A NEGAÇÃO DO BRASIL
Documentário e livro discutem a presença do negro nas novelas
Foi lançado na noite de 5 dezembro em São Paulo o livro e o filme "A Negação do Brasil – O Negro na Telenovela Brasileira".
A obra escrita por Joel Zito Araújo é o resultado de anos de pesquisa em dezenas de novelas, formando um inventário da participação e importância de atores negros em produções que vão de 1.963 a 1.997. O livro é farto em fotos e de fácil leitura, além de apresentar uma valiosa relação com nomes de novelas, seus personagens e intérpretes.
O "pacote" se completa com um documentário em 135mm, também dirigido por Joel Zito, com trechos de novelas e depoimentos de atores negros e diretores. Alguns destes testemunhos são surpreendentes, como o de Toni Tornado, cujo personagem em "Roque Santeiro" ao final da novela seria o par romântico da Viúva Porcina, não fosse a interferência da "censura"; Ou ainda o diretor Walter Avancini que afirma, com perturbadora naturalidade, inexistir na época uma atriz negra capaz de viver "Gabriela", na novela de mesmo nome.
A noite do lançamento foi prestigiada por personalidades como os atores João Akaiabe (um dos narradores do filme) e Zezeh Barbosa, além de grande público.
Após a sessão de autógrafos foi exibido o documentário. Nossa equipe registrou momentos do evento e colheu alguns depoimentos. Acompanhe





"Esta obra é de extrema importância. Já trabalho com esta temática dentro do teatro e percebo que as pessoas não conhecem o assunto. Somente um ator, diretor ou técnicos sabem da dificuldade que os negros têm para trabalhar."
João Akaiabe, ator.

"Joel Zito vem trabalhando neste projeto há quinze anos. É uma fantástica fonte de pesquisa para pessoas que estudam o assunto ou para curiosos em busca de informações preciosas sobre a história do negro na tv. A metodologia utilizada no trabalho foi muito especial por desenvolver a crítica ao tentar reverter esta situação. É preciso adequar a tv para sua finalidade primordial que é a educação. A sociedade tem que enquadrá-la em seu lugar."
Luís Paulo, fotógrafo

"Ao discutir a imagem do negro na mídia a partir da novela, que reforça a identidade negativa e destrói sua auto-estima, Joel Zito abraça uma das frentes de combate para mudar este quadro, reavaliando os estereótipos que influenciam o comportamento da sociedade."
Prof. Kabengele Munamba

"É um dos trabalhos mais relevantes para os negros no Brasil. É o resgate da dignidade de mais de cem personalidades da história das novelas. Tive a oportunidade de assistir a algumas cenas antes da estréia que me emocionaram. Acredito que a obra de Joel Zito dá aos artistas afro-brasileiros a mesma dignidade que o filme de Win Wenders deu a seus pares cubanos."
Arruda, presidente do Conselho da Comunidade Negra do Estado de São Paulo.

"Trabalhei na televisão durante muitos anos e sei que nunca houve qualquer levantamento sobre a atuação do negro nas novelas brasileiras, apesar de sabermos muito bem quais são os papéis que nos são reservados... Espero que este trabalho seja apreciado por pessoas como Roberto Marinho, para que tomem conhecimento que já estamos escrevendo sobre nós mesmos, e que eles não podem continuar a definir o que vai acontecer conosco dentro da tv. Isto tem que acabar. Espero que Joel Zito continue com seu trabalho."
Thereza Santos, Assessora de Cultura Afro-Brasileira do Estado de São Paulo

"A idéia é maravilhosa. Temos que ser representados sempre. Este trabalho sobre as novelas é um primeiro passo. É preciso que façam o mesmo com o cinema, teatro e as artes em geral, onde a ausência do negro é muito acentuada. Fico orgulhosa por saber que um negro teve esta iniciativa e conseguiu concluir seu trabalho."
Zezeh Barbosa, atriz.

"Estou emocionado. Já conheço o trabalho de Joel e estou ansioso para ler o livro. Nossa população é educada pelas novelas, não sei se todos os negros terão acesso ao livro e o filme. A partir do momento que passarmos a ver novelas com o olhar crítico, muita coisa mudará em nosso comportamento."
Oswaldo Faustino, escritor e co-autor de "Luana"

"Joel Zito abre uma discussão sobre as várias fases da vida do negro no Brasil, através da mídia. Foi uma pesquisa muito boa, que prende nossa atenção. É fundamental que a imagem do negro seja vista por outros prismas, através do sistema que nos oprime, dos brancos. É preciso mostrar os dois lados."
Aroldo Macedo, ex-editor da revista Raça Brasil e co-autor de "Luana".

"O filme é a cara do Brasil. Mostra bem como o branco nos escolhe e deturpa nossa imagem. É muito importante para que os negros tenham consciência da desigualdade em nosso país. Derruba o mito que sucesso e profissionalismo anulam o preconceito. Uma obra fundamental, que ajuda brancos e negros a entender como o racismo atua em nosso país."
Maria Aparecida Silva Bento
Diretora do Centro de Estudos de
Relacao de Trabalho e Desigualdade

"É um retorno à infância. Resgata a relação que tínhamos com aqueles personagens, agora sob uma nova ótica, mais consciente e madura. É uma ótima oportunidade para a reflexão. Gostaria que todos assistissem."
Dilma, cabeleireira e micro-empresária.

Repórter:Milton
César Nicolau
Fotos: Jader Nicolau Jr.
Assistente: Toddy