Lima Barreto
Afonso Henriques de Lima Barreto, nascido em 13 de maio de 1881, sexta-feira, no mesmo ano da publicação de "Memórias Póstumas de Brás Cubas", de Machado, e "O Mulato", de Aloísio de Azevedo, foi o romancista brasileiro do começo deste século que mais olhou a si mesmo para escrever. "Um personagem de fronteira. Alguém que habilitou o limiar de realidades e mundos diferentes, e, por esta razão, abrigou em si uma cota incomum de contradições e conflitos. Afinal, nascido mulato em uma família de mulatos, recebeu tão rica educação e requintado ensino escolar que, no final de contas, nem bem pôde ser um mulato, nem bem foi um branco."
Quando nasceu o futuro romancista de "|Clara dos Anjos", ainda existia a escravidão negra no Brasil. Para ele, mulato pelo lado materno, essa visão de cativeiro deve ter sido de dramática importância, "comprometendo" sua imaginação. Atente-se no que é o negro e o mulato quase às vésperas da Abolição e se perceberá como será fácil, devido a essa "versão negra" primeira, a entrada do desalento - ao menos no campo racial - no viver do jovem lima Barreto. No seu "Diário Íntimo", ele já adulto - ao menos no campo racial - no viver do jovem Lima Barreto. No seu "Diário Íntimo", ele já adulto, já sofrido e com o orgulho cansado, lê-se esta queixa, qual gemido: "É triste não ser branco!"
Sua obra, então, como ele propõe no primeiro capítulo de "Histórias e Sonhos", irá difundir as nossas grandes e altas emoções em face do mundo e do sofrimento dos homens. No entanto, apesar de ter na voz a dramaticidade e o fogo dos que se rebelam, apesar de voltado para o povo e a porção mais humilde dele, não foi um autor popular.
O pai, João Henriques de Lima Barreto, era tipógrafo, tendo deixado um livro, "Manuel do aprendiz compositor", tradução do francês da obra de Jules Claye, Rio, 1888. A mãe, d. Amália Augusta Barreto, professora pública, nascera, como o marido, mestiça. Foi d. Amália que ensinou Afonso Henriques a ler e com o falecimento desta entrou para a escola pública em 1888. A seguir, matriculou-se no Liceu Popular Niteroiense, sob a tutela do padrinho, Visconde de Ouro Preto. Prestou, em 1895, os primeiros exames no Ginásio Nacional. Um ano depois, matricula-se no Colégio Paula Freitas, no Rio de Janeiro. Freqüentou o curso anexo de preparatórios à Escola Politécnica, sendo aprovado em 1897, nos vestibulares. No mesmo ano em que o pai enlouqueceu - 1902 - aparece a primeira colaboração de Afonso Henriques na imprensa. Três anos depois (1904), ei-lo já escrevendo "Clara dos Anjos" (primeira versão). A redação de "Recordações do Escrivão Isaías Caminha" pode ter começado em 1905, seguida de "Vida e Morte de M.J. Gonzaga de Sá, só publicado em 1919. Em 1914, o primeiro internamento no Hospital Nacional, por alcoolismo, de 18 de agosto a 13 de outubro. Candidatou-se, em 1919, à vaga de Emílio de Menezes na Academia Brasileira de Letras e obteve dois votos. Segundo internamento, nesse ano, até fevereiro do ano seguinte. Candidatou-se, em 1920, ao prêmio da Academia Brasileira de Letras, com "Vida e Morte de M.J. Gonzaga de Sá", obtendo menção honrosa.
Faleceu em 1º de novembro de 1922, no Rio de Janeiro, de colapso cardíaco, dois dias antes do pai.
Apesar da vida irregular e beirando a tragédia, Lima Barreto escreveu bastante. Citamos parte de sua bibliografia:
Recordações
do Escrivão Isaías Caminha (romance), Lisboa, 1909;
Triste Fim de Policarpo Quaresma (romance), Rio, 1915;
Numa e Ninfa (romance da vida contemporânea), Rio, 1915;
Vida e Morte de M.J. Gonzaga de Sá, São Paulo, 1919;
Histórias e Sonhos (contos), Rio, 1920;
Os Bruzundungas (sátira), Rio, 1922;
Bagatelas (artigos), Rio, 1923;
Feiras e Mafuás (artigos e crônicas);
Vida Urbana (artigos e crônicas);
Impressões de Leitura (crítica);
Diário Íntimo (memórias);
O Cemitério dos Vivos (memórias);
Correspondência, 2 tomos;
Clara dos Anjos (romance), Rio, 1948 (póstumo).
