Nas novelas brasileiras, Neusa Borges sempre foi uma presença marcante.

Interpretando papéis de destaque em tramas de sucesso como "Escrava Isaura", Dancing Day’s" e "A Indomada", conquistou respeito e admiração.

Somando trinta e cinco anos de carreira e dezenas de prêmios acumulados, entre eles a cobiçada "Ordem de Tiradentes", ela também sofre por ser negra no Brasil.

O talento aprovado pelos críticos e a simpatia do público não garantem que ela e outras atrizes negras do mesmo quilate desfrutem dos privilégios e rendimentos que suas conterrâneas de tez clara estão habituadas.

Vivendo um momento difícil onde a falta de dinheiro tem complicado sua vida e a de suas jovens filhas, é natural que Neusa não encontre motivos nem entusiasmo para comemorações.

Nesta entrevista onde mesclaram-se momentos de revolta e emoção, ela nos falou do início de sua carreira e das "barras" que enfrenta em sua vida.

Portal – Ser atriz sempre foi seu desejo?
Neusa Borges – Não. Quando criança eu dizia para minha mãe que iria estudar bastante e ser uma artista, como Emilinha Borba. Note bem, artista e não atriz.

A maioria dos admiradores de Neusa Borges nem imagina que ela iniciou sua carreira artística como bailarina e que depois cantou durante 13 anos.

"Comecei em São Paulo. Fui uma das últimas cantoras a atuar como crooner de orquestra, nas mais badaladas e sofisticadas casas noturnas da noite paulistana. Trabalhei com grandes maestros como Clóvis Lima e Salgado Filho, sempre cantando e dançando."

Portal – E como surgiu a atriz?
Neusa Borges – Havia uma grande agitação no meio teatral de São Paulo para a escolha do elenco de "Hair". Uma amiga, já contratada para a montagem, indicou-me para um papel que já havia sido disputado por dezenas de atrizes. Eu não tinha a menor vontade de entrar para o teatro, mas ela insistiu tanto e como no espetáculo eu teria que cantar, aceitei fazer o teste.

Mesmo sem vontade, Neusa preparou-se para encarar o desafio. Devidamente produzida encaminhou-se ao ponto para apanhar o ônibus. De repente, um temporal desaba sobre São Paulo, deixando-a ensopada.

"Fiquei com muita raiva. Cheguei ao teatro toda molhada, muito nervosa. Subi no palco com tanto ódio que cantei como nunca."

Neusa impressionou a todos e foi aprovada. A peça estreou e transformou-se num estrondoso sucesso. Os jornais anunciavam que Neusa Borges era uma estrela em ascenção, comparando-a a Diana Ross.

O êxito de "Hair" foi tão impressionante que recebeu um prêmio dos próprios autores como sendo a melhor montagem no mundo todo. Neste ano, Neusa foi eleita atriz revelação. Ela brilhou em "Hair" durante quatro anos, emendando novos sucessos como "Capital Federal", "Deus lhe pague", "Teatro de Cordel" e "Ópera do Malandro", entre outras. Durante esses anos Neusa era endeusada pela crítica e acumulava os mais variados prêmios por suas interpretações.

Portal – Em que momento apareceu a televisão em sua vida?
Neusa Borges – Minha estréia na tv foi na novela "Venha ver o sol na estrada", com Márcia de Windsor, na Record. Ainda em São Paulo também atuei em "Beto Rockfeller", na Tupi.

Portal – Mas a popularidade nacional veio com "Escrava Isaura", na Globo. Como isto se deu?
Neusa Borges – Gilberto Braga foi assistir um de meus espetáculos e gostou de meu trabalho. Pouco depois a Globo me chamou para fazer uma participação em "Isaura". No princípio seriam apenas três capítulos, mas a receptividade foi tão boa que de três fiz seis, depois quinze e acabei ficando na novela. Interpretava uma amiga do personagem de Lucélia Santos (Isaura) e fazia contraponto com o personagem de Léa Garcia, a vilã,.

Ao abraçar sua carreira de atriz, Neusa Borges cumpriu a profecia de seu padrinho artístico que dizia que ela cantava e dançava demais, mas que dentro dela existia uma atriz, que quando desabrochasse seria uma das maiores do Brasil. Seu padrinho? Vinícius de Morais.

Portal – Quando os problemas começaram a aparecer?
Neusa Borges – Tive duas grandes decepções que me levaram a abandonar a carreira. Em Dancing Day’s, mesmo tendo um papel de destaque, meu nome era o último nos créditos, não tinha contrato e nem recebia um salário compatível com a importância de meu personagem. Cheguei a passar fome! Além disso, fui sabotada pela gravadora quando comecei a fazer sucesso com a música "Folhetim", o que me impediu de ganhar dinheiro e estourar em todo Brasil como cantora. Depois destes traumas resolvi abandonar a carreira e o Rio de Janeiro.

De volta a São Paulo, Neusa Borges conheceu o maestro Miguel Antonio, com quem se casou e constituiu família.

"Foi um homem maravilhoso que fez de mim uma rainha e me deu duas princesas [suas filhas]. Voltei ao Rio apenas quando ele morreu."

Com tantos anos de carreira é natural que Neusa tenha histórias interessantes para contar. Talvez a mais peculiar delas seja a da ressurreição.

No remake de "A Deusa Vencida", da Bandeirantes, Neusa interpretava uma vilã com forte apelo junto ao público, a ponto de certa vez ter sido agredida na rua por mulheres inconformadas com suas maldades na novela. O personagem de Neusa morria no meio da trama, afogada num rio. Seu desaparecimento provocou um baque na novela e o público protestou exigindo o retorno da malvada. Sem saída, a produção criou uma "enchente" e o corpo da personagem de Neusa reapareceu, retornando miraculosamente à vida.

Anos mais tarde a história se repetiria na global "A Indomada", com a ressurreição de Florência, que levantou de dentro do caixão durante seu velório. Nesta novela, último grande sucesso de Neusa na tv, a injustiça também marcou a carreira da atriz. Mesmo tendo um dos principais papéis, com aparições diárias desde o primeiro capítulo, seu salário era vergonhosamente inferior a todos os outros atores de seu mesmo nível. O resultado foi que ao final da novela Neusa tombou doente, a ponto de ficar um bom tempo internada num hospital.

Portal – Esta questão da desigualdade salarial é muito grave. Ninguém tentou solucionar este problema de forma mais incisiva?
Neusa Borges – Benedita da Silva e Antonio Pitanga apresentaram um projeto de lei no congresso que contemplava o tema, propondo soluções. Surpreendentemente a proposta foi considerada racista! Fiquei atônita, em pânico...

Decepções como essas são suficientes para justificar a mágoa da atriz, que sentencia:

"Não vale a pena ser artista negro no Brasil"

Sem contar com apoio nem mesmo de grupos da comunidade negra neste momento difícil que enfrenta, Neusa relembra a época em que, segundo ela, os negros eram mais unidos.

"Existiam movimentos de verdade, como o maior deles que foi liderado pelo escritor Solano Trindade, que era muito sério. Hoje em dia são muitos caciques para poucos índios. São muitos negros fazendo movimento apenas em pról de si próprios. Não vejo os grupos com propostas políticas realmente pertinentes."

Confiante na força e poder da população negra no Brasil, Neusa propõe:

"Afirmo que temos a faca e o queijo na mão para mudar esta situação. Basta elegermos negros comprometidos com nossa causa. Somos a maioria da população e podemos mudar tudo isto. Não sei se meu pensamento é racista, mas certamente é um pensamento de dor.. Eu posso mudar o país. Minha raça pode mudar o país."

Portal – Suas posições sempre tão claras e objetivas devem assustar muitas pessoas. Isto teria prejudicado sua carreira?
Neusa Borges – Quando se tem talento nada pode nos prejudicar. Falo apenas a verdade, a realidade.

Otimista, apesar de tudo, Neusa batalha para sair da má fase atual. Participando do humorístico Zorra Total, da Rede Globo e com a promessa de um papel na próxima trama de Glória Perez, deixa um recado para nossos internautas:

"Tudo tem seu momento e hora certos. Hoje estou nessa situação difícil, mas tenho certeza que amanhã sairei dela... Papai do céu não me abandonará..."

Muitas pessoas passam por dificuldades durante suas vidas. É óbvio que não é um problema exclusivo de negros. Mas é preciso reconhecer que em certos locais, como no Brasil, ser negro é um fator complicador. O que acontece com Neusa Borges, renomada artista com 35 anos de carreira, é uma prova incontestável da desigualdade com que são tratados brancos e negros no Brasil. A escandalosa diferença entre os salários pagos às duas raças precisa ter um fim. Caso contrário o Brasil continuará a ser o país da injustiça e da falsa "democracia racial."