Um lanceiro negro no sul
27/01/2001 - Porto Alegre-RS
Se alguém acha que o Rio Grande do Sul não tem negros, ou história de cultura afro-brasileira, está muito enganado.
Sirmar Antunes, 45, com 25 anos de carreira, que gosta de ser chamado "operário das artes", porque já desempenhou na sua carreira artística funções desde iluminador a diretor, retrata parte da história do negro no Rio Grande do Sul.
Sirmar volta no tempo e nos relata os primeiros indícios de sua vocação. Aos 12 anos, como televizinho, (Tvs eram caras, e só poucos possuíam, portanto reuniam-se vários vizinhos para assistir) ele sonhava em ser ator como Grande Otelo. Dom para interpretar ele já tinha, pois imitava pessoas com grande facilidade. Esta sua habilidade artística provocava nos outros um certo incômodo, levando até a pertubar a disciplina na escola, pela sua inquietude. Devido a este fato, uma professora que ajudava a encontrar alternativas para seu comportamento, sugeriu à sua mãe que o matriculasse em um curso de teatro.
Começou então a trilhar seu caminho, pois na escola já participava de atividades de cunho artístico com muita propriedade. Aos 17 anos, estas atividades já passaram a ser parte integrante da sua vida.
De 72 a 75, Sirmar fez teatro amador. Em 76 debutou com seu primeiro cachê, na peça de Oraci Gimba Como revisar um marido Oscar. Ele atuava com o grupo SOGA - Sociedade Gaúcha de Artes, de Canoas RS, dirigido por Newton Pereira (afro-descendente). A peça era versátil e se adapatava tanto ao palco, quanto à rua.
Já em 1977 sindicalizou-se e em 78, a profissão de ator foi reconhecida e e ele se tornou, oficialmente, profissional. Desde então, Sirmar também atua no movimento negro, e nas reuniões, tinha sempre uma poesia ou um conto, na ponta da língua.
Sirmar também atuou na peça Calabar, de Chico Buarque de Holanda e Ruy Guerra, em Porto Alegre, vivendo o personagem Henrique Dias.
Participou no Espetáculo Afro-latino musical sobre raízes negras no Rio Grande do Sul. Remontado em 1988 com proposta de discutir e questionar as comemorações do centenário da abolição, representou o Rio Grande do Sul, no Seminário Nacional de Dramaturgia, debatendo o espaço do negro na mídia e a violência policial contra a comunidade negra. A direção cênica e iluminação eram de Sirmar, composições musicais de Pedro Homero e Adair Antunes e texto do poeta Oliveira Silveira.
Em 1987, Sirmar funda o grupo de teatro dos Correios e Telégrafos Cartaberta -, dirigindo o espetáculo O Planeta dos Palhaços de Pascoal Lorenço, inaugurando o auditório dos Correios como casa de espetáculos.
Entre 1990 a 1995, morou em São Paulo. Trabalhou como arte-educador, na área de teatro, na Casa Aberta Leide das Neves, em Itaquera. O trabalho foi muito gratificante, pois estava junto com um grande artista, João Acaiabe, na Acaiabe Produções Artísticas. Ainda em São Paulo, trabalhou na TV Bandeirantes como assistente de iluminação, por questões de sobrevivência.
Nesta sua estadia por ares paulistanos, no ano de 1993, atuou no espetáculo de dança - Ministros de Olorum - de Ari Matos, com coreografia a partir da dança ritual dos orixás.
No ano de 2000, já em Porto Alegre, Sirmar participou como ator, no espetáculo de dança, Lanceiros Negros, onde representou o personagem de um lanceiro, que conta a história não contada pelos historiadores considerados oficiais. A peça teve a produção inicial de Nei Ortiz, textos do poeta Oliveira Silveira, do jornalista Paulo Ricardo (Baiano) de Moraes e do historiador e professor Guarany Santos.
Sirmar Antunes no cinema
Sua primeira participação
foi um poeta, no filme longa metragem -Domingo no Grenal, do ano de
1979.
Em 1986, participa do curta O dia em que Dorival encarou a guarda de Zé Pedro Goulart e Jorge Furtado, considerado um dos melhores curtas brasileiros de todos os tempos (Gramado, Espanha e Cuba), que deu o prêmio de melhor ator para João Acaiabe.
Em 1986, Sirmar representa um dos principais personagens, O maragato El negro Juan Bispo, no filme Lua de Outubro. Este papel foi adaptado, pois ele nos conta, que ele não foi criado para um ator negro. O filme ambienta a época de 1923 a 24 que dividiu o Estado do Rio Grande do Sul em duas facções: republicanos, lenços brancos, chimangos e federalistas, lenços vermelhos, maragatos.
Outros filmes com sua participação: Tolerância, de Carlos Gerbase, Slake, de Rogério Ferraz, Quadrilha, de Mariângela Grando.
No filme - Concerto Campestre -, que retrata o final do século XIX, na região das charqueadas, no Rio Grande do Sul, Sirmar interpreta um escravo rebelde, Ogã de Alabe, que é convidado por um maestro espanhol a fazer parte de uma orquestra.
Em 2000, Sirmar participa no longa Netto perde sua alma baseado em um livro homônimo de Tabajara Ruas, que também é diretor. Ele é o co-protagonista do filme, interpretando o Sargento Caldeira, um líder dos lanceiros negros. O filme será lançado em Agosto no festival de Gramado e em setembro para o público.
Este filme deverá mexer com certos brios do povo conservador gaúcho que poderá se sensibilizar e o estado enfim reconheça como heróis anônimos os lanceiros negros farroupilhos.
Sirmar quer continuar fazendo cinema, e considera Grande Otelo, como o melhor ator negro, e tem como ídolo Muhamed Ali. Na sua caminhada, tem seguido o exemplo de Milton Gonçalves, de não interpretar personagens que firam a auto-estima da comunidade negra. Por exemplo, se for fazer um escravo, que o mesmo não seja submisso como Pai João, que aceita tudo.
Da sua carreira no cinema, Sirmar cita:
O dia em que Dorival encarou a guarda é um cartão de visita
Lua de Outubro pode-se considerar um cartão postal
Netto perde sua Alma como um out-door para o mundo.
Muito Axé, para Sirmar Antunes!!!









Texto extraído do site: www.nettoperdesuaalma.com.br
SIRMAR ANTUNES como Sargento
Caldeira
UM ATOR QUE COLOCOU
A PROFISSÃO À SERVIÇO DA LUTA SOCIAL
Sirmar Antunes é um homem de teatro. Traz na memória e na experiência nada menos de trinta anos de palco. Do contato frontal com o público dos teatros, para o público das salas escuras do cinema, foi um passo que ele deu sem receio.
Em Netto Perde sua Alma ele é o Sargento Caldeira, mão direita, quase confidente e acima de tudo amigo de Netto, no filme de Tabajara Ruas e Beto Souza. No palco Sirmar participou de onze peças e para o cinema fez seis filmes, entre curtas e longas-metragens. Quem assistiu Sirmar em O Dia em que Dorival Encarou a Guarda ( igualmente um texto de Tabajara e direção de José Pedro Goulart e Jorge Furtado), não o esquecerá jamais. O filme foi considerado pela crítica como o melhor curta-metragem da década de 80. O ator também deu vida a inúmeros vídeos publicitários e institucionais. Ainda foi diretor, técnico e produtor de teatro e shows musicais. Outra face do seu trabalho é como pesquisador da cultura popular, sempre dando ênfase às conquistas da raça negra, o que anda junto com leituras dramáticas sobre consciência política e valorização social. Raros são os que conseguem realizar sonhos. Sirmar conseguiu: a grande força que imprime a seus personagens é movida pela idéia de construir uma sociedade mais justa através da arte.

