva e corrosiva sem a menor misericórdia.

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· 3 min de leitura

ESPETÁCULO INFANTIL :

“MARROM – NEM PRETO, NEM BRANCO?”

Muitos traumas da população negra já na fase adulta vêm da vida infantil quando o preconceito já se expõe de forma fria, agressiva e corrosiva sem a menor misericórdia. O racismo em forma de bullying nas escolas, nos bairros, nas brincadeiras entre amigos. As crianças são as primeiras a receberem essa carga pesada que terão que carregar e saber enfrentar durante toda a vida.

Talvez, devesse existir um “modus operandi”, como uma cartilha que entregaríamos para a população infantil negra, para que ela se preparasse para a tempestade, enquanto existir o preconceito racial.

O espetáculo “Marrom, nem preto, nem branco?” tem o papel de ser a materialização teatralizada dessa cartilha, com humor e ludicidade. E tem muito sucesso na empreitada.

Durante seu tempo de duração, o espetáculo , enquanto discorre a história, enumera uma série de pequenas ações de racismo que acontece no dia-a-dia da população negra, “sem filtro” nem amenização. Casos esses que muitos pais que estão presentes na plateia não conseguiriam citar para seus filhos, para educá-lo sobre o assunto, pelo constrangimento que naturalmente causaria, porém o espetáculo aborda na medida certa, sendo um ponto super positivo dessa dramaturgia e montagem.

O recurso de abordar o tema tão dolorido do preconceito através da comédia é um acerto, apesar de, em muitos momentos, necessitar de uma equalização do tom cômico, evitando que fique tão acima, beirando o desnecessário tom de besteirol.

O talento do elenco chama a atenção. Elenco que pula de um personagem para outro demonstrando toda sua versatilidade e domínio na composição física, nos leques individuais de caracterização. A atriz protagonista Vilma Melo interpreta visceralmente a personagem que carrega o conflito central da trama, em alguns momentos, claramente, dominado as rédeas que determinam para onde vão as emoções do público.

A dramaturgia de Renata Mizrahi poderia cometer erros diante do desafio de tratar um assunto tão abordado e polêmico, flertando com a obviedade e discursos chavão, porém o caminho escolhido, plantado na simplicidade e objetividade, leva à uma estrada de qualidades poéticas que existem no subtexto.

marromO vazio, existente no fundo de cena sem cenário, composto somente pelo negro da cortina teatral, incomoda, dando a impressão que o espetáculo foi concebido para espaços alternativos, com plateia dos dois lados e não para um palco convencional / italiano.

A bela palheta de cores diversas e unidas, dos objetos cenográficos e figurinos, leva-nos metaforicamente a pensar na segregação racial espalhada pelo planeta.

Bons recursos para mudanças e construção de ambientes, são as marcações precisas de cena, empunhadas pela batuta do diretor Marcelo Alonso Neves e também pela linda iluminação de Binho Schaefer, construída com primor. Sem a iluminação podemos afirmar que veríamos um espetáculo menor, se é que ele ainda existiria nesse formato.

Podemos chamar de descartáveis os momentos cantados; deslocados e sem utilidade dentro da concepção e narrativa, tentando apresentar os personagens num momento musical, quando os mesmos já se apresentaram muito bem à plateia.

No equilíbrio, “Marrom” é um ótimo momento reflexivo, onde a família unida, pode compartilhar a análise sobre as agruras sofridas pelos cidadãos negros, iniciadas na fase infantil , que percorrem até a maturidade, e como se encontrar um caminho para superá-las. Tudo envolto em uma indiscutível qualidade técnica teatral.

cotação: ótimo

FICHA TÉCNICA Texto: Renata Mizrahi

Direção: Marcelo Alonso Neves

Direção de Movimento e Assistente de direção: Ana Paula Bouzas

Elenco: Vilma Melo, Maycon Marcondes, Ana Paula Black, Leandro Castilhos e Maíra Kestenberg

Consultoria de Conteúdo: Cristina Lopes

Iluminação: Binho Schaefer

Direção Musical: Marcelo Alonso Neves

Cenógrafo e Figurinista: Carlos Alberto Nunes

Cenógrafa e Figurinista Assistente: Arlete Rua

Confecção de Cenário:Marco Souza e Patricia Rodrigues

Pintura de Arte: Derô Martin

Confecção de Figurinos: Kátia Salles, Suely Gherard e Nilssy Maldonado

Programação Visual: Alexandre Muner

Fotografia: Arthur Vianna

Assessoria de Imprensa: Duetto Comunicação

Direção de Produção: Piéterson Duderstadt

Elaboração de Projeto: Janaína Santos, Piéterson Duderstadt e Vilma Melo

Gestão Administrativa e Financeira: Pedro Almeida e Naiara Cavalheiro

Equipe de Produção: Piéterson Duderstadt, Naiara Cavalheiro, Maycon Marcondes e Vilma Melo

Idealização: Piéterson Duderstadt e Vilma Melo

Realização: Cia da Cidade

Matéria do acervo do Portal Afro, publicada originalmente em 1 de abril de 2020.

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