Entrevista concedida em 06/04/2006 pelo Empresário e ex-Deputado Federal Adalberto Camargo a Jader Nicolau Junior.
Edição: Antonio Lucio / Oswaldo Faustino
Colaboração e Copy desk: Izabel Cristina R. de Jesus
Texto final: Oswaldo Faustino


Primeiro Deputado Federal negro, por São Paulo, na década de 60, ele sobreviveu a uma infância marcada pela carência de pais, no interior do Estado, e à dureza dos serviços mais humildes, em sua mudança para a capital paulista, transformando-se num empresário de sucesso. Político consciente de seu papel no processo de conquista sócio-econômica das comunidades negras, brasileira e mundial, promoveu a aproximação do Brasil com o Continente Africano. Adalberto Camargo nos conta sua história, uma saga vitoriosa.

PRIMEIROS PASSOS
Portal Afro - O senhor poderia falar sobre a sua infância e contar qual foi seu grande incentivo período da vida?

Dep. Adalberto Camargo - Nasci em Araraquara e perdi minha mãe quando tinha de 3 pra 4 anos. Éramos quatro irmãos e fomos “dados” a familiares de minha mãe. Eu fui para uma fazenda, em São José do Rio Preto, para ser criado por um tio casado com uma italiana, a Tia Catina, que tinha 14 filhos. Eu fazia todo serviço de um trabalhador rural e minha tia me ensinou a escrever meu nome. Lá pelos meus 13 anos, decidiram me levar de volta para Araraquara. Eu não queria voltar e, na estação da Araraquarense, comecei a chorar. Tia Catina me deu um tapa nas costas, dizendo: “Você vai embora, vai enfrentar a sua vida. Nunca encurve sua espinha a ninguém. Se um dia você curvar, não diga ninguém que você é meu sobrinho. Vai me envergonhar. Você tem que ser altivo”.

Portal Afro - Conselho que nunca mais esqueceu?

Dep. Adalberto Camargo
- Foram palavras de ordem na formação do meu caráter e da minha personalidade. Aprendi que você deve respeitar e ser respeitado. Em Araraquara, morei com a tia “Nega” - Maria de Lourdes Gonçalves -, que era lavadeira e eu a ajudava. Fiquei lá por dois anos e pouco. Fui engraxate e fiz todo serviço humilde que se pode fazer. Tudo o que eu recebia passava para as mãos dela. Um dia eu tirei 2 mil réis para comprar uma roupa. Ela brigou comigo, eu contestei e ela disse que a porta da rua era serventia da casa. Era aí pelo mês de julho de 1939. Ela falou às 2 horas e às 6 horas eu peguei o trem para São Paulo.

Portal Afro - Ainda em Araraquara, houve alguma outra grande influência em sua vida?

Dep. Adalberto Camargo - Na época não havia outdoor, nem televisão e rádio era galena. Mas tinha o cinema. Eu entregava as tabuletas de cinema e ganhava ingresso para as sessões. Tinha um filme seriado, chamado Sertão Desaparecido, que passava um episódio a cada sexta-feira. Eram safáris e caçadas na África. Eu assistia a esses filmes, toda semana, e ficava “encucado”: os brancos usavam uma calça pela metade da perna – que hoje é bermuda –, meias três quarto, capacete e espingarda nas costas; e os negros, andavam pela mata atrás dos caçadores, carregando os suprimentos, no interior se chama matula. Aí cheguei para a tia “Nega” e perguntei: “Negro só serve pra carregar matula?”. Ela resistiu, no primeiro dia, mas no terceiro ou no quarto me deu uma resposta: “Se você for correto, trabalhar e tiver cuidado no seu crescimento, um dia você pega a espingarda”.

Portal Afro - Além de voltar seus olhos para a África, esses filmes também o estimularam querer “pegar a espingarda”, não é mesmo?

Dep. Adalberto Camargo - Para não continuar a carregar o suprimento para o caçador (risos). Isso já estava em minha mente, desde criança. E eu procurava conseguir meios de “pegar a espingarda”, no sentido figurado, é claro. Estava determinado a atingir esse objetivo.

Portal Afro - Determinação é a principal marca de sua vida?

Dep. Adalberto Camargo - Sempre foi. Quer um exemplo? Até voltar a Araraquara, eu não conhecia meu pai. Eu o conheci, na rua, quando tinha 16 anos. Ele era um rábula, um homem licenciado a exercer funções de advogado, era autodidata, muito inteligente. Nós nos encontramos e ele disse: “Você não sabe, mas sou seu pai. Você só tem o sobrenome de sua mãe, mas vamos acrescentar o meu sobrenome. Agora você será Adalberto Camargo Paulino. Seu registro vai ter nome de pai e mãe”. E eu respondi: “Olha, pai, eu agradeço muito, mas seu nome não me serve. Vou honrar o nome da minha mãe, até eu morrer”. Foi isso que eu fiz.

SÃO PAULO, 1939
Portal Afro - Como foi sua chegada em São Paulo, a terra das oportunidades?

Dep. Adalberto Camargo - Cheguei à Estação da Luz e minha primeira oportunidade foi ali mesmo, no Jardim da Luz (risos). Fiquei dormindo lá, debaixo da garoa, num frio muito terrível. Tinha um bar, no Bom Retiro, na esquina das ruas Prates e José Paulino, que está lá até hoje. O dono, na época, o “Português”, me deu oportunidade de lavar o estabelecimento em troca de comida. Depois, dormi lá, por alguns dias, até aparecer um trabalho melhor. Fiquei no Bom Retiro por um ano. Eu e o Zezinho - José Camargo -, que também era de Araraquara. Ele foi engraxate comigo, éramos muito unidos, como irmãos. Depois de um ano, fomos morar na rua. Aí tive uma infinidade de empregos.

Portal Afro - Infinidade de empregos e de formas de aprendizado, não é mesmo? Por exemplo, como o senhor aprendeu inglês?

Dep. Adalberto Camargo - Eu trabalhei em várias atividades. Uma delas foi como vendedor de vaselina para alisadeiras de cabelo. Quem me ensinou foi um grande amigo negro, o Orlando Alves Lima, o “Orlando Von Stuckerman” que vendia rádios para a comunidade. Também trabalhei como ajudante numa marcenaria. Depois, fui servente no Colégio de Ciências e Letras, na Rua Beneficência Portuguesa. Lá tinha um professor de espanhol e de inglês, o Manolo. Eu ia varrer o pátio, no horário da aula dele, e ficava atrás da vidraça, assistindo às aulas. Assim, fui aprendendo alguma coisa, o elementar.

Portal Afro - E como teve início sua visão para negócios?

Dep. Adalberto Camargo - Quando deixei o Ciências e Letras, fui trabalhar de entregador de avisos de protesto para o Dr. Basílio Machado Neto, que era o dono do Cartório de Protestos. Depois fui raspador de assoalho e fiz todo tipo de serviços até entrar para um grupo que lavava automóveis nas lojas e aprendi a vender carros. Morava num quarto, na Rua Aurora, 409. O meu era o 25. A dona da pensão e seu filho eram também donos do Curso de Madureza, no Colégio Patriarca, na Rua São Bento. Nesse curso tinha muitos adultos e, através dos estudantes, consegui me enfronhar no meio empresarial. Fui procurando sempre uma opção melhor.

A DETERMINAÇÃO
Portal Afro - Podemos dizer que tudo foi premeditado: ser lavador para me tornar o maior vendedor de carros?

Dep. Adalberto Camargo - Premeditei sim, para conhecer quem vive nesse do comércio automobilístico, que na época funcionava ali na chamada “esquina do pecado”, na Av. São João com as ruas dos Timbiras e Conselheiro Nébias. Ali, dei a partida para começar vender carro e, em seguida, montei uma loja, na Rua Marques de Itu. Levei comigo o “Guariba”, que era um líder no campo de polimento e preparação do veículo para deixá-lo com ótima aparência para a venda. Surgiu ali a expressão “dar uma guaribada”. Depois, me tornei despachante e, em janeiro de 1951, aluguei a loja da Rua dos Timbiras, 484, com um sócio, o José Pires, cujo o pai era inspetor da Guarda Civil. Cabiam 26 carros e, no mês da inauguração, vendemos 500 carros. Um recorde.

Portal Afro - O senhor se tornou muito conhecido. Como começou construir o seu relacionamento?

Dep. Adalberto Camargo - Teve várias fases. Havia o Abraão Cachoeira, que era procurador de várias agências Ford do interior e vendia os carros também na capital. Andava muito e era muito conhecido, um líder no mercado. E ele me chamou para ser seu sócio. Um comprava, o outro vendia e dividíamos o lucro. Não sei se o lucro era bem dividido, mas trabalhei um ano com ele. Quando resolvi instalar a loja da Marques de Itu, convidei-o para ser sócio, mas ele me disse o seguinte: “Não. Você vai sozinho, porque aprendeu a trabalhar. Teve boas aulas, mas te custou muito caro. Agora tem que usufruir”. Eu disse: “Não custou caro, não, Abrão. Eu devo muito a você. Confiou em mim e me convidou a ser sócio. Eu morava num porão e ganhei mais do que você pensa”. Através do relacionamento dele, conheci muitos milionários. Acredito que a indústria do relacionamento, quando puro, espontâneo e social, é muito importante. Ninguém faz nada sozinho. Com esse relacionamento, fiz a primeira loja e, depois, me tornei o maior vendedor de automóveis do Brasil, na época.

Portal Afro - Quantos automóveis o senhor chegou a vender?

Dep. Adalberto Camargo - Cerca de 43 mil.

Portal Afro - O senhor teve várias lojas de automóveis. Como era sua estratégia nesse mercado?

Dep. Adalberto Camargo - A primeira loja se chamou A. Camargo Despachante, na Marques de Itu. A segunda, a Bambú Automóveis. Me registrei na DET como despachante, mas, como não conhecia desse serviço, chamei o José Pires, que era despachante. Eu pegava o serviço, ele fazia e eu ganhava a comissão. Me tornei conhecido e passei a atender um número significativo de pessoas da sociedade. Mas tem uma particularidade: eu cadastrava cada pessoa que vinha à loja, comprando ou não algum carro. No final do ano, na medida do possível, eu mandava cartão de boas festas. Era um tratamento diferenciado. Com isso, fui difundindo meu nome nas classes média e média alta, consumidoras de automóvel.

Portal Afro - Por que a escolha do mercado de automóveis?

Dep. Adalberto Camargo - O automóvel era meio de representação social. Então me utilizava de uma série de estratégias que convencer os clientes. Estou recolhendo dados e notas para escrever um livro para as futuras gerações.

Portal Afro - O que motivou sua viagem aos EUA, nos anos 50?

Dep. Adalberto Camargo - Logo após a guerra, teve uma lei muito restritiva que regulamentava a importação de automóveis. Mas quem viajava para fora do País ou vinha visitar o Brasil tinham o direito trazer seu automóvel, entre seus pertences pessoais. Eu vendia veículos que outros importavam. Foi aí que, em 56, fui aos EUA para trazê-los diretamente. Naquela época, tinha 25 mil domésticas negras trabalhando nos Estados Unidos. Em 57 detectei algumas e pus uma pessoa para fazer os contatos. Fiquei lá 90 dias e consegui trazer os meus primeiros 500 carros, aí eu passei a ser um vendedor notado.

Portal Afro - Foi assim que conquistou fama?

Dep. Adalberto Camargo - O Tavares de Miranda, famoso colunista social em São Paulo, gostava muito de mim e dava sempre uma nota das minhas atividades. No Rio, Didú Souza Campos, colunista do society carioca, sempre noticiava sobre minhas andanças empresariais. Eu morava aqui em São Paulo e também no Rio.

Portal Afro - E, com mídia, foi mais fácil aumentar tanto a clientela quanto o seu cadastro. Foi assim que se tornou político?

Dep. Adalberto Camargo - Político eu já nasci. O ser humano é um ser político. Eu só não tinha atividade partidária. Aumentei o relacionamento e também a clientela. Comecei a vender carros para revendedores da Bahia, de Pernambuco, do Rio Grande do Sul, de Minas Gerais. Antes de ser deputado já era conhecido no Brasil inteiro.

POLÍTICOS FORMANDO POLÍTICOS
Portal Afro - Podemos dizer que o comércio de automóveis foi a sedimentação de sua trajetória política?

Dep. Adalberto Camargo - Isso mesmo. Já tinha o pensamento de ser um homem público. E entendi e continuo entendendo que nós temos de, através do poder político, ir buscar nossa raiz. Por isso fui buscá-la na África, porque árvore sem raiz não dá fruto. Entendi que temos de ter poder político para mudar a história e nos situar numa hierarquia social, em todos os patamares do poder. E cheguei à conclusão que deveria buscar um cargo de representação política.

Portal Afro - Aí vem a relação direta com os filmes que o senhor assistia em Araraquara?

Dep. Adalberto Camargo - Assim que entrei na vida pública, me empenhei em promover a aproximação do Brasil com a África. Eram os anos 60, quando a maioria dos países africanos se tornou independente. Vejo o continente africano como um grande consumidor, ideal para o escoamento da nossa produção. E quem quer vender para os pais, tem que tratar bem seus filhos. Se o Brasil pretende gerar recursos, divisas, na África, tem de abrir espaço no mercado de trabalho para a comunidade negra, que está se preparando. Com isso, a gente consegue engajá-la no processo sócio-psicológico, nos meios de produção, no desenvolvimento do País. É essa a minha estratégia.

Portal Afro - Além da África que outras metas tinha seu projeto político?

Dep. Adalberto Camargo - A África foi o primeiro tópico de meu projeto político. Logo entendi também a necessidade do engajamento da mulher negra no processo político. Então, inclui a ascensão da mulher negra. E também a formação da juventude negra, para incentivar a comunidade a participar do setor econômico empresarial. Na minha primeira missão empresarial ao Continente Africano, levei 10 negros à África, visitando nove países. Na segunda, levei mais 10, depois 60. Visava o interesse do Brasil, como um todo. Na época, o governo me questionou sobre o que eu pretendia. Respondi que precisávamos ter representatividade junto ao Continente Africano para poder ampliar nosso mercado de consumo. Podemos competir com os europeus, tradicionais fornecedores da África. Disse-lhe que precisava de bolsas de estudos. Ele me cedeu 3 mil, durante um período, e eu as distribuí à comunidade, às pessoas que estavam mais próximas a mim.

Portal Afro - Bolsas de Estudos?

Dep. Adalberto Camargo - Sim, bolsas universitárias. Muitos se formaram, graças à obtenção destas bolsas. Alguns, talvez, não comentem, para se auto-afirmar sozinhos. Para mim não interessa. Só interessa o que eu fiz. Tem um caso interessante: eu tinha um amigo, o Hamilton Cardoso, um grande jornalista que tinha tendência esquerdista. Ele encontrou comigo e disse: “Olha, deputado, eu sou de esquerda, mas preciso de uma bolsa de estudo”. Foi franco. Ele era da esquerda forte, sabia expor seus pontos de vista para conseguir seus objetivos. Eu disse a ele: “Vou conseguir a bolsa de estudos. Mas isso não quer dizer que você tenha de seguir minha linha ideológica. Deve seguir a sua, apenas. Procure, na sua linha ideológica, trabalhar no sentido de honrar a nossa raça. Em qualquer lugar que você estiver, honrando a raça, está ótimo”. Tem muita gente que testemunhou essa minha maneira de agir. Como me ressentia de não ter um pai ou uma mãe que me orientasse, procurei sempre ouvir as pessoas. Sobretudo, as de mais idade, que tinham mais experiência que eu.

Portal Afro - Essa prática garantiu sucesso logo na sua primeira candidatura?

Dep. Adalberto Camargo - Sim, ela garantiu o resultado da minha primeira eleição. E não só da minha, mas também na eleição da Prfa. Theodosina Ribeiro que, aliás, prestou um grande serviço à Nação. Sem qualquer experiência política, foi eleita vereadora, em São Paulo, com votação só superada pelo jornalista Freitas Nobre. Foi a segunda mais votada pelos paulistanos. Ela se tornou uma referência e estímulo para a nossa raça. Depois dela, outras mulheres negras se engajaram na vida pública. E o Paulo Rui de Oliveira, outro grande batalhador, como vereador e como presidente da Câmara Municipal de São Paulo. Foi o primeiro político negro a presidir o legislativo da cidade. Paulo Rui abraçou nossas idéias, junto com Ronaldo Batista, Laércio de Moraes, Walter Nascimento. Eu dizia a eles: “Podemos ganhar a eleição porque vamos nos beneficiar pelos resultados dos que nos precederam na luta por um cargo representativo”.

Portal Afro - Mesmo com divergências ideológicas, haveria uma corrente política de negros paulistas?

Dep. Adalberto Camargo - Podemos dizer que sim. Tivemos o Francisco Lucrécio, o Raul Joviano do Amaral, o Eduardo de Oliveira, que foi candidato a vereador antes de mim, o Ademar Ferreira da Silva, que se candidatou a deputado federal, a Profa. Sofia, o Leite, o Seu Roque. O Correia Leite foi um grande político. O José Pelegrini discutia, debatia bastante. À medida que eles tentaram o engajamento do negro no processo político-partidário-eleitoral, foram amadurecendo a idéia de que nossa comunidade carecia de representação política. Eles ajudaram muito. O Geraldo Rodrigues dos Santos foi eleito deputado federal, por Santos. Era comunista, teve seus direitos políticos cassados e foi exilado. E o Esmeraldo Tarquínio, um advogado especializado em Direito Alfandegário. Foi vereador, em Santos, depois deputado estadual e foi eleito o primeiro prefeito negro de Santos. Eu, em 66, vim na seqüência. Consegui catalisar o produto gerado pelo pensamento de todos que foram candidatos antes de mim, como o Frederico Penteado Junior e outros tantos. Todos eles forneceram subsídios e incentivos para que pudéssemos arregimentar a comunidade negra eleitoral. Temos poder político para garantir representação, junto à estrutura sócio-econômica do País que ajudamos a construir.

TEMPOS E CONTRATEMPOS
Portal Afro - Como é a história do políticos que o fez desejar ser deputado?

Dep. Adalberto Camargo - Em 56, eu lavava carros na Rua Major Sertório e queria ser vendedor de carros. Precisava ter a carta de motorista. Peguei minha certidão de nascimento e levei pro despachante Walter Selega, cujo escritório existe até hoje. Pedi ao Walter Durão para fazer o requerimento para eu ir ao Gabinete de Investigações tirar minha carteira de identidade. Quando ele estava fazendo o requerimento, chegou ao escritório o deputado Arlindo Maia Lello, que tinha uma representação muito forte na época. Assim que chegou, todos o rodearam. Eu estava mal arrumado, num canto, aguardando o meu requerimento. Ele me viu e achou que eu destoava do ambiente. Pulou o balcão, arrancou o papel da máquina do Durão e rasgou, dizendo: “Por que negro quer carteira de identidade?”

Portal Afro - Nesse momento o senhor se lembrou do conselho da Tia Catina?

Dep. Adalberto Camargo - Não tenha dúvida. Depois dessa cena, acabou a recepção, o deputado foi embora e todos se dispersaram. O encontrei depois e ele me perguntou se tinha me magoado. Respondi: “Não. O senhor não me magoou, não”. De repente, dei um tapa numa mesa de um bar. Ele se assustou e eu lhe disse: “Um dia ainda serei deputado federal”. Aí, prometi isso pra mim mesmo. Por essa razão, organizei minha estrutura social e de relacionamento, mostrando o que eu podia fazer em beneficio da sociedade. Em 1966, contabilizei todos os esforços dos que me antecederam e fui eleito deputado federal. Nós representávamos 45% da força eleitoral e não tínhamos nenhum representante em nível nacional. Por São Paulo, fui o primeiro.

Portal Afro - Foi eleito Deputado Federal com quantos votos?

Dep. Adalberto Camargo - Mais de 17 mil votos. Depois, elegemos a Theodosina, vereadora, com 21 mil. Aí, veio a minha reeleição, com 41 mil. Está aqui na parede o diploma. Depois, em 74, tive 90 mil votos. Em 78, quando cheguei a meu quarto mandato, já era combatido eleitoralmente por parte da sociedade dominante. Mas produzi muita coisa.

Portal Afro - E o que o senhor conhecia de leis, do processo legislativo?

Dep. Adalberto Camargo - Quando eu trabalhei com automóveis, no Rio de Janeiro, sempre que podia, passava no Palácio Tiradentes e ouvia os discursos dos deputados. Assim, fui aprendendo. No Legislativo, eu tinha vários amigos, como Arnaldo Cerdeira e Ulisses Guimarães, que eram ligados a muitos dos meus clientes. Depois, eleito deputado federal, procurei me assessorar por pessoas conhecedoras do processo legislativo, como o Orlando Costa, um negro que já era assessor da Casa, e o Saturnino de Oliveira, que me deram o suporte inicial na minha vida legislativa. Durante dois anos fiquei aprendendo e conhecendo os meandros do Congresso Nacional. Fui membro das Comissões de Transportes e de Relações Exteriores e suplente da Comissão de Justiça para aprender um pouco sobre a elaboração de leis, Constituição, Regimento Interno e outros arcabouços jurídicos.

Portal Afro - Sua eleição provou que, com muito empenho, podemos chegar lá. Não é verdade?

Dep. Adalberto Camargo - Verdade. Durante meu primeiro mandato, houve um “despertamento” do negro para política. Eu lancei a Theodosina para vereadora por São Paulo e mais de 40 candidatos negros no interior, como Laércio de Moraes, Genésio Arruda, em Carapicuíba, Maria Helena Ferraz, em Bauru, José Camargo, em Araraquara, e muitos outros que procuraram trilhar o caminho político.

Portal Afro - E quem orientava o senhor, nesse caminho?

Dep. Adalberto Camargo - Aprendi muito com um grande jurista negro, o Paulo Lauro, o primeiro prefeito da nossa raça, em São Paulo. Ele me orientava. Eu sempre procurei aprender. Estamos sempre aprendendo. E repasso para quem tem interesse. Para quem não tem, não repasso. Como papagaio, eu não falo, porque não adianta.

Portal Afro - E também buscou conhecimento de experiências internacionais?

Dep. Adalberto Camargo - Tive encontros com Samora Marchel, de Moçambique, Julius Neyrere, da Tanzânia, Anfré Boigny, da Costa do Marfim, Idi Amin, de Uganda, Keneth Kaunda, de Zâmbia, Leopold Senghor, do Senegal, para aprender como se processou a independência de seus países, na África. São referências para nós, descendentes de africanos na diáspora. Conhecer suas experiências pode ajudar a comunidade afro-brasileira na conquista de melhor posição na sociedade. Quando eu falei em África, virei chacota da imprensa. Cansaram de dizer que eu ia buscar o Tarzan. Mas a África tem 700 milhões de consumidores de produtos e serviços. É um grande mercado para o Brasil. Hoje, representa 12 bilhões de dólares no comércio bilateral, proporciona mais de 100 mil empregos e a valorização do negro perante a classe empresarial brasileira.

Portal Afro - Houve outros contatos de alto nível, como esses?

Dep. Adalberto Camargo - Conversei também com afro-americanos nos EUA e aqui no Brasil. Recebi em minha casa o, então, presidente do Partido Democrata americano e Secretário do Comércio do Governo, Bill Clinton. Lá estavam mais de 30 negros, entre os quais Eduardo Joaquim de Oliveira, Celso Pitta que, na época, era Secretário de Finanças do Município de São Paulo, Hélio Santos e outros que, posteriormente, se integraram nas conversações sobre o relacionamento comercial entre afro-brasileiros e afro-americanos iniciadas nessa reunião.

O MOMENTO E AS EXPECTATIVAS
Portal Afro - Quais as suas expectativas em relação às conquista políticas da comunidade?

Dep. Adalberto Camargo - Minhas expectativas são das mais alvissareiras possíveis. Quando comecei, não tínhamos representatividade. Hoje, temos mais de 50 mil negros formados, nos mais variados segmentos da sociedade, à espera de uma oportunidade e reconhecimento do seu valor. Temos médicos, engenheiros, psicólogos, dentistas, professores, advogados, jornalistas, economistas e tantos outros profissionais. Precisamos parar de falar em escravidão, de ficar no chora-chora, lamentando o passado. Temos de batalhar, participar e nos integrar no processo político desenvolvimentista do País, sentando à mesa das grandes decisões nacionais. Hoje, o Brasil tem ministros e pessoas da nossa raça, nos mais altos escalões do governo.

Portal Afro - O senhor espera muito mais que isso?

Dep. Adalberto Camargo - É evidente que eu espero. A vida é dinâmica, não é estática. Nós saímos do tempo do “eu sozinho”. Houve uma ascensão política, com as eleições do Carlos Santos ao governo do Rio Grande do Sul, da primeira senadora negra, a médica baiana, radicada no Acre, Laélia Alcântara, do Wagner Nascimento, à prefeitura de Uberaba, do Alceu Collares, à prefeitura de Porto Alegre e ao Governo do Rio Grande do Sul, do Abdias do Nascimento, deputado federal e senador pelo Rio de Janeiro, do João Alves, ao governo de Sergipe, da Benedita da Silva, vereadora, deputada federal, senadora, vice-governadora e governadora do Rio de Janeiro, do Celso Pitta, a prefeito de São Paulo, da Jurema Batista, vereadora e primeira deputada estadual no Rio de Janeiro e muitos outros que surgiram ou se destacaram depois de 1966. Sem contar aqueles que, por terem a pele um pouco mais clara que a nossa, não se assumem como negros. Nós temos de passar, agora, para ações que dêem maiores resultados.

Portal Afro - O que o senhor diria aos negros que se candidatam a cargos públicos?

Dep. Adalberto Camargo - Sem poder político, não se muda a história. Nós precisamos de lideranças não deslumbradas pelos os cargos que exercem, para adquirirmos ainda mais experiência. Mas não basta candidatar-se. Tem que se compenetrar do processo histórico brasileiro desenvolvido até aqui, ter um projeto de metas a serem alcançadas e se assessorar bem. O sucesso pessoal depende da realização coletiva. Temos de dialogar com outras comunidades, nos espelhar no que elas já realizaram, em favor do bem comum. Não nos preocuparmos com conversa mole, fofoca, maledicências e outras atitudes que não levam a nada e só trazem o atraso em todos os sentidos.

Portal Afro - Em resumo o que é necessário para a efetiva valorização de nossa gente?

Dep. Adalberto Camargo - O respeito e o reconhecimento de todos os nossos valores, em todos os setores. Saber respeitar a hierarquia entre nós e nos capacitar para utilizarmos os mecanismos necessários à organização. Temos pessoas competentes em todos os segmentos. Precisamos conversar e materializar nossas idéias, exercitar o respeito recíproco, sem nos preocupar com o nível social do nosso interlocutor. E trabalhar sério, sem deslumbramentos, para que possamos, cada dia mais, levar a nossa comunidade ao almejado destaque no cenário sócio-econômico brasileiro.

Sertão Desaparecido - Seriado de 1934
"Tinha um filme seriado, chamado Sertão Desaparecido, que passava um episódio a cada sexta-feira. Eram safáris e caçadas na África. Eu assistia a esses filmes, toda semana, e ficava “encucado”
A estação foi instalada em 1885, quando os trilhos da Cia. Paulista de Estradas de Ferro alcançaram Araraquara. Por ela chegou D.Pedro II, quando de sua visita a Araraquara em 06/11/1886
Cheguei à Estação da Luz e minha primeira oportunidade foi ali mesmo, no Jardim da Luz (risos). Fiquei dormindo lá, debaixo da garoa, num frio muito terrível. - foto - anonima - entre 1925/30
Solano Trindade - acervo particular do Deputado
Matéria publicada na Revista Manchete - final da década de 1960
Oldsmobile - 1950
Mercury 1950
Ministro da Nigéria em missão em 2004 -foto - Jader Nicolau Jr
Com o Presidente da República de Gana, John Agyekum Kufuor, este ano 2006 no Itamarati - foto- Ricardo Stuckert
Comitiva africana homenageia o deputado Adalberto Camargo
29/04/92 - "Comendador" admitido na ordem de Rio Branco, por ato do Exmo. Sr. Presidente da República, com o "Gran Colar no Grau de Comendador", como reconhecimento do Governo Brasileiro pelos relevantes serviços prestados ao País, no estreitamento das relações e intercâmbio comercial Brasil-Continente Africano.
Diederick Moyo, Consul da República da África do Sul em São Paulo - ano 2004 -e Adalberto Camargo - foto - Jader Nicolau Jr
Inauguração da loja de automóveis - na foto de baixo, à direita sua esposa Esther
Fachada de uma das suas lojas
foto- Ricardo Stuckert
Eu lancei a Theodosina Ribeiro para vereadora por São Paulo - 1ª vereadora negra de São Paulo - foto - Jader Nicolau Jr
..."Recebi em minha casa o, então, presidente do Partido Democrata americano e Secretário do Comércio do Governo, Bill Clinton. Lá estavam mais de 30 negros"..
A convite do governo americano, visitou os EUA para contatos políticos e empresariais com membros da Comunidade Afro-Americana.
Claudete Alves - 1ª vereadora negra dos partidos da esquerda de São Paulo - foto - Jader Nicolau Jr
" O respeito e o reconhecimento de todos os nossos valores, em todos os setores. Saber respeitar a hierarquia entre nós e nos capacitar para utilizarmos os mecanismos necessários à organização".
foto - Jader Nicolau Jr
foto - Jader Nicolau Jr
foto - Jader Nicolau Jr
Tive encontros com Samora Marchel, de Moçambique, Julius Neyrere, da Tanzânia, Anfré Boigny, da Costa do Marfim, Idi Amin, de Uganda, Keneth Kaunda, de Zâmbia, Leopold Senghor, do Senegal, para aprender como se processou a independência de seus países, na África