NOITE ILUSTRADA (por Milton Cesar Nicolau - 31/7/00)

Por volta de 1.937 a realidade econômica e social dos afro-descendentes era certamente mais delicada que a atual. No entanto, Mário de Souza Marques, mineiro elegante de sofisticada educação, era um daqueles casos onde a exceção foge à regra (felizmente). Motorista particular de executivos estrangeiros da General Eletric destacava-se nas horas vagas como professor de inglês, no Rio de Janeiro. Enquanto isto em Pirapetinga, interior de Minas, seu único filho, batizado com o mesmo nome, morava com a mãe. Serelepe como a maioria dos garotos sadios, "Júnior" diferenciava-se pela sensibilidade musical, que fazia com que chegasse às lágrimas ao ouvir os primeiros acordes de "Jardineira"... "Oh! Jardineira, porque estais tão triste, mas o que foi que te aconteceu..."

O pequeno completava sete anos. Mário, consciente da importância da educação na superação de obstáculos, trouxe o menino ao Rio, matriculando-o no Instituto Profissional Getúlio Vargas, um Colégio Interno de onde sairia apenas com 17 anos. Concluídos os estudos, anos depois, Mário de Souza Marques Jr. com- preenderia porque a música sempre fora importante em sua infância ao tornar-se ídolo nacional como o cantor Noite Ilustrada.

Portal - Como surgiu esse nome?

Noite Ilustrada - No início de minha carreira faria um show no interior de Minas. O apresentador era Zé Trindade, que esqueceu meu nome e não sabia como me anunciar. Eu carregava no bolso da calça um exemplar da revista Noite Ilustrada. Criativo, Zé Trindade usou-a como inspiração para me chamar.

Portal - Foi estranho?

Noite Ilustrada - No início, sim. Não é nada agradável ter seu nome trocado pelo de uma revista. Com o tempo acabei me acostumando.

Portal - E a fama? Veio como?

Noite Ilustrada - Cantava em duas boites na noite de São Paulo. Um jornalista famoso convidou-me para sua festa de aniversário. Na recepção, estrelas da tv, cinema e cantores, além de empresários e produtores do mundo artístico. No meio da noite comecei a cantar. Entusiasmado, Eduardo S. Costa, anunciou que eu estava contratado por sua gravadora, a Mocambo. Agradeci e segui com meu improvisado show. Pouco tempo depois, Edmundo Souza , da Rádio Nacional, também anunciava minha contratação. Achei graça pois pensei que tudo aquilo acontecia devido as generosas doses de whiskie que circulavam pelo ambiente. Dias depois assinava contrato com a Mocambo e a Rádio Nacional.

Portal - Foi aí que tudo começou...

Noite Ilustrada - Sim, mas na verdade fiquei famoso mesmo quando gravei em 1.963, pela Philips, "Volta por Cima".

"Volta por cima", de Paulo Vanzolini, seu maior sucesso e marca registrada, dividia espaço com "Lua Triste", que dá nome ao disco. Esta canção, que não estourou como a primeira, foi composta por Noite Ilustrada quando voltava de uma turnê por Buenos Aires, inspirado pela beleza da madrugada. Noite Ilustrada sempre viaja em turnês pelo Brasil ou exterior.

Portal - Ano passado você esteve em Angola. Quais foram suas impressões?

Noite Ilustrada - Fiquei muito sensibilizado. Apesar de toda miséria e pobreza o povo é maravilhoso. Tive a oportunidade de conhecer sua arte e costumes. Foi muito especial.

Portal - Você fez vários shows pelos Estados Unidos. Nas questões raciais, como entende as diferenças entre nosso país e o deles?

Noite Ilustrada - Posso definir esta diferença relatando um episódio ocorrido comigo em Washington. Estava acompanhado por três brasileiros brancos e saímos para fazer compras próximo ao hotel. Na porta do mercado nossa movimentação foi acompanhada atentamente por alguns negros. Percebi que desaprovavam minha presença no grupo. Fiz questão de falar bem alto para que percebessem que éramos brasileiros, com outros costumes. De nada adiantou. Ao retornarmos ao hotel, eles passaram velozmente com seus carros, lançando propositalmente lama e água sobre nós. Não quero com isso dizer que não temos racismo no Brasil. Mas é bem menos violento que nos Estados Unidos.

Portal - Na sua opinião o povo afro-descendente tem evoluído no Brasil?

Noite Ilustrada - Acredito que conquistamos algumas posições e conseguiremos muito mais. É fundamental que tenhamos consciência de nosso lugar na socie- dade, que entendamos que este país também nos pertence!

Noite Ilustrada mostra muita tranquilidade e segurança ao abordar estes temas, próprias de quem sempre aceitou com naturalidade sua condição.

Portal - Você faz parte de uma época onde o cantor deveria "realmente" saber cantar para fazer sucesso. Hoje, as coisas são bem diferentes. O que aconteceu? O povo ficou menos exigente?

Noite Ilustrada - A TV atrapalhou o rádio ao tirar do público a capacidade de sonhar, de imaginar como seriam aquelas vozes que faziam a trilha sonora de suas vidas. Hoje a prioridade é para o visual, a qualidade do trabalho caiu para segundo plano.

Portal - Na década de 70 as rádios e gravadoras elegeram a música estrangeira como moda. Foi uma fase difícil?

Noite Ilustrada - Foi terrível. Toda uma geração de músicos e cantores ficou desempregada de uma hora para outra. Mesmo as boites que mantinham shows ao vivo, passaram a utilizar música mecânica. Com medo do futuro, quase comecei a trabalhar como motorista de caminhão para a prefeitura de São Paulo. No último momento decidi juntar minhas economias e arriscar uma turnê pelo interior do país. Felizmente tive sucesso e consegui manter minha carreira.

Noite Ilustrada é um dos sambistas mais respeitados pela crítica nacional. Conhece profundamente a história do samba e suas ramificações.

Portal - Como conhecedor e pesquisador do samba, de que forma você analisa estes grupos que não têm a qualidade como meta?

Noite Ilustrada - Apesar de diferente, a batida que estes grupos de pagode usam não deixa de ter sua origem no samba. Minha decepção é com as letras, que estão cada vez piores. O samba sempre contou com letras que são como poesia, trazendo mensagens completas, com começo, meio e fim. Muitas letras, hoje são apenas piada. E piadas, quando repetidas à exaustão perdem toda graça.

Portal - E a questão dos direitos autorais? Com tantos anos de carreira, você está satisfeito?

Noite Ilustrada - Nunca estaremos, é impossível. Como é difícil contestar os números das gravadoras, nunca receberemos o correto, o justo. O artista se conforma com o que recebe.

Portal - E a Ordem dos Músicos, onde você é um dos fundadores, ajuda de alguma forma?

Noite Ilustrada - Não. Quando fundamos a Ordem dos Músicos nosso objetivo era estender todos os benefícios que outras categorias usufruíam para o nosso meio. Com o tempo, nossas metas foram deixadas de lado. Hoje a Ordem dos Músicos chega a ser um incômodo à classe.

Noite Ilustrada esbanja saúde aos 72 anos e nem pensa em aposentadoria. Auxiliado por sua companheira e empresária Denise, prepara-se para lançar em setembro seu novo Cd pela festejada gravadora TRAMA, produzido pelo competente Fernando Faro. No repertório, regravações de antigos sucessos como "Cadeira de Bar", "Meus 20 anos" e, é claro "Volta por cima". Além destes clássicos, o destaque vai para "Perfil de um sambista", composta especialmente para Noite Ilustrada por Adauto Santos, dois meses antes de sua morte, em fevereiro do ano passado.

Dono de uma longa e sólida carreira, construída com muita dignidade, Noite ilustrada deixa uma mensagem para nossos internautas: "Nunca desanime. Levante, sacuda a poeira e dê a volta por cima"

Noite, ao lado da mãe e do filho
Ao lado de sua esposa, Denise
Em uma roda de amigos, ao lado de Altemar Dutra Jr., filho de seu amigo Altemar Dutra.
Noite, ao lado de Jair Rodrigues
Em show musical, no Memorial da América Latina, no dia 20 de novembro de 2000.