Nelson Rodrigues dizia que toda a unanimidade é burra. Na maioria dos casos a frase é incontestável. Felizmente existem exceções. A modelo-vivo Terezinha Malaquias é uma delas. Considerada por muitos uma referência quando o assunto é beleza, seu caso é ainda mais particular por ostentar na tonalidade da pele e traços do rosto a marca inequívoca de sua negritude. Mesmo com estas características, geralmente limitadoras em nosso país, Terezinha conseguiu impor sua beleza. Além de ser requisitada pelas melhores escolas e os mais prestigiados ateliés de arte de São Paulo, ilustrou várias peças publicitárias no Brasil e exterior. Mas foi como uma das protagonistas da última campanha do sabonete Dove que Terezinha ganhou notoriedade nacional.

Portal - Como você iniciou sua carreira de modelo-vivo?

Terezinha Malaquias - Estava passando por uma crise pessoal muito profunda e procurava algo novo que pudesse desviar minha atenção dos problemas que vivia. Foi com este espírito que aceitei o convite de uma amiga para conhecer o Professor Antonio Novaes, da Pinacoteca do Estado de São Paulo. Minha surpresa foi ter sido convidada, pouco mais tarde, a posar para alunos e artistas que freqüentavam seu atelier. Neste mesmo dia recebi novos convites e desde então não parei mais.

Portal - Foi complicado acostumar-se com esse trabalho que normalmente exige sua nudez?

Terezinha Malaquias - No começo, sim. Lembro que na primeira vez estava tão nervosa e sentia tanta vergonha que transpirava alucinadamente, embora fosse inverno. Pensava nos meus pais e em meus amigos. Preocupava-me com a reação que poderiam ter diante de minha nova profissão.

Portal - Você é a primeira negra a fazer sucesso como modelo-vivo?

Terezinha Malaquias - Não. Hoje talvez eu seja a modelo negra mais requisitada. Mas existiram outras que trabalharam para artistas importantes.

Portal - As modelos e manequins negras ainda têm dificuldade em conseguir trabalho. Aparentemente você não tem este problema. O mundo das artes plásticas seria menos preconceituoso?

Terezinha Malaquias - Durante muitos anos tive problemas quando atuava como modelo fotografico, por ser negra. Como modelo-vivo não encontro problemas. Acredito que os artistas plásticos são pessoas mais sensíveis e inteligentes, que contratam um modelo por sua competência, sem dar importância a sua origem étnica. Ao contrário do mercado publicitário, que privilegia as loiras, como se vivéssemos num país nórdico.

Portal - A beleza negra no Brasil é geralmente rotulada como exótica. O que você pensa disso?

Terezinha Malaquias - Acho um horror. Não suporto quando falam que tenho uma beleza exótica. Gostaria simplesmente de ouvir que sou uma mulher bonita.

Portal - O brasileiro é incapaz de reconhecer a beleza de uma negra, como faz facilmente com uma loira?

Terezinha Malaquias - Infelizmente, sim. O padrão de beleza que temos é o branco. Principalmente a loira, a verdadeira preferência nacional. O brasileiro não consegue enxergar beleza nas outras etnias. Entendo que o belo é simplesmente belo, independente de raça ou cor.

Portal - Alguns maquiladores não estão acostumados a trabalhar com negras, principalmente com traços negróides tão evidenciados, como os seus. A tendência é tentar ocultá-los. Você já passou por este constrangimento?

Terezinha Malaquias - Infelizmente, sim. Algumas vezes trabalhei com profissionais que não sabiam o que fazer com meu cabelo ou que produtos usar para acertar o tom de minha maquilagem. Muitas vezes fiquei com o rosto cinza ou pálido. Também é muito desagrável quando perguntam se quero diminuir minha boca ou nariz.

Portal - O problema é que estão sempre querendo camuflar os traços negros para aproximá-los da estética branca...

Terezinha Malaquias - Com certeza. Se querem afilar meu nariz e diminuir minha boca, pretendem mudar minhas características de negra quase africana, transformando-me numa "morena", com traços finos.

Portal - Você foi uma das estrelas do sabonete Dove e participou de editorias de arte em revistas sofisticadas, para seletos consumidores. Seria este um sinal do inicio de um novo olhar sobre a beleza negra?

Terezinha Malaquias - Acredito que seja um pequeno avanço. Fiquei sabendo até que o comercial da Dove foi usado em um seminário de Marketing, como exemplo de evolução da publicidade brasileira. A maioria das pessoas da área publicitária adora dizer que negro não vende. Isto para mim é sinal de burrice e incompetência. Os profissionais inteligentes perceberão que formamos um respeitável contingente de consumidores e precisamos nos ver na mídia.

Portal - Que cuidados você tem com sua pele e corpo?

Terezinha Malaquias - Além dos cosméticos básicos para tratar a pele, sigo algumas receitas da vovó, como lavar o rosto várias vezes ao dia, deixando-o secar naturalmente. Sou também muito atenta com a alimentação, preferindo sempre produtos naturais. Meu corpo é minha casa e, portanto sagrado. Devemos cuidar do corpo com carinho e respeito, para que fique cada vez melhor. Enfim, procuro ser feliz. A felicidade é a base para tudo.

Otimista e perseverante, Terezinha tem muitos planos para o futuro. Um deles é investir na profissão de atriz. Com algumas passagens pelo cinema, teatro e televisão (na novela "Sangue do meu sangue"), ela prepara-se para retomar sua carreira, com surpresas já para o início do próximo ano. Despedimo-nos de Terezinha duplamente satisfeitos. Primeiro pela dignidade que impõe em seu trabalho, nunca dando motivos para os costumeiros comentários vulgares sobre as mulheres negras. E também por constatarmos que sua beleza não se restringe apenas ao exterior.

foto de Adi Leite

Terezinha Malaquias

Pager: (11) 5508 0737 - cód. 1004021
Celular: (11) 9913-5090

 


 

 

 

foto de Danilo Russo - Revista Audi
foto de Bernardo Diamantstein
foto de Conrad Louis Charles
foto de Rui Mendes - reportage da Revista Marie Claire dezembro/96
fotomontagem Antonio Gandério
Folha Imagem - coluna Joice Pascovitch
Terezinha, na novela
"Sangue de meu sangue"
Terezinha Malaquias, na campanha do Sabonete Dove
foto de Klaus Miteldorf