LEA GARCIA (por Milton Cesar Nicolau - 6/08/00)

D. Stella Lucas Garcia era modista famosa na zona sul carioca. Casada com o bombeiro hidráulico José dos Santos Garcia, fazia questão de vestir-se com sofis- ticação, usando suas próprias criações, apesar dos parcos recursos. Para o guarda-roupa da pequena Léa, filha única do casal, D. Stella caprichava ainda mais nos modelos. Tanta elegância fazia com que ambas fossem constantemente abordadas na rua por mulheres encantadas com suas vestes.

Era assim que a clientela aumentava.Lamentavelmente, esta fase encerra-se com a prematura morte de D. Stella. Léa tinha apenas 11 anos e foi morar com sua avó materna, D. Constança, que era tão elegante quanto a filha e trabalhava como "governanta" para a rica e tradicional família Godoy.

A menina, acostumada ao dia a dia de uma família pobre teria que habituar-se ao luxo do novo lar. Esperava-se de sua parte, naturalmente, timidez e reclusão, por estranhamento à nova condição... Que, nada! Era a estréia, inconsciente, da atriz Léa Garcia. As amplas e requintadas salas eram um cenário cinematográfico e os membros da família Godoy, seus coadjuvantes. Para surpresa de sua avó e deleite dos patrões movimentava-se com desenvoltura pelo novo ambiente, usufruindo do conforto e regalias da casa. Tinha 16 anos e cursava o clássico (2º grau), no conceituado Colégio Amaro Cavalcanti, quando conheceu Abdias do Nascimento, que juntamente com Guerreiro Ramos fundara o Teatro Experimental do Negro.

Encantada com aquele mundo novo, Léa passou a "matar aulas" para desfrutar de tardes de poesia e assistir a espetáculos de teatro. Um dia, quando voltava para casa, foi surpreendida por seu pai, que alertado das faltas da garota foi conferir o que se passava. Irado, deu uma surra em Léa, ali mesmo, na rua. Determinada, foge de casa e passa a viver com Abdias, não voltando jamais. O caso teve ampla repercussão na imprensa carioca da época. Abdias, por sua militância a favor dos direitos dos negros era muito visado e perseguido. O romance com Léa foi perfeito para se criar um escândalo envolvendo seu nome. Na manchete dos jornais era acusado de ter "violentado uma estudante ainda menina. Naturalmente estes fatos foram decisivos na formação da personalidade guerreira de Léa Garcia, que enfrentou o feroz preconceito de parte da conservadora sociedade carioca da década de 50. Tarefa obviamente difícil. Hoje, mantendo a mesma classe e elegância herdadas de D. Stella, Léa Garcia nos fascina com a firmeza de seu discurso e objetividade de suas idéias.

Conheça um pouco mais sobre a vida e obra desta grande artista.

Portal - A convivência com Abdias foi decisiva para o início de sua carreira?

Léa Garcia - Abdias foi o responsável e grande incentivador de minha carreira. Eu sempre quis ser escritora, mas Abdias fez desabrochar a atriz que existia dentro de mim.

Portal - Qual o nome do espetáculo em que você estreou?

Léa Garcia - Foi em 1.952 com "Rapsódia Negra" de Abdias do Nascimento, no Teatro Recreio. Eu recitava o poema "Navio Negreiro" de Castro Alves.

A partir do primeiro momento que pisou num palco Léa Garcia não parou mais. Atuou simultaneamente no teatro, cinema e televisão. No teatro participou de grandes sucessos como "Orfeu da Conceição" em 1.956, "Casa Grande e Senzala", "Cenas Cariocas" e "Piaf", entre outros. Na história do cinema nacional seu nome também merece destaque. "Orfeu do Carnaval" (2º lugar como atriz no festival de Cannes), "Ganga Zumba", "Ladrões de Cinema", "A Deusa Negra" e recentemente "Cruz e Souza", foram alguns dos muitos filmes onde atuou. Na televisão Léa sempre teve destaque em suas atuações, vivendo grandes personagens em novelas que marcaram época como "Selva de Pedra", "Escrava Isaura" e "Marina", além de participações em especiais e miniséries.

Portal - Você não acha que antigamente os papéis interpretados por atores negros em novelas tinham mais consistência e importância nas tramas?

Léa Garcia - Nós, os chamados atores "mais antigos" temos consciência que os personagens atuais não são bons como antes. Hoje, temos personagens que são mais "bem sucedidos" economicamente. Isto agrada ao ego da comunidade negra, que quer distância de personagens subalternos como domésticas. Acontece que não adianta nada subir na "escala social" de uma novela e não ter a menor importância no desenvolvimento da mesma.

Portal - O público não entende isso?

Léa Garcia - Aparentemente, não. Mas a culpa não é dele. A mídia tem um poder manipulador tão forte que acaba deturpando a correta visão dos fatos. Apresenta negros bem situados financeiramente mas diminui sua influência no folhetim. O público, seduzido pela bela produção, não percebe que é iludido.

Léa nos conta que certa vez, durante uma reunião com entidades negras, foi indelicadamente interpelada por uma moça que perguntava porque ela fazia apenas papéis de escrava.

Portal - Mas isto não é verdade...

Léa Garcia - Claro que não. Fiz 20 novelas. 20 personagens diferentes, destes, apenas cinco eram escravas. E mesmo assim eram personagens fortes, principalmente a Rosa de "Escrava Isaura", que era o segundo papel feminino da novela de maior sucesso internacional, até hoje.

Portal - Ela foi infeliz na observação...

Léa Garcia - Fiquei mais indignada ainda quando perguntei quais os atores que considerava como exemplares e ela não foi capaz de citar nenhum ator ou atriz negros. É revoltante como cobram atitudes que não dependem de nós e são incapazes de considerar-nos merecedores de sua predileção.

A revolta de Léa é justa. Em 1.981, na novela "Marina", interpretou Leila, sem dúvida uma das personagens negras mais importantes de toda a história das no- velas no Brasil. Leila era uma mulher à frente de seu tempo. Criava e educava sozinha sua única filha. Culta e batalhadora, era professora de história numa escola de elite onde só haviam estudantes brancos, com exceção de sua filha, que massacrada pelo preconceito passaria a negar a própria origem.

Portal - Foi um trabalho fantástico, não?

Léa Garcia - Foi durante esta novela que vivi um dos momentos mais emocionantes de minha carreira. Durante uma das aulas, Leila dissertou sobre Zumbi dos Palmares, numa cena que deveria sensibilizar e fazer com que os alunos refletissem sobre o preconceito racial. Dei tudo de mim para passar essa mensagem com o máximo de dignidade e verdade.

E conseguiu. A cena ficou ótima e Léa foi aplaudida por todo o estúdio. É importante ressaltar que o texto original foi modificado. Léa não concordava com a vi- são eurocentrista do script e pediu autorização para uma "pequena alteração". Nessa época, trabalhava para o IPCN (Instituto de Pesquisa da Cultura Negra). Foi lá que convocou uma reunião de urgência para discutir o texto, que modificado passou a mostrar o ponto de vista dos afro-descendentes sobre a questão.

Portal - No cinema, em Ganga Zumba, sua personagem também era forte, não?

Léa Garcia - Exato. Eu interpretava Cipriana, mulher de Ganga Zumba, que era a porta voz da liberdade, no sentido mais amplo. Quando Cipriana percebe que Ganga Zumba iria trocá-la por Dandara e que perderia assim sua condição de rainha, diz: "Eu não quero ser escrava nem de branco, nem de preto". Corajosamen- te abandona o grupo que ia para Palmares e segue seu próprio caminho.

Portal - Muitas de suas personagens são mulheres de temperamento forte, determinadas e independentes. Isto é apenas coincidência?

Léa Garcia - Acredito que não. Como sempre lutei por meus direitos e de meu povo, talvez seja mais fácil para mim interpretar mulheres destemidas.

Portal - Sendo uma atriz consciente e questionadora, como se relaciona com os diretores? Consegue torná-los seus cúmplices ou o embate é inevitável?

Léa Garcia - Não sou produtiva quando me deixo comandar cegamente. Portanto, procuro abrir um canal de sintonia com os diretores que me conduzem. Como meu trabalho é voltado para a comunidade afro-descendente, meus personagens têm que ter essa proposta clara. Tenho o compromisso de trazer uma mensagem para essa gente, para meu povo.

Portal - O ator negro tem sempre que lutar por seu espaço?

Léa Garcia - Sim, sempre. Veja, por exemplo o papel que foi dado à grande Neusa Borges na novela "A Indomada". Com sua garra e talento, ela fez o personagem crescer a ponto de transformá-lo de simples coadjuvante a um dos principais da novela, interferindo na trama.

Portal - Sendo a televisão tão poderosa no Brasil, você acredita que ela poderia contribuir para a evolução social e cultural dos afro-descendentes?

Léa Garcia - Com certeza. O problema é que não temos o poder nas mãos. Não temos retaguarda. Não existem grandes autores escrevendo papéis para negros, não temos roteiristas nem diretores com oportunidades para atuar.

Apesar de todo destaque que tem no cinema e televisão, a paixão de Léa é o teatro. Considera-se uma atriz de teatro. Atualmente integra o elenco de "Roman- ceiro da Inconfidência", de Cecília Meireles, em cartaz no Rio de Janeiro.

Portal - No teatro, a situação para os atores negros também é difícil?

Léa Garcia - Também. O problema é sempre o mesmo. Como vivemos numa sociedade "branca" os autores teatrais, que em sua maioria também são brancos, tendem a escrever exclusivamente sobre suas verdades e realidades. Para modificar esse panorama, teríamos que reeducar essa gente, fazendo-os compreender que vivemos numa sociedade miscigenada, onde os afro-descendentes têm participação efetiva.

Por todo brilhantismo que Léa demonstra em suas opiniões e questionamentos, foi escohida pelos alunos do Guilford College, nos Estados Unidos, como uma das dez mulheres que durante o século 20, contribuíram para a luta pelos direitos humanos e civis no mundo. Lendo "Damas Negras" da jornalista Sandra Almada, os estudantes ficaram fascinados por sua militância política e trajetória artística em torno das questões negras.

Léa Garcia foi a única brasileira escolhida para receber esta homenagem. Personalidades como Léa Garcia não são importantes apenas no meio artístico. Sua vida, onde coragem e audácia são aliadas para a superação de obstáculos, é um exemplo valioso para toda sociedade.Naturalmente para nós, afro-descendentes, a importância de sua vida assume contornos mais específicos.

Ao conceder-nos esta entrevista Léa Garcia mescla momentos de calmaria e agitação, facetas de uma personalidade que pode ser comparada com o mar. Mar onde as mansas e violentas marés são orientadas por seu magnífico e perturbador olhar. Discordamos daqueles que enxergam apenas tristeza em seus olhos. Percebemos neles a presença da testemunha muda e oculta, talvez perplexa com a vida, que insiste em superar qualquer tragédia que o teatro já tenha criado. A abordagem da trajetória artística de Léa Garcia não se encerra aqui. Em breve ela estará nas sessões de cinema, televisão e teatro, onde nossos internautas poderão conferir toda sua obra.

Léa, com Kadu Carneiro, em "Cruz e Souza"