Waltecy Alves dos Santos é o jovem secretário estadual de combate ao racismo do PT. Formado em matemática, está à frente da secretaria há quase dois anos e surpreende a todos que o julgam apenas por sua aparente fragilidade. Walteci transforma-se em um temido mazai quando o assunto é racismo e suas consequências. Dono de um discurso seco e objetivo, não teme nenhuma instância de poder, nem mesmo a sigla que o abriga, não poupando criticas a seus companheiros de partido, quando necessário. Principal idealizador da campanha que mobilizou varias entidades a favor da libertação de Donizete, preso injustamente por assassinato, Waltecy nos concedeu uma entrevista, onde revela um pouco de seus pensamentos e sua disposição em minimizar as injustiças sociais no Brasil.
Portal – Quando foi criada a Secretaria Estadual de Combate ao Racismo do PT? Qual é seu objetivo?
Waltecy - A secretaria foi criada no estado de São Paulo em setembro de 1997. A militância negra envolvida na luta anti-racismo, organizada dentro do partido, lutou para conquistar esse espaço. Atualmente temos a Secretaria Nacional de Combate ao Racismo ( Diretório Nacional do PT), as secretarias de combate ao racismo nos estados (diretórios estaduais) e nos municípios (diretórios municipais). Nosso objetivo é atuar dentro e fora do partido, ampliando nossa representatividade política nas diversas estruturas de poder, propondo a execução de políticas públicas para a promoção da igualdade racial e de oportunidades.
Portal – Como são escolhidos os secretários?
Waltecy - A eleição dos secretários (nacional, estaduais e municipais ) se dá através de eleição direta. Os militantes anti-racismo filiados ao PT é que escolhem seus representantes.
Portal – Quais são as atividades desenvolvidas por sua secretaria?
Waltecy - Nossas atividades incluem campanhas, palestras, debates, publicações referentes a discriminação racial com recorte de genêro/raça e classe.
Portal – Seus "companheiros" brancos do PT também se envolvem nestas questões?
Waltecy - Cabe a nós, negros e negras, dirigirmos a luta anti-
racismo. Os brancos podem ser nossos aliados, porém nunca deverão
ser porta-vozes. Somente quem sofre a discriminação e suas conseqüências
tem propriedade para falar, debater e elaborar formas de combate.
Nunca fomos simplesmente vitimas implorando piedade ou migalhas dos brancos;
fomos e ainda somos vitimados.
Portal – Os partidos de esquerda no Brasil, de modo geral, são sensíveis à questão racial?
Waltecy - O que é particularmente ingênuo e singularmente cruel na perspectiva da esquerda brasileira, é sua tendência de negar os efeitos indeléveis da história dos negros, história esta que é inseparável do processo pelo qual fomos vitimados. Embora a discriminação racial não seja a única causa dos problemas da nação, ela é, sem dúvida, uma das fundamentais.
Portal – A sociedade brasileira tem consciência disso?
Waltecy – É claro! Todos os privilégios estão
reservados aos brancos. Quem está nas universidades? Na mídia
(televisão, revistas, outdoors ..)? Quem está aprendendo informática,
inglês, espanhol?
Historicamente o Brasil, tem uma fraca inclinação para estabelecer
a justiça racial e a idéia abrangente de liberdade e justiça
para todos. Sem uma justa distribuição de "riqueza" e "poder"
, é impossível não colhermos o fruto amargo de um profundo
impulso auto-destrutivo, alimentado pela desesperança.
Portal – A desvantagem educacional dos negros alimenta o preconceito?
Waltecy - Recentemente, a Folha de São Paulo publicou na capa o resultado da avaliação do provão do MEC 2000. Este revelou a gritante realidade do apartheid racial e social brasileiro. " Os afrodescendentes correspondem a 45,2% da população (dados do IBGE) e representam apenas 15,7% dos formandos que fizeram o exame do MEC. Essa barreira racial na educação não começa na universidade, mas desde o ensino fundamental. A maioria dos jovens negros está jogada nas escolas públicas da periferia e centenas deles estão na Febem, totalmente esquecidos pelo poder público. Pesquisas demonstram que essa desigualdade no acesso à educação de boa qualidade reflete-se no mercado de trabalho, onde, mesmo no caso de similar formação educacional e profissional, os negros recebem salários inferiores. A seleção nas empresas toma por base tanto os critérios de mérito quanto os motivos pessoais. E é essa dimensão pessoal que com frequência se deixa influenciar por percepções racistas na contratação e promoção de profissionais.
Portal – Isto afeta diretamente os adolescentes, não?
Waltecy – Exatamente. Como ficar surpreso com o fato de jovens negros e pobres, isolados do mercado de trabalho, marginalizados em decrépitas escolas públicas, geralmente maltratados pelos agentes da lei, desvalorizados por alienadores, ideais de educação e beleza euro-brasileiras e visados por uma invasão sem precedentes das drogas, apresentarem desempenho escolar relativamente baixo, altas taxas de criminalidade e gravidez na adolescência?
Portal – As elites do país, incluindo a política, ainda ignoram esses dados?
Waltecy - As pessoas que mandam nesse país são insensíveis
e mesquinhas. É preciso redistribuir a riqueza e o poder. Mas, como
disse Martin Luther King: " A liberdade não será concedida pelo
opressor , esta sim será conquistada pelos oprimidos". Devemos iniciar
um sério debate acerca da construção de um novo modelo
de desenvolvimento econômico e social, que deve fazer uma séria
analise histórica e sociológica da escravidão, da segregação
dos negros, da discriminação no emprego e mercado de trabalho,
nas taxas de desemprego e escolaridade díspares, da disseminação
da ideologia racista através da mídia e do sistema educacional.
Portal – Qual seria então a posição a ser adotada pela comunidade negra para minimizar o problema?
Waltecy - A questão central da luta anti-racismo é o
respeito à diversidade. Eles (o "homem branco coletivo- a elite branca"
) não querem dividir os privilégios (vagas nas universidades,
melhores postos de trabalho, parlamento, prefeituras, governo, saúde
de boa qualidade, etc...).
Cabe a nós, negros e negras, fortalecermos nossa organização
para conquistarmos a diversidade racial nas relações de poder.
Portal – Organização e luta. É a saída?
Waltecy - Precisamos disputar o poder na sociedade, travando um sério
debate social sobre o etnocentrismo (racismo) brasileiro (aos brancos tudo,
aos negros migalhas). Temos que conquistar espaço nas diversas estruturas
de poder político/social e econômico. Fazer parte das mesas onde
são tomadas as decisões ( escolas, partidos, sindicatos, parlamento,
etc...). O poder deve refletir a diversidade da sociedade, portanto, deve
ter também nossa cara...
Essa missão é nossa...Só quem é negro (com consciência
racial) tem dimensão do que é discriminação e
exclusão, por isto, só nós podemos nos representar.
Portal – Este discurso também é aplicado dentro de seu partido?
Waltecy - A sociedade é dividida por critérios de classe, raça, gênero e orientação sexual. O poder é branco e masculino. Na pirâmide social, a mulher negra e homossexual é a mais massacrada. Isto vale para todos os setores, incluindo os partidos políticos. Devemos disputar o poder também dentro do PT. Entenda-se por poder "aglutinar cada vez mais pessoas dentro e fora do partido", em torno do projeto de construção de uma sociedade multirracial, pluricultural e plurissexual. Uma sociedade em que o poder seja reflexo de sua diversidade.
Portal – Enfileirar a discussão racial com outras formas de discriminação não a enfraquece?
Waltecy - Como disse Mandela: " Ninguém nasce odiando ninguém, as pessoas aprendem a amar e odiar.". Etnocentrismo (racismo), violência sexista e a homofobia, são frutos de um modelo de sociedade baseado no ódio às diferenças.
Portal – E quem mantém acesa a chama desse ódio?
Waltecy - O branco brasileiro, que é fruto de uma sociedade construída sob a ótica racista. Eles reproduzem as percepções racistas onde estiverem. Ressalto que não nasceram racistas, tornaram-se racistas no banco da escola, graças a um currículo educacional eurocêntrico, onde aprenderam desde pequenos a discriminar, pois são educados para se sentirem superiores. Como conseqüência, a criança negra aprende a rejeitar-se desde cedo, pois o padrão de beleza/educação que lhe é imposto pelo sistema educacional não a retrata. O homem branco executa a ideologia racista onde estiver (empresas, partidos, sindicatos). Eles foram educados para segregar/excluir/discriminar.
Portal – A tarefa é árdua, portanto...
Waltecy - Poder é influência social. Fazer de nossa proposta de construção de uma nova sociedade uma bandeira da maioria da população deve ser uma prioridade. Fazer com que a sociedade entenda a importância desse projeto, que a maioria entenda que este país tem uma dívida histórica para com os afrodescendentes, fará deste país um lugar melhor para todos. É preciso que o Estado Brasileiro execute políticas públicas que reparem os danos da discriminação historicamente sofrida, eis nossa missão.
Portal – Quais as instâncias mais adequadas e fundamentais para se discutir o racismo?
Waltecy - Toda sociedade deve se envolver nesta questão: os governos federal, estaduais e municipais, parlamentares, empresários, organizações de trabalhadores, todos devem ter o compromisso de dialogar e executar ações políticas para a superação da desigualdade racial e de oportunidades. Portanto, devemos travar o debate sobre o racismo e formas de combatê-lo em todos os espaços ( igrejas, escolas, partidos etc...), pois o racismo é um problema da nação.
Portal – É preciso promover a auto-estima da comunidade?
Waltecy - A busca da identidade negra envolve respeito e consideração
por sí mesmo, esferas que são inseparáveis do poder político
e do status econômico, porém não idênticas a eles.
Nós, socialistas, devemos nos empenhar com afinco na busca do respeito
próprio, mesmo enquanto atentos para as causas institucionais da miséria
social dos negros.
Portal – Como agir diante do racismo?
Waltecy
- Não tolere o racismo, reaja! Em casos de agressão racial,
verbal ou física, recorra à justiça! Temos que começar
a processar, além de indivíduos, as redes de televisão
que discriminam negros, as revistas que nos omitem, as empresas que não
nos contratam, os governantes que não executam políticas públicas,
etc... A questão é reagir, pressionar, para mudarmos esta realidade.
Portal
– Quais foram suas principais realizações à frente da
secretaria?
Waltecy - Várias campanhas foram realizadas no decorrer desse
mandato (um ano e quatro meses):
- popularização do 20 de novembro;
- elaboração, e aprovação pela executiva do PT,
de um programa de políticas públicas no combate ao racismo,
incorporando as propostas do modo petista de governar (cabe aos militantes
e a sociedade civil organizada, pressionar as administrações
municipais do PT, para executá-las);
- elaboramos a cartilha "O Negro e a Política", que posteriormente
foi integrada à campanha de Claudete Alves à vereadora pelo
PT, em São Paulo (obra de meu amigo e irmão de coração
Maurício Pestana).
- realizamos a primeira mostra de cinema negro do PT
- organizamos em conjunto com o SINDSEP - um dos maiores atos de comemoração/protesto
do dia Nacional da Consciência Negra em SP
- realizamos o primeiro encontro de candidatos negros e negras do PT no estado
de SP.
E pretendo nos meses que me restam de mandato, fazer muito mais...