JONI ANDERSON.
Não dá pra não ler.

Aos domingos, parte da comunidade negra que vive na cidade de São Paulo procura nas páginas da Revista da Folha (encarte dominical do jornal Folha de São Paulo) as novidades da coluna black, destinada a temas ligados a negritude. O responsável pelo espaço é o jornalista Joni Anderson, que há alguns meses responde também pelos editoriais de moda da "Raça Brasil", onde implantou novidades: ousadia na escolha de cores e modelos das roupas, além da preferência por manequins com características negróides mais evidentes, fato outrora nem sempre freqüente.

Dono de um aguçado senso crítico e uma elegância ímpar, Joni caminha em terreno arenoso ao abordar semanalmente o racismo e suas diversas manifestações. Corajoso, não teme tecer comentários, geralmente pertinentes, a respeito de personalidades sagradas, como Pelé, por exemplo. Ou polemizar ao denunciar abusos cometidos contra a auto-estima negra, gerando reações diversas, como respostas iradas de racistas inconformados com os novos tempos.

Natural de uma pequena cidade no interior do Rio Grande do Sul, Joni é filho adotivo de um casal de classe média de ascendência européia, uma mistura de alemães e italianos. Foi nesse meio adverso à qualquer tradição afro-descendente que foi criado. Curiosamente, seus pais sempre tentaram passar-lhe informações a respeito de sua raça: "Fui criado como negro por uma família branca", diz.
Formado em jornalismo pela PUC de Porto Alegre, Joni morou por dois anos no Rio de Janeiro antes de mudar-se para São Paulo, onde consolidou sua carreira.

Portal - Você sempre teve essa consciência racial tão evidenciada?
Joni Anderson - É inexorável. Sou negro e morrerei negro. No início, meu trabalho não era direcionado nesse sentido. Sempre atuei na área de comportamento, que adoro. Era repórter de variedades, portanto sem condições de opinar e me posicionar, daí a negritude ter ficado de lado. A partir do convite para assumir a black, a história foi outra. De lá prá cá, sinto a mudança de minha postura e dos assuntos abordados na coluna. Quando comecei, o negro queria visibilidade. Agora quer também serviços e posicionamento político. Meus conceitos sobre raça, cultura e informação foram evoluindo de acordo com as modificações comportamentais deste mesmo público. Claro que não foi graças a minha coluna. Tudo faz parte de um processo, onde o descobrimento de uma classe média negra, sua exposição na mídia e a criação de um veiculo direcionado para ela foram pontos fundamentais.

Portal - Você já sofreu algum tipo de censura no jornal?
Joni Anderson - Por incrível que pareça, não. Nunca sofri censura. Tudo o que quis colocar na coluna sempre passou.

Portal - O que pensa dos comentários que consideram a coluna racista, por tratar apenas de assuntos de interesse da comunidade negra?
Joni Anderson - Fico atônito. As pessoas não pensam ou não querem pensar. Temos apenas uma revista para negros no Brasil. Nos jornais, as notícias nos são desfavoráveis. A maioria das personalidades negras que estão na mídia não se posicionam verdadeiramente. São vários exemplos que mostram a necessidade de reação. Aí, inventam esse discurso às avessas, dando a entender que o racista sou eu por estar destacando o problema. O racismo não deve ser discutido apenas entre nós, mas com toda sociedade. É ela que nos faz ganhar menos, que nos coloca na marginalidade.

Portal - E como é a relação de sua coluna com a comunidade negra? Joni Anderson - No início, não tinha retorno nenhum. Hoje recebo diariamente vários e-mails, cartas e o telefone não pára de tocar. (É verdade, durante toda a entrevista não houve trégua.). Os negros tinham medo de chegar neste espaço que sempre foi deles. Pensavam que para aparecer teriam que pagar ou pertencer a alguma "panelinha". Desde que estou lá, tento mostrar que não é nada disso.

Portal - Como se dá a escolha dos temas abordados na coluna?
Joni Anderson - Recebo muito material, vejo coisas, viajo. É dinâmico. Para falar sobre isto basta estar com os olhos abertos. Vem de todas as partes. Está nas ruas, na televisão, por aí, está solto. A questão racial é um ponto crucial no século que se inicia, assim como foi a econômica neste que passou. Acredito que a sociedade mundial está recrudescendo o discurso racista. Quando a falta de emprego, a crise financeira e a fome aumentam a competição, o racismo se transforma no caminho mais fácil para eliminar o negro.

Apesar de não ter consciência, até por falta de manifestações mais objetivas, Joni Anderson é hoje uma importante referência midiática para a comunidade negra. Elegendo a ética como norma em sua carreira, atitude nem sempre comum entre seus pares, o jornalista não está ligado a nenhum movimento, nem tampouco a partidos políticos. Desta forma, mantém isenção suficiente para seus comentários, garantindo o sucesso de sua coluna, a caminho de completar uma década.

Joni Anderson também marca presença na (por incrível que pareça) única revista mensal brasileira dedicada aos afro-descendentes. Coordenador da produção de moda da Raça Brasil, incluindo as capas, expõem-se à críticas nem sempre simpáticas, ao tratar da estética negra, assunto que também exige consciência racial.

Portal - Existe uma moda afro-brasileira?
Joni Anderson - Há um tempo atrás, por volta de 1.992, discutia-se a existência ou não de uma moda brasileira. Uma questão debatida até hoje. Existe? Sim ou não?. Minha resposta é não. Para criar moda é preciso fazer uma leitura global, acrescentando particularidades locais. Então, não existe moda brasileira, e sim com tempero brasileiro, que pode ser usada no Brasil, nos Estados Unidos ou Japão. Então a pergunta seguinte é: existe uma moda afro-brasileira? A resposta é que existem elementos afro-brasileiros, que podem e devem ser trabalhados e utilizados, de forma contemporânea. Existe uma moda que faz parte da realidade do negro, como por exemplo as griffes de hip hop que estão se desenvolvendo muito bem. Portanto, a questão é complexa, pois falar numa moda afro-brasileira implica numa série de outras coisas, que são resolvidas na moda como um todo.

Portal - O aparecimento da "Raça Brasil", que utiliza negros em seus editoriais, incentivou outras revistas a contratarem modelos afro-descendentes ou a condição de trabalho para esses profissionais continua precária?
Joni Anderson - A situação melhorou muito pouco, no geral continua ruim. O Brasil não reconhece suas raízes negras. Ainda hoje os editores e produtores de revistas argumentam que as mulheres negras não apresentam um biótipo "adequado" ao trabalho. Evidente que é apenas uma desculpa.

Portal - Mesmo com o desenvolvimento de produtos exclusivos para negros, ainda não somos considerados consumidores importantes?
Joni Anderson - A indústria de cosméticos para negros é a que mais cresce. Como qualquer indústria, visa lucro. E se cresce, é por ter lucro. Por sermos consumidores. Por sermos maioria. O problema é que esse lucro não está associado à causa negra. O empresariado tem pouca vontade de tocar numa questão tão delicada como o racismo. É preciso que aconteça uma mudança de comportamento no mercado. Que passemos a consumir não penas o produto, como também a indústria e seu posicionamento político e social. Precisamos estar atentos e cobrar nossa visibilidade. Os negros precisam estar nas propagandas e nas campanhas, sempre. Principalmente quando os produtos forem direcionados, é fundamental que sejam negros os responsáveis por sua divulgação. É preciso reagir. Não podemos esperar que outros tomem as iniciativas. O consumidor tem o direito e dever de fazer valer seus direitos.

Portal - Você acredita que esta situação de exclusão poderá mudar algum dia?
Joni Anderson - Sou otimista com relação a tudo. Acredito que fazemos muita diferença nas relações de poder. O problema é que de modo geral o ser humano é capaz de se adaptar a tudo, a coisas boas e ruins e isto é um problema. Temos que reagir sempre. Existem caminhos lógicos. Não é utopia de minha parte, se dermos melhores condições estruturais a nosso povo, principalmente na área educacional, as coisas irão mudar.

Portal - Então o negro seria responsável por sua lamentável situação? Estaria conformado (adaptado)?
Joni Anderson - Não é isso. Esta sua observação é muito forte. Não podemos dizer que quem foi empurrado para a miséria, sem condições de frequentar a escola e que tem "vinte" filhos para criar seja responsável por sua situação. Ele na verdade é um sobrevivente. Temos que lutar por justiça social. E não apenas para o negro! Todos tem que cumprir sua parte. O empresariado, por exemplo, deveria ter um compromisso social natural...

Portal - E os negros que ascendem socialmente? Por que geralmente eles não se comprometem?
Joni Anderson - Existe um fenômeno interessante no Brasil. De tempos em tempos a elite branca pinça um negro como igual, sem diferenças. Entorpecido por essa nova situação, o negro esquece todo seu passado e fecha os olhos a todo sofrimento do dia a dia, pois isto já não faz mais parte de sua vida.

É um alento saber que um jovem jornalista como Joni Anderson tem posições tão coerentes sobre a questão racial. Principalmente por sabermos que sua participação na mídia tende a aumentar. As experiências que vem acumulando nestes anos certamente o transformaram num dos mais importantes profissionais do país a tratar sobre a inclusão do negro no poder e na sociedade, de modo geral.

Produção de Joni para a Revista Raça nº 51.
Foto de Fábio Mangabeira.

"Para o negro, o verbo é fazer".
Joni Anderson
jonianders@uol.com.br

Catálogo de beleza negra idealizado por Joni Anderson em parceria com Geledes.
"É absurdo ligarmos a televisão e encontrarmos apenas loiras apresentando programas infantis, enquanto a criança negra com a auto-estima baixa chora por não ter cabelo liso e amarelado. É mais uma forma dessa ideologia racista se perpetuar na sociedade. Atinge um ser completamente indefeso que será também um adulto indefeso que não saberá refletir sobre o que ele é, por não ter referência de origem nem de sua história, que é mal contada."
Produção de Joni para a Revista Raça nº 51.
Foto de Christian Parente.
Coluna Black extraída da Revista da Folha nº 442 de 29/10/2000