ADRIANA LESSA (por Milton Cesar Nicolau em julho/00)
A estrela prepara-se
para seu show: figurino, maquilagem...
tudo OK.
Os acordes iniciais da música são o sinal. O palco
ilumina-se e ela entra dançando e arrasando nos vocais:
"Josie and the pussycats... " O vento sopra e a platéia
composta de flores (na maioria rosas, suas maiores fãs)
explode em delírio, obrigando a "pop star" a interromper a
perfomance para agradecer tantos aplausos.
Algum tempo depois,
esta mesma garota entrou na sala do
diretor comunicando-lhe que teria que ausentar-se da escola
por algum tempo. Indagada sobre o motivo respondeu com a maior naturalidade
que viajaria para a Europa, trabalhar como atriz. O diretor, descrente, "deu
de ombros". Sorte nossa, ganhávamos ADRIANA LESSA.
Portal - Ser artista era seu sonho, desde criança?
Adriana - Não, nem imaginava.
Portal - Qual imagem ou personagem marcou sua infância?
Adriana - Lembro-me
bem da série Raízes. A figura
imponente e altiva de Kunta Kinte enchia meus olhos de
fascinação. A cena do nascimeto de sua filha Kizzy foi sublime. O incrivel
é que revivi esta cena em Terra Nostra, quando nasce o filho de Naná, numa
ambientação muito semelhante.
Portal - Como nasceu a artista Adriana Lessa?
Adriana - Eu jogava volei para o Corinthians e frequentava a ACM (Associação Cristã de Moços) onde praticava outros esportes. Lá, tinha alguns amigos que eram envolvidos com teatro. Um deles me convidou para fazer um teste com o diretor Antunes Filho e eu recusei. Não tinha nada a ver comigo. Ele insistiu muito. Acabei cedendo porque alegou que precisaria de minha ajuda, para contracenar com ele.
Portal - Então, na verdade você queria ser atleta?
Adriana - Exatamente.
Portal - E como foi com Antunes?
Adriana - Divertidíssimo.
Representaríamos um
trecho da Megera Domada. Na minha fala fui
provocada por Antunes, que pedia mais intensidade e disse que eu deveria representar
com mais raiva, bem "puta da vida". Entendi ser uma ofensa pessoal e realmente
fiquei nervosa, discuti com ele e abandonei o palco, esbravejando. Fui aprovada.
A partir daí, Adriana começa sua trajetória. Viaja com o grupo de Antunes Filho encenando "Macunaíma" e "A hora e a vez de Augusto Matraga" em diversos festivais no exterior. Atua durante três meses e meio no Canadá e em vários países europeus, como Alemanha e França. Nada mal para um começo de carreira... Retornando ao Brasil enfrenta dificuldades para concluir os estudos. Para a direção do Colégio, Adriana abandonara o curso e não poderia mais continuar. Com muita diplomacia, dedicação e esforço, frequentando a escola em período integral e executando intermináveis trabalhos consegue formar-se. Seus pais, desejam que a filha entre num cursinho e preste vestibular. Adriana tem outros planos. Está determinada a seguir carreira artística. Com o apoio e compreensão dos pais, o dinheiro para os estudos é investido em um Book e Adriana começa a procurar trabalho como atriz, não sendo muito feliz.
Portal - Mesmo com este brilhante início de carreira, você teve.dificuldades?
Adriana - Muita. Participava de inúmeros testes e nunca era escolhida. Um dia, minha prima que dançava no Plataforma disse que estavam selecionando uma cantora para o show. Resolvi disputar a vaga.
Poucos sabem (menos as rosas) que Adriana canta muito bem. Apesar de sua competência vocal, ela dançou. O charme e beleza de seu corpo fascinaram a todos e ela foi contratada como dançarina. Novamente Adriana levanta vôo. O primeiro destino é Israel, onde morou por 9 meses.
Portal - Como foi sua experiência nessa cultura tão diferente?
Adriana - Foi maravilhosa. Sempre fui estudiosa e culturas diferentes sempre me encantaram. Identifiquei-me muito com o povo judeu. Fui muito bem tratada e algumas vezes pensavam que eu era uma judia africana. Até hoje dois países me marcaram profundamente: Canadá e Israel.
Portal - Voltando ao Brasil você continuou a dançar?
Adriana - Sim. Trabalhei com outros grupos e viajei para Porto Rico, Japão etc. Em uma das escalas no Brasil conheci Abelardo Figueiredo e fui convidada para seu show.
Portal - Novas viagens?
Adriana - Com um diferencial: cantava e dançava em navios de passageiros. Percorremos toda a costa brasileira, além de passarmos pelo Caribe, Aruba, Curaçau e Trinidad e Tobago.
Portal - Foi nessa época que esteve na África?
Adriana - Foi. Recebi um convite do Ministério da Cultura da Costa do Marfim para participar do carnaval de lá. Trabalhei em Abdijã e algumas cidades do interior do país.
Ao final dessa fase de shows e viagens Adriana retoma a peregrinação a procura de trabalho. Numa dessas incursões candidatou-se a uma vaga como modelo, para uma conceituada feira da indústria têxtil em São Paulo. Apesar de possuir todos os requisitos para a função, foi preterida sob a alegação de que não correspondia ao "perfil" exigido pelo evento. Inconformada, voltou no dia seguinte usando uma peruca loira. Estava registrado seu protesto. Pouco depois entra para a MTV. Apesar de fazer sucesso como apresentadora do Dance MTV e receber numerosas cartas de fãs, é demitida após cinco meses..
Portal - Este período na MTV foi importante?
Adriana - Profissionalmente foi fundamental. Aprendi muitas coisas lá. Com o tempo pude cantar e dançar do meu jeito, incrementando o programa.
Portal - Depois disso você continuou na TV?
Adriana - Também. Na verdade já havia feito alguns trabalhos em campanhas publicitárias e pequenas aparições em novelas. Um dos mais importantes depois da MTV foi o Supermarket, na Band, onde minhas aparições eram ao vivo.
No teatro, Adriana destaca-se no musical Cabaret Brasil, de Wolf Maia, que lhe proporciona a oportunidade de mostrar todo seu talento como atriz e cantora no Rio de Janeiro. Algum tempo depois, Adriana ganha um papel na minisérie Chiquinha Gonzaga, mas o grande sucesso chega com Naná, na novela Terra Nostra.
Portal - Porquê você acha que Naná fez tanto sucesso?
Adriana - Acredito que por ela representar todo o sofrimento e luta da mulher Afro-descendente. Sozinha e superando todas as dificuldades conseguiu criar seu filho e viver com dignidade.
Portal - É uma belíssima personagem...
Adriana - Desde o começo sabia que seria a grande chance de minha carreira, por isso empenhei-me ao máximo. Para a cena do nascimento de José Alceu, por exemplo, queria passar toda a veracidade de um parto à moda africana, sem recursos técnicos e no meio da mata. Cheguei a ir ao Simba-safári, em São Paulo, para captar dos animais este olhar de cumplicidade com as coisas da natureza. De certa forma, naquela cena, era Naná que paria a atriz para o Brasil, pois somente após esse trabalho fiquei nacionalmente conhecida.
Portal - Alguns personagens marcam tão profundamente que por muito tempo o público confunde-os com o próprio ator. Você acha que a Naná está mais forte que a Adriana?
Adriana - Tenho certeza que a Naná irá me acompanhar por muito tempo. Sinceramente, não me incomodo com isso, pois é ela que tem me dado muitas alegrias.
Portal - E o cinema? Fale-nos um pouco sobre os filmes em que atuou.
Adriana - Fiz dois longas: Capitalismo Selvagem e a Hora Mágica, além de alguns curtas, como Papel e Água (em Nova York) e outros.
Portal - Sabemos que você prepara repertório para seu primeiro CD. A atriz cederá espaço para a cantora?
Adriana - Sou uma artista que tem que tocar o coração do mundo.
Portal - O que vem por aí?
Adriana - Estarei na próxima minisérie da Globo: Aquarela do Brasil, que se passa na época de ouro do rádio. Será interessante pois já vivi este universo no filme de Guilherme de Almeida Prado, A Hora Mágica.
Portal - Viagens a vista?
Adriana - Acabo de chegar do Amazonas, onde fui convidada para a festa do Boi de Parintins. Em Agosto, embarco a convite do consulado de Cabo Verde para O Festival das Gatas, que acontece na ilha de São Vicente.
Chegamos ao fim de nosso encontro com Adriana tocados por sua sinceridade e sensibilidade. Desejamos que em breve um de seus sonhos seja realizado: atuar sob a direção de Spike Lee. E não será tão difícil. Encantado com a atuação de Adriana no musical Cabaret Brasil, o diretor americano Marion Caffey criou exclusivamente para ela um papel no musical que está escrevendo. Ela será Rio, uma atriz brasileira que sai do Brasil e vai para os Estados Unidos...
Agradecimentos:
Ao Restaurante Gamelas, pela calorosa recepção e almoço, que serviu
de
fundo para essa entrevista.
À Luciana Camargo,
jornalista, carinhosamente nomeada como "madrinha"
do portal afro, amiga de Adriana e nossa convidada especial deste almoço.
A Marcos Victor, irmão e secretário particular de Adriana, pela atenção e simpatia.
À Adriana Lessa, que,acreditando nesta nossa iniciativa, aceitou o convite como entrevistada da Presença Afro.
À MUENE, que ofereceu kits de maquilagem para presentear nossas convidadas.



