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“(IN)JUSTIÇA” e as cores borradas da nossa justiça

A “Companhia de Teatro Heliópolis” parte da história do personagem “Cerol” (que comete um crime de forma involuntária) para refletir imagens em trechos fragmentados, como num espelho trincado, sobre…

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· 4 min de leitura

ESPETÁCULO TEATRAL:

(IN)JUSTIÇA

A “Companhia de Teatro Heliópolis” parte da história do personagem “Cerol” (que comete um crime de forma involuntária) para refletir imagens em trechos fragmentados, como num espelho trincado, sobre a tortuosa vida de nossos jovens e cidadãos pretos e periféricos diante da Justiça/Injustiça.

A humanização do personagem central nos leva a questionamentos sobre as classificações que criamos para alguns “tipos” sociais, os estereotipando e repetindo preconceitos infindáveis.

A montagem inicia-se com um julgamento “duro e direto” onde valores são colocados à frente do público para que possamos através da análise, fazermos uma leitura de quanto nossa sociedade é injusta e desigual.

O texto assinado por Evill Rebouças e Cia de Teatro Higienópolis pincela uma encenação que navega entre cenas de discurso direto e muitas cenas “musicadas”; uma variação que faz a companhia navegar entre erros e acertos.

É evidente a mão firme da direção em cada momento do espetáculo, principalmente pelas marcações, desenhos de luz e de cena precisos. A mesma mão perde a força quando cria entrecenas longas com trilhas sonoras infinitas que acabam se transformando em cenas arrastadas que prejudicam o andamento e dão impressão de fragilidade ao texto por causa das grandes lacunas. É uma pena, pois se as cenas fossem mais curtas provavelmente teríamos belos efeitos criando momentos emotivos, lindamente plásticos e sonoros, como já acontece em algumas passagens onde o time foi acertado.

As cenas faladas funcionam com muito mais assertividade ao que se propõem:

cena de injustiçaA cena do tribunal com seu texto e signos cênicos é extremamente interessante por tratar de forma crua e realista, quase sádica, sobre nossos problemas jurídicos.

O trabalho dos atores/atrizes é uma qualidade à parte, com um elenco talentoso esbanjando preparo corporal, interpretações bem construídas tecnicamente e domínio da potência vocal (apesar de os momentos cantados serem totalmente descartáveis diante de uma concepção artística tão funcional quando comunica de forma direta e sem pretensão poética).

O momento ápice é a cena discursiva com dois atores diante dos microfones, narrando injustiças históricas.

A direção de Miguel Rocha agora sim acerta a mão e sincroniza o time cênico com texto e interpretações incisivas. Acerta também, finalmente, o cenário usado da forma como se deveria, com a utilização do espaço cênico ao fundo, onde acontecem cenas como numa tela de cinema, praticamente descrevendo o texto que vem a ser dito em primeiro plano. Uma linda cena, que nos toca por nos lembrar o quanto de injustiça sempre houve e há ao nosso redor, se repetindo, sem que tomemos atitudes para mudanças.

O cenário e figurinos são criativos e simbolicamente corretos sem exageros estilísticos nem metafóricos.

A plasticidade cênica impressa pelos desenhos de luz e cores de Fagner Lourenço e Miguel Rocha são de encher os olhos.

Em suma, “(IN)JUSTIÇA” começa como uma tela em branco onde são apresentados nossos julgamentos. Com o andamento ,vamos sobrepondo pinceladas, cena após cena, com as quais vamos nos aprofundando, nos questionando e finalmente completamos a pintura , quando reavaliamos o quanto somos (in)justos em nossa sociedade.

A companhia realiza um grande feito, fazendo um trabalho de qualidade, com muitos cuidados de nível profissional, num momento tão difícil para se fazer arte.

Cotação: ⭐⭐⭐bom

Ficha técnica

Encenação: Miguel Rocha

Texto: Evill Rebouças (criação em processo colaborativo com a Cia de Teatro Heliópolis)

Elenco: Alex Mendes, Cícero Ciszo, Dalma Régia, Danyel Freitas, Davi Guimarães, Gustavo Rocha, Maggie Abreu e Walmir Bess.

Cenografia/instalação: Marcelo Denny

Assistência de cenografia: Denise Fujimoto

Figurino: Samara Costa

Iluminação:

Fagner Lourenço e Miguel Rocha

Provocação teórica e prática: Maria Fernanda Vomero

Provocação / teatro épico: Alexandre Mate

Provocação / teatro performático: Marcelo Denny

Direção de movimento: Lúcia Kakazu e Miguel Rocha

Preparação corporal: Lúcia Kakazu Coreografia: Camila Bronizeski, Lucia Kakazu e Miguel Rocha

Oficina de dança: Camila Bronizeski

Oficina de mímica: Thiago Cuimar

Direção musical: Meno Del Picchia

Provocação vocal: Bel Borges e Luciano Mendes de Jesus

Musicistas: Amanda Abá (violoncelo), Bel Borges (violão e percussão) e Fernanda Broggi (percussão).

Operação de luz: Fagner Lourenço

Operação de som e sonoplastia: Felipe Chacon, U-China e Xuvisco Transmissão: Marcos Yoshi , Yghor Boy e Donizete Bomfim

Mesas de debates: Viviane Mosé, Gustavo Roberto Costa, Ana Lúcia Pastore e Cristiano Burlan

Mediadora/debates: Maria Fernanda Vomero

Comentador convidado: Bruno Paes Manso

Matéria do acervo do Portal Afro, publicada originalmente em 16 de dezembro de 2020.

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