Cafundó

É difícil chegar a Cafundó. Uma pequena placa na beira de uma rodovia indica a estrada de terra a seguir. Três bifurcações e seis quilômetros depois, numa estrada que acaba no centro de um vale de eucaliptos, se vê uma porteira e a placa "Cafundó".

No dicionário Cafundó significa local de difícil acesso. Fica num bairro da zona rural, a 14 km do município de Salto de Pirapora, distante 30 km de Sorocaba e 150 km de São Paulo. Significa também também "Deus me livre", fim de mundo.

Cafundó é tudo isso e muito mais. É o nome de uma comunidade negra singular. Iniciada por um escravo, inventou a própria língua, a "cupópia", motivo pelo qual passou a ser objeto de estudo a partir de 1978 e conseguiu, apesar das dificuldades, resistir ao tempo.

Sua história começa em 1866, 22 anos antes da assinatura da Lei Áurea. Os mais antigos contam que "um senhor de fazenda", chamado Joaquim Manoel de Oliveira, libertou quinze escravos, entre eles o casal João Congo e Ricarda. Das duas filhas do casal, Ifigênia e Antônia, surgiram as duas parentelas que até hoje se mantêm no local: os Almeida Caetano e os Pires Cardoso. Na ocasião "Oliveira" entregou os 218 hectares aos libertos, com a condição de continuarem cultivando a área.

A aldeia conserva alguns costumes e características culturais, como moradias de taipa cobertas de sapê, fogões a lenha, cura por ervas, o candomblé como forma de se relacionar com Deus e principalmente a língua. Naturalmente hábitos um pouco descaracterizados pelas dificuldades de sobreviver sem recurso e apoio.

Cerca de 50 pessoas vivem no bairro criando porcos e galinhas, além de plantarem milho, mandioca e feijão. Tudo em pequena escala, somente para subsistência.

A herança original dos dois escravos foram 90 hectares. Oficialmente os cafundoenses contariam hoje com metade disso, depois que o lugar foi tombado pelo Condephaat, em 1990, mais, de verdade, o que restou foram oito hectares.

Cupópia

Ao final do século XV, quando os europeus ocidentais começaram a colonização do mundo, as línguas começaram a desaparecer, muitas devido a expansão da agricultura, outras por motivos políticos e sociais, sem esquecer as transformações tecnológicas.

A imposição de uma língua padrão, ocasiona a diminuição das línguas nativas, impedindo a diversidade.

A Cupópia é um resíduo linguístico na gramática da língua portuguesa. "Ele é constituído por um vocabulário onde estão reunidas várias palavras, de várias línguas do grupo banto.

A língua restringi-se a "160 itens lexicais, da qual a maioria são nomes, há também 15 verbos, 13 qualificativos e dois advérbios. São encontradas figuras de palaras para atender às restrições de vocabulário como recurso linguístico, visando aumentar as possibilidades de expressão dos falantes ( O Lexito Africano no Cafundó, do Prof. Silvio de Vieira de Andrade Filho).

A linguagem é uma forma de preservação de identidade e de resistência cultural de uma comunidade. A brasilidade dos africanos no Brasil, com seus costumes, tradições e linguagem, que embora tenham conservado suas raízes na mãe África, também os integra à realidade brasileira. As culturas e línguas são produtos da vida social, de suas transformações e de seus compromissos. Não existem pureza nem essência no mundo da cultura, mas um exercício constante de invenção de significados e valores.

A permanência ou preservação da linguagem africana poderia ser traduzida como empenho dos falantes numa tentativa de proteger a ideologia de um povo, no sentido de lhe restar, ainda que precariamente, um pouco da dignidade de uma raça dizimada pelas sequelas da escravidão.

No Cafundó a Cupópia é prolixa e poética, exclusiva, rica e falada apenas lá.Todos sabem o português e a cupópia. Na presença de estranhos a Segunda é mais falada.

"A gente fala na frente dos brancos quando não quer que eles entendam..." "... e ensina as crianças, assim não acaba nunca", dizia dona Cida, líder da comunidade, até seu recente falecimento em novembro do ano passado.

História oral de Cafundó

O líder da parentela "Almeida Caetano" conta que as terras foram doadas pelo antigo fazendeiro, dono de escravos, para duas irmãs: Ifigênia, que se casa com Caetano Manoel de Oliveira: e Antônia, que se casa com Joaquim Pires Cardoso, originando as duas parentelas.

Já Dita Pires, diz que a doação fora feita a Vó Ricarda (e não às tias), que recebeu de Joaquim Manoel de Oliveira um pedaço de terra no Faxinal. Outras vezes dizia que o cafundó tinha sido objeto de troca entre sua avó Ricarda e um tal Rafael Teixeira.

Conta que seu avô chamava-se Joaquim Manoel de Oliveira, como o fazendeiro doador e era tratada como Joaquim Congo, primeiro para distinguir-se do senhor e, segundo para referir-se ao fato de Ter nascido na África. Dona Dita, primeira filha de Joaquim pires Cardoso é a Segunda filha de Antônia, que teria sido trazida pela mulher de Joaquim Leme, por ocasião de seu casamento. Antîa teria então se tornado amante de senhor e tido com ele dois filhos: Crispim e Joaquim.

Conta-se que era prática comum os senhores terem filhos com suas escravas e depois mandarem matar, sem que as senhoras ficassem sabendo. De posse dessas informações fica mais fácil descobrir os arquivos da família de Ricarda e João Congo.

Sorocaba ou Piratininga? Descobriu-se que Salto de Pirapora pertencia a Sorocaba, logo a documentação estaria em Itapetininga, nos arquivos do ano de 1937. Confirmado o fato, teria que se procurar a documentação de Joaquim M. de Oliveira nos cartórios de Sorocaba, no período anterior a 1872. O mesmo possuía em 1855 dois terrenos e ra possível que tivesse terras em Sorocaba.

Agora era preciso verificar o Cartório da Diocese, no arquivo de assentos paroquiais, casamentos que incluíam negros escravos e libertos. Foram encontrados pelos nomes Joaquim Congo e Ricarda, juntamente com o registro de nascimento de Antônia, filha mais velha de Joaquim e Ricarda, mãe de Dona Dita, datado de 12 de junho de 1863, tendo o nome de Joaquim de Oliveira como senhor.

Após a morte de Joaquim M de Oliveira, o casal de escravos e seus filhos passaram a pertencer a José M. de Oliveira, o que confirma a história de Dona Dita Pires.

Depois de muita procura chegou-se a conclusão que Antônia teria recebido as terras três meses antes da abolição. Na relação de matrícula dos escravos de Joaquim M. de Oliveira, um registro exigido pela Lei do Ventre Livre que indicava o nome, idade e outros dados de cada escravo, para permitir a identificação de grupos familiares. O que chamou atenção, foi que dos vinte escravos da lista, treze eram da mesma parentela: Joaquim Congo e Ricarda, quatro filhos mais o pai e cinco irmãos de Ricarda.

Hoje pode-se concluir que a história do Cafundó antecede à doação de terra e à sua fixação no local, isso vem para contrariar a tese que os negros eram devassos e instáveis.

Com base nos dados pesquisados, conseguiu-se montar a genealogia dos senhores dos dois grupos familiares predominantes, descobriu-se que só Ifigênia, mãe de Ricarda não fora propriedade de seus ascendentes diretos. Sugerem assim, a continuidade da parentela no tempo, e também, que a procriação acontecia dentro do casamento e não como fruto de relações passageiras, explicando a sobrevivência da comunidade.

Por Marilda Apola Corrêa

 

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