Primeiro Deputado Federal negro, por São Paulo, na década
de 60, ele sobreviveu a uma infância marcada pela carência de
pais, no interior do Estado, e à dureza dos serviços mais humildes,
em sua mudança para a capital paulista, transformando-se num empresário
de sucesso. Político consciente de seu papel no processo de conquista
sócio-econômica das comunidades negras, brasileira e mundial,
promoveu a aproximação do Brasil com o Continente Africano.
Adalberto Camargo nos conta sua história, uma saga vitoriosa.
PRIMEIROS PASSOS
Portal Afro - O senhor poderia falar
sobre a sua infância e contar qual foi seu grande incentivo período
da vida?
Dep. Adalberto Camargo - Nasci em Araraquara e perdi minha
mãe quando tinha de 3 pra 4 anos. Éramos quatro irmãos
e fomos “dados” a familiares de minha mãe. Eu fui para
uma fazenda, em São José do Rio Preto, para ser criado por um
tio casado com uma italiana, a Tia Catina, que tinha 14 filhos. Eu fazia todo
serviço de um trabalhador rural e minha tia me ensinou a escrever meu
nome. Lá pelos meus 13 anos, decidiram me levar de volta para Araraquara.
Eu não queria voltar e, na estação da Araraquarense,
comecei a chorar. Tia Catina me deu um tapa nas costas, dizendo: “Você
vai embora, vai enfrentar a sua vida. Nunca encurve sua espinha a ninguém.
Se um dia você curvar, não diga ninguém que você
é meu sobrinho. Vai me envergonhar. Você tem que ser altivo”.
Portal Afro
- Conselho que nunca mais esqueceu?
Dep.
Adalberto Camargo - Foram palavras de
ordem na formação do meu caráter e da minha personalidade.
Aprendi que você deve respeitar e ser respeitado. Em Araraquara, morei
com a tia “Nega” - Maria de Lourdes Gonçalves -, que era
lavadeira e eu a ajudava. Fiquei lá por dois anos e pouco. Fui engraxate
e fiz todo serviço humilde que se pode fazer. Tudo o que eu recebia
passava para as mãos dela. Um dia eu tirei 2 mil réis para comprar
uma roupa. Ela brigou comigo, eu contestei e ela disse que a porta da rua
era serventia da casa. Era aí pelo mês de julho de 1939. Ela
falou às 2 horas e às 6 horas eu peguei o trem para São
Paulo.
Portal
Afro - Ainda em Araraquara, houve
alguma outra grande influência em sua vida?
Dep.
Adalberto Camargo - Na
época não havia outdoor, nem televisão e rádio
era galena. Mas tinha o cinema. Eu entregava as tabuletas de cinema e ganhava
ingresso para as sessões. Tinha um filme seriado, chamado Sertão
Desaparecido, que passava um episódio a cada sexta-feira. Eram safáris
e caçadas na África. Eu assistia a esses filmes, toda semana,
e ficava “encucado”: os brancos usavam uma calça pela metade
da perna – que hoje é bermuda –, meias três quarto,
capacete e espingarda nas costas; e os negros, andavam pela mata atrás
dos caçadores, carregando os suprimentos, no interior se chama matula.
Aí cheguei para a tia “Nega” e perguntei: “Negro
só serve pra carregar matula?”. Ela resistiu, no primeiro dia,
mas no terceiro ou no quarto me deu uma resposta: “Se você for
correto, trabalhar e tiver cuidado no seu crescimento, um dia você pega
a espingarda”.
Portal
Afro - Além
de voltar seus olhos para a África, esses filmes também o estimularam
querer “pegar a espingarda”, não é mesmo?
Dep.
Adalberto Camargo - Para
não continuar a carregar o suprimento para o caçador (risos).
Isso já estava em minha mente, desde criança. E eu procurava
conseguir meios de “pegar a espingarda”, no sentido figurado,
é claro. Estava determinado a atingir esse objetivo.
Portal
Afro - Determinação
é a principal marca de sua vida?
Dep.
Adalberto Camargo - Sempre
foi. Quer um exemplo? Até voltar a Araraquara, eu não conhecia
meu pai. Eu o conheci, na rua, quando tinha 16 anos. Ele era um rábula,
um homem licenciado a exercer funções de advogado, era autodidata,
muito inteligente. Nós nos encontramos e ele disse: “Você
não sabe, mas sou seu pai. Você só tem o sobrenome de
sua mãe, mas vamos acrescentar o meu sobrenome. Agora você será
Adalberto Camargo Paulino. Seu registro vai ter nome de pai e mãe”.
E eu respondi: “Olha, pai, eu agradeço muito, mas seu nome não
me serve. Vou honrar o nome da minha mãe, até eu morrer”.
Foi isso que eu fiz.
SÃO PAULO, 1939
Portal
Afro - Como
foi sua chegada em São Paulo, a terra das oportunidades?
Dep.
Adalberto Camargo - Cheguei
à Estação da Luz e minha primeira oportunidade foi ali
mesmo, no Jardim da Luz (risos). Fiquei dormindo lá, debaixo da garoa,
num frio muito terrível. Tinha um bar, no Bom Retiro, na esquina das
ruas Prates e José Paulino, que está lá até hoje.
O dono, na época, o “Português”, me deu oportunidade
de lavar o estabelecimento em troca de comida. Depois, dormi lá, por
alguns dias, até aparecer um trabalho melhor. Fiquei no Bom Retiro
por um ano. Eu e o Zezinho - José Camargo -, que também era
de Araraquara. Ele foi engraxate comigo, éramos muito unidos, como
irmãos. Depois de um ano, fomos morar na rua. Aí tive uma infinidade
de empregos.
Portal
Afro - Infinidade
de empregos e de formas de aprendizado, não é mesmo? Por exemplo,
como o senhor aprendeu inglês?
Dep.
Adalberto Camargo - Eu
trabalhei em várias atividades. Uma delas foi como vendedor de vaselina
para alisadeiras de cabelo. Quem me ensinou foi um grande amigo negro, o Orlando
Alves Lima, o “Orlando Von Stuckerman” que vendia rádios
para a comunidade. Também trabalhei como ajudante numa marcenaria.
Depois, fui servente no Colégio de Ciências e Letras, na Rua
Beneficência Portuguesa. Lá tinha um professor de espanhol e
de inglês, o Manolo. Eu ia varrer o pátio, no horário
da aula dele, e ficava atrás da vidraça, assistindo às
aulas. Assim, fui aprendendo alguma coisa, o elementar.
Portal
Afro - E
como teve início sua visão para negócios?
Dep.
Adalberto Camargo - Quando
deixei o Ciências e Letras, fui trabalhar de entregador de avisos de
protesto para o Dr. Basílio Machado Neto, que era o dono do Cartório
de Protestos. Depois fui raspador de assoalho e fiz todo tipo de serviços
até entrar para um grupo que lavava automóveis nas lojas e aprendi
a vender carros. Morava num quarto, na Rua Aurora, 409. O meu era o 25. A
dona da pensão e seu filho eram também donos do Curso de Madureza,
no Colégio Patriarca, na Rua São Bento. Nesse curso tinha muitos
adultos e, através dos estudantes, consegui me enfronhar no meio empresarial.
Fui procurando sempre uma opção melhor.
A DETERMINAÇÃO
Portal
Afro - Podemos dizer que tudo foi premeditado: ser lavador
para me tornar o maior vendedor de carros?
Dep.
Adalberto Camargo - Premeditei
sim, para conhecer quem vive nesse do comércio automobilístico,
que na época funcionava ali na chamada “esquina do pecado”,
na Av. São João com as ruas dos Timbiras e Conselheiro Nébias.
Ali, dei a partida para começar vender carro e, em seguida, montei
uma loja, na Rua Marques de Itu. Levei comigo o “Guariba”, que
era um líder no campo de polimento e preparação do veículo
para deixá-lo com ótima aparência para a venda. Surgiu
ali a expressão “dar uma guaribada”. Depois, me tornei
despachante e, em janeiro de 1951, aluguei a loja da Rua dos Timbiras, 484,
com um sócio, o José Pires, cujo o pai era inspetor da Guarda
Civil. Cabiam 26 carros e, no mês da inauguração, vendemos
500 carros. Um recorde.
Portal
Afro - O
senhor se tornou muito conhecido. Como começou construir o seu relacionamento?
Dep.
Adalberto Camargo - Teve
várias fases. Havia o Abraão Cachoeira, que era procurador de
várias agências Ford do interior e vendia os carros também
na capital. Andava muito e era muito conhecido, um líder no mercado.
E ele me chamou para ser seu sócio. Um comprava, o outro vendia e dividíamos
o lucro. Não sei se o lucro era bem dividido, mas trabalhei um ano
com ele. Quando resolvi instalar a loja da Marques de Itu, convidei-o para
ser sócio, mas ele me disse o seguinte: “Não. Você
vai sozinho, porque aprendeu a trabalhar. Teve boas aulas, mas te custou muito
caro. Agora tem que usufruir”. Eu disse: “Não custou caro,
não, Abrão. Eu devo muito a você. Confiou em mim e me
convidou a ser sócio. Eu morava num porão e ganhei mais do que
você pensa”. Através do relacionamento dele, conheci muitos
milionários. Acredito que a indústria do relacionamento, quando
puro, espontâneo e social, é muito importante. Ninguém
faz nada sozinho. Com esse relacionamento, fiz a primeira loja e, depois,
me tornei o maior vendedor de automóveis do Brasil, na época.
Portal
Afro - Quantos
automóveis o senhor chegou a vender?
Dep.
Adalberto Camargo - Cerca
de 43 mil.
Portal
Afro - O
senhor teve várias lojas de automóveis. Como era sua estratégia
nesse mercado?
Dep.
Adalberto Camargo - A
primeira loja se chamou A. Camargo Despachante, na Marques de Itu. A segunda,
a Bambú Automóveis. Me registrei na DET como despachante, mas,
como não conhecia desse serviço, chamei o José Pires,
que era despachante. Eu pegava o serviço, ele fazia e eu ganhava a
comissão. Me tornei conhecido e passei a atender um número significativo
de pessoas da sociedade. Mas tem uma particularidade: eu cadastrava cada pessoa
que vinha à loja, comprando ou não algum carro. No final do
ano, na medida do possível, eu mandava cartão de boas festas.
Era um tratamento diferenciado. Com isso, fui difundindo meu nome nas classes
média e média alta, consumidoras de automóvel.
Portal
Afro - Por
que a escolha do mercado de automóveis?
Dep.
Adalberto Camargo - O
automóvel era meio de representação social. Então
me utilizava de uma série de estratégias que convencer os clientes.
Estou recolhendo dados e notas para escrever um livro para as futuras gerações.
Portal
Afro - O
que motivou sua viagem aos EUA, nos anos 50?
Dep.
Adalberto Camargo - Logo
após a guerra, teve uma lei muito restritiva que regulamentava a importação
de automóveis. Mas quem viajava para fora do País ou vinha visitar
o Brasil tinham o direito trazer seu automóvel, entre seus pertences
pessoais. Eu vendia veículos que outros importavam. Foi aí que,
em 56, fui aos EUA para trazê-los diretamente. Naquela época,
tinha 25 mil domésticas negras trabalhando nos Estados Unidos. Em 57
detectei algumas e pus uma pessoa para fazer os contatos. Fiquei lá
90 dias e consegui trazer os meus primeiros 500 carros, aí eu passei
a ser um vendedor notado.
Portal
Afro - Foi
assim que conquistou fama?
Dep.
Adalberto Camargo - O
Tavares de Miranda, famoso colunista social em São Paulo, gostava muito
de mim e dava sempre uma nota das minhas atividades. No Rio, Didú Souza
Campos, colunista do society carioca, sempre noticiava sobre minhas andanças
empresariais. Eu morava aqui em São Paulo e também no Rio.
Portal
Afro - E,
com mídia, foi mais fácil aumentar tanto a clientela quanto
o seu cadastro. Foi assim que se tornou político?
Dep.
Adalberto Camargo - Político
eu já nasci. O ser humano é um ser político. Eu só
não tinha atividade partidária. Aumentei o relacionamento e
também a clientela. Comecei a vender carros para revendedores da Bahia,
de Pernambuco, do Rio Grande do Sul, de Minas Gerais. Antes de ser deputado
já era conhecido no Brasil inteiro.
POLÍTICOS FORMANDO POLÍTICOS
Portal
Afro - Podemos dizer que o comércio de automóveis
foi a sedimentação de sua trajetória política?
Dep.
Adalberto Camargo - Isso
mesmo. Já tinha o pensamento de ser um homem público. E entendi
e continuo entendendo que nós temos de, através do poder político,
ir buscar nossa raiz. Por isso fui buscá-la na África, porque
árvore sem raiz não dá fruto. Entendi que temos de ter
poder político para mudar a história e nos situar numa hierarquia
social, em todos os patamares do poder. E cheguei à conclusão
que deveria buscar um cargo de representação política.
Portal
Afro - Aí
vem a relação direta com os filmes que o senhor assistia em
Araraquara?
Dep.
Adalberto Camargo - Assim
que entrei na vida pública, me empenhei em promover a aproximação
do Brasil com a África. Eram os anos 60, quando a maioria dos países
africanos se tornou independente. Vejo o continente africano como um grande
consumidor, ideal para o escoamento da nossa produção. E quem
quer vender para os pais, tem que tratar bem seus filhos. Se o Brasil pretende
gerar recursos, divisas, na África, tem de abrir espaço no mercado
de trabalho para a comunidade negra, que está se preparando. Com isso,
a gente consegue engajá-la no processo sócio-psicológico,
nos meios de produção, no desenvolvimento do País. É
essa a minha estratégia.
Portal
Afro - Além
da África que outras metas tinha seu projeto político?
Dep.
Adalberto Camargo - A
África foi o primeiro tópico de meu projeto político.
Logo entendi também a necessidade do engajamento da mulher negra no
processo político. Então, inclui a ascensão da mulher
negra. E também a formação da juventude negra, para incentivar
a comunidade a participar do setor econômico empresarial. Na minha primeira
missão empresarial ao Continente Africano, levei 10 negros à
África, visitando nove países. Na segunda, levei mais 10, depois
60. Visava o interesse do Brasil, como um todo. Na época, o governo
me questionou sobre o que eu pretendia. Respondi que precisávamos ter
representatividade junto ao Continente Africano para poder ampliar nosso mercado
de consumo. Podemos competir com os europeus, tradicionais fornecedores da
África. Disse-lhe que precisava de bolsas de estudos. Ele me cedeu
3 mil, durante um período, e eu as distribuí à comunidade,
às pessoas que estavam mais próximas a mim.
Portal
Afro - Bolsas
de Estudos?
Dep.
Adalberto Camargo - Sim,
bolsas universitárias. Muitos se formaram, graças à obtenção
destas bolsas. Alguns, talvez, não comentem, para se auto-afirmar sozinhos.
Para mim não interessa. Só interessa o que eu fiz. Tem um caso
interessante: eu tinha um amigo, o Hamilton Cardoso, um grande jornalista
que tinha tendência esquerdista. Ele encontrou comigo e disse: “Olha,
deputado, eu sou de esquerda, mas preciso de uma bolsa de estudo”. Foi
franco. Ele era da esquerda forte, sabia expor seus pontos de vista para conseguir
seus objetivos. Eu disse a ele: “Vou conseguir a bolsa de estudos. Mas
isso não quer dizer que você tenha de seguir minha linha ideológica.
Deve seguir a sua, apenas. Procure, na sua linha ideológica, trabalhar
no sentido de honrar a nossa raça. Em qualquer lugar que você
estiver, honrando a raça, está ótimo”. Tem muita
gente que testemunhou essa minha maneira de agir. Como me ressentia de não
ter um pai ou uma mãe que me orientasse, procurei sempre ouvir as pessoas.
Sobretudo, as de mais idade, que tinham mais experiência que eu.
Portal
Afro - Essa
prática garantiu sucesso logo na sua primeira candidatura?
Dep.
Adalberto Camargo - Sim,
ela garantiu o resultado da minha primeira eleição. E não
só da minha, mas também na eleição da Prfa. Theodosina
Ribeiro que, aliás, prestou um grande serviço à Nação.
Sem qualquer experiência política, foi eleita vereadora, em São
Paulo, com votação só superada pelo jornalista Freitas
Nobre. Foi a segunda mais votada pelos paulistanos. Ela se tornou uma referência
e estímulo para a nossa raça. Depois dela, outras mulheres negras
se engajaram na vida pública. E o Paulo Rui de Oliveira, outro grande
batalhador, como vereador e como presidente da Câmara Municipal de São
Paulo. Foi o primeiro político negro a presidir o legislativo da cidade.
Paulo Rui abraçou nossas idéias, junto com Ronaldo Batista,
Laércio de Moraes, Walter Nascimento. Eu dizia a eles: “Podemos
ganhar a eleição porque vamos nos beneficiar pelos resultados
dos que nos precederam na luta por um cargo representativo”.
Portal
Afro - Mesmo
com divergências ideológicas, haveria uma corrente política
de negros paulistas?
Dep.
Adalberto Camargo - Podemos
dizer que sim. Tivemos o Francisco Lucrécio, o Raul Joviano do Amaral,
o Eduardo de Oliveira, que foi candidato a vereador antes de mim, o Ademar
Ferreira da Silva, que se candidatou a deputado federal, a Profa. Sofia, o
Leite, o Seu Roque. O Correia Leite foi um grande político. O José
Pelegrini discutia, debatia bastante. À medida que eles tentaram o
engajamento do negro no processo político-partidário-eleitoral,
foram amadurecendo a idéia de que nossa comunidade carecia de representação
política. Eles ajudaram muito. O Geraldo Rodrigues dos Santos foi eleito
deputado federal, por Santos. Era comunista, teve seus direitos políticos
cassados e foi exilado. E o Esmeraldo Tarquínio, um advogado especializado
em Direito Alfandegário. Foi vereador, em Santos, depois deputado estadual
e foi eleito o primeiro prefeito negro de Santos. Eu, em 66, vim na seqüência.
Consegui catalisar o produto gerado pelo pensamento de todos que foram candidatos
antes de mim, como o Frederico Penteado Junior e outros tantos. Todos eles
forneceram subsídios e incentivos para que pudéssemos arregimentar
a comunidade negra eleitoral. Temos poder político para garantir representação,
junto à estrutura sócio-econômica do País que ajudamos
a construir.
TEMPOS E CONTRATEMPOS
Portal
Afro - Como é a história do políticos
que o fez desejar ser deputado?
Dep.
Adalberto Camargo - Em
56, eu lavava carros na Rua Major Sertório e queria ser vendedor de
carros. Precisava ter a carta de motorista. Peguei minha certidão de
nascimento e levei pro despachante Walter Selega, cujo escritório existe
até hoje. Pedi ao Walter Durão para fazer o requerimento para
eu ir ao Gabinete de Investigações tirar minha carteira de identidade.
Quando ele estava fazendo o requerimento, chegou ao escritório o deputado
Arlindo Maia Lello, que tinha uma representação muito forte
na época. Assim que chegou, todos o rodearam. Eu estava mal arrumado,
num canto, aguardando o meu requerimento. Ele me viu e achou que eu destoava
do ambiente. Pulou o balcão, arrancou o papel da máquina do
Durão e rasgou, dizendo: “Por que negro quer carteira de identidade?”
Portal
Afro - Nesse
momento o senhor se lembrou do conselho da Tia Catina?
Dep.
Adalberto Camargo - Não
tenha dúvida. Depois dessa cena, acabou a recepção, o
deputado foi embora e todos se dispersaram. O encontrei depois e ele me perguntou
se tinha me magoado. Respondi: “Não. O senhor não me magoou,
não”. De repente, dei um tapa numa mesa de um bar. Ele se assustou
e eu lhe disse: “Um dia ainda serei deputado federal”. Aí,
prometi isso pra mim mesmo. Por essa razão, organizei minha estrutura
social e de relacionamento, mostrando o que eu podia fazer em beneficio da
sociedade. Em 1966, contabilizei todos os esforços dos que me antecederam
e fui eleito deputado federal. Nós representávamos 45% da força
eleitoral e não tínhamos nenhum representante em nível
nacional. Por São Paulo, fui o primeiro.
Portal
Afro - Foi
eleito Deputado Federal com quantos votos?
Dep.
Adalberto Camargo - Mais
de 17 mil votos. Depois, elegemos a Theodosina, vereadora, com 21 mil. Aí,
veio a minha reeleição, com 41 mil. Está aqui na parede
o diploma. Depois, em 74, tive 90 mil votos. Em 78, quando cheguei a meu quarto
mandato, já era combatido eleitoralmente por parte da sociedade dominante.
Mas produzi muita coisa.
Portal
Afro - E
o que o senhor conhecia de leis, do processo legislativo?
Dep.
Adalberto Camargo - Quando
eu trabalhei com automóveis, no Rio de Janeiro, sempre que podia, passava
no Palácio Tiradentes e ouvia os discursos dos deputados. Assim, fui
aprendendo. No Legislativo, eu tinha vários amigos, como Arnaldo Cerdeira
e Ulisses Guimarães, que eram ligados a muitos dos meus clientes. Depois,
eleito deputado federal, procurei me assessorar por pessoas conhecedoras do
processo legislativo, como o Orlando Costa, um negro que já era assessor
da Casa, e o Saturnino de Oliveira, que me deram o suporte inicial na minha
vida legislativa. Durante dois anos fiquei aprendendo e conhecendo os meandros
do Congresso Nacional. Fui membro das Comissões de Transportes e de
Relações Exteriores e suplente da Comissão de Justiça
para aprender um pouco sobre a elaboração de leis, Constituição,
Regimento Interno e outros arcabouços jurídicos.
Portal
Afro - Sua
eleição provou que, com muito empenho, podemos chegar lá.
Não é verdade?
Dep.
Adalberto Camargo - Verdade.
Durante meu primeiro mandato, houve um “despertamento” do negro
para política. Eu lancei a Theodosina para vereadora por São
Paulo e mais de 40 candidatos negros no interior, como Laércio de Moraes,
Genésio Arruda, em Carapicuíba, Maria Helena Ferraz, em Bauru,
José Camargo, em Araraquara, e muitos outros que procuraram trilhar
o caminho político.
Portal
Afro - E
quem orientava o senhor, nesse caminho?
Dep.
Adalberto Camargo - Aprendi
muito com um grande jurista negro, o Paulo Lauro, o primeiro prefeito da nossa
raça, em São Paulo. Ele me orientava. Eu sempre procurei aprender.
Estamos sempre aprendendo. E repasso para quem tem interesse. Para quem não
tem, não repasso. Como papagaio, eu não falo, porque não
adianta.
Portal
Afro - E
também buscou conhecimento de experiências internacionais?
Dep.
Adalberto Camargo - Tive
encontros com Samora Marchel, de Moçambique, Julius Neyrere, da Tanzânia,
Anfré Boigny, da Costa do Marfim, Idi Amin, de Uganda, Keneth Kaunda,
de Zâmbia, Leopold Senghor, do Senegal, para aprender como se processou
a independência de seus países, na África. São
referências para nós, descendentes de africanos na diáspora.
Conhecer suas experiências pode ajudar a comunidade afro-brasileira
na conquista de melhor posição na sociedade. Quando eu falei
em África, virei chacota da imprensa. Cansaram de dizer que eu ia buscar
o Tarzan. Mas a África tem 700 milhões de consumidores de produtos
e serviços. É um grande mercado para o Brasil. Hoje, representa
12 bilhões de dólares no comércio bilateral, proporciona
mais de 100 mil empregos e a valorização do negro perante a
classe empresarial brasileira.
Portal
Afro - Houve
outros contatos de alto nível, como esses?
Dep.
Adalberto Camargo - Conversei
também com afro-americanos nos EUA e aqui no Brasil. Recebi em minha
casa o, então, presidente do Partido Democrata americano e Secretário
do Comércio do Governo, Bill Clinton. Lá estavam mais de 30
negros, entre os quais Eduardo Joaquim de Oliveira, Celso Pitta que, na época,
era Secretário de Finanças do Município de São
Paulo, Hélio Santos e outros que, posteriormente, se integraram nas
conversações sobre o relacionamento comercial entre afro-brasileiros
e afro-americanos iniciadas nessa reunião.
O MOMENTO E AS EXPECTATIVAS
Portal
Afro -
Quais as suas expectativas em relação às conquista políticas
da comunidade?
Dep.
Adalberto Camargo - Minhas
expectativas são das mais alvissareiras possíveis. Quando comecei,
não tínhamos representatividade. Hoje, temos mais de 50 mil
negros formados, nos mais variados segmentos da sociedade, à espera
de uma oportunidade e reconhecimento do seu valor. Temos médicos, engenheiros,
psicólogos, dentistas, professores, advogados, jornalistas, economistas
e tantos outros profissionais. Precisamos parar de falar em escravidão,
de ficar no chora-chora, lamentando o passado. Temos de batalhar, participar
e nos integrar no processo político desenvolvimentista do País,
sentando à mesa das grandes decisões nacionais. Hoje, o Brasil
tem ministros e pessoas da nossa raça, nos mais altos escalões
do governo.
Portal
Afro - O
senhor espera muito mais que isso?
Dep.
Adalberto Camargo - É
evidente que eu espero. A vida é dinâmica, não é
estática. Nós saímos do tempo do “eu sozinho”.
Houve uma ascensão política, com as eleições do
Carlos Santos ao governo do Rio Grande do Sul, da primeira senadora negra,
a médica baiana, radicada no Acre, Laélia Alcântara, do
Wagner Nascimento, à prefeitura de Uberaba, do Alceu Collares, à
prefeitura de Porto Alegre e ao Governo do Rio Grande do Sul, do Abdias do
Nascimento, deputado federal e senador pelo Rio de Janeiro, do João
Alves, ao governo de Sergipe, da Benedita da Silva, vereadora, deputada federal,
senadora, vice-governadora e governadora do Rio de Janeiro, do Celso Pitta,
a prefeito de São Paulo, da Jurema Batista, vereadora e primeira deputada
estadual no Rio de Janeiro e muitos outros que surgiram ou se destacaram depois
de 1966. Sem contar aqueles que, por terem a pele um pouco mais clara que
a nossa, não se assumem como negros. Nós temos de passar, agora,
para ações que dêem maiores resultados.
Portal
Afro - O
que o senhor diria aos negros que se candidatam a cargos públicos?
Dep.
Adalberto Camargo - Sem
poder político, não se muda a história. Nós precisamos
de lideranças não deslumbradas pelos os cargos que exercem,
para adquirirmos ainda mais experiência. Mas não basta candidatar-se.
Tem que se compenetrar do processo histórico brasileiro desenvolvido
até aqui, ter um projeto de metas a serem alcançadas e se assessorar
bem. O sucesso pessoal depende da realização coletiva. Temos
de dialogar com outras comunidades, nos espelhar no que elas já realizaram,
em favor do bem comum. Não nos preocuparmos com conversa mole, fofoca,
maledicências e outras atitudes que não levam a nada e só
trazem o atraso em todos os sentidos.
Portal
Afro - Em
resumo o que é necessário para a efetiva valorização
de nossa gente?
Dep.
Adalberto Camargo - O
respeito e o reconhecimento de todos os nossos valores, em todos os setores.
Saber respeitar a hierarquia entre nós e nos capacitar para utilizarmos
os mecanismos necessários à organização. Temos
pessoas competentes em todos os segmentos. Precisamos conversar e materializar
nossas idéias, exercitar o respeito recíproco, sem nos preocupar
com o nível social do nosso interlocutor. E trabalhar sério,
sem deslumbramentos, para que possamos, cada dia mais, levar a nossa comunidade
ao almejado destaque no cenário sócio-econômico brasileiro.


























