Comunidade do Jaó (história oral, narrada por "seu" Ilário:

"Meu avô, escravo Alfredo Martins, veio de Caxias do Sul, logo no início do tropeirismo, trazendo os muares da região de Ourinhos. Lá por aqueles lados já havia se dado a abolição, mas o negro continuava sendo tratado como as mulas que meu avô trazia, debaixo do chicote.

Como a falta de organização na libertação dos escravos foi assustadoramente enorme, muitos problemas surgiram, um deles foi como manter preso os escravos que ajudavam no transporte dos muares?

O escravo longe do seu "dono" não devia satisfação a ninguém, se sentindo livre, claro, ele fugia. Sem pensar duas vezes meu avô fugiu para a região de Taquarituba.

Lá conheceu uma escrava que vinha do norte de Minas Gerais, de nome Florência Estevão de Lima, dessa união nasceu Martins Romão, meu pai.

Já meu avô por parte de mãe, esse sim, veio direto da África, de Guiné-Bissau, Joaquim Carneiro de Camargo.

A única coisa que se sabia do negro que acabava de chegar, aqui na região de Itapeva era que ele não falava a nossa língua. Apesar do desconhecimento da língua foi adotado pelo proprietário da Fazenda Pilão D’’agua, que fica a 15 km da cidade de Itapeva, antes da abolição dos escravos.

Depois da abolição, Joaquim comprou 37 alqueires de terra para pagar com seus serviços.

Porém, com o falecimento do proprietário, herda mais 31 alqueires, instalando-se definitivamente na Fazenda Pilão D’’agua.

Lá conhece a descendente de ‘ndios Josefa de Paula Lima, cozinheira da fazenda. Casa-se com ela, gerando a menina Laurinda de Paula Lima. Minha mãe!

Estamos na Quinta geração, desde que tudo isso aconteceu".

A Aldeia do Jaó

A comunidade do Jaó conta com aproximadamente 450 pessoas, sendo 180 crianças. Homens e mulheres trabalham na lavoura, no cultivo de feijão e milho, de onde vem todo sustento da comunidade. Esses produtos são vendidos em feiras e mercados da região de Itapeva, do lucro da venda desses produtos, foi possível comprar vinte cabeças de gado leiteiro, que ajudam na manutenção dos habitantes do lugar.

Uma outra fonte de renda eram dois tanques para piscicultura, que infelizmente foram desativados.

Existe pouco contato com as cidades vizinhas, por causa da dificuldade de locomoção, o que fica claro no escoamento da produção. Como o comprador vem buscar a mercadoria, ela sai mais barata, já que não se pode cobrar o frete.

Ilário, 64 anos, líder da comunidade, é a imagem do negro vindo da África. Dentes alvos e músculos fortes, apesar da idade. Reclama da falta de interesse da sociedade para com as comunidades quilombolas, ou o que resta delas.

Ilário ressalta a importância dessas comunidades para a preservação não só das raizes da raça negra, mais também da formação da cultura do povo brasileiro. Para "seu" Ilário "o resgate da cidadania e dignidade daqueles que tanto contribuíram para a construção de um país, hoje serem tratados tão a margem, ou melhor ao fundo, é uma vergonha".

Atualmente, graças a uma parceria da Prefeitura de Itapeva com o ITESP (Instituto de Terras do Estado de São Paulo), na tentativa de incentivo à agricultura, a comunidade vem recebendo sementes e adubo para diversificar e aumentar sua produção.

Para o real crescimento da comunidade só falta a unificação da religião, pois no Jaó existem três tendências religiosas: a Igreja Católica, a Congregação Cristã do Brasil e a Assembléia de Deus.

Os cultos africanos são praticados com muita discrição.

Ilário, com seu sorriso alvo e largo, diz que apesar de todas as dificuldades, sente-se feliz por estar onde está e fazer o melhor para não deixar morrer o pouco que restou não só da história de um povo, mais de sua própria história

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