No começo do século XVII já existiam aproximadamente 20 mil escravos negros no Brasil. Sofrendo maus tratos e todas provações e privações possíveis, mantinham em comum o forte desejo de liberdade. E, sempre que possível, fugiam do cativeiro. Embrenhando-se na floresta, tratavam de unir-se, para tentar escapar à recaptura. Formavam agrupamentos na selva, verdadeiras aldeias, que ficaram conhecidas como quilombos.
Os fazendeiros promoviam a busca aos "foragidos", organizando "entradas" – expedições que vasculhavam a floresta procurando os insubmissos. Apesar da frequência das entradas, centenas de quilombos foram surgindo, principalmente no Nordeste. Um deles destacou-se pela organização e resistência, mantendo guerra prolongada contra os fazendeiros: foi Palmares.
Já em 1600, um grupo de mais ou menos 45 fugitivos refugiara-se na Serra da Barriga (Estado das Alagoas). Abrigados pelas densas florestas de Palmeiras (daí o nome), os negros evitaram as entradas mandadas à sua procura em 1602 e 1608.
Na floresta foram construindo os primeiros mocambos, choupanas rústicas cobertas de folha de palmeira. Cada mocambo tinha seu chefe, da nobreza africana; mas isso não impediu que alguns, sem ser nobres, conseguissem o posto pela habilidade.
Cada mocambo tinha sua própria organização, com traços em comum como o sistema de defesa, que incluía postos de vigia no meio da mata e caminhos camuflados que interligavam todos os mocambos.
Em 1630 os holandeses invadem Pernambuco, gerando a guerra. Com o caos instalado na região, a fuga de escravos intensificou-se. A maioria dos fugitivos migrou para Palmares, atraídos pela fama do lugar. Nessa época, a população do quilombo chegou a 10 mil habitantes, abrigando também índios e até brancos.
Os holandeses chegaram a dominar todo o litoral nordestino, até a fronteira da Bahia. Por duas vezes tentaram destruir Palmares: em 1644 e 1645, sem sucesso.
Em 1654 foram definitivamente expulsos do Brasil e os portugueses perceberam que destruir Palmares não seria uma tarefa simples.
A prosperidade do Quilombo de Palmares alcançou seu apogeu em 1670. Ocupava grande parte do atual Estado de Alagoas e Pernambuco. Eram aproximadamente 50 mil pessoas distribuídas num território de 260 Km de extensão por 132 Km de largura.
As atividades econômicas do quilombo eram tão desenvolvidas que extrapolavam seus limites, estabelecendo relações comerciais regulares com as vilas e povoados vizinhos. Os quilombolas produziam principalmente produtos agrícolas, além de serem fortes na caça e pesca.
Com a questão dos invasores solucionada, a Corôa e os fazendeiros da região voltaram-se para Palmares. Estes últimos já sentiam a decadência da indústria açucareira e sonhavam com as férteis terras do quilombo, além de toda mão-de-obra gratuita que conseguiriam com os negros capturados.
A partir de 1667 várias entradas foram organizadas para destruir o quilombo. As batalhas eram sangrentas, com baixas nos dois lados, mas sem um vencedor. Em 1674 o novo governador de Pernambuco, Pedro de Almeida, formou uma grande expedição, que incluía índios e uma tropa de negros chamada "Têrço de Henrique Dias", criada originalmente para combater os holandeses. Mais uma vez os combates foram terríveis e novamente terminaram sem vencedor.
Em 1675 um grande exército comandado por Manuel Lopes desmantela um dos mocambos de Palmares, capturando dezenas de negros.
O comandante instala-se no mocambo conquistado e em 1676 recebe auxílio de Fernão Carrilho, outro "notável" estrategista na luta contra quilombolas e índios.
Em 1677, Carrilho ataca de surpresa o mocambo de Aqualtune, derrotando seus surpreendidos moradores. Monta sua base neste mesmo mocambo e inicia uma série de ataques aos vizinhos. Mata Toculos e aprisiona Zambi e Acaiene, todos filhos de Ganga Zumba, rei de Palmares.
Carrilho, animado com suas sucessivas vitórias, investe contra o mocambo de Subupira, mas é surpreendido ao encontrá-lo já destruído pelos próprios palmarinos. Mesmo assim, o comandante consegue capturar Gana Zona, chefe militar de Palmares.
Carrilho, acreditando ter aniquilado o quilombo, funda o Arraial de Bom Jesus e parte, certo de seu sucesso.
Mais prudente, o governador Pedro de Almeida percebe que o enfraquecimento de palmares não significa sua derrota. Temendo a reorganização das forças do quilombo, propõe um acordo de paz a Ganga Zumba. Pelo tratado, Palmares submeteria-se à Coroa Portuguesa. Em troca, teria liberdade administrativa e seria considerada uma vila, onde Ganga Zumba ganharia o cargo de mestre-de-campo.
Acuado e militarmente em desvantagem, o rei de Palmares aceita o acordo.
Mas isto não será o fim do quilombo.
ZUMBI
A decisão de Ganga Zumba não agrada todos os palmarinos. Seus principais opositores são dois importantes chefes de mocambos: Zumbi e Andalaquituche,
Que propõem libertar todos os escravos. Em meio à controvérsia, Ganga Zumba é envenenado e Zumbi torna-se rei.
O governador Pedro de Almeida não desiste de seu intento e numa derradeira tentativa de acordo liberta Gana Zona, mas isso de nada adianta. Uma nova fase se inicia em Palmares.
Zumbi, o novo rei, revela-se um corajoso estrategista militar, derrotando todas as expedições que tentaram derrubar Palmares, entre 1680 e 1691. Suas sucessivas vitórias aumentam sua fama, tornando-o temido e respeitado.
A QUEDA
Souto Mayor, o novo governador, decide organizar um exército exclusivamente para derrotar Zumbi e acabar de vez com Palmares. Para tanto, sela um acordo em 1691 com o sanguinário bandeirante Domingos Jorge Velho, célebre exterminador de índios. Pelo trato, em caso de vitória, Jorge Velho ficaria com um quinto do valor dos negros capturados, além de ganhar terras para serem repartidas entre seus homens.
No ano seguinte, o bandeirante ataca o mocambo Cêrca do Macaco, sede de resistência de Zumbi e sua tropa é arrasada. Pede reforços e recebe apoio de tropas pernambucanas chefiadas pelo capitão Bernardo Vieira de Melo.
Até 1694, o mocambo é mantido sob sítio, mas as investidas do exército são duramente repelidas.
Somente em 6 de fevereiro desse mesmo ano, com reforços redobrados, é que o exército consegue invadir o mocambo e derrotar os quilombolas. Encurralados entre os inimigos e um abismo, muitos pulam para a morte, outro fogem. Os que ficam são dizimados.
Entre os que conseguem escapar está Zumbi. As tropas não desistem e perseguem os sobreviventes um a um, matando-os ou aprisionando-os.
Zumbi só seria localizado um ano depois. Barbaramente morto e esquartejado, teve sua cabeça exposta no centro da cidade de Olinda, como prova final da destruição de Palmares.